Arquivo do mês: setembro 2010

Crítica em xeque

“[…] O trabalho crítico é isso, pensar através da escrita; escrever para entender, muito mais do que para comunicar, ou ditar (para não usar outro termo) regra, como em geral se pensa.”

Luiz Zanin

Marcelo Ikeda é, sem dúvida, um dos expoentes que pensa a sétima arte − e tudo que gira em torno dela – no país. Professor de Cinema e Audiovisual, ele transcende o quadro negro e faz (também) da blogosfera instrumento de divulgação de ideias e arena de militância intelectual pelo Cinema.

Autor do blog Cinecasulofilia, Ikeda postou por lá reflexões que questionam o status do que é produzido por uma parcela da crítica de cinema hodierna e, de quebra, o ranço catequizador que impregna as exegeses desse grupo dito “iniciado”. O desequilíbrio entre forma e conteúdo nos textos − que, muitas vezes, entrelaça propaganda, proselitismo, disputas de egos e interesses extrafilme −, torna as leituras viciadas e perigosamente parciais.

Incomodado com o que chama de “militarização da escrita”, e com o academicismo que engessa a análise estética, Marcelo reflete acerca das produções da crítica especializada – monólogos, cristalizados em dogmas, que visam a incutir no público a gramática “correta” para compreender a sintaxe da linguagem cinematográfica.

Partidários de leituras plurais, despidas de preconceitos e refratárias a doutrinações do olhar, nós comungamos com o pensamento defendido por Marcelo de que a crítica inspiradora é aquela que “’tira o chão’ do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não a que ‘o ensina o que ele deveria ter visto’”.

A republicação deste post no Doidos tem como objetivo multiplicar as dúvidas e incertezas que o professor semeia no nosso espírito crítico. E, como sublinha o autor, suas palavras não pretendem “afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico.”

Merece leitura atenta, e seus reflexos devem se estender para além do ponto final em nossa agenda de discussões.

Ikeda, o espaço é seu.

Carlos Eduardo Bacellar

A crítica (o crítico) como um barco à deriva

Como escrever uma crítica? Me incomoda o fato de que alguns críticos, quando analisam obras cinematográficas vanguardistas, o façam a partir de um texto acadêmico, rançoso. Isso por mim já é uma contradição por si, ainda mais quando se investiga um cinema contemporâneo, um cinema grávido do hoje. Uma escrita acadêmica para se defender um cinema do futuro, um cinema que desafia as possibilidades? Quero uma crítica que vá além do filme, e para ir além do filme, ela precisa naturalmente ir além das palavras.

As pessoas – e nisso incluo os próprios estudos de comunicação – ainda não conseguem perceber que para o texto ser rigoroso ele não precisa ser necessariamente acadêmico. Há uma defesa por uma “militarização da escrita”, por um “bom gosto” da escrita, que na verdade é o mesmo bom gosto academicista que recusou os quadros dos impressionistas e dos modernistas, por exemplo. É tão absurdo como se se dissesse que o cinema de Wiseman não é rigoroso porque sua câmera é trôpega. Há pessoas que escrevem sobre o cinema de James Benning como se estivessem escrevendo sobre o sétimo filme de Elia Kazan (e nem mesmo o sétimo filme de Kazan merece que se escreva desse jeito).

O rigor do texto parte do olhar de quem o escreve, e não pela “militarização da escrita”. Como se pode defender um cinema antibelicista se se utiliza uma escrita militar? Como pensar o papel do crítico? Não me interessa o crítico que vomite verdades para o leitor, me interessa a crítica que “tira o chão” do espectador, que o faz repensar o que é o filme, e não o que “o ensina o que ele deveria ter visto”. Não me interessa a crítica que “oriente”, “informe” o leitor, mas sim aquela que o “desoriente”, “desnorteie”, aquela que faça o espectador não mais saber o que é o filme que ele pensou ter visto. Uma crítica que espalhe incertezas, dúvidas.

