Arquivo do mês: outubro 2010

*Worst-case scenario: tentando sobreviver ao dia 31 de outubro com Michael Myers na sua cola

Ao eterno escoteiro @BearGrylls, o MacGyver do século XXI, que nos faz continuar sonhando com grandes aventuras: a chama se mantém acesa

“Com Michael Myers, por meio da sinonímia, aprendi o verdadeiro significado da palavra medo.”

Este que vos escreve

Já imaginou a pior situação? Saberia o que fazer caso encarasse a morte de perto? Utilizando técnicas de sobrevivência e meu instinto cinéfilo, vou mostrar a você (seja homem ou mulher) o que fazer se numa situação cotidiana acontecer o pior. Porque a diferença entre sobrevivência e catástrofe está em fazer a escolha certa.

O cenário “trevas” ao qual, hipoteticamente, submeterei você começa a ser arquitetado numa véspera de Dia das Bruxas, quando a sua família resolve visitar parentes distantes em Haddonfield − cidade **fictícia [ufa!] situada no Estado de Illinois, USA −, e arrastá-lo junto.

Para quem não sabe, Haddonfield é a cidade natal de Michael Myers (1957 – ?), assassino serial criado por John Carpenter e Debra Hill, ícone da franquia de terror “Halloween”. O local é o epicentro macabro de mortes por armas brancas nos EUA. Todas concentradas na mesma data. Nem a família Manson visitaria a cidade no dia 31 de outubro.

Você, inocente (quem sabe sobre o efeito de drogas psicotrópicas), embarca manso como um novilho rumo ao abatedouro. E só percebe que está prestes a dar seu último suspiro quando já é tarde demais.

Se algum dia estiver nessa situação, aqui vão alguns pontos que é melhor ter em foco. Dificilmente eles irão salvar a sua vida – já que você não merece, uma vez que foi estúpido o bastante para visitar a cidade errada na data errada – mas podem adiar seu esquartejamento.

Bem-vindo ao pior dos casos:

1)Se conseguir perceber a roubada em que irá se meter a tempo, fique o mais longe possível de Haddonfield no dia 31 de outubro. Invente qualquer coisa. Se sua família insistir em viajar, é preferível eles a você. É melhor passar o Dia das Bruxas no Asilo Arkham, sem a companhia do Batman, do que na cidade em questão;

2)Caso não seja possível evitar Haddonfield, nunca, em hipótese alguma, se aproxime da residência da família Strode. Aliás, é melhor não ficar dentro de residência alguma. Dirija-se a um Shopping Center e fique no meio da praça de alimentação, de preferência embaixo de alguma mesa, armado;

3)Caso tenha a impressão de estar sendo seguido, mesmo em plena luz do dia, tenha certeza de que está mesmo. Michael Myers adora o joguinho de gato e rato com as suas vítimas. E ele não teme a claridade, ao contrário de muitos psicopatas, que preferem a escuridão;

4)Se for inevitável travar contato com Michael Myers, entre em pânico. Seria pedir demais o contrário. Mas respeite os outros e preserve sua dignidade usando fralda geriátrica ou uma bolsa coletora ligada diretamente ao seu sistema excretor para disfarçar os efeitos colaterais do seu descontrole emocional. Não iremos pensar mal de você. Se mijar todo de medo sim, pois quem “tem” tem medo. Mas com decência;

5)Chamar a polícia de nada vai adiantar. Quando as forças da lei chegam a tempo de impedir algum massacre, elas sempre entram na casa errada, que sempre está ao lado da residência em que Michael Myers está treinando seus dotes de açougueiro em vítimas indefesas;

6)Quero dizer, tentar chamar por socorro se os telefones estiverem funcionando (eles quase nunca estão em filmes de terror) ou se alguém, do outro lado da linha, caso a ligação se complete, realmente acreditar que você está prestes a ser massacrado. O que geralmente não acontece, porque quem deveria socorrê-lo está mais ocupado com uma rosquinha ou com a telenovela;

7)Falando em aparelhos de televisão, 31 de outubro é uma péssima data para colocar os filmes de terror em dia. Os barulhos produzidos pelos atores abafam os gritos de desespero das vítimas de Michael Myers;

8)Recorrer às forças de segurança privada é outro erro. Os zeladores, vigias, seguranças, porteiros, bombeiros e policiais ganhando um extra com atividades extracorporação… Esses são sempre os primeiros a serem estripados pelo maníaco, passados na faca. E mais: Michael Myers vai sempre colocar os cadáveres em locais nos quais eles possam assustá-lo – produzindo chiliques que revelarão a ele sua exata localização −, como armários, refrigeradores, atrás de portas e cortinas. Ou seja, fique longe deles. Infelizmente, esses pobres coitados nada podem fazer para ajudá-lo;

9)Ao ser perseguido, evite a insegurança do lar. Casas são como tocas de coelho para uma cobra. E Michael Myers é a cobra. A anaconda do mal. O melhor a fazer é procurar um lugar movimentado (vide item 1), onde o doente mental possa encontrar uma maior variedade de vítimas e perder o interesse em você (temporariamente). O lado bom (para você) é que Myers não é seletivo. Quem parar na frente dele será operado com faca-espada Ginsu no ato, sem anestesia;

