Arquivo do mês: setembro 2010

Antes que o Cinema Brasileiro não tenha mais espaço

2º Festival de Paulínia, 2009: Melhor filme (prêmio da crítica), Melhor direção, Melhor fotografia, Melhor direção de arte, Melhor música, Melhor figurino

33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, 2009: Prêmio Itamaraty (melhor filme brasileiro da mostra)

Abro este post com as credenciais do filme “Antes que o mundo acabe”, da diretora gaúcha Ana Luiza Azevedo, que acaba de se espremer na grade do circuito exibidor aqui no Rio. E o verbo espremer traduz bem o paradoxo desesperador que aflinge muitas produções do Cinema Brasileiro (quando elas conseguem se untar com o óleo do reconhecimento dos festivais e da crítica e passar com dificuldade pelos poros dos filtros de mercado).

O laureado filme de Ana Luiza não conseguiu mais do que uma (1) sala de cinema em solo carioca. Não bastasse isso, ficou circunscrito a dois (2) horários, sendo que um deles só vigora até a próxima quarta-feira (22/9). Acreditem vocês… Unibanco Arteplex (RJ): às 15h20min (até qua) e às 19h40min.

“Bá, tchê! Somente em uma sala?! Isso é um absurdo… Bom, depois podemos assistir ao ‘Avatar 3D’?”

Como sou um militante da causa dos fracos e oprimidos, preteri produções mais privilegiadas no quesito número de salas e fui conferir o filme da Ana. E os prêmios não maquiam a qualidade da produção.

Sócia da Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora independente que se tornou polo de cultura e referência para o cinema nacional, Ana Luiza, amadurecida pela sua longa relação com a sétima arte – ela já foi continuísta, corroteirista, dirigiu curtas e médias-metragens e documentários, enfim, um currículo extenso –, desta vez apontou suas câmeras para a confusão emocional (e a aditivação hormonal) que torna a adolescência uma época tão aflitiva e, ao mesmo tempo, tão saborosa.

Em uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, somos apresentados ao Daniel (Pedro Tergolina). Adolescente típico, Daniel superestima seu microuniverso e acredita que ele é o universo em si, em constante expansão (afinal, nada é impossível quando se tem entre 14 e 17 anos). Títere dos encantos de Mim (a devoradora de corações incautos chamada Bianca Menti), uma colega de escola insegura com suas escolhas afetivas, e parceiro inseparável de Lucas (Eduardo Cardoso), Daniel vai da depressão à euforia em meio às descobertas do crescimento. Os amigos mapeiam a pequena cidade de bicicleta e, além de se mostrarem insatisfeitos com suas limitações geográficas, flertam com as fronteiras ambíguas de seus sentimentos.

“É por causa desse sorriso que vou repetir de ano… Como querem que eu aprenda química desse jeito?! Só se for outra química…”

O relacionamento entre os três começa a descarrilar quando Mim dá um fora em Daniel e começa a se engraçar com Lucas. E uma menina, como todos nós sabemos, é a barra de sódio que entra em contato com a plácida água do lago da amizade: Bum!

Quem nunca se apaixonou por aquela garota poliândrica no colégio que atire o primeiro iPod. Ela – sim, aquela gostosona que tripudiou do seu sincero carinho, mas hoje, felizmente, é uma baranga − (acha) que pensava da seguinte forma:

“Minha mãe me falo que eu preciso casar

Pois eu já fiquei mocinha

Procurei um alguém e ele disse

— Meu bem, você quer entrar na minha

Acontece porem que eu não sei me entregar

A um amor somente

Quando ando nas ruas, fico só namorando

E olhando pra toda gente […]”


Então, o amigo vira concorrente rapidinho. A estrutura rígida do triângulo só é fundamentada nos cálculos da geometria. Na vida real, quando acrescentamos sentimentos aos vértices, o resultado pode ser a estrutura geométrica mais instável de que se tem notícia.

“Carlos, como boa adolescente poliândrica acho que posso gerenciar um quadrilátero amoroso. Ainda mais se tratando de você, meu crítico favorito. Só não prometo não magoá-lo. É por sua conta e risco.”

O roteiro – assinado por Paulo Halm (o Charlie Kaufman brasuca), Jorge Furtado, Giba Assis Brasil e a própria diretora − adiciona um componente a mais na vitamina de amadurecimento do nosso protagonista. Daniel passa a receber cartas de seu pai, que nunca conheceu. Fotógrafo que partiu pelo mundo com o objetivo de imortalizar imagens únicas, antes que a humanidade seja pasteurizada e as peculiaridades culturais sejam completamente homogeneizadas, Daniel (o pai, interpretado por Eduardo Moreira) tem uma crise de valores e resolve entrar em contato com o filho.