E acredito que isso só é possível de uma forma: a de que o leitor seja um cúmplice do escritor. A crítica como um barco à deriva, “totalmente” ao léu (“totalmente” em termos). Escrever passa a ser lançar-se a uma aventura na folha de papel em branco, guiada pelos sentimentos que o filme trouxe mas como ponto de partida, e não como destino de chegada. Não me interessa a crítica como um porto seguro, e sim como um barco à deriva. O crítico escreve sobre o filme, que ele no fundo não sabe bem como é. Ele escreve para tentar decifrar. Ele então divide com o leitor as suas dúvidas, as suas angústias. Ele no fundo escreve sobre si. Ele no fundo escreve para si. Ele escreve para tentar entender, mas não consegue, fracassa. “Decifra-me ou te devoro”, e o crítico é sempre devorado pela esfinge fílmica. A boa crítica é aquela preenchida pelo fracasso, consumida pelo sentimento do crítico de não conseguir dar conta do que é o filme. Como isso é possível? Através de uma escrita trôpega, e não cartesiana, retilínea, apolínea, academicista, militar.

Toda a crítica é subjetiva, não existe um caráter científico, não existe método. Ou melhor, o único método válido para a crítica é a sinceridade, a honestidade, a franqueza. Espero que esteja claro que o que proponho para a crítica tem um sentido positivo, e não meramente niilista. Ou seja, o que venho falando evidentemente não significa que se pode escrever qualquer coisa, que se atire pelo papel em branco as palavras soltas, sem encadeamento. Evidentemente não é isso o que quero defender. Mas sim a possibilidade da crítica ser algo menos rançoso, que ela não deixa de ser rigorosa só porque fugiu do “vovô viu a uva”. O crítico deve descer do seu pedestal de “especialista” e se embrenhar na mata fechada que é o universo do filme. Deve ver o filme sentado na mesma poltrona dos espectadores, e não no camarote, convidado pelos príncipes palacianos.

A crítica não deve ser usada como palanque de interesses além do filme, isto é, discursos politiqueiros (vejam bem, “politiqueiros”, e não políticos), brigas eleitoreiras, picuinhas acadêmicas, conchavos interesseiros, floreios parnasianos, etc. A crítica deve ser “desinteresseira”, e não “desinteressada”. Ou seja, a crítica não pode ser instrumento de exercício de poder (como “quem tem a razão?”, “quem tem o discurso dominante sobre tal filme?, ou sobre “as tendências do momento”). Da mesma forma que quando digo que o crítico no fundo fala de si – ou ainda, que escreve para si – com isso de modo algum quero dizer que se faz crítica por autoanálise, por mero exercício narcisista. Entender dessa forma é tão absurdo quanto alguém dizer que os filmes-diários de Jonas Mekas são meros exercícios exibicionistas, que não interessam a ninguém a não ser o seu círculo de amigos. Ao contrário, o crítico escreve para ser lido, mas que essa leitura torne o leitor mais ativo, e não meramente passivo, ou meramente apre(e)ndendo os “ensinamentos do crítico-especialista”. Essa sim é que é uma forma narcisista e egoísta de escrita.

A que proponho, ao contrário, é uma forma livre, cuja leitura seja um ponto de partida para o leitor, que, a partir dela, formule o seu próprio filme. A crítica deve ser vista como um exercício impossível. Jornais, revistas, livros, sites, blogs, etc.: o meio de circulação da crítica é cada vez mais variado mas, se atentarmos bem, sua forma continua rigidamente cristalina: de um lado, a crítica como “entretenimento” ou “informação”; de outro, a crítica como “ciência da comunicação” (a crítica acadêmico-escolar, de caráter apostolar e episcopal, formando “seitas” e “súditos” que devem se digladiar defendendo ou denegrindo o próximo filme do diretor beltrano, mesmo que ele ainda sequer tenha sido filmado).

Já imagino que, a partir deste texto, as pessoas do meio já digam que estou acusando “beltrano, ciclano e fulano”, mas aqui não se trata de dar “nomes aos bois”. Não quero denegrir o trabalho de ninguém, mas apenas expressar minha insatisfação com o que leio sobre cinema. E não só no Brasil mas no mundo, já que muito do que se escreve no Brasil é copiado de um estilo de crítica que vem de fora, seja qual for o lado da moeda (é como os realizadores brasileiros que ou copiam hollywood ou copiam apichatpong). Se eu rotular, classificar, categorizar os veículos e os críticos em “A, “B” ou “C”, estarei fazendo exatamente aquilo que eu tento combater nesse texto.

