El Último Comandante

El Último Comandante conta a história de Paco Jarquín, o mais combativo e carismático comandante da Revolução Sandinista (da Nicarágua), que, ao contrário de seus companheiros de combate, preferiu renegar seu passado glorioso para viver no anonimato como instrutor de dança.

Foram necessários 14 anos para que o filme, dirigido por Isabel Martínez e Vicente Ferraz, começasse sua trajetória na telona. A obra chega aos cinemas da Nicarágua agora em setembro e às terras costa-ricenses em outubro. Ainda sem distribuição garantida no Brasil, o filme é aguardado na sessão Latina do Festival do Rio, depois de ter conquistado o prêmio de melhor ator no Cine Ceará deste ano.

Entre um respiro e outro, Vicente respondeu a algumas de nossas curiosidades acerca da obra, deixou seu recado ao potencial público e adiantou: “Na Nicarágua, o filme já causa polêmica por ser crítico aos Sandinistas que estão no poder. Mas os velhos e bons Sandinistas, aqueles que estão na oposição ou são perseguidos, nos apoiam.” Confira o nosso papo com ele.

1.    Por que contar a história do Comandante Paco Jarquin em cinema?

 

Eu e a Isabel tivemos vivências diferentes da Revolução Sandinista, mas  que em um determinado momento se cruzaram.

 

Apesar de nascida na Costa Rica, Isabel viveu todos aqueles anos na Nicarágua. Seus pais foram desde cedo colaboradores da FSLN em San José e depois foram para Manágua ajudar o governo revolucionário. Passou sua juventude acompanhando e vivendo a Revolução de perto, seja na alfabetização, nas milícias ou nos cortes de café. Muito para uma jovem de uns 19 anos.

 

Para mim, a Revolução Sandinista foi a última revolução socialista no mundo, no sentido clássico de um levante popular e na mudança radical de um regime e sistema econômico. Se outras gerações tiveram a Revolução Cubana como modelo, pra minha foi a Sandinista. Lembro que na eleição de 89 Lula e o PT falavam do exemplo da Nicarágua, isso para ficar apenas aqui pelo Brasil…

 

Meus anos 80 foram vividos intensamente torcendo pelos “Nicas” e sua jovem revolução, que era muito mais pluralista e livre que as anteriores. Mas, por ironia do destino, também foram anos marcados pelo Reagan, Thacther, Lech Walesa, Papa…enfim, a volta dos conservadores em vários países! E, por conta disto, essa revolução, desde o início, sofreu uma guerra implacável por parte do governo americano, algo muito pior que Cuba sofreu em seus 50 anos de socialismo. A finalidade era abalar a economia e a credibilidade do governo, além de que cooperativas agrícolas eram queimadas, escolas, destruídas, bloqueios de abastecimento, enfim, um boicote total  à sua economia. E mais de 80.000 jovens morreram nesta guerra injusta.

 

Por outro lado, o mundo todo se solidarizou. Gente de todas as partes viajavam à Nicarágua para apoiar o processo revolucionário, principalmente Governos e a então Social-Democracia europeia. Talvez por isso teriam matado a Oloff Palm primeiro ministro Sueco?! E naquele mesmo tempo me lembro, com inveja, de uma brigada de jovens que saíram do Rio para colher café lá. Ufa…estórias antigas… 😀

 

Bem… depois disso fui à Cuba estudar cinema e Isabel também. Estávamos como outros estudantes latino-americanos e de outras partes do “Terceiro Mundo” (ainda não tinha caído em desuso esse termo). Naquela época, vimos a caída do Muro de Berlim, a URSS se esfarelando, os Sandinistas perdendo as eleições depois de 11 anos de guerra com os Contras financiados pela CIA.  E Cuba começando o “período especial” !!!!  Tudo muito triste…

 

E voltamos juntos a Manágua algum tempo depois, onde vimos o fim de um sonho e o começo de um pesadelo. Sem falar, de termos visto a Contra no poder e acompanhar de perto o que foi chamado de Piñata: a apropriação de bens do Estado por membros do Governo Sandinista, muitos deles, ex-comandantes. Saque geral!! Nos sentimos totalmente traídos!

 

Isso foi há quase vinte anos e essa foi a grande marca que levamos da nossa juventude: o fim das utopias!

 

Tudo isto levou a uma reflexão. A ideia era fazer um filme que fosse uma crônica bem humorada disso tudo, e por isso inventamos a personagem do décimo comandante, (apesar de na realidade ter existido apenas nove) e por isso se chama Paco Jarquim.

2. A Revolução Sandinista foi um movimento urbano revolucionário que influenciou resistências e acontecimentos importantes, não somente na América Central, como em todo o continente latino-americano. Como você percebe a relevância do “El Ultimo Comandante” na atual conjuntura global, e no atual momento político brasileiro?

Não temos nenhuma pretensão quanto a relevância do nosso filme. Como falei anteriormente, é apenas uma prestação de contas com o nosso passado e também um releitura do processo Nicaragüense. Lembre-se que Daniel Ortega (FSLN) é o atual presidente da Nicarágua e, como uma grande ironia do destino, chegou ao poder apoiado pelos antigos adversários: Somozistas e ex-Contras e etc.  E ainda com discurso Bolivariano!?

 

Acho que essa história tem muito a ver com a esquerda no poder hoje em dia na América Latina. Ter apenas um projeto de poder, sem uma ideia, um sonho. É muito triste para a minha geração saber que Chávez é o modelo de governo Socialista. Isso para mim é uma afronta!

3. Como o filme foi financiado e quais dificuldades foram enfrentadas por vocês no período de captação de recursos?

O Ultimo Comandante foi feito com unhas e dentes. Foram 14 anos tentando terminar o filme. Fazer cinema na América Central, e naquela época que começamos, era uma loucura!!! Por isso tivemos que interromper as filmagens por 10 anos. Terrível. Recebemos apenas pequenas ajudas de ONGs e alguns investidores locais. Mas foi fundamental e decisivo o apoio do Fundo Cinergia, uma espécie de mini Ibermedia para America Central e Caribe. Depois tivemos o apoio no Brasil da Teleimage e dos estúdios de som Play it Again. Sem falar que contarmos com a participação de Damián Alcazar como protagonista, um dos maiores atores latino-americanos do momento que desde sempre apoiou a ideia do filme.

 

Acho que quem está lendo não é capaz de acreditar que um filme possa demorar tanto tempo para ser feito. No Brasil ele se chamaria um BBBO.

4. Se pudesse deixar um recado para o potencial público, qual seria?

Que tenham curiosidade de conhecer um pouco da história da Revolução Sandinista contada de um ponto de vista humano e com humor.

Agora é com a gente. Vamos prestigar no Festival do Rio, galera! Merda ao Vicente e à Isabel. 😉

Helena Sroulevich


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3 Comentários

Arquivado em Helena Sroulevich

3 Respostas para “El Último Comandante

  1. Paulo Henrique Souto

    Oi menina, adorei assistir ao filme do Marco Ricca com você, gostei muito do filme, o Brasil central, longe do tal Rio/SP. E que belos planos, e fotografia magistral. E os coronéis, que hoje, além de bois, traficam drogas. Uma pena, ratificando o Bacellar, só dez pessoas no cinema.Viva o Cinema Brasileiro. bjs.

  2. Eu também! O Marco Ricca me saiu um bela mistura de Wim Wenders com Irmãos Coen! DEMAIS! Garoto bão, sô! Deixa eu voltar ao ofício aqui em Sampa. Beijos.

  3. Pingback: Filmes que os Doidos destacam na programação do Festival do Rio 2010 « Doidos por Cinema

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