A relação dos dois é construída a partir de momentos que o fotógrafo capturou em suas aventuras mundo afora, e a intimidade é criada a distância, pela identificação com o que existe de universal no diferente: a dor, as alegrias, as dificuldades, as barbaridades, as restrições, os problemas…

A narrativa é costurada pela verborragia inocente da pequena Maria Clara (a sensacional Caroline Guedes), que, abusando da criatividade da infância, faz o contraponto entre o limbo de dúvidas e frustrações que engolfam Daniel e o mundo adulto, representado pela mãe do menino, Elaine (Janaína Kremer), e pelo padrasto, Antônio (Murilo Grossi).

“Ai…Ai… É chato ser a estrela do filme. O que eu posso fazer?”

Fruto da geração Y, conectada com o fluxo dinâmico da Internet, Daniel desacelera e reflete acerca de sua vida no relacionamento epistolar com o pai. E passa a dar importância ao que está além da tela do computador − realidades humanas que passavam despercebidas.

Ao som de Beat acelerado, hit da banda Metrô, sucesso na década de 1980 – da qual retirei alguns versos para retratar o sinuoso comportamento de uma adolescente hipotética algumas linhas acima −, “A menos que…” embarca nas indecisões de garotos, atolados no terreno movediço (natural) que separa as inconsequências da infância das responsabilidades da vida adulta.

“Acho que engoli uma mosca… Finja que é um chocolate, finja que é um chocolate…”

Qual o diferencial deste filme para a concorrência brasileira que (até o momento) apostou na mesma seara? A indeterminação patente no time de jovens protagonistas, que exala toda ambiguidade emocional e moral da idade, época em que não existem certezas. O que é bom hoje, não será mais amanhã. A falta de segurança, motivada pela falta de experiência, de adolescentes que lutam para se tornar sujeitos – que ocasiona inúmeros tropeções construtivos para a formação do caráter.

A realização merecia mais carinho do mercado distribuidor. Faço minha parte assistindo ao excelente trabalho da Ana e imortalizando minhas impressões. Espero que elas encontrem eco. Negligenciada, a produção, como todo adolescente problemático que muitas vezes só quer ser chamar a atenção, pode precisar de ajuda para ser ouvida. E eu pretendo ser o psicólogo.

Sim, sou um idealista… Um caso perdido… E nunca vou deixar de gritar. Mesmo que sozinho.

Quem quiser continuar acompanhando o sucesso do filme pode acessar o site da produção ou o blog.

Carlos Eduardo Bacellar

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O que os olhos não veem, o coração sente

O cineasta egípcio Atom Egoyan, nascido Atom Yeghoyan, esculpiu em seu “O preço da traição” (2009), que acaba de chegar às locadoras, um tratado acerca da paradoxal solidão conjugal.

Em “Chloe” (no original), ladeado por dois monstros da dramaturgia, Liam Neeson e Julianne Moore, o diretor identifica carências e a falta de comunicação afetiva que desestabilizam o núcleo de uma família americana de classe média alta.

Catherine (Moore) é o modelo da mulher de meia idade de sucesso que não resiste às rachaduras do tempo geradas pela insegurança. Médica de prestígio, ela é casada com o sedutor professor David (Neeson). Ao ser negligenciada como mulher, Catherine suspeita que seu marido a está traindo.

Para livrar-se das dúvidas, ela contrata os serviços de Chloe, garota de programa interpretada pela bonequinha de luxo (Mamma Mia!) Amanda Seyfried, para confirmar se David realmente está “comendo fora de casa”. Chloe acaba extrapolando sua função e deslizando para o envolvimento doentio.

A partir dos relatos inflamados da profissional do sexo sobre os encontros sexuais que teve com David, Catherine se reaproxima metaforicamente de seu companheiro e redescobre sua sexualidade por meio da excitação da outra. Masturbação verbal que se torna um vício para Catherine. A médica passa a sublimar seu tesão enrustido sorvendo as narrativas apimentadas acerca das peripécias extraconjugais de seu homem, e, confusa, não enxerga mais com clareza as fronteiras da fidelidade.

“Adoro mulheres mais velhas. Essa coroa ainda dá um caldo.”

Julianne Moore, que lapida sua capacidade dramática intercalando trabalhos mais autorais com potenciais blockbusters, brilha no papel de uma esposa que desaprendeu a linguagem da intimidade, esmagada pela rotina, e se angustia com o distanciamento mais pungente que existe: o da pessoa que ama.

