A tomada do centro pelas margens

O cinema, arte na qual realidade e ficção se misturam, recebe de braços abertos, nesta sexta (27/8), o filme “Cinco vezes favela, agora por nós mesmos”, que utiliza como tubo de ensaio estético as favelas – “local onde o certo e o errado se confundem” – e seus moradores.

Produzido (somente produzido) por Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães, “5x favela…”, longa formado por 5 filmes de ficção,  foi escrito, dirigido e realizado por jovens cineastas moradores de favelas do Rio de Janeiro, treinados e capacitados a partir de oficinas profissionalizantes de audiovisual.

As câmeras, nas mãos de quem mais compreende o contexto social que está em foco, não folclorizam a favela. Os roteiros, autoirônicos e bem-humorados, quebram expectativas e desmoronam estereótipos carregados de preconceitos.

A violência perpassa todos os projetos, mas não como protagonista da encenação, e sim como agente catalisador de comportamentos (reprováveis com base em quais valores morais?) moldados pelas dificuldades e restrições.

Mocinhos e vilões se confundem em uma parábola da sobrevivência amparada, muitas vezes, na sabedoria popular: farinha pouca, meu pirão primeiro.

A sensibilidade dos jovens diretores impressiona. Por meio da arte, eles conseguiram ilustrar as ambiguidades de uma situação esgarçada por forças polarizadoras. Adstringidos (essa é em sua homenagem, R.F.) pelas vicissitudes de uma rotina dura e castradora, os realizadores frequentemente impeliram seus protagonistas a extrapolar os limites da legalidade – encharcada de burocracia e falta de discernimento −, mas mantendo-os dentro da fronteira da moralidade.

Trabalho(s) agridoce(s) de qualidade que serve(m) de estímulo para uma garotada muitas vezes amordaçada pela falta de oportunidades e crueldade das circunstâncias. A turma passou com grau 10. “5x favela …” merece todo o nosso carinho. Um filme de importância inegável, mas também engendrado com dedicação e apuro inquestionáveis.

Os cinco filmes foram realizados em favelas do Rio de Janeiro, a partir de parcerias com organizações culturais de moradores: CUFA (em Cidade de Deus), Nós do Morro (no Vidigal), Observatório de Favelas (no Complexo da Maré), AfroReggae (em Parada de  Lucas) e Cidadela/Cinemaneiro (com sede na Lapa, reunindo moradores de várias favelas da Linha Amarela).

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

2 Respostas para “A tomada do centro pelas margens

  1. Acho maravilhoso saber que o cinema brasileiro cresceu tanto, que hoje as próprias personagens se tornaram indeppendentes, e elas prórpias contam sua história.
    Que venham 5 X aldeias indígenas, e quem mais necessitar soltar seu grito!
    Abraços

  2. Olá, Risomar.
    Legal vê-la novamente por aqui.
    Na minha (humilde) opinião está exatamente aí o mérito do filme. É um cinema com conhecimento de causa, essência, alma, onde a construção do texto é enxergada nos olhos. É lindo quando falamos com os olhos, porque, definitivamente, “as coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou.”
    Além disso, foi como se eu visse os meus sonhos (mais puros) de inclusão, e, porque não, democracia plena, ganhando vida, reacendendendo feito chama à minha frente.
    Tô muito tocada com a obra.

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