Não quero ensinar ninguém a escrever (esse texto não pretende inaugurar um curso de “métodos como fazer uma escrita trôpega”, etc). Mas, ao contrário, esse texto pretende espalhar dúvidas, incertezas, dividi-las com o leitor. E não afirmar verdades sobre a crítica, ensinar às pessoas como se deve escrever. O máximo que esse texto pode ser é um ponto de partida, que leve a um questionamento de qual é o papel da crítica e do crítico. Se ele fizer isso, terá cumprido o seu papel.

Marcelo Ikeda é professor do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Ceará (UFC). Mantém o blog http://www.cinecasulofilia.blogspot.com. Diretor e roteirista de diversos curtas-metragens e dos longas experimentais Desertum e Êxodo.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Uncategorized

A Fox traz notícias do além

“Nosso Lar”, lançamento brasileiro da distribuidora Fox na última sexta-feira (03 de setembro), atraiu mais de 500 mil pessoas às salas de cinema entre sexta e domingo. Analistas do mercado estimam que o filme encerre a primeira semana em exibição com mais de 800 mil ingressos vendidos. É o maior lançamento do cinema brasileiro desde a retomada, lançado em 435 salas, recorde que só deve ser batido quando o comando do BOPE dominar o mercado brasileiro  com “Tropa de Elite 2”. Festejando os resultados do filme no fim de semana, Patricia Kamitsuji, Diretora da Fox no Brasil, conversou com a gente.

1. “Nosso Lar” desponta no mercado como o maior lançamento do cinema brasileiro desde a retomada. Por que a aposta arriscada? E qual a estratégia de lançamento adotada por vocês?

A aposta da Fox em “Nosso Lar” se deu há vários anos quando decidimos investir e distribuí-lo. O fato de se tornar o maior lançamento do cinema brasileiro é consequência da demanda do mercado por um filme que foi construído aos poucos. Antes de “Bezerra de Menezes”, não havia filmes brasileiros espiritualistas, mas havia no Brasil dados concretos e recentes de que o espiritualismo fazia sucesso; vide “Ghost” e “Sexto Sentido”, sucessos retumbantes no pais.

Após “Bezerra de Menezes”, lançado pela Fox em 2008, fazer mais de 500 mil pessoas com apenas 44 cópias, “Chico Xavier”, lançado pela Downtown-Sony, ser até o momento o filme brasileiro mais visto em 2010 com 3,4 milhões de espectadores, e “Nosso Lar” fazer mais de 500 mil espectadores no primeiro fim de semana, o “nicho” espiritualista virou gênero no Brasil.

A expectativa para “Nosso Lar” é de muito sucesso, e dependendo do segundo fim de semana e do boca a boca pode se tornar um blockbuster ou fenômeno.

2. “Nosso Lar” é o segundo lançamento “espiritualista” da Fox (antes foi lançado Bezerra de Menezes). Por que investir em filmes brasileiros desta temática? Aponta alguma tendência da empresa de distribuir filmes deste “subgênero”?

Um de nossos objetivos no Brasil tem sido “construir plateias”, ou seja, co-produzir filmes para crianças e jovens (tivemos recentemente “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes”, vamos lançar “Eu e o Meu Guarda Chuva”, estamos na fase de produção de “Minhocas”) e também buscar nichos como aconteceu com “Bezerra” e “Nosso Lar” – trazer público que não frequenta cinema atualmente pode elevar o potencial cinematográfico do Brasil!

Em 2004, a Fox distribuiu em alguns países o filme “Paixão de Cristo”. No Brasil foi um grande sucesso. Foi visto por quase 7 milhões de espectadores e grande parte não frequentava os cinemas. Mais uma vez, aqui dados concretos! Desta forma, a grande motivação da gente é colocar nos cinemas os filmes que muita gente quer assistir, mas que ainda não tinham chegado ao mercado.

3. Os veículos de comunicação têm publicado que “Nosso Lar” foi feito sem incentivos fiscais, entretanto no site da ANCINE (http://bit.ly/a2tYwD) mostra captação de R$ 2,5 milhão. A co-produção da Fox se solidificou apenas via Art 3o (mecanismo de incentivo fiscal das empresas distribuidoras internacionais)?

