Assistimos ao remake de “Karatê Kid”!

A tarefa delicada de oxigenar uma franquia que marcou época sempre gera expectativas e alimenta temores. Não será diferente com o remake de “Karatê Kid” (sim, karat(ê), palavra cuja tonicidade, em Língua Portuguesa, encontra-se na última sílaba: toda oxítona terminada em e é acentuada), que estreia no país no dia 27 próximo.

O original, do ano de 1984, sofreu alterações radicais pelas mãos do roteirista Christopher Murphey e do diretor holandês Harald Zwart, que utilizaram como matéria-prima o roteiro seminal de Robert Mark Kamen.

Alterações que podem provocar a revolta dos mais puristas. Sentimento despropositado, já que a essência da parábola − acerca de um jovem que luta contra seus medos em busca de pertencimento (e amadurece no processo) − é mantida.

Zwart colocou a produção original no DeLorean do Dr. Emmett Brown, cujo combustível é a autoralidade, e a enviou para um futuro próximo. Durante o salto espaço-temporal, transformações inusitadas foram operadas na trama e em seus personagens. À medida que os anos avançavam, o elenco se tornava mais jovem, bem mais jovem. Tomando o caminho contrário de Mauricio de Sousa, que, para incrementar as vendas e não perder leitores, resolveu investir numa linha teen, ao repaginar a Turma da Mônica, os responsáveis pelo novo “Karatê Kid” apostaram alto.

O sumo do enredo trata de uma mãe solteira que é obrigada a se mudar para meio mundo de distância, carregando seu filho junto, por causa de contingências profissionais. Chegando lá, o jovem se vê às voltas com os desafios do processo de “aclimatação”: nova escola, novos amigos, novas garotas, novos desafetos, novos desafios… Suas relações sociais precisam ser reconstruídas do zero. Só que a nova versão não usa quimono, e adiciona à zona de insegurança o contexto cultural.

Primeiro, vamos às mudanças mais drásticas (para assustar logo a direita ultraconservadora):

1) O inesquecível Noriyuki ‘Pat’ Morita (1932-2005) – que quando mandava Daniel San encerar os carros e pintar a cerca tinha 52 anos, mas parecia ser beeeeeeem mais velho −, como o Sr. Miyagi, foi substituído por Jackie Chan (56) — no papel não aparenta ter mais de 45 anos –, que agora vive o Sr. Han, zelador (assim como o Sr. Miyagi) do prédio para qual o novo protagonista se muda com a mãe. Chan, como todo chinês que ainda não se aposentou, certamente usa algum tipo de coloração L’Oréal para escamotear os fios brancos — comportamento que é explicado por Sônia Bridi no livro Laowai (leitura obrigatória para quem almeja entender um pouco mais acerca das transformações e contradições enfrentadas pela China, que tenta equilibrar comunismo e capitalismo visando a disputar posição de liderança na economia global);

“Cuidado com essa vara aí, sensei!”

2) Ralph Macchio, o eterno Daniel Larusso (23 anos à época da estreia do original), deu vez a Jaden Smith (12) – filho do casal Will e Jada Pinkett Smith, que assina a produção do longa −, que interpreta o novilho Dre Parker; desta vez, a mãe de Dre (Taraji P. Henson) é transferida dos EUA para a China dos dias que correm (com todos os contrastes entre tradição e modernidade), país onde se desenrola o enredo do remake. No longa original, a mãe de Daniel é impelida a se mudar de Nova Jérsei para a Califórnia;

“Van Damme que se cuide!”

3) Talvez a opção mais ousada, que vai deixar muita gente com o cabelo em pé ao estilo Dr. Brown, tenha sido a troca do karatê pelo kung fu como arte marcial que brilha na ribalta. Uma deferência a Bruce Lee que torna o roteiro mais coerente: já que houve a mudança do eixo narrativo dos EUA para a China, nada mais natural que prestigiar a arte de Lee e deixar o karatê, do mestre Chuck Norris, descansando no vestiário. Concluindo: o filme poderia muito bem levar o título de “Kung fu Kid”, ou “O pequeno shaolin”;

4) No original, o coração de Larusso batia mais forte por Ali Mills (a gracinha Elisabeth Shue, com apenas 21 anos na ocasião) − sim, há sempre uma garota que vai colocar o mundo do herói de pernas para o ar, perturbar seu juízo, metê-lo em confusão, mas sem a qual ele não conseguirá viver. Já Dre perdeu seu bom-senso para os traços exóticos da lindinha louça de porcelana chinesa chamada Meiying (Wenwen Han).

A zona de interseção entre os dois projetos delimita as linhas gerais da proposta. Na nova opção estética temos o seguinte: sem conseguir disfarçar seu descontentamento com a nova realidade, Dre conhece uma garota local por quem se apaixona. A menina será a catalisadora da implosão de sua rotina pacífica. No intuito de proteger sua nova “amiga”, o garoto bate de frente com uma patota juvenil que testa nele os primeiros golpes de kung fu do filme. Dre passa a ser perseguido pelos brigões, treinados por um professor psicopata, encarnado por Rongguang Yu (que encampou com perfeição a marra, a prepotência e o deboche de seu antecessor). Numa das ocasiões em que servia de saco de pancada, Dre é salvo pelo zelador Han, que se revela um mestre na arte do kung fu.

