Encontrando a saída do (pseudo)labiríntico “A origem”

Não é nenhuma surpresa o interesse que o thriller onírico “A origem”, do diretor inglês Christopher Nolan, desperta nos consumidores de blockbusters órfãos da trilogia “Matrix”.

Ávidos por produtos que transcendam plataformas, esses inquietos consumidores de cultura pop estão sempre em busca de algo intrigante, que (supostamente) não possam explicar facilmente (ou se recusam a assimilar), mas que preencha de alguma maneira uma existência que não tem mais muita graça. Nada contra o escapismo saudável, encarado como entretenimento.

O filme de Nolan é mais uma ideia, rotulada por alguns de complexa, que molda comportamentos de massa com o intuito de gerar milhões de dólares – explorando com competência não só a produção em si, mas todos os seus reflexos no mercado. E vai catequizar muita gente, assim como a saga dos irmãos Wachowski, mas sem o mesmo elã.

Esqueça filosofia, metafísica, Einstein, Freud, Kant, Jung, George Orwell, Philip K. Dick… Duvido que Nolan tenha se preocupado excessivamente com isso. Não mais que um guri que vai atrás do último número da revista do Batman e, depois de lê-lo, o coloca de lado para jogar seu PS3. Responsável por um orçamento milionário, que precisa dar retorno, ele com certeza tem os recursos para comprar professores, intelectuais, nerds e outras figuras que adicionem um molho de conceitos acadêmicos-pop ao seu roteiro.

Mas a ideia, unidade de conceito mais resiliente do que qualquer outro parasita na face da terra, é assustadoramente simples. E esse é o motivo pelo qual ela germina de forma tão poderosa, florescendo no substrato da tecnologia, que permite que sonhos se tornem realidade diante de nossos olhos.

Como provou com “The dark night” (2008), Nolan sabe como ninguém contar uma ótima história aliando tecnologia aos dramas do que nos torna humanos. E é isso que seu novo filme é: uma excelente história. Mas é inegável que o realizador, aproveitando-se de elementos de filmes como “A cela” (2000), e alicerçando-se nas possibilidades digitais, levou sua criação a um outro nível. E assim montou seu quebra-cabeça estético (nível médio de dificuldade, sem desrespeitar seus fãs).

Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um escolado ladrão, mas não um larápio como outro qualquer. Ele é capaz de invadir sonhos e roubar segredos que de outra forma permaneceriam lacrados no inconsciente de seus alvos. A melhor definição seria um espião comercial do século XXI. Lá pelas tantas, ele é contratado para usar suas habilidades de forma não ortodoxa.

Cobb, em vez de extrair informações, precisará inserir uma ideia (daí o termo inception, título original do longa) na mente de um herdeiro do mercado de energia, de forma a desencadear uma nova postura estratégica e impedir um monopólio futuro, o que seria devastador em termos financeiros para o contratante do serviço de Cobb.

Além das dificuldades inerentes à empreitada, Cobb precisa lidar com projeções do seu próprio inconsciente que, tomando a forma de sua ex-mulher Mal (Marion Cotillard), tentam sabotar seus mergulhos em sonhos alheios. Uma âncora que Cobb carrega cravada bem no fundo de seus traumas, causados por equívocos do passado.

Auxiliado por uma equipe de peritos no assunto, que conta com a ajuda da arquiteta caloura Ariadne (Ellen Page), responsável por criar os labirintos estruturais que abrigam as ações dos belos adormecidos, Cobb se mistura às ondas cerebrais de sua vítima para (o que ele espera) dar cabo de seu último trabalho.

A trama é simples assim, maravilhosa assim. O resto são apêndices que têm como função deslumbrar o público sedento por cenas espetaculares, que não ofuscam, só engrandecem. Quem conferir não irá se decepcionar.

O repórter e crítico de cinema André Miranda, grande camarada, acondicionou a polpa de “A origem” em menos de 140 caracteres:

“Sinceramente, eu não acho que ‘A Origem’ seja um filme tão complicado como alguns dizem. É, sim, uma trama mais sofisticada. Mas bem simples.”

A simplicidade (uma vez despida de verborragia hawkingniana) não deve ser antagônica ao esmero com que Nolan criou a incrível roupagem de uma história de contornos surreais, que envolve e fascina. O avanço da tecnologia de computação gráfica é traduzido em imagens que não podem ser diferenciadas do que é concreto. Real e imaginário são conjugados, e o resultado é sublime para os sentidos.

Mas eu não vou perder um minuto sequer tentando entender as intenções metafísicas supratextuais (com implicações claramente comerciais) por trás de toda aquela pirotecnia gerada por computação gráfica e por diálogos na linha de “The big bang theory”.

A estrutura por trás do filme é como o show pirotécnico de Revéillon. Devemos apreciar, sem necessariamente entender os detalhes de como aquilo é realizado. É pólvora e pronto. Quando for curtir “A origem”, encoste-se na poltrona e sonhe de olhos abertos. Deixe as explicações para quem não tiver nada melhor para fazer e estiver disposto a perder tempo com isso. Com licença, pois vou voltar para o meu PS2.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Encontrando a saída do (pseudo)labiríntico “A origem”

  1. Olha, pelo menos agora sei do que se trata o filme… rs
    Se conseguir assistir dou uma nova passada aqui.

    • Bacana! Mais veja o filme. É muito bom. A pirotecnia só não deve ser usada para alimentar uma complexidade que tem como objetivo catequizar um público ávido pela verdade — que (supostamente) está lá fora.
      Abraços!
      CEB

  2. Rodrigo

    Na minha opinião, um filme assim tem como principal objetivo aguçar a mente do espectador. Porém, cada um assiste como prefere… eu assisti com a intençao de entender, e entendi tudo dentro daquele universo do filme, e posso dizer que não é perda de tempo. O filme é ótimo.

    Abraços.

    • Eu também achei o filme ótimo, Rodrigo. Mas, para mim, ele ficará circunscrito à dimensão do entretenimento puro e simples.
      Se na sua exegese você busca algo mais ali, ninguém poderá recriminá-lo. E viva as diferenças!
      Abraços!
      CEB

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