10)Não adianta correr do Michael Myers. Mesmo que você seja o Frank Caldeira, só vai gastar energia à toa. Mesmo andando na velocidade de um ancião, o psicopata vai sempre te alcançar. Sempre;

11)Não tente dialogar com o assassino. No entendimento de Michael Myers, todos são cadáveres. A única diferença entre você (ainda respirando) e um morto (de fato) é que você é um morto que (por enquanto) ainda fala e se mexe. Não há nenhum pingo de emoção dentro dele. Myers é destituído de qualquer senso de moral. Em sua cabeça doentia não há valores de certo e errado, bem e mal. Suplicar por sua vida só vai tornar seu fim mais patético;

12)Abstinência pode salvar sua vida. Escolha outro dia para fazer sexo. Além de ser uma distração, Michael Myers gosta de dilacerar jovens antes, durante e após o coito. Controle seus hormônios e fique atento. A última coisa que quer é aparentar frigidez ou broxar ao se deparar, durante o ato, com um mascarado de 2m de altura, avaliando sua performance com o olhar desprovido de piedade de um tubarão-branco e empunhando uma faca — na verdade ele estará refletindo sobre a melhor maneira de atravessar os dois corpos com somente uma estocada. Confundir a dor lancinante de uma facada atravessando seu esterno com um orgasmo não deve ser uma experiência interessante. Você vai ter tempo de sobra para dar vazão às suas necessidades se (tiver muita sorte e) conseguir sobreviver. Concluindo: aquela menina gatíssima, deusa loira de Ipanema, que divide as 24h do seu dia entre academia e salão de beleza, ou aquele moreno sarado cheio da grana do Alto Leblon, que ganhou do pai de aniversário um BMW X6 para percorrer 1km até a PUC, te convidou para uma festa do cabide? Esqueça;

13)Michael Myers não é à prova de balas, mas quase. Depois de atirar, atire mais um pouco. Depois, termine de descarregar o pente na cabeça dele. Quando as balas acabarem, utilize a arma de fogo como porrete até seus membros ficarem dormentes. Provavelmente ele ainda assim vai levantar, mas você poderá utilizar-se da ausência de sensibilidade dos braços para receber as primeiras facadas e não sentir dor;

14)Se você foi obrigado a partir para as vias de fato com o monstro e, acidentalmente, numa bênção do destino, conseguir derrubá-lo, mesmo que ele não esteja se mexendo é imperativo que você não interrompa o linchamento até que Myers se transforme em purê de batata, o que pode durar algumas horas. Um erro que muitos cometem, após miraculosamente derrubar o monstro, é sair correndo em desespero;

15)Uma vez encurralado, nunca o perca de vista. Michael Myers possui a incrível capacidade de se “teleportar”. Num piscar de olhos ele não está mais onde você acha que ele está. Você está sempre mais perto da lâmina da faca do que suspeita;

16)Michael Myers é um psicopata assassino, mas não é burro. Não tente enganá-lo com artifícios medíocres, como se ele fosse um zumbi da série The walking dead. O melhor a fazer é atraí-lo em direção a um reator nuclear e explodir a usina inteira com ele dentro;

17)A faca é o instrumento de trabalho de Myers, mas ele não se restringe a ela. Ele é uma espécie de MacGyver na arte de utilizar a criatividade para modificar a função de objetos, animados e inanimados. Além disso, Myers se orgulha de nunca ter matado ninguém com arma de fogo. Bom, pelo menos no sentido ortodoxo. Seria muito fácil, principalmente nos EUA, que possuem mais armas de fogo que habitantes por metro quadrado. Michael Myers gosta de desafiar nossas expectativas: até um cãozinho poodle, uma almofada ou uma garrafa pet podem servir como armas de destruição em massa. Leve isso muito a sério;

18)Dormir?! Em noite de Halloween?! Em Haddonfield?! Você só pode estar brincando! Mesmo que não estejamos falando sobre “A hora do pesadelo”… Quer facilitar o trabalho do Michael Myers?! Se você nunca pensou em correr uma maratona noturna, a hora é essa! Olhos abertos;

19)A situação descrita no item 14, pura sorte de principiante, provavelmente não vai se concretizar. Dito isso… Não tente fazer na mão com Michael Myers. Muitos tentaram. Muitos sucumbiram. Nem Steve Seagal, nem Rickson Gracie, nem Anderson “Spider” Silva, nem Vitor Belfort, nem o Bruce Lee, nem o Jason Voorhees, nem o Hulk… Nenhum deles conseguiria. Talvez o Chuck Norris… Mas, se eu fosse ele, não arriscaria. Aliás, Michael Myers, se tivesse as ideias no lugar, certamente seria campeão de MMA. Por causa de seus distúrbios psicológicos, nenhum patrocinador quis arriscar investir nele. Após matar seu oponente e o juiz, Myers certamente desceria do octógono e começaria a massacrar a plateia. Isso não é nada bom para a imagem do esporte;