David, numa versão ambígua do macho-alfa − ora demonstrando ser responsável e racional, ora inconsequente e impulsivo −, e Chloe, a prostituta que procura nos programas efêmeros um paliativo para seu vazio existencial, completam a estrutura de um triângulo que subjetiva a verdade e coloca a confiança à prova numa história na qual traição, desejos latentes e dissimulação se confundem.

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

“Resident Evil: Afterpost”

“Cadê o coitado que disse que eu era um pastiche do filme baseado no game da concorrência? Está na hora de fazê-lo entender como funciona uma estratégia de marketing predatória.”

Tomei um puxão de orelha feio de um fã do game Resident Evil. Ele chamou minha atenção para o fato de que o carrasco demoníaco a que me referi no meu último post não é um pastiche de “Silent Hill” (2006), outro filme que migrou dos consoles de jogos eletrônicos – só que desenvolvido pela concorrente da Capcom, a Konami − para a telona.

O personagem, chamado de Executor Majini, faz parte do universo do game que transcendeu plataformas e chega à sua quarta adaptação para os cinemas com a atriz Milla Jovovich vivendo a protagonista Alice. Ambas as séries exploram o gênero survival horror, só que com temáticas diferentes.

Na verdade, foi a indústria dos games – que ofereceu a matéria-prima para as produções −, e não a cinematográfica, que apostou numa estratégia de benchmarking, digamos assim. Mas a ordem dos fatores não altera o produto. Os dois personagens são tão similares que fica difícil imaginar uma coincidência.

Bom, isso não nega o fato de que eu jamais deveria ter negligenciado meu PS2…

Na verdade, caros leitores, essa retórica toda é uma tentativa descarada de limpar minha barra.

Todas as contribuições que visam a retificar eventuais equívocos (e, de quebra, desancar os Doidos) serão sempre muito bem-vindas. Fica o registro para todos os fãs da série.

Para quem estiver interessado em comprar o simpático boneco do Executor, que com certeza não irá permitir que seu filho(a) durma por um bom tempo (e obrigará você a gastar uma grana com o psicólogo infantil), clique aqui.

Carlos Eduardo Bacellar

“Essa é a sua melhor resposta? Você merece morrer por causa dessa resposta, seu blogueiro fanfarrão metido a crítico de cinema.”

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Biohazard: crítica de “Resident Evil: Afterlife”

“Sempre sonhei com meu momento Trinity.”

Novamente publicarei aqui, mais do que uma crítica, um serviço de utilidade pública para tentar livrá-los de uma roubada.

A franquia “Resident Evil” deveria ter circunscrito a sanha da protagonista Alice (a estonteante Milla Jovovich) pela destruição de mortos-vivos, que teimam em suplantar os humanos como espécie dominante, aos consoles de videogame − e evitado propagar o vírus da mediocridade para as telas de cinema com o lançamento do quarto filme da série: “Resident Evil: Afterlife”, que estreia nesta sexta no Brasil.

Nesta nova versão caça-níqueis da história − a série original foi criada por Shinji Mikami e desenvolvida pela Capcom; hoje está disponível para diversas plataformas de jogos eletrônicos −, dirigida pelo diretor inglês Paul W.S. Anderson (que de bobo não tem nada: já levou Milla para o altar e continua as experiências genéticas do projeto Alice em âmbito doméstico, longe das câmeras), Alice continua sua luta inglória para tentar encontrar um porto seguro livre do vírus T (que torna seres humanos figurantes do vídeoclip Thriller, de Michael Jackson), exterminando todo zumbi papa-cérebro que aparece em seu caminho. E olha que são muitos… O parasita é produto das traquinagens da Umbrella Corporation, espécie de Iniciativa Dharma de tons mais sombrios, na seara da engenharia genética.

“Quem disser alguma gracinha, ou rosnar algo ininteligível, leva bala!”

Desta vez a cidade locação é uma Los Angeles distópica, infestada de antagonistas com lepra e câncer de pele em estágio avançado. E como todos nós sabemos, os zumbis são como cabelos brancos: você mal acaba com um, já crescem mais três.

Sinceramente, a trama é tão rala e descartável, que nem me lembro dos últimos filmes. E não faz muita diferença… Alice continua, com suas roupas de couro apertadas e armada até os dentes, numa mescla de “Blade” com Roland Deschain de Gilead, protagonista de um dos universos fantásticos de Stephen King, exterminando tudo que não pertence mais a este mundo.  E perdendo amigos pelo caminho…

“É hoje que rola aquele ménage à trois pelo qual espero há tanto tempo. Vamos começar com as preliminares: dança do maxixe!”