Não apenas. Quando uma distribuidora co-produz um filme há um grande investimento antecipado de “P&A” (custos de comercialização para o lançamento). Já houve casos que não recuperamos este investimento pelo fato de a bilheteria não pagar sequer os investimentos em cópias e campanha de lançamento. Entretando, para mim, o principal investimento que fazemos é no capital humano. A Fox respira filme diariamente….em cada mesa há alguém trabalhando uma fase de cada filme, desde leitura de roteiro, definição de estratégias, levantamento de números, busca de novidades, programação, relatórios. Quando entramos numa co-produção é de “corpo e alma”! Colocamos toda nossa estrutura para batalhar pelo sucesso do filme nacional.

4. “Avatar” e “Alvim e os Esquilos 2” foram sucessos nas férias de verão. O resultado, principalmente nas exibições 3D, superaram as expectativas da empresa? Como foi “ganhar” o mercado das férias e emplacar estes títulos?

“Avatar” foi um fenômeno mundial. No Brasil só não fizemos mais porque não tínhamos mais salas 3-D.

“Alvim 2” foi um sucesso no Brasil, a segunda maior bilheteria da Fox Internacional (todos os mercados menos o norte americano) e possivelmente o maior público do mercado internacional! A estratégia para este gênero é sempre fazer de tudo, presença massiva.

5. No que tange ao cinema brasileiro, dentre as majors, a primeira década dos anos 2000 foi marcada pela hegemonia da Sony na co-produção e distribuição destes títulos. A partir de “Se eu fosse você”, a Fox vem assumindo liderança no share de público nacional. A que se dá este resultado e como a empresa vislumbra sua associação ao cinema brasileiro nos próximos anos?

Está vinculado a co-produzir e distribuir produtos que as pessoas queiram assistir!

Precisamos saber o que as pessoas querem assistir no Brasil. Há vários nichos que não são atendidos pelas produções internacionais e há outros gêneros consagrados por aqui, como comédia e o subgênero comédia romântica. Precisamos de bons roteiros para produzir bons filmes de todos os gêneros e desenvolver nossa plateia!!

Helena Sroulevich (indo ao Leblon 1 para a sessão de “Nosso Lar” às 16h30)

2 Comentários

Arquivado em Helena Sroulevich

Pornô Cult

Não recomendado para menores de 18 anos, o afrodisíaco “Intimidade” (2001), do diretor francês Patrice Chéreau, trata da dissolução promovida pelo subproduto do tesão: o apego. Servido com ostras, avelã e chocolate estéticos, o filme atiça a libido apostando em cenas tórridas − que dariam inveja a qualquer produção “educativa” – para radiografar vazios existenciais.

Jay (Mark Rylance) é um barman entediado que tem compromisso cativo em sua agenda toda quarta-feira à tarde. Ele e a misteriosa Claire (um convite à luxúria chamada Kerry Fox) se entregam em silêncio aos prazeres da carne. Os dois preenchem seu tempo juntos (e sublimam frustrações) apostando no gozo efêmero como panaceia para uma rotina morna.

Jay, que acaba de largar a mulher – abandonada com dois filhos a tiracolo −, credita àqueles instantes de prazer o efeito analgésico que alivia as dores da alma, alfinetada por uma existência medíocre.

Ele só não esperava que a linha que separa o sexo casual desapegado da afeição − atrelada a cobranças e explicações inevitáveis − fosse tão tênue.

Cada um deles entende a semântica do verbo querer de forma distinta: Claire quer alguém, já Jay quer (a) alguém. Naquele querer está implícito o sexo descompromissado, enquanto neste algo mais profundo que o desejo – que arrefece após a primeira ejaculação − começa a aflorar.

O acordo tácito entre os dois é rompido (e o pragmatismo vai para o espaço) pelo carinho que Jay começa a nutrir pela mulher, sentimento que emerge disfarçado de curiosidade.

O barman começa a investigar a vida de Claire, que passa de objeto sexual a uma pessoal com história. E a acepção dessa palavra, determinante do sujeito, envolve aspirações, aptidões, defeitos, qualidades e, para azar de Jay, uma família.

Ele se aproxima do núcleo de Claire para tentar entender as motivações de sua amante, e identificar quem realmente é aquela mulher por quem ele aos poucos se perde. Em sua desastrada empreitada, Jay acaba criando ligações instáveis como nitroglicerina com o marido e o filho daquela que intumesce seu falo e sua imaginação.

Sem saber separar atração de razão (o que exponencia a força dos laços de carinho), os dois amantes são asfixiados pelas convenções – para as quais fidelidade e moralidade são conceitos entrelaçados e absolutos.

