Pornô Cult

Não recomendado para menores de 18 anos, o afrodisíaco “Intimidade” (2001), do diretor francês Patrice Chéreau, trata da dissolução promovida pelo subproduto do tesão: o apego. Servido com ostras, avelã e chocolate estéticos, o filme atiça a libido apostando em cenas tórridas − que dariam inveja a qualquer produção “educativa” – para radiografar vazios existenciais.

Jay (Mark Rylance) é um barman entediado que tem compromisso cativo em sua agenda toda quarta-feira à tarde. Ele e a misteriosa Claire (um convite à luxúria chamada Kerry Fox) se entregam em silêncio aos prazeres da carne. Os dois preenchem seu tempo juntos (e sublimam frustrações) apostando no gozo efêmero como panaceia para uma rotina morna.

Jay, que acaba de largar a mulher – abandonada com dois filhos a tiracolo −, credita àqueles instantes de prazer o efeito analgésico que alivia as dores da alma, alfinetada por uma existência medíocre.

Ele só não esperava que a linha que separa o sexo casual desapegado da afeição − atrelada a cobranças e explicações inevitáveis − fosse tão tênue.

Cada um deles entende a semântica do verbo querer de forma distinta: Claire quer alguém, já Jay quer (a) alguém. Naquele querer está implícito o sexo descompromissado, enquanto neste algo mais profundo que o desejo – que arrefece após a primeira ejaculação − começa a aflorar.

O acordo tácito entre os dois é rompido (e o pragmatismo vai para o espaço) pelo carinho que Jay começa a nutrir pela mulher, sentimento que emerge disfarçado de curiosidade.

O barman começa a investigar a vida de Claire, que passa de objeto sexual a uma pessoal com história. E a acepção dessa palavra, determinante do sujeito, envolve aspirações, aptidões, defeitos, qualidades e, para azar de Jay, uma família.

Ele se aproxima do núcleo de Claire para tentar entender as motivações de sua amante, e identificar quem realmente é aquela mulher por quem ele aos poucos se perde. Em sua desastrada empreitada, Jay acaba criando ligações instáveis como nitroglicerina com o marido e o filho daquela que intumesce seu falo e sua imaginação.

Sem saber separar atração de razão (o que exponencia a força dos laços de carinho), os dois amantes são asfixiados pelas convenções – para as quais fidelidade e moralidade são conceitos entrelaçados e absolutos.

Kerry Fox, excretando feromônios de carência, interpreta uma mulher dividida entre os votos matrimoniais e a abstinência do corpo. E Mark Rylance um homem assombrado por uma decisão penosa, que busca novamente sentido em uma relação.

Patrice Chéreau, por meio da atuação de sua protagonista, relativiza a importância da fidelidade. Ele nos mostra que felicidade e mera satisfação podem ser sinônimos em determinados contextos, que as dimensões de responsabilidade e irresponsabilidade podem ser conjugadas − se pele e contrato estão fora de sintonia −, e que muitas vezes a conformação do espírito é complexa − e deve ser absolvida de julgamentos moralistas.

Transcendendo a mera conjunção carnal paliativa, “Intimidade” é uma narrativa acerca de hiatos na satisfação afetiva que, por conveniências inusitadas, são preenchidos por eflúvios que embaçam o discernimento – e trazem o êxtase e o sofrimento em dimensões paralelas.

O filme — uma das novidades que a Lume Filmes coloca no mercado de locações — teve sua classificação indicativa restringida por não ter condições materiais de concorrer ao Oscar de melhor figurino, se é que vocês me entendem.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Pornô Cult

  1. Paulo Henrique Souto

    o tema pornô mais intenso dos ultimos anos é o filme do Stanley que revi ontem na TV, as cenas de trepadas, e o tabu da sexualidade e a beleza do casal Nicole Kidman / Tom Cruise . vale rever…abs.

    • Boa lembrança, Paulo Henrique. O filme do Stanley Kubrick bagunçou com a hipocrisia moralista da elite, a classe mais devassa.
      O diretor soube explorar a faceta hedonística do sexo; e mexer com nosso imaginário abusando de fantasias eróticas sem peias.
      Pena que naquela época o Tom Cruise ainda não tinha se engraçado com a Penélope Cruz… Já imaginou que ménage?
      Abraços!
      CEB

  2. Pingback: Luminar maranhense da autoralidade « Doidos por Cinema

  3. ze

    Intimacy é érotico, não porno, e o “De Olhos bem Fechados” do Kubrik, nem erótico é, é um drama onde o sexo esta no tema, não no gênero. “Porno Cult” como sugere o título é coisa beeeeem diferente.

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