Han acaba sucumbindo ao seu altruísmo e resolve treinar Dre para enfrentar seus agressores num torneio. Por meio de uma preparação nada convencional (sem negar as raízes), o discípulo aprende a fortalecer corpo mente e a elevar o seu Chi (energia vital). E a batida do hip hop substitui a doce melodia instrumental japonesa.

“Se o senhor não guardar a vara, vou parar de treinar! Estou ficando inseguro.”

Mais importante do que se defender, Dre precisa se conhecer: o pupilo assimila que o kung fu não é um instrumento de ataque − muito menos uma dança do acasalamento para atrair fêmeas −, mas uma filosofia de vida. Na competição, luta para exorcizar seus medos, adquirir respeito e armar uma base sólida sobre um local que possa chamar de casa. No processo, a superação.

Jaden Smith se revela uma agradável surpresa. Apesar das limitações dramáticas, que costumam ser patentes nos atores em início de formação, ele traz no DNA o carisma do pai. A inexperiência garante ingenuidade a seu olhar e displicência saudável a suas atitudes, fatores que conferem autenticidade ao personagem – e o aproximam da mítica aura que Ralph Macchio conferiu a Daniel Larusso.

Os diálogos, recheados de ensinamentos à moda do filósofo chinês Confúcio, incrementam o relacionamento entre o mestre e seu padwan, e reafirmam os valores de Dre, perdidos em meio à empáfia adolescente.

Só o que incomoda um pouco é o esforço de Jackie Chan para tingir seu personagem de tons sombrios, sem permitir que os raios de sol da galhofa vazem pelo véu de tristeza, o que alija sua atuação de espirituosidade. Talvez o medo de macular o legado empedernido de Miyagi com o que tem de melhor para oferecer (pelos papéis cômicos, Chan é considerado o Didi chinês) seja o motivo – equivocado, sem dúvida, pois Pat Morita, apesar dos fantasmas que assombravam seu personagem, refrescou sua atuação com toques de humor. Chan extinguiu qualquer traço cômico no zelador Han, o que deixa quem conhece seu trabalho na seara da comédia órfão de tiradas engraçadas – que não se resumem às coreografias de lutas clownescas. A exceção fica por conta de cenas que parodiam situações do filme original.

Síndrome de Obelix: “Quando acertei meu oponente, ele foi por ali.”

Ah, sim… Adicione mais um item à lista de licenças autorais: a técnica do grou é substituída pelo rebuscamento acrobático da técnica da naja (fina ironia com o símbolo do dojo “inimigo” do filme original: Cobra Kai, sob responsabilidade do pseudossensei John Kreese, interpretado por Martin Kove). Se bem executado, o golpe é indefensável, pelo menos até que surja uma continuação disposta a provar que existe sempre um kung fu mais forte que o do protagonista.

O filme vai conseguir passar a guarda das resistências infundadas. Rejuvenescida, a história não deixará de encantar. Só é preciso se livrar de preconceitos e dar uma chance a Xiao (= pequeno) Dre e Han.

Banzai, Han! Banzai, Xiao Dre! Banzai!!!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Se eu fosse filho do casal Smith, pediria ao papai e à mamãe de Natal o papel de Blade na continuação da franquia. Ia adorar fazer picadinho de vampiros com uma Katana futurista.

p.s.2 Peço desculpas se o texto ficou muito grande. Quando eu me empolgo, ninguém me segura 🙂

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9 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

9 Respostas para “Assistimos ao remake de “Karatê Kid”!

  1. Pelo menos não ficou cansativo.. rs
    ai ai o Daniel e a Ali ^^

    • Você sempre muito gentil 🙂 Acredito que você é nossa leitora mais devota rsrsrsrsrsrs.
      Fico muito feliz com seu carinho, que não deixa de ser um estímulo precioso. Às vezes temos a sensação de que estamos escrevendo para o vazio.
      Mensagens como esta oxigenam o espírito. Obrigado!
      Beijos!
      CEB

  2. É porque acho poucas coisas que gosto de ler na internet. E como no outro blog, apesar do número de leitores(as), os comentários são poucos sei bem como é legal ter esse feed. Dá vontade de escrever…
    E eu também agradeço, já que posso ter uma opinião confiável sobre cinema e selecionar melhor os filmes com os quais irei gastar mais reais… rs

    Abraço…

  3. Olha só: Karate Kid sem Daniel San e Senhor Myagi não dá. Não é coisa de direita conservadora e sim verdade com a história! 🙂 Aliás, falando nisso, Ralph Macchio era figurinha fácil nos meus sonhos pré-adolescentes. Devo confessar… Depois, melhorei o gosto! 😉 Acho que vou deixar este filme passar… Ele não precisa de mim nem eu dele…. Com tão pouco tempo o pente fino tá mais criterioso mesmo, e não me venham com xurumelas!

    Ah… sobre o post em si, estou cambalhoteando de risadas. Muito engraçado. Adoro quando o Carlinhos maroto resolve dar o ar da graça… Aquela parte do Chuck Norris então… HAHAHA!

  4. EU TE AMO
    VC E MUITO LINDO VC PARA MIM E MAIS QUE TUDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO AINDA MAIS

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