Violência urbana no Rio: os anjos que sobreviveram à barbárie social

Manchete de capa da Editoria Rio do jornal O Globo de hoje:

Tráfico leva terror a São Conrado

Após intenso confronto com policiais militares, bandidos invadem hotel e fazem 35 reféns

A vida ratifica a arte. Ao se deixarem envenenar pelas iniquidades sociais, anjos perdem as asas da inocência e dos valores morais. Valendo-se de armas e drogas como muletas, capengam para uma macabra exposição pública.

Proscritos da vida em sociedade – o céu burguês, o qual são impedidos de tangenciar − e despojados da dignidade, sofreram a ablação da humanidade.

O problema transcende a simples contenção do gueto, que não passa de um paliativo, amparado na força bruta, com o objetivo de criar um cinturão de pseudossegurança visando à Copa do Mundo e às Olimpíadas.

A disparidade gritante, com raízes profundas em questões estruturais como educação, saúde, oportunidades decentes de trabalho, distribuição de renda menos desigual, ou seja, todo o necessário para proporcionar ao cidadão condições dignas − é a catalisadora dos atritos entre asfalto e morro. O contraste que fricciona as fronteiras aumenta os tons de vermelho derramados nos dois lados.

Não é difícil detectar os níveis mais superficiais de indignação. Um adolescente abonado que estuda num colégio de elite, calçando um tênis de R$ 500,00, é um acinte para um garoto descalço que muitas vezes não tem o que comer. Seu mundo fatalmente irá desmoronar – situação que se torna mais aguda pela falta de perspectivas. A proximidade entre as duas realidades é a faísca que o tonel dos efeitos inflamáveis da discrepância social precisa para se incendiar. É neste momento que os anjos começam a ser abortados e catequizados na filosofia partidária do mundo cão.

Perto dos olhos da classe dominante, perto de uma artéria vital. Só mesmo disparos de fuzil no meio de um bairro de classe média alta para causar hemorragia em nossa indiferença e egoísmo.

Assista ao filme do Murilo Salles. O diretor demonstra com muita competência que a realidade é mais complexa e triste do que aparenta. E ela começa a apodrecer cedo.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

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2 Respostas para “Violência urbana no Rio: os anjos que sobreviveram à barbárie social

  1. Paulo Henrique Souto

    Olá Bacelar, tive o prazer de trabalhar no lançamento do filme do Murilo Salles, ” Como nascem os anjos”. Mostra a força do cinema de antever os problemas sociais, daí o kinema( do grego: movimento) ser chamado de 6 poder. Pena que os politicos não vejam os filmes Brasileiros…

    • Bom tê-lo de volta, Paulo Henrique. Privilégio mútuo, do Murilo e seu. Também acho uma pena.
      Outro dia tomei uma facada no coração quando uma amiga me disse que não assistia a filmes brasileiros, veja você.
      Infelizmente não é uma alienação que acomete só os políticos.
      Abraços!
      CEB

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