O falso paraíso urbano

Pedofilia, estupro, assassinato, masturbação… Pois é, o diretor americano Todd Solondz não pega leve ao radiografar a classe média americana em “Felicidade” (1998), filme que muitos apontam como a obra-prima do autor de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995).

Por meio de suas lentes implacáveis, o realizador detecta a massa cancerígena altamente agressiva que corrói as relações humanas de quem, teoricamente, tem tudo. Solondz implode a falsa ideia de que os subúrbios dos EUA abrigariam o paraíso na Terra, e erige uma obra carregada de selvageria psicológica. Já deu para entender que “Happiness” (título original) está mais para “Sadness”. Não há como não ficar incomodado.

Para a alegria de quem curte o trabalho do diretor, o DVD, mais um produto da grife-cult Lume Filmes, incrementa seus extras com uma entrevista concedida por Solondz ao crítico de cinema Carlos Helí de Almeida, pouco antes do lançamento do filme no mercado brasileiro, em 1998, e a íntegra da crítica escrita por Kleber Mendonça Filho.

“Ninguém sabe ao certo a cor, diâmetro ou aparência desse produto luxuoso e muito procurado chamado felicidade”. Assim Mendonça inicia, ironicamente, seu texto sobre a produção que ele considera um “réquiem para os emocionalmente excluídos”. Logo no início de “Felicidade”, ainda nas palavras de Mendonça Filho, Solondz “reflete acerca da importância de sermos amados, e o horror de sermos rejeitados.” Os hiatos nos diálogos são objetos de interesse estético do diretor. Mas, diferentemente de filmes como “Lemon Tree” (2008) e “O que resta do tempo” (2009), Solondz investiga o silêncio de situações constrangedoras com um senso de humor doente – e não espera que surjam entendimentos dele, mas rupturas azedas.

Segundo o crítico, “o talento do diretor conjuga ironia e féu”.

“O horror é explorado num clima de humor desconcertante que desperta nas plateias o riso de hienas. É preciso ter senso de humor demente para rir.”

As cenas nas quais fica implícito o comportamento criminoso e moralmente condenável de Bill Maplewood (Dylan Baker) – tratadas com certa inocência cômica e amarga − são chocantes e sintomáticas. E certificam a ousadia do diretor ao abordar temas tabus.

Mendonça Filho continua: “Nada é visualmente sombrio, e temos a impressão de estarmos numa sorridente propaganda de margarina, sonorizada como novela dos anos 50.”

Ao enfocar diferentes núcleos de personagens, ligados por laços familiares ou sociais, Solondz, sem a menor complacência, trata seus protagonistas com ironia e sarcasmo ao desvelar a indigência emocional que assola o íntimo de cada um.

A alienação, o hedonismo oco e os comportamentos psicóticos são cultivados como remédios para a depressão e o vazio existencial. Mendonça Filho alfineta nossa inércia moral dizendo que os personagens fazem “Os Simpsons parecerem as Chiquititas.”

Helí de Almeida enxerga no estereótipo do subúrbio americano (na ótica de Solondz), terreno fértil para os exercícios estéticos do diretor, “um depósito de traumas e perversões escamoteadas.”

Na essência, é um filme sobre a dissolução de relações pela ausência de comunicação — amplificada pelo individualismo trinitrotoluênico patente nas sociedades de consumo, que se definem pela riqueza material.

A autoralidade doentia (mas encharcada de lucidez) de Solondz não deixa ninguém indiferente. “Felicidade” penetra fundo em nossos valores, e sem lubrificante. Alguém se arrisca a responder onde vivem os monstros?

Carlos Eduardo Bacellar

Ah, sim… Já ia me esquecendo… Uma das trilhas musicais que embala os infortúnios vividos pelos personagens de Solondz em “Felicidade” é “All out of love“, do Air Supply. Mais uma música oferecida pela rádio pirata Doidos por Cinema. Do fundo do baú. Bem sugestiva:

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “O falso paraíso urbano

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