Filho: o terceiro passageiro

A incipiente trajetória da diretora alemã Emily Atef não se traduz em acanhamento. Muito pelo contrário. Com apenas quatro filmes no seu currículo de realizadora, Emily se muniu de coragem e ousadia para tratar de um tema repleto de espinhos proibitivos em sociedades conservadoras: a depressão pós-parto.

“O estranho em mim” (2008), filme que acaba de ter uma estreia discreta no circuito exibidor, é um marco da militância contra tabus que precisam ser desmitificados, sob pena de a sociedade infeccionar no silêncio da vergonha estúpida.

Rebbecca (a superlativa Susanne Wolff) e seu marido Julian (Johann von Bülow) aguardam, cheios de expectativa, o nascimento do primeiro filho. Logo após o parto, Rebecca sente seus instintos maternos serem obliterados por uma frustração inexplicável. Invadida por um sentimento de repulsa, ela se afasta de seu filho e se torna uma mãe negligente e alienada.

Sem entender como lidar com o desfacelamento de seu elo com a criança, e fechando-se em copas, temendo a reação dos outros, ela escamoteia suas atitudes (que traduzem sua fragmentação interna) até perceber que seu comportamento está colocando o filho em risco.

Após entrar em colapso emocional, é internada numa clínica especializada e, com a cética e tímida ajuda do marido, é estimulada a reconstruir, com o auxílio das células-tronco da compreensão e abnegação, o cordão umbilical do amor incondicional que degenerou por causa da doença.

Atenção para esta atriz germânica chamada Susanne Wolff. Expressando com o olhar o desespero de uma mãe que sente um embaraço corrosivo ao ir contra a sua natureza, ela transparece toda a agonia esfacelante de ter que pedir socorro por um acidente que cometeu conscientemente. Seus desvios antinaturais de conduta, frutos do desequilibrado estado psicológico, soam o alarme para que Rebbecca reconheça seu problema e sinalize por ajuda.

Fácil é não fazer. Mas Rebbecca escolhe o caminho mais difícil: o da reabilitação filial e mental.

Além da ligação com seu filho, ela precisará enfrentar o preconceito dos parentes mais próximos e reconstruir sua intimidade conjugal. Inibida pela vergonha, consternada pela censura de seu meio familiar e obstaculizada pela insegurança e desconfiança do marido − envenenado pela descrença, mas motivado pelo conceito de família − ela trava um combate mudo − mas tenaz − em três frentes para readquirir seu direito de ser mãe e mulher.

Um filmaço! “Das fremde in mir” (no original) é o “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” (2007) alemão. Incomoda e perturba, mas desopila e engrandece. Um remédio amargo para os espíritos pobres, degenerados pela hipocrisia moral.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Filho: o terceiro passageiro

  1. Eu não tenho tempo de ver tudo…rs
    Sobre o tema, tenho duas observações: 1) ouvi em algum lugar (não lembro onde) que a nossa sociedade dá um valor extremo ao papel materno, dotando-o de um poder que nem sempre ele tem; isso não implica negar a relevância da mãe para nossas vidas. Afinal, juntamente com o sexo, ela é a causa de todas as nossas insatisfações – leitura rasa de Freud… rs
    2) Acho um estupro certas noções de natureza… Causa muitos problemas e embaraços em diversas circunstâncias, pra dizer o mínimo.

    Mais um filme pra listinha!

    • Pronto, já me deu o que pensar. Observações interessantes.
      Mas o conceito de mãe continua fortemente arraigado a determinados modelos de comportamento.
      Os instintos “naturais” que esperamos delas em determinadas situações podem ser superestimados ou não totalmente compreendidos em suas falhas estruturais.
      Afinal, elas são humanas, como todos nós. Falei bonito? Quis responder à altura 🙂
      Beijos!
      CEB

      • Continua sim e deve perdurar indefinidamente.
        Só pra ressaltar, quando falei das noções sobre natureza não me referi apenas as mamães…

  2. Pingback: Perda como agente catalisador de transformações do ser | Doidos por Cinema

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