Faroeste caboclo

Em homenagem a Paulo Henrique Souto, militante incansável do Cinema Brasileiro.

Marco Ricca debuta na direção com uma história de amor, ódio e traição regada a sangue, suor, lágrimas e balas. Não necessariamente nessa ordem.

Situado no Centro-Oeste do Brasil, região que faz fronteira com Bolívia e Paraguai, o que a torna estratégica para a rota do tráfico, o enredo – baseado no livro homônimo de Marçal Aquino, o cronista das idiossincrasias da alma − deste faroeste que fala portunhol nos apresenta a Miro (Fúlvio Stefanini) — o Marlon Brando decadente de uma região árida na qual a lei é feita com a arbitrariedade armada — e Abílio (Otávio Muller), dois irmãos pecuaristas que turbinam a renda investindo em negócios escusos.

Miro, o poderoso chefão de um núcleo familiar que ele tenta controlar com mão de ferro, personifica o declínio do coronelismo (transpirando toda sua ambiguidade moral) que teima em existir nos recônditos de um Brasil complexo e multifacetado. Mas, para a infelicidade do patriarca, existe um novo xerife no cerrado, que atende pelo nome de repressão federal.

Adstringido pela atuação da polícia, Miro resolve descontinuar o braço ilícito de suas atividades, mas topa com o inconformismo de Abílio, que pretende assumir os negócios da família e intensificar as transações. Em meio às crises com a justiça, Miro ainda precisa lidar com o ocaso de seu casamento e com o romance clandestino entre sua filha Elaine (a apaixonante Alice Braga) e o piloto Dênis (Daniel Hendler), elemento de desequilíbrio entre o amor filial e o carnal – e por quem Abílio alimenta desejos homossexuais.

Títeres dos jogos de poder, esgarçados entre duas montanhas de banha afogadas em dinheiro, os dois pistoleiros que trabalham para a família (Eduardo Moscovis e Cássio Gabus Mendes) representam o dedo nervoso no gatilho que não é mais suficiente para apagar os problemas dos irmãos sem deixar rastros de pólvora.

Du Moscovis encarna um João de Santo Cristo que perde sua Maria Lúcia — a perdição Via Negromonte — por causa de sua truculência e incomunicabilidade emocional. Calejado pela vida bandida, ele passa a acreditar no amor tarde demais. Já Gabus Mendes é o RG do ceticismo e da praticidade: tudo vale a pena, desde que seja a seu favor. Desapegado e pragmático, ele reza na cartilha dos seus próprios interesses.

Suspensos em uma atmosfera carregada de eletricidade estática − na qual o tempo cronológico e psicológico são gritantemente diferentes −, os personagens são devassados pelas câmeras ao se entregarem à introspecção. Frustração, arrependimento, redenção e vingança se misturam com a poeira do cerrado e ressecam nossas retinas, produzindo lágrimas de tensão e angústia. Uma dança da morte descompassada, que tem lugar numa região inóspita, protagonizada por pessoas que buscam significados para a indigência sentimental.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Eu gostaria de nunca mais entrar numa sala de cinema na qual somente 17 pessoas prestigiam um filme nacional.

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3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

3 Respostas para “Faroeste caboclo

  1. Paulo Henrique Souto

    Marco Rica é talentoso e merece …parabéns pela homenagem, realmente milito pelo Cinema Brasileiro com prazer e orgulho. Abs. Paulo Henrique

  2. Et vive les differences! Eu achei o Marco Ricca a combinação Wim Wenders com Irmãos Coen do cinema nacional. Demais!

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