Em ‘Route Irish’, Ken Loach enfoca a privatização da guerra como princípio ativo que acelera a corrosão dos valores morais

A morte de quatro cidadãos americanos, em 31 de março de 2004, emboscados na cidade sunita de Fallujah − província iraquiana de Al Anbar, localizada 69 quilômetros a oeste de Bagdá −, um ano após a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, desvelou ao mundo uma indústria milionária que se alimenta dos conflitos mundiais como um urubu se refestelando sobre carniça podre.

Os mortos na arapuca de Fallujah não eram civis, muito menos faziam parte do efetivo regular das Forças Armadas americanas. Eles integravam o segundo maior contingente em atuação na guerra do Iraque: um exército profissional de mercenários muito bem pagos, acima das leis civis ou militares e de qualquer código de conduta – que, principalmente aditivado pela política belicista da era Bush, ganhou cada vez mais espaço na agenda das agressivas “relações internacionais” dos EUA.

Toda a podridão que envolve a privatização do aparato militar americano, estratégia iniciada na administração de George W. H. Bush – e inflada por contratos oficiais de cifras milionárias com o governo, que só fizeram aumentar −, impulsionada pela paranoia pós-atentados de 11 de setembro de 2001, foi minuciosamente abordada no (essencial) livro Blackwater: a ascensão do exército mais poderoso do mundo, do jornalista investigativo americano Jeremy Scahill, o Caco Barcellos da terra do Tio Sam.

Para quem quer entender o que existe por trás da mobilização da indústria da guerra ianque em solo iraquiano (e não só), essa obra é fundamental.

Não sei se o diretor Ken Loach leu o livro, mas com certeza as ondas de propagação das consequências do trabalho jornalístico de Scahill, mesmo indiretamente, influenciaram o projeto de concepção de “Route Irish”, novo longa do realizador inglês e uma das produções mais concorridas do Festival do Rio.

Loach focaliza com suas lentes o calvário existencial do mercenário Fergus, interpretado por Mark Womack que, após perder o amigo de infância Frankie (John Bishop) – morte pela qual se sente responsável − em território iraquiano, utiliza seus próprios recursos e empreende investigação particular para determinar as circunstâncias exatas da tragédia.

Logo Fergus, auxiliado pela viúva de Frankie (Andrea Lowe), desencava o que poderia ter sido motivo para um assassinato, colocando em dúvida a tese de que o amigo teria sido morto numa emboscada terrorista na via que dá nome ao filme, a estrada que liga a Zona Verde (área de segurança fortificada, no centro da capital iraquiana, controlada pelas Forças de Coalizão) ao aeroporto de Bagdá, considerada os doze quilômetros mais perigosos do mundo: Frankie presenciou a execução a sangue-frio de uma família iraquiana por companheiros de combate, ação que foi gravada pelo celular de um habitante local e que, caso venha à tona, poderia por em risco as operações – muitas vezes duvidosas e sem tipificação legal − de empresas privadas que faturam cifras altíssimas com a indústria da guerra.

De posse das imagens, e perturbado por fantasmas de seus dias de G.I. Joe corsário do capitalismo, Fergus soluciona (ele acredita) em sua cabeça a ambiguidade do vídeo e parte para fazer justiça com as próprias mãos.

Tangenciando o maniqueísmo típico, Loach foge das armadilhas do discurso convencional – que, neste caso, apregoaria corporações malignas x heróis arrependidos em busca de redenção − e cria um labirinto de aparências e fragmentos de informação para, por meio da ótica de Fergus, tentar mapear a perniciosidade de tratar conflitos como oportunidades de lucro.

A obsessão de Fergus enfumaça seu discernimento, e a nossa segurança em rotular mocinhos e bandidos, e coloca em xeque a argumentação que delineia culpados.

O diretor, com o inteligente roteiro de Paul Laverty como argamassa, critica com acidez a política belicista americana atacando seus efeitos em pessoas comuns, que poderiam ser nossas vizinhas quando não estão com um fuzil na mão. Fergus expõe o que há de humano dentro dele ao ser empalado pela dor e, sem o cheiro de pólvora para inebriá-lo e a adrenalina bombeando em sua corrente sanguínea, assimila o que foi capaz de fazer (e o que foi capaz de perder) em troca de uma conta bancária mais gorda.

Empresas como as citadas no livro de Scahill enxergam nos conflitos internacionais mais um mercado a ser explorado − almejando lucros a qualquer preço.

A privatização do aparato militar nacional putrefaz os valores morais e descrimina o Estado por negligenciar suas (ir)responsabilidades constitucionais. Solução perfeita para os xerifes do século XXI, que querem manter sua estrela brilhando (sem nenhum vestígio de sangue) e as engrenagens da economia capitalista funcionando. O filme nos faz pensar.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O cineasta José Joffily estava na sessão vespertina de “Route Irish” realizada ontem, dia 30/10. Se ele procurava ecos da estupidez ianque focada em “Olhos azuis”, encontrou. Não perguntei ao Joffily o que achou do filme porque ele não me aceitou como amigo no Facebook.

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