Lutam ao lado dela, entre outros itens do cardápio dos não humanos, Claire Redfield (Ali Larter, que disputa com Milla o posto de quem-usa-roupas-mais-apertadas-que-realçam-a-silhueta-de-forma-mais-sexy), que não se contentou com a última porcaria, e Chris Redfield (Wentworth Miller), que deve ter alguma cláusula de uso obrigatório da mão de obra em seu contrato − que o impede de ficar na inatividade por muito tempo − e se torna mais uma depravação num roteiro que minha mãe escreveria assistindo ao Domingão do Faustão (momento no qual bate aquela vontade forte de sair por aí estourando miolos).

“Paul, se você olhar para a comissão de trás da Eli novamente, eu realizarei uma operação de fimose em você com a minha arma.”

Com acrobacias que desafiariam especialistas do Cirque du Soleil – algumas cenas ultrapassam a fronteira do absurdo, que cada vez mais é rechaçado pelo realismo de sequências de ação como as que revitalizaram o espião 007 −, escrutinadas pelas filmagens à moda Sam Peckinpah, que usam e abusam do bullet time, efeito celebrizado na trilogia “Matrix”, a produção é uma sucessão de violência gratuita que tenta sustentar uma trama apocalíptica. Uma inversão de valores que desrespeita o público. Os desmembramentos faraônicos de zumbis são despautérios completos: diretores americanos de filmes exploitation das décadas de 1950, 1960, 1970 ficariam com vergonha ao provarem dos frutos podres adubados por seus legados.

O roteiro chega ao cúmulo de plagiar o gigantesco carrasco demoníaco de “Silent Hill” (2006) − excelente filme de suspense que saiu de uma dimensão paralela para a nossa pelas lentes do realizador francês Christophe Gans −, com o objetivo de heterogeneizar a espécie zumbi e incrementar a encenação. Verdadeiro pastiche cara de pau…

[Sim, já fui avisado de que o carrasco demoníaco ao qual me refiro no parágrafo supracitado não é uma cópia do seu sósia, que aparece no filme ‘Silent Hill’ (também baseado no jogo eletrônico homônimo), e sim um personagem do game ‘Resident Evil 5’: leia minhas explicações clicando aqui]

“Não consigo enxergar direito quem eu tenho que decapitar com este saco na minha cabeça…”

A produção, que chega a esta quarta edição glamurizada pelo suporte em 3D, é um videogame, com montagem hiperativa, que não funciona nas telas, nem como entretenimento. E podem se preparar… Vem uma continuação por aí… Se Deus quiser o último despropósito que irá raspar o tacho de nossas economias e saciar a gana por grana de Hollywood, pelo menos em relação a esta franquia específica.

Felizmente assisti ao filme de graça, e economizei umas 24 pratas. Aviso às distribuidoras e às produtoras: podem me convidar sempre para as cabines de imprensa que eu gosto. E olha que de vez em quando eu até falo bem dos filmes.

Cinema de graça, pela manhã, com a sala vazia, é a maior diversão!

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fuja dessa roubada!!!

E os indicados são…

A simpática Tati, autora do espirituoso blog E os indicados são…, que este Doido lê sempre, comprou uma dica minha (que honra!) e postou lá no espaço dela: Melhor ressuscitação.

Comentei com ela acerca da cena que, na minha opinião, é a melhor cena de ressuscitação da história do Cinema: Bud Brigman (Ed Harris) trazendo Lindsey Brigman (Mary Elizabeth Mastrantonio) de volta à vida em “O segredo do abismo” (1989), do avatariano James Cameron.


Gostei da brincadeira, Tati. Acho que essas trocas deveriam rolar mais… E já que você provocou a fera… Quer saber mais uma? Então aí vai…

A mais romântica troca de mensagens em código morse da história do Cinema: Oskar e a vampirinha Eli que, mesmo separados por uma parede, ou por um caixão, conseguem trocar juras de amor e carinho em “Deixa ela entrar” (2008), produção dirigida pelo sueco Tomas Alfredson que revolucionou o tema. Fofo!

“S.O.S: Saudades da minha sanguessuga favorita”

O filme levou o Oscar do meu coração.

A gente ainda vai trocar muito, Tati. Obrigado pelo carinho 🙂

Beijos do amigo!

Carlos Eduardo Bacellar

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No rastro de sangue autoral

À procura de algum filme que transgrida o arquétipo clássico do vampiro − imortalizado no cânone de Bram Stoker −, com a mesma autoralidade que consagrou “Deixa ela entrar” (2008), de Tomas Alfredson, e, mais recentemente, “Sede de sangue” (2009), de Chan-wook Park, exumei das estantes da locadora “Fome de viver” (1983) − “The hunger”, no original −, de Tony Scott.