20)Gritar por socorro ajuda a aliviar o estresse, mas ninguém vai te ouvir. Em Haddonfield, as ruas são desertas e escuras — marca registrada de todo filme de terror que se preze –, principalmente à noite. As casas parecem cemitérios. Muitas delas, graças ao trabalho de Michael Myers, são mesmo;

21)As garagens das casas de subúrbio americanas são paióis de armas para Michael Myers. As ferramentas domésticas de jardinagem e mecânica são tão eficazes nas mãos do psicopata quanto uma AR-15. E acredite, às vezes é melhor ser varado por uma saraivada de balas. Fique longe desses locais macabros;

22)No Dia das Bruxas fica mais fácil Michael Myers se mesclar no meio de multidões fantasiadas. Para complicar, a máscara que o doente usa é um adereço de Halloween encontrado facilmente em lojas especializadas. Como prevenir é melhor que remediar, não se aproxime de ninguém fantasiado com mais de 1,70m. Pode ser a última pessoa que você irá encontrar;

23)Postos de gasolina são paradas obrigatórias para Michael Myers. Sempre que ele escapa de algum sanatório e parte em sua sanha assassina em direção a Haddonfield, duas ou três almas desavisadas vão para o além por meio do gume da faca de Myers nesses locais;

24)Michael Myers é sinônimo de muito sangue e muitas vítimas lotando as emergências de hospitais. Myers adora visitar hospitais — é atraído para esses locais como um urubu por carniça; como um vampiro por sangue –, já que ele detesta deixar trabalhos incompletos, mas corpos não;

25)O Dr. Loomis está sempre atrás de seu paciente assassino fujão. É o único sujeito do mundo sem nenhum senso de autopreservação. Só que ele sempre chega tarde demais aos locais de chacina. Trocando em miúdos: pode parecer paradoxal, mas é uma boa ideia ficar perto do doutor, que é a pessoa menos propensa a cruzar o caminho de Myers, apesar de sempre querer o contrário. Em seu revisionismo autoral da trama hemorrágica, Rob Zombie acabou com a mística em torno da loomisluck esculhambando o psiquiatra em “Halloween II” (2009). A gente só perdoa por causa de Sheri Moon Zombie, a deliciosa esposa do diretor. Felizmente, desde “A casa dos mil corpos” (2003) Rob Zombie tenta emplacá-la como atriz. Que continue tentando! Mesmo assim, o conselho ainda vale. A faca não vai cair duas vezes no mesmo lugar. Bom… Com Myers ela cai várias vezes nos mesmos lugares… Quero dizer o seguinte… Esconda-se no túmulo de Loomis. Se não estivermos falando de uma Guerra Mundial Z, com zumbis no topo da cadeia alimentar vagando atrás de carne humana e tendo seus crânios esmagados pelo psicopata, o cemitério é o último lugar em que Myers irá procurar por vítimas. Caso você dê azar e tope com ele entre as covas, pelo menos já estará no lugar certo — vai facilitar o processo de sepultamento e economizar a grana da família no translado do corpo (ou do que sobrar dele);

26)Babás têm um alvo imaginário desenhado no meio da região abdominal. Michael Myers adora fazer sashimi com os intestinos delgados delas. Mesmo que elas sejam gostosas, e geralmente são, evite a proximidade com a classe no dia 31 de outubro – caso você seja um macho heterossexual (ou uma fêmea homossexual) com tesão, obviamente. Se for uma mãe em apuros, não por causa das toneladas de fraldas que a sufocam, mas por estar sendo caçada por Myers, utilize a babá como isca. Deixe ela tomando conta de um boneco — de preferência Chucky, o brinquedo assassino; ele e Michael Myers vão se entender bem — na casa A e corra com seu filho para o bunker Z;

27)Um erro clássico que as vítimas cometem em filmes de terror – e em “Halloween” não é diferente – é correr para o andar de cima das residências, em vez de deixar o local pela porta da frente. Agora, me fale sinceramente… O que você pretende aumentando voluntariamente sua distância do solo? Não bastassem as forças demoníaco-psicóticas que impulsionam Myers, você ainda quer municiá-lo com a força da gravidade?! Se você não conseguiu levar o item 2 ao pé da letra, pelo menos tente ser inteligente e não fuja para terreno mais alto. Não estamos falando de um filme de guerra. A estratégia aqui é fugir pelo sistema de esgoto, se for possível;

28)Michael Myers possui habilidades ninja, que o tornam algo próximo da entidade demoníaca da franquia “Atividade paranormal”. Ao contrário do suspense psicológico de “AP”, em que nada se vê mas tudo acontece, em “Halloween” tudo deve ser visto e, mesmo assim, é bem provável que aconteça… o pior. Myers está numa janela, de repente não está mais. Quase um ilusionista. Criss Angel deve morrer de inveja. Se você acha que avistou, mesmo que por uma fração de segundos, um lençol ou cortina balançando ao vento nas janelas de uma casa, não vá conferir se era isso mesmo. Não banque o herói (ou a heroína) tentando exorcizar o local com sua ousadia. A magia de Myers é mais forte que a sua, acredite. Se o psicopata de Carpenter fosse inserido no primeiro filme de “AP”, não haveria uma continuação;

