Institucionalização da bandalha

O Doidos foi criado alimentando o desejo de fomentar discussões inteligentes sobre a sétima arte, envolvendo tudo que estiver no foco de interesse de quem consome cinema. Tendo esse pensamento como norte, achei oportuno reproduzir aqui texto do meu amigo Renato Cosentino, um dos autores do blog Cidades Possíveis (www.cidadespossiveis.com), espaço no qual foi originalmente postado.

Renato (uma das poucas pessoas que conheço que rivaliza com a Helena em número de carimbos no passaporte) faz uma reflexão ácida acerca da questão da meia-entrada. Segundo ele, por causa das brechas permissivas de uma legislação frouxa (com critérios ambíguos, o que dificulta a aplicação e fiscalização da lei), o brasileiro samba em cima da linha tênue que separa o lícito do ilícito, no compasso que lhe for mais conveniente. Tal situação torna a lei praticamente letra morta, criando uma zona de incertezas que (infelizmente) não fica circunscrita à questão da meia-entrada. Verdadeira institucionalização da bandalha.

O estopim da elucubração? Uma ida ao cinema para assistir ao filme “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz. Na berlinda a questão: Pago porque preciso ou sonego porque posso?

Carlos Eduardo Bacellar

Meia ou inteira?


Renato Cosentino

Viver no Brasil nos coloca pequenos conflitos diariamente. Por exemplo: ir ao cinema e pagar o dobro do preço do ingresso na inteira ou apresentar a carteirinha de estudante do Photoshop e pagar meia? Pedir a inteira significa se sentir um bobo por gastar mais que quase todos na sessão, ficar com menos dinheiro no bolso, mas com a consciência tranquila. A meia garante a pipoca e apenas uma possível consciência pesada, já que todos sabemos que o lucro do cinema não é calculado pelo valor do ingresso cheio.

O exemplo da carteirinha de estudante é um caso de lei mal feita e inconsequente. A UNE tinha a responsabilidade de produzi-las até 2001, quando o então ministro da Educação Paulo Renato quebrou o monopólio (leia-se grande negócio) da organização estudantil sem criar qualquer mecanismo de controle. A partir daí, as carteiras falsificadas se multiplicaram, a venda de meia-entrada nos cinemas saltou de 40% para 70% e o preço de todos os eventos culturais foi reajustado para compensar a perda de receita dos empresários.

Em quase 10 anos, apesar de o problema ter sido discutido, nada se resolveu. Como conseqüência, tivemos um estímulo ao pequeno delito. As pessoas fingem que a carteirinha é de verdade e a bilheteira finge que acredita. A solução criada pela própria dinâmica da sociedade foi o aumento do preço do ingresso e a vista grossa em relação à carteira falsificada.

A incapacidade dos políticos em solucionar o problema, criado em 2001, acabou empurrando a decisão para as pessoas, que agora resolvem o quanto querem pagar na hora de comprar o ingresso. Cria-se, portanto, a situação em que o cidadão tem o poder de decidir se quer respeitar ou não uma lei, quando a lei deveria ser respeitada sempre, já que foi criada pelos representantes eleitos democraticamente por este mesmo cidadão. Mas até que ponto ela deve ser obedecida em um ambiente no qual está institucionalizado exatamente o contrário?

Este é apenas um dos problemas inerentes a um país que adia decisões importantes e demora a se posicionar em relação às questões diárias da população. Os nossos pequenos conflitos são constantes e infelizmente não se limitam à compra de um ingresso de cinema. Saber lidar com isso não é fácil, pois dá margem a se fazer o que teoricamente não se deve. A sociedade cria seus mecanismos para encontrar o ponto de equilíbrio, mas o improviso nem sempre funciona. Esse meio termo é perigoso e é o que permite nos perguntarmos: meia ou inteira?

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3 Comentários

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3 Respostas para “Institucionalização da bandalha

  1. Bruno

    Dependendo do meu humor, uso uma das duas soluções:

    – solução-cidadão: pagar inteira, mas ir metade das vezes ao cinema.
    – solução-contradição: se eu pago inteira sou otário; se pago meia sou contraventor. Como não sou otário nem contraventor, prefiro não ir ao cinema.

  2. No tocante ao cidadão, entendi o ponto de vista, mas não consegui ver o “problema real”; leia-se: não enxerguei outra questão além do aumento de preço.

    “Cria-se, portanto, a situação em que o cidadão tem o poder de decidir se quer respeitar ou não uma lei, quando a lei deveria ser respeitada sempre.”
    Fato, mas isso serve para toda e qualquer lei. Tudo na vida (ou quase tudo) depende da nossa decisão, inclusive o respeito ou não a uma lei.

    Em minha opinião, o que muda não é apenas a “qualidade” da lei, mas o modo como cada um percebe a ação ilícita; por exemplo: falsificar carteirinha pode, comprar filme pirata ou baixar da internet pode, porque, em tese, na cabeça das pessoas estes são crimes leves ou nem são crimes. É um “dilema ético”.

    Concordo que a lei tem que ser eficiente e punir quem a descumpre, sendo necessário para tal que esta seja bem elaborada. Mas até quando vamos precisar de “deveres” e “punição” para agirmos “corretamente”?

    Eu pago meia enquanto for estudante e puder pagar meia; quando não for mais possível, que venha a inteira.

    • Pois é… Infelizmente eu acredito que o cidadão deve ser adestrado por meio de medidas coercitivas.
      As zonas cinza criadas pela arbitrariedade do brasileiro frente a dilemas éticos tornou a lei somente um pedaço de papel.
      Mas entendo o seu ponto de vista. É um assunto que merece uma discussão mais aprofundada. Poucas linhas são insuficientes. E, como disse no texto, não fica circunscrito somente à questão da meia-entrada. A bandalha é geral.
      Abraços!
      CEB

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