Balanço parcial do Festival do Rio

Até o momento, cerceado por restrições e vicissitudes incompatíveis com minha paixão pelo ofício de Truffaut, conferi apenas cinco produções no Festival do Rio. Até o final da maratona pretendo assistir a, pelo menos, mais cinco filmes. Mas quantidade não é sinônimo de qualidade.

Apesar de, até agora, nenhuma realização ter me arrebatado, a árdua luta pelos ingressos foi recompensada com excelentes trabalhos. Já escrevi sobre alguns aqui no blog.

Vou destacar rapidamente mais dois, que talvez sejam os melhores da minha curta lista (só o tempo dirá):

“Líbano” (2009), de Samuel Maoz, filme que levou para casa, em 2009, o Leão de Ouro do Festival de Veneza.


Ambientado na época da Primeira Guerra do Líbano (1982), quando o exército de Israel resolveu invadir o território libanês, o filme desvela os horrores da guerra de forma inusitada. Praticamente toda encenação é sufocada dentro de um tanque de guerra israelense.

Nele (ou melhor, dentro dele), um grupo de militares (jovens recém-saídos de simuladores de jogos de guerra, que nunca atiraram em alguém que esguichasse sangue de verdade) recebe ordens de invadir território inimigo. O diretor midiatiza a guerra pelo periscópio frio de um veículo militar, submerso no sangue de centenas de corpos, em cujas entranhas de metal é incubada a contradição humana.

Ao mesmo tempo que distancia aqueles homens do que ocorre em campo, o ambiente claustrofóbico catalisa os conflitos de pessoas que querem sobreviver – e estão dispostas a tudo para isso, mesmo que seja necessário contrariar ordens, flertar com a loucura e se submeter ao ridículo − a um conflito que beira o incompreensível.

“Essential Killing” (2010), de Jerzy Skolimowski. Vincent Gallo, no papel do protagonista desse ‘No limite’ polonês, com pitadas de ‘Caçado’ (William Friedkin, 2003), arrebatou o prêmio de melhor ator no Festival de Veneza.


Vincent Gallo, o sujeito passivo de uma das cenas de sexo oral mais impactantes do cinema não pornográfico (“The Brown bunny, 2003), encarna de forma visceral um guerrilheiro afegão (Mohammed) capturado por tropas americanas após ter matado três soldados – o ator, “torturado” pelo diretor, que o colocou em situações extremas, agora verá seus órgãos sexuais procurarem refúgio em seu abdômen ao enfrentar temperaturas abaixo de zero. Levado para local não identificado, ele consegue fugir de seus algozes e se embrenha em terreno selvagem na busca desesperada da liberdade.

Precisando suprir as necessidade mais básicas do ser humano, Mohammed pressente a humanidade se esvair ao se transformar numa espécie de wolverine muçulmano. À procura de comida e abrigo, e digladiando-se contra as intempéries, ele, incapaz de se comunicar pelas diferenças de idiomas – no filme, Gallo só emite ruídos ininteligíveis −, se torna proficiente em mecanismos de defesa, relativizando seus valores morais para garantir que suas funções vitais não entrem na linearidade dos cemitérios.

Vivendo um Bear Grylls às avessas, Vincent Gallo tateia a cartilha ambígua de sobrevivência do sujeito à beira do precipício das privações.

Skolimowski, alijando seu personagem dos insumos capazes de saciar seus imperativos fisiológios básicos (e de sua dignidade), nos lembra da frase de Nietzsche que diz mais ou menos assim: “Quando você olha para o abismo, o abismo também olha para você.”

Ambos os filmes merecem registro, não podem passar em branco.

Carlos Eduardo Bacellar

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