29)Apesar de ter passado a maior parte da sua vida num sanatório, Michael Myers domina habilidades comuns aos socializados, como a capacidade de conduzir um automóvel. Carros nas mãos dele se transformam em Caveirões. Se notar que algum veículo suspeito persegue você a menos de 30km/h pelas ruas de Haddonfield, siga as instruções do item 4;

30)Se estiver escutando a música tema do filme lembre-se: você não está numa balada emo curtindo o som do DJ Janot. Comece a fazer suas preces. Em voz baixa, para evitar sua detecção imediata;

É claro que a trilha clássica não poderia ficar de fora deste post:

31)Michael Myers e apagão são duas faces da escuridão com semânticas diferentes. Sempre vai faltar luz nos locais de ataque. Portanto, uma boa ideia é carregar alguma fonte de iluminação a tiracolo. Se você acha melhor morrer no escuro (que hora para pensar em esconder o desmembramento de sua imagem…), desconsidere esta recomendação;

Todas as circunstâncias estão contra você, mas pense positivo. Dia das Bruxas só acontece uma vez por ano. Seja criativo e talvez consiga manter suas tripas no lugar. Caso você consiga sair de Haddonfield respirando, em um só pedaço, terá 364 dias para juntar dinheiro e viajar para o Japão no próximo 31 de outubro. Vai por mim, é melhor encarar a maldição do folclore japonês de “O grito” (Takashi Shimizu, 2004) do que Michael Myers.

O xerife que confeccionou este cartaz está mais doente que Michael Myers

Radiografando “Halloween”:

Halloween – A Noite do Terror (1978)

John Carpenter

Halloween II – O Pesadelo Continua (1981)

Rick Rosenthal

Halloween III – A Noite das Bruxas (1982)

Tommy Lee Wallace

Halloween IV – O Retorno de Michael Myers (1988)

Dwight H. Little

Halloween V – A Vingança de Michael Myers (1989)

Dominique Othenin-Girard

Halloween VI – A Última Vingança (1995)

Joe Chapelle

Halloween H20 – Vinte Anos Depois (1998)

Steve Miner

Halloween – Ressurreição (2002)

Rick Rosenthal

Halloween: O Início (2007)

Rob Zombie

Halloween II (2009)

Rob Zombie

Carlos Eduardo Bacellar

*Colaborou neste post o publicitário e músico @jasomcox, amigo de hoje e sempre.

**Antes de alguém chiar… Existe uma Haddonfield nos EUA, localizada em Nova Jérsei. Foi lá onde nasceu Debra Hill (1950-2005). A cidade homônima, da franquia Halloween, situada no estado de Illinois, é uma invenção dos dois criadores — Carpenter e Hill.

Estamos interessados em abrir uma agência de turismo especializada em promover passeios temáticos para Haddonfield, no dia 31 de outubro. No pacote está incluído um tour pelos locais de massacre. Você pode colaborar adquirindo nossas camisetas personalizadas. Parte da verba será revertida para o atendimento médico e psicológico de nossos clientes (os que retornarem vivos de modo a poder usufruí-lo, é claro):

Só quem é fã sabe por que o coração bate mais forte… E não só de medo.

Até o Mario aderiu:

Espero que depois dessas informações de segurança, para casos de emergência, você consiga dormir.

Faca na abóbora!!!

[As artes utilizadas neste post — cuja fonte principal é o site deviantart — foram pinçadas da Internet. Elas são fruto do trabalho de artistas, anônimos ou não, que por um motivo ou por outro resolveram deixar seus registros sobre essa figura aterrorizante do cinema, fonte de medo e fascinação, chamada Michael Myers]

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A suprema (in)felicidade

[…] O que eu quero é trazer sentimentos universais que já estavam no passado para o primeiro plano. Por isso abro o filme com um verso de Carlos Drummond de Andrade que diz: “As coisas findas, mais que lindas, essas ficarão”. Levo à tela sentimentos de sempre […]

Trecho da entrevista que Arnaldo Jabor concedeu ao jornal O Globo, veiculada em 29/10/2010

“A suprema felicidade”, soluço estético (tardio) provocado pelas lembranças  − decompostas por fungos da experiência subjetiva − de Arnaldo Jabor, destila poesia, mas esta não encontra ressonância no trabalho de Carlos Drummond de Andrade, e sim na prosa fatalista, amarga e cética do Nobel português José Saramago.

No livro “A viagem do elefante” (2008), Saramago constrói uma metáfora sobre a inutilidade da vida ao narrar as desventuras de um paquiderme numa jornada pela Europa. No fim, o entendimento de que, apesar de todos os esforços, não foi possível tornar a vida algo melhor do que ela foi.

Em seu novo filme, que marca o término de um hiato de 24 anos, o diretor de “Eu sei que vou te amar” (1986) costura com a linha puída da memória retalhos de diferentes épocas da vida de seu “elefante” Pedro – o Antoine Doinel de Jabor −, interpretado pelo trio Caio Manhente (aos 8 anos), Michel Joelsas (13 anos) e Jayme Matarazzo (18 anos).