Na bizarra trama de Scott, a senhora da escuridão (ex-bela da tarde), Miriam Blaylock, é interpretada pela musa Catherine Deneuve. Blaylock, além de colecionar objetos de arte, entulha o vazio de sua alma com amantes escolhidos a dedo, que são obrigados a compartilhar com ela – vetor de transmissão de uma espécie de anemia falciforme, que aproxima as ambições do roteiro, com assinatura de James Costigan, Ivan Davis e Michael Thomas (baseado no romance de Whitley Strieber), de “Blade” − sangue contaminado com a necessidade de se alimentar de… sangue.

“Acho que exagerei no ketchup…”

Interpretando o amante de Blaylock, John (o músico David Bowie) descobre que a imortalidade (infelizmente) não vem atrelada à juventude eterna. Sofrendo de degeneração celular acelerada – processo que o levará à mumificação – ele procura a médica Sarah Roberts (Susan Sarandon), especialista nos estudos de longevidade. Sarah repudia John, entendendo-o como louco, que é encaixotado para uma vida eterna claustrofóbica − e para longe das vistas de sua criadora − enquanto a doutora Roberts se torna a nova concubina de Blaylock.

Estilizando a figura do vampiro, Scott cria sanguessugas crepusculares: charmosos, sensuais e letais, no estilo neogótico – que relativizam a moral quando a fome aperta; e quando os pés de galinha começam a aparecer. O diretor não reinventa o gênero, como alguns alegam, mas ele se utiliza de parte da mitologia vampiresca para criar uma obra sobre a inexorabilidade do tempo e suas consequências ambíguas na psique de pessoas comuns. Ao mesmo tempo desejo e maldição, a imortalidade é o cálice sagrado que transborda de veneno, exacerbando o que há de melhor e de pior em cada um.

No desespero da decrepitude de John e na negação e inconformismo de Sarah, Tony Scott nos faz pensar acerca do conceito de finitude, seja ela existencial ou afetiva. Nossas aspirações de enganar o relógio biológico, e almejar o amor eterno, são questionadas com a seguinte dúvida: vale mesmo a pena? O término, tanto pela morte como pela desilusão (ou pelo fim da juventude), faz parte do ciclo natural da vida, necessário para que haja um novo começo, mesmo que regado a dor.

O melhor do filme? Catherine Deneuve e Susan Sarandon (com tudo em cima!) se pegando numa tórrida relação lésbica. Quem disse que vampiro não corta para os dois lados?

“É agora que eu traço você, bela da tarde! Vamos botar as aranhas para brigar é já!”

E parece que uma continuação vem por aí, dirigida pelo próprio Scott e ambientada em São Paulo. Veja a entrevista do realizador concedida ao ComingSoon.

Um aviso para os caçadores mais afoitos… Devagar com as expectativas. O filme não chega nem perto da qualidade estética e da ousadia de “Deixa ela entrar” e “Sede de sangue”. Passa longe…

Carlos Eduardo Bacellar

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Qual é a sua cor?

Um gato mágico e sua habilidade de revelar o verdadeiro caráter de quem entra em seu raio de visão. O bichano derruba as máscaras de falsidade ao maquiar seus alvos com um colorido ao estilo Blue Man Group. Cada cor do espectro corresponde a um defeito ou qualidade. Tatuada na pele como letra escarlate, aos olhos de todos, denuncia a verdadeira índole da “vítima” – do sentimento mais nobre e altruísta ao mais deplorável e mesquinho.

É com esse interessante argumento que o diretor Vojtech Jasny constrói uma amarga (mas não menos engraçada) parábola sobre a condição humana no filme “Um dia, um gato” (1963) – produção que foi nomeada à Palma de Ouro e arrebatou o Prêmio Especial do Júri em Cannes.

O argumento é mais interessante que a realização e a encenação, mas a sensibilidade do diretor pede olhar atento.

Jasny inicia seu filme sublinhando monólogo de um dos protagonistas − que é sintomático do que pretende ao radiografar a indigência de certos espíritos:

“Observar a correria da vida é sempre uma reflexão. É divertido quando se gosta de pessoas. Para isso, deve-se olhar as coisas da altura apropriada. Não tão alto como os astronautas, porque eles flutuam sem peso. Eles não têm tempo para perceber o que acontece aqui. Pouca altura e uma torre simples num povoado humilde servem, e você verá mais tragédias que nas trilogias.”

Em tempos de eleição… Já imaginaram o estrago que um gato desses faria em Brasília?

Carlos Eduardo Bacellar

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