Kerry Fox, excretando feromônios de carência, interpreta uma mulher dividida entre os votos matrimoniais e a abstinência do corpo. E Mark Rylance um homem assombrado por uma decisão penosa, que busca novamente sentido em uma relação.

Patrice Chéreau, por meio da atuação de sua protagonista, relativiza a importância da fidelidade. Ele nos mostra que felicidade e mera satisfação podem ser sinônimos em determinados contextos, que as dimensões de responsabilidade e irresponsabilidade podem ser conjugadas − se pele e contrato estão fora de sintonia −, e que muitas vezes a conformação do espírito é complexa − e deve ser absolvida de julgamentos moralistas.

Transcendendo a mera conjunção carnal paliativa, “Intimidade” é uma narrativa acerca de hiatos na satisfação afetiva que, por conveniências inusitadas, são preenchidos por eflúvios que embaçam o discernimento – e trazem o êxtase e o sofrimento em dimensões paralelas.

O filme — uma das novidades que a Lume Filmes coloca no mercado de locações — teve sua classificação indicativa restringida por não ter condições materiais de concorrer ao Oscar de melhor figurino, se é que vocês me entendem.

Carlos Eduardo Bacellar

4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

El Último Comandante

El Último Comandante conta a história de Paco Jarquín, o mais combativo e carismático comandante da Revolução Sandinista (da Nicarágua), que, ao contrário de seus companheiros de combate, preferiu renegar seu passado glorioso para viver no anonimato como instrutor de dança.

Foram necessários 14 anos para que o filme, dirigido por Isabel Martínez e Vicente Ferraz, começasse sua trajetória na telona. A obra chega aos cinemas da Nicarágua agora em setembro e às terras costa-ricenses em outubro. Ainda sem distribuição garantida no Brasil, o filme é aguardado na sessão Latina do Festival do Rio, depois de ter conquistado o prêmio de melhor ator no Cine Ceará deste ano.

Entre um respiro e outro, Vicente respondeu a algumas de nossas curiosidades acerca da obra, deixou seu recado ao potencial público e adiantou: “Na Nicarágua, o filme já causa polêmica por ser crítico aos Sandinistas que estão no poder. Mas os velhos e bons Sandinistas, aqueles que estão na oposição ou são perseguidos, nos apoiam.” Confira o nosso papo com ele.

1.    Por que contar a história do Comandante Paco Jarquin em cinema?

 

Eu e a Isabel tivemos vivências diferentes da Revolução Sandinista, mas  que em um determinado momento se cruzaram.

 

Apesar de nascida na Costa Rica, Isabel viveu todos aqueles anos na Nicarágua. Seus pais foram desde cedo colaboradores da FSLN em San José e depois foram para Manágua ajudar o governo revolucionário. Passou sua juventude acompanhando e vivendo a Revolução de perto, seja na alfabetização, nas milícias ou nos cortes de café. Muito para uma jovem de uns 19 anos.

 

Para mim, a Revolução Sandinista foi a última revolução socialista no mundo, no sentido clássico de um levante popular e na mudança radical de um regime e sistema econômico. Se outras gerações tiveram a Revolução Cubana como modelo, pra minha foi a Sandinista. Lembro que na eleição de 89 Lula e o PT falavam do exemplo da Nicarágua, isso para ficar apenas aqui pelo Brasil…

 

Meus anos 80 foram vividos intensamente torcendo pelos “Nicas” e sua jovem revolução, que era muito mais pluralista e livre que as anteriores. Mas, por ironia do destino, também foram anos marcados pelo Reagan, Thacther, Lech Walesa, Papa…enfim, a volta dos conservadores em vários países! E, por conta disto, essa revolução, desde o início, sofreu uma guerra implacável por parte do governo americano, algo muito pior que Cuba sofreu em seus 50 anos de socialismo. A finalidade era abalar a economia e a credibilidade do governo, além de que cooperativas agrícolas eram queimadas, escolas, destruídas, bloqueios de abastecimento, enfim, um boicote total  à sua economia. E mais de 80.000 jovens morreram nesta guerra injusta.