A influência do pensamento de Saramago sobre Jabor (mesmo que inconsciente) é maior do que o cineasta pode imaginar – e vai além dos traços de ironia fina e humor negro encontrados em ambas as obras. Desencantado com o mundo que nos cerca, o que fica patente em suas crônicas e comentários políticos, Jabor impregna sua incursão a (um) passado com tintas sombrias.

Hoje, afastado de uma situação de submissão material e afetiva, e sulcado pelas frustrações de uma existência que nunca poderá ser completa e perfeita (a de ninguém é), o cineasta deixa escorrer de suas lentes a seiva da miséria da alma, que é abafada por um teatro cuja dramaturgia tem como função escamotear a indigência emocional de seus personagens, que engolem a seco os tradicionais sapos da rotina hipócrita da classe média.

Marcos (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), pais de Pedro, dão o tom da perversidade de relações que castram os sonhos do indivíduo – e edificam a verve pasoliniana de Arnaldo Jabor, que agora se sente seguro para tentar desmistificar seus traumas.

O conservadorismo, o preconceito e o autoritarismo, marcas de formação da sociedade brasileira – ecos de Sérgio Buarque de Holanda −, exponenciaram o ceticismo corrosivo de diretor que, no intuito de contar uma história poética acerca de reminiscências, traduz o roteiro na ode sombria das desilusões.

Noel, avô de Pedro, elemento de estabilidade na narrativa não linear, vivido pelo sempre irrepreensível Marco Nanini, traduz a dialética do conceito de velhice trabalhado pela escritora Yasmina Reza na novela “Uma desolação” (1999). Ao encarar sua finitude, Noel repassa seu cortejo de misérias e felicidades efêmeras; contempla sem dissimulação seus fracassos e a inexorabilidade de uma vida que não pode ser reencenada.

O responsável por “Toda nudez será castigada” (1973) enfrenta dilemas parecidos. E estremece com suas rugas quando se olha no espelho – não as rugas do tempo, mas as provocadas pelo inconformismo sem respaldo.

O Deus de Jabor – que Saramago não reconhece − é plural. O sincretismo do realizador nasce da devoção aos deuses da carnificina que não conseguiram deixar de f@#%* com ele ao longo de sua trajetória (pelo menos é no que ele deve acreditar). E essa tristeza da alma é somatizada por cada personagem nos momentos em que externam a morte simbólica de aspirações e as expectativas não correspondidas – seja pelas lágrimas ou por um olhar baço.

Jabor, assim como Saramago, perdeu sua fé na humanidade. E passou longe da categoria cinematográfica apresentada por Truffaut ao (tentar) retratar sentimentos universais (?!) num passeio nostálgico ao passado, reduzido no negativismo. Até o amor é identificado primeiro com a dor. Poxa, Jabor…

Mas, se ele continua filmando, ainda há esperança de revisão de valores pela via da arte. Infelizmente, Saramago nos deixou este ano, e não poderá reificar um pouco mais de seu desgosto por meio de “A suprema…”.

Vou ter de aliviar o Jabor porque ele, num lance espirituoso, “furou” a Playboy e despiu em frente às câmeras a Tammy Di Calafiori. Minha análise só não está melhor porque, a partir deste momento do filme, perdi completamente a concentração. Jogo sujo com a crítica, meu velho.

Carlos Eduardo Bacellar

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Meta Comic Psique

Quem nunca pensou em ter superpoderes? Pra ter a sensação de voar livre, ganhar uma briga, corrigir alguma injustiça. Ah, quem nunca quis ter uma habilidade como as dos heróis dos gibis, resolver os problemas da vida com um supersoco, raios laser, telepatia? Bom, decerto a maioria dos homens já quis pelo menos visão de raios X… Seria fácil assim, né.

O mundo de “Kick Ass – Quebrando Tudo” (2010, dirigido por Matthew Vaughn, o mesmo de “Stardust”, chegando por esses dias às locadoras) é realista, não há superpoderes, apesar de ter pessoas supermás. Seus heróis precisam de muita coragem, disciplina, porradas e balas. Mas ainda são heróis. A sua jornada, como ensina J.C.1, traz dificuldades, exige sacrifício e os transforma, pela autossuperação.

E quem disse que os super-heróis, aqueles com superpoderes, resolvem as coisas facilmente? De fato, seus poderes acabam sendo o ponto de partida para superdesafios, sacrifícios e superações. “Kick Ass” é originalmente um gibi, publicado na gringa em 20082, de um estúdio pouco conhecido nos EUA. Como tal, conta a história de um jovem nerd (tímido, não tem namorada, acossado pelos valentões, tipo Peter Parker), chamado Dave Lizewski (o inglês Aaron Johnson), fã de quadrinhos e super-heróis que um dia decide por em prática o sonho de ser um justiceiro fantasiado.

Essa decisão, a princípio apenas a realização de uma fantasia, leva o jovem Dave à sua jornada do herói.  Girando em torno de quadrinhos, da fascinação que criam e de justiceiros e bandidos, o gibi (ou filme, mesma coisa) cria uma metanarrativa ao mesmo tempo séria e bem-humorada, violenta e doce sobre os supers e os heróis. Devemos destacar também a pequena Chloe Moretz (atriz que faz a Hit-girl, uma porrada no conservadorismo), e a participação especial de Nicolas Cage, também jóia no papel. E haja pancadaria!3

Dave de “Kick Ass” gostaria de ter superpoderes, mas como isso não existe, decide só se fantasiar e combater o crime. Ele é fascinado pelos personagens que acompanha e é muito natural histórias fantásticas de seres humanos que podem tudo serem sucesso no nosso mundo real. O superpoder é a metáfora pós-moderna por excelência, ao mesmo tempo desejo e capacidade do homem contemporâneo de realizar tudo que puder imaginar, geralmente em bases (pseudo)científicas.

Vivemos numa era em que todo mundo tem que fazer tudo, e atualizar-se, e progredir, e triunfar sempre. Os super-heróis serão os ícones, claro. Uma das últimas grandes bilheterias − também lançamento nas locadoras − é “Homem de Ferro” (agora no dois), mostrando as aventuras de Tony Stark (Robert Downey Jr.). Ele, como se não bastasse ser milionário, inteligente e bonito, ainda inventa uma super armadura high tech capaz de garantir a paz mundial4. Mas ainda assim luta, sacrifica-se, supera-se.

ENQUANTO ISSO

Desde o advento das tecnologias gráficas digitais, houve uma progressão geométrica na quantidade de filmes baseados em heróis de gibi. Certamente devido à capacidade de passar pra telona as imagens fantásticas imaginadas há décadas pelos quadrinistas. Mas outra coisa chama a atenção também: o ritmo das histórias está mais parecido com os quadrinhos. Todo leitor de gibi está acostumado com a continuidade das aventuras dos personagens, às vezes com sua reinvenção (Super-Homem morreu e ressuscitou, o professor Xavier já foi e deixou de ser cadeirante incontáveis vezes)!5. O bom personagem desperta o gosto contínuo do leitor: ele promete, mas não revela todas suas possibilidades logo de cara; claro, tem que vender as revistas, meu.

Parecia que os produtores de Hollywood viam os personagens dos quadrinhos de maneira muito generalista, e apenas como ponto de partida para uma linguagem totalmente diferente que deveria ser a do cinema. E jogavam logo de cara todas as fichas. Enfim, isso acabava gerando um clima completamente distinto do mesmo personagem nos filmes e nas revistas. Com a mudança de paradigma das continuações, consolidada com as sagas “Matrix” e “Senhor dos Anéis” − e os efeitos digitais − os filmes de heróis de gibi assumiram sua vocação.

Já em Homem-Aranha6 poucos têm dúvidas de que o diretor Sam Raimi conseguiu reproduzir a atmosfera do personagem dos gibis. E filme após filme vemos Peter Parker (Tobey Maguire) amadurecendo e passando por importantes estágios de sua vida nos quadrinhos, como nos quadrinhos. No supracitado “Homem de Ferro” e no último “Hulk” temos ganchos sobre os Vingadores (um supergrupo de heróis, do qual ambos personagens fazem parte), e o filme deles já está a caminho. ATENÇÃO, SPOILER!!! No fim do “Iron Man 2”, Tony Stark é escolhido por Nick Fury (Samuel Jackson) para ser consultor, mas não membro dos Avengers. Mas Rhodes (Don Cheadle) ficou com uma armadura. Quer melhor maneira de ter Homem de Ferro quebrando tudo com os Vingadores sem ter que pagar o cachezinho do Robert Downey?

Enfim, os filmes estão mais centrados, mais tópicos, e as revelações e mudanças dos personagens vão sendo feitas com mais parcimônia. Ganha todo mundo: a indústria, que tem mais filmes para vender, e os fãs, que se divertem mais vendo nas telas os personagens mais parecidos com o que eles conhecem dos quadrinhos. E “Kick Ass” simboliza a consolidação da presença gibítica na cultura pop!

DOSSIÊ MORCEGO

Um outro estudo de caso muito interessante são os filmes do Batman. Os leitores (do Doidos, não de quadrinhos) que viram a série de filmes dos anos 90 lembram que ela começou bem, com os dois primeiros filmes, e daí foi só caindo. Diria que os diretores se referenciavam pelo clima gótico de Gotham City e as semelhanças com o mundo de Bruce Wayne paravam aí.

Quem está familiarizado sabe que as histórias do homem morcego chegam a ser pessimistas, e justamente por não ter superpoderes, relativamente realistas. Mesmo quando há humor, ele é denso, e nem perto daquela imbecilidade que foi, por exemplo, o filme com George Clooney e o governador da Califórnia. Gótico gay. Mas nas duas última produções, dirigidas por Cristopher Nolan, Gotham é uma metrópole realista (ao invés daquela arquitetura maluca dos anos 90), sombria por isso mesmo, e onde a atmosfera exala toda a podridão do crime que infesta suas ruas. É o Batman que os fãs queriam ver, e que por ser mais fiel aos quadrinhos, conquistou novo público.

Finalmente, quem chegou até aqui notou que usei o lançamento nas locadoras de “Kick Ass” para falar sobre filmes de gibi em geral. Isso vai como um tributo a essa forma de arte meio marginalizada, o quadrinho, mas que, como os cinemas mostram, é muitíssimo abundante em criatividade. Gibis não são só sobre super-heróis. Filmes que você nem imagina e pode ter gostado são baseados em revistas… Para o alto e avante!

Cristiano Kusbick Poll

1: Joseph Campbell, não Jesus Cristo.

2: Escrito por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr. Lançado no Brasil este ano, pela Panini.

3: Alguém disse que o filme era violento, mas o quadrinho é bem mais.

4: Ambos são ótimos filmes, mas a continuação Kick Ass! Pancadaria tecnológica de primeira.

5: Claro, deixamos de fora aqui as graphic novels, histórias que podem até ter várias partes em edições diferentes, mas que são descontinuadas.

6: Se bem me lembro, Spider-Man foi o filme que iniciou essa era de ouro contemporânea dos gibis no cinema.

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Ecos de “Brasília 18%”

Integra o catálogo de DVDs da Lume Filmes o filme “Corpo” (2007), estreia na direção da dobradinha Rossana Foglia e Rubens Rewald.

Na trama, Artur (Leonardo Medeiros) é um médico legista que leva seu ofício às raias da obsessão. Para ele, um corpo não é só um amontoado de carne inerte, mas alguém com uma história que precisa ser decodificada nas marcas deixadas pela existência.

Trabalhando em um necrotério público, num contexto de corrupção e decadência, ele vai além dos diagnósticos burocráticos e faz uma profunda leitura dos corpos.

Um cadáver nunca é somente mais um cadáver, e, ao ser encarregado do corpo de uma jovem que, aparentemente, na opinião de Artur, se manteve preservado por mais de 30 anos, ele se embrenha numa investigação que o levará a descobertas inusitadas.

Misto de jornalismo investigativo com romance policial – num ritmo lento, cerebral, mas carregado de sentidos −, a história de Artur entrelaça passado e presente, história e fatos, verdade e mentira, pessoas e personagens na construção de uma narrativa sobre perdas e amizade que remontam ao período da ditadura no país.

O mais impressionante é a forma como Medeiros – o nosso Ricardo Darín −, um dos melhores atores brasileiros em atividade, erige a psicologia complexa de seu personagem. Aparentemente um banana desprovido de autorrespeito, e que parece se arrastar pelos dias cumprindo a contragosto sua rotina burocrática, o médico contrasta sua (pseudo) falta de atitude com a determinação férrea de enxergar mais do que é possível ver. Sua passividade exterior esconde os movimentos internos que assolam um profissional não dedicado à morte, mas dedicado à vida.

O magistral texto do crítico e teórico do cinema brasileiro Ismail Xavier, impresso na contracapa do DVD, é muito melhor que o meu e merece transcrição:

“Corpo é um dos melhores filmes brasileiros lançados em 2008. Rossana Foglia e Rubens Rewald compõem uma trama de grande interesse, ousada em sua exploração de mundos paralelos cuja conexão não se faz evidente, pois o movimento mais decisivo é o que ultrapassa a cena visível e seus torneios. Num jogo que se reabre a cada passo, a interrogação maior se volta para nossa própria experiência de confronto direto com a alteridade feita de corpos inertes num necrotério. Mergulho franco no estranho familiar, o filme explora a força do inverossímil que seduz e desconcerta, revirando o campo minado de nossa relação com desejo e memória, vida pessoal e convicções políticas.”

Carlos Eduardo Bacellar


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Hoje começa o REcine!

De hoje (25) a 29 de outubro, as imediações da Praça da República, no Rio de Janeiro, mais precisamente o Arquivo Nacional, ganharão acordes e movimentos de música brasileira – é o REcine que dá largada!

Em mais de cinco salas, sempre com entrada franca, cem filmes serão exibidos mostrando O casamento perfeito entre imagem e música. A abertura, hoje às 18h,  contará com balé afro-contemporâneo, dança do maxixe, coral do Arquivo Nacional e, claro, cinema. Será exibido o filme inédito Apanhei-te cavaquinho – parte 1, de Ivan Dias. Já o encerramento, na sexta-feira, terá “Noite do Espantalho”, de Sergio Ricardo. Ah, momento “isto é muito para um pobre coração de filha”: minha mãe, Claudia Furiati, foi atriz deste filme.

Os detalhes da programação estão no site do evento (e logo abaixo):  www.recine.com.br

P.S. Merda: Paulo Henrique e Carlinhos Mattos! Aos amigos, tudo! Até o tempo escasso para escrever no blog…

Helena Sroulevich

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A força está com Banksy, mas (para nossa alegria) sempre do lado negro

O mestre das intervenções urbanas que utiliza a arte como manifesto político e social — mas que também adora brincar com a cultura pop.

Quer mais do Banksy? A gente ajuda. Clique aqui.