 

Por outro lado, o mundo todo se solidarizou. Gente de todas as partes viajavam à Nicarágua para apoiar o processo revolucionário, principalmente Governos e a então Social-Democracia europeia. Talvez por isso teriam matado a Oloff Palm primeiro ministro Sueco?! E naquele mesmo tempo me lembro, com inveja, de uma brigada de jovens que saíram do Rio para colher café lá. Ufa…estórias antigas… 😀

 

Bem… depois disso fui à Cuba estudar cinema e Isabel também. Estávamos como outros estudantes latino-americanos e de outras partes do “Terceiro Mundo” (ainda não tinha caído em desuso esse termo). Naquela época, vimos a caída do Muro de Berlim, a URSS se esfarelando, os Sandinistas perdendo as eleições depois de 11 anos de guerra com os Contras financiados pela CIA.  E Cuba começando o “período especial” !!!!  Tudo muito triste…

 

E voltamos juntos a Manágua algum tempo depois, onde vimos o fim de um sonho e o começo de um pesadelo. Sem falar, de termos visto a Contra no poder e acompanhar de perto o que foi chamado de Piñata: a apropriação de bens do Estado por membros do Governo Sandinista, muitos deles, ex-comandantes. Saque geral!! Nos sentimos totalmente traídos!

 

Isso foi há quase vinte anos e essa foi a grande marca que levamos da nossa juventude: o fim das utopias!

 

Tudo isto levou a uma reflexão. A ideia era fazer um filme que fosse uma crônica bem humorada disso tudo, e por isso inventamos a personagem do décimo comandante, (apesar de na realidade ter existido apenas nove) e por isso se chama Paco Jarquim.

2. A Revolução Sandinista foi um movimento urbano revolucionário que influenciou resistências e acontecimentos importantes, não somente na América Central, como em todo o continente latino-americano. Como você percebe a relevância do “El Ultimo Comandante” na atual conjuntura global, e no atual momento político brasileiro?

Não temos nenhuma pretensão quanto a relevância do nosso filme. Como falei anteriormente, é apenas uma prestação de contas com o nosso passado e também um releitura do processo Nicaragüense. Lembre-se que Daniel Ortega (FSLN) é o atual presidente da Nicarágua e, como uma grande ironia do destino, chegou ao poder apoiado pelos antigos adversários: Somozistas e ex-Contras e etc.  E ainda com discurso Bolivariano!?

 

Acho que essa história tem muito a ver com a esquerda no poder hoje em dia na América Latina. Ter apenas um projeto de poder, sem uma ideia, um sonho. É muito triste para a minha geração saber que Chávez é o modelo de governo Socialista. Isso para mim é uma afronta!

3. Como o filme foi financiado e quais dificuldades foram enfrentadas por vocês no período de captação de recursos?

O Ultimo Comandante foi feito com unhas e dentes. Foram 14 anos tentando terminar o filme. Fazer cinema na América Central, e naquela época que começamos, era uma loucura!!! Por isso tivemos que interromper as filmagens por 10 anos. Terrível. Recebemos apenas pequenas ajudas de ONGs e alguns investidores locais. Mas foi fundamental e decisivo o apoio do Fundo Cinergia, uma espécie de mini Ibermedia para America Central e Caribe. Depois tivemos o apoio no Brasil da Teleimage e dos estúdios de som Play it Again. Sem falar que contarmos com a participação de Damián Alcazar como protagonista, um dos maiores atores latino-americanos do momento que desde sempre apoiou a ideia do filme.

 

Acho que quem está lendo não é capaz de acreditar que um filme possa demorar tanto tempo para ser feito. No Brasil ele se chamaria um BBBO.

4. Se pudesse deixar um recado para o potencial público, qual seria?

Que tenham curiosidade de conhecer um pouco da história da Revolução Sandinista contada de um ponto de vista humano e com humor.

Agora é com a gente. Vamos prestigar no Festival do Rio, galera! Merda ao Vicente e à Isabel. 😉

Helena Sroulevich


3 Comentários

Arquivado em Helena Sroulevich

Série Faróis ganha mostra na Caixa Cultural e no Oi Futuro Ipanema, de 6 a 19 de setembro, com curadoria de Carlos Alberto Mattos

Alvo de cobiça da comunidade cinéfila, as cartas de navegação estética de documentaristas consagrados do Cinema Brasileiro – mapas que os auxiliaram a traçar rotas consistentes na traiçoeira, mas não menos instigante, linguagem cinematográfica que erige suas obras −, muitas vezes resvalavam na imprecisão do desconhecido e no comedimento da insegurança.