Quer muito mais do Banksy? Então você deve estar interessado no filme “Exit through the gift shop”, documentário sobre o submundo dos grafiteiros realizado por quem mais entende do assunto, ou seja, o próprio Banksy.

Sem muito esforço você acha o filme na rede. Tire uma casquinha com o trailer:

Assim que eu assistir, comento alguma coisa por aqui. Quem gostou bate palmas! Bom, eu me  contento com um iupi!!! bem animado!

Carlos Eduardo Bacellar

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Obra-prima do Guillermo Arriaga espanhol

“Você acha este vestido muito decotado?”

Para o amigo Gabriel. O sociopata enrustido (e quem não é?) mais gente fina que já conheci. Graças à sua predileção por diretores que certamente seriam reprovados em exames psicotécnicos, conheci obras incríveis.

Pouco mais de sete meses e um oceano de distância separam a data e o local de nascimento dos diretores-roteiristas Guillermo Arriaga (México, 13 de março de 1958) e Julio Medem Lafont (Espanha, 21 de outubro de 1958). Porém, os dois cineastas (além da língua) se aproximam na estética não linear e labiríntica que imprimem em suas obras, conjugando na narrativa a existência (num primeiro momento estanque) de diferentes núcleos de personagens – a denominada trama mosaico.

Os traços estilísticos de “Babel” (2006) e “Vidas que se cruzam” (2008) – ambos dirigidos por Alejandro González Iñárritu, mas da lavra de Arriaga, roteirista dos dois longas o primeiro dirigido por Alejandro González Iñárritu, mas ambos da lavra de Arriaga, roteirista das duas obras e diretor de “Vidas…”, que marca sua estreia como realizador de longas − encontram ressonância nas produções “Os amantes do círculo polar” (1998) e “Lucía e o sexo” (2001) de Medem, e vice-versa.

Comecei a prestar atenção na filmografia de Medem há pouco tempo. Apesar da (ainda) pouco prolífica produção como diretor de cinema, iniciada em 1974 com o curta “El ciego”, com “Lucía e o sexo” – filme com o qual arrebatou dois prêmios Goya, o Oscar espanhol: atriz revelação (um convite à perdição chamado Paz Vega) e música original (trilha sonora de Alberto Iglesias) − Medem se consagra definitivamente como um dos grandes realizadores espanhóis.

Obra-prima do diretor, cultuado por tratar de forma poética e sensual dramas prosaicos da arquitetura social e afetiva de figuras comuns, “Lucía…” integra na tragédia diferentes personagens que possuem como fio condutor a garçonete homônima, interpretada por Paz Vega.

“Será que eu consigo fazer o Carlos esquecer a Julia Bacha e me alçar a musa do blog?

Lucía não tem medo de expressar seus sentimentos, e por meio da sinceridade descarada consegue conquistar o coração do escritor Lorenzo (Tristán Ulloa), com que mantém um relacionamento ardente. Tudo ia muito bem até que Lorenzo é surpreendido por desdobramentos do passado que há muito havia esquecido – ao buscar inspiração para seus livros no cotidiano de pessoas habituais, ele acaba descobrindo mais do que gostaria, porém, atravessado pelo desespero, entende que a literatura nasce da visceralidade, do esfacelamento de máscara de “normalidade” que esconde a verdadeira natureza humana. O escritor abandona a namorada que, cega pelas emoções, imagina que Lorenzo está morto.

“Isso nunca aconteceu comigo antes…”

Lucía parte em viagem para uma ilha mediterrânea, atrás de curas para as dores da alma. Chegando lá, seu destino se une, por obra do acaso, ao de outros personagens que direta ou indiretamente estão envolvidos no drama que estraçalhou o coração de seu amado.

Lucía fazendo (all!!!)less

Julio Medem utiliza como elemento de integração de histórias autônomas flashbacks que flertam com o espaço e o tempo dos personagens. Presente e passado se misturam com sonho e (re)construção mental de situações limite. A ilha idílica é o epicentro das catarses individuais, e confunde concretude com ilusão. A fotografia de Kiko de la Rica, estourando os claros, contribui para o sensação de irrealidade, de intangibilidade da encenação (e das emoções).

Imbricando literatura (ficção) com os dramas de seus protagonistas (realidade), o cineasta retroalimenta vicissitudes convergentes que encontram no sofrimento, na dor e na dificuldade de assimilar e recomeçar um denominador comum.

Regado de erotismo e poesia, “Lucía e o sexo” caminha sobre a linha tênue que separa razão de desejo – só vislumbrada nos momentos de dilaceramento que ocorrem após as perdas.

“O que acontece se eu apertar aqui?

É uma obra que merece uma segunda, uma terceira, uma quarta olhada para que seja possível captar todas as sutilezas com que o realizador relata o entrelaçamento por meio da separação – e a dor como catalisadora de envolvimentos fortuitos.

Medem foi contemplado no último Festival do Rio com o filme “Um quarto em Roma” (2009) – e eu não assisti… Snif… Snif…

Mas vou! E você?

Carlos Eduardo Bacellar

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