Esses documentos metafóricos, verdadeiros guias do discernimento autoral, precisavam ser iluminados com referências para que as produções dos diretores não se chocassem nos rochedos da mediocridade e soçobrassem no esquecimento.

São algumas dessas referências que o público poderá catalogar na Mostra Faróis do Cinema – Documentário Brasileiro, que será realizada de 6 a 19 de setembro, na Caixa Cultural (RJ) e no Oi Futuro Ipanema*.

Com curadoria do jornalista, pesquisador e crítico de cinema Carlos Alberto Mattos, a mostra retomará a série Faróis, dando nova luz ao trabalho que, entre abril de 2007 e abril de 2008, foi publicado no DocBlog, espaço de discussão sobre documentários que o crítico mantinha no Globo Online.

− O que acho mais interessante nesse projeto é ampliar a discussão para fora das autorreferências com que os cineastas brasileiros costumam discutir seus trabalhos – fala Carlos Alberto.

Na série precursora − que inspirou uma subseção da nova revista Filme Cultura (dentro da seção “E agora?”) −, 39 dos mais importantes documentaristas brasileiros tiveram traçado um rápido perfil e apontaram os cinco filmes que consideravam mais importantes na formação do seu olhar de cineasta.

Para tanto, valia listar todo tipo de filme: documentários ou ficções, filmes brasileiros ou estrangeiros, de qualquer duração ou formato. Ou seja, cinco faróis de navegação pelas águas revoltas do cinema.

Para cada filme escolhido como um de seus “Faróis”, eles escreveram pequenos comentários, alguns especialmente inspirados.

Dos 39 documentaristas do projeto original, 7 participarão da mostra (com seus perfis devidamente atualizados), aos quais de juntaram mais 3 cineastas que debutam com seus Faróis. São eles: Silvio Da-Rin, Sylvio Back, Sandra Werneck, Bebeto Abrantes, Eduardo Coutinho, Vladimir Carvalho, Jorge Bodanzky, Eryk Rocha, Maurice Capovilla e Octavio Bezerra.

Segundo o curador, a relação entre o criador e o consumidor de filmes que existe dentro de cada um deles é o foco dos Faróis.

− Creio que isso pode jogar novas luzes sobre os documentários brasileiros, situando-os numa linha de diálogo com filmes estrangeiros, filmes de ficção etc. – comenta Mattos.

Ele ainda destaca o principal atrativo da mostra, que a difere do projeto seminal.

− O principal é que os pequenos comentários publicados no blog podem ser estendidos e aprofundados numa conversa pessoal. O que na palavra escrita se resumia a um comentário breve poderá agora ser ampliado pela fala.

Os 10 documentaristas participantes se reunirão em duplas para conversar com o público sobre seus filmes e também sobre suas principais admirações e influências, ou seja, os seus Faróis. Os encontros serão sempre após a sessão das 18h30min, na Caixa Cultural.

O curador comenta que a mostra Faróis, assim como a série homônima, pretende ser uma contribuição para melhor compreendermos o documentário brasileiro contemporâneo, suas linguagens, escolhas e motivações.

− Minha expectativa é que essa rede de referências ajude a criar um novo entendimento do documentário brasileiro, pelo menos em relação aos realizadores que participam da mostra. Eles representam diversas tendências marcantes da produção documental no país – diz o crítico.

Projeto incubado na blogosfera

Afeito às novas tecnologias da informação, Carlos Alberto Mattos, autor do blog Rastros de Carmattos, espaço privilegiado para quem é apaixonado pela sétima arte, encerra nosso papo chamando a atenção para a origem virtual da mostra e seus desdobramentos para o mundo real.

− Interessante notar que este é um evento nascido de um blog. Isso demonstra a força da blogosfera, na medida em que ela pode gerar eventos e reflexões que saltam da internet para o offline da atividade cultural. Parece-me algo típico dos tempos atuais.

Mais informações e a programação completa da mostra podem ser conferidas em: www.faroisdocinema.com.br

Carlos Eduardo Bacellar

* Haverá sessões nos dois espaços. A abertura (homenagem a Mário Carneiro) e o encontro com os novos diretores dos curtas da Sessão Novas Luzes serão no Oi Futuro Ipanema. Já os encontros com os documentaristas da série serão todos na Caixa Cultural.

1 comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar