Kiarostami sofistica gramática estética empreendendo busca metafórico-filosófica pelo sentimento gerado do amor seminal

Em homenagem ao repórter e crítico de cinema Rodrigo Fonseca, fonte de inspiração e motivação permanentes

Em seu livro Cinema – Entre a realidade e o artifício (2ª Ed., 2007), no capítulo dedicado ao cineasta iraniano Abbas Kiarostami, o crítico de cinema Luiz Carlos Merten diz que, “quando Kiarostami começou a surgir na Europa, no final dos anos 1980, o cinema que dava as cartas nos grandes festivais e no circuito de arte-e-ensaio internacional era o chinês, com Zhang Yimou à frente.” O autor chinês, segundo Merten, “beneficiava-se da beleza de sua mulher na época, Gong Li, que colocava no centro de suas investigações sobre o patriarcalismo da sociedade chinesa tradicional. E no mesmo parágrafo o crítico continua, sublinhando que “Kiarostami não tinha uma mulher tão bonita em seus filmes para torná-los atraentes.”

Merten, ele não tinha. Em “Cópia fiel”, uma das coqueluches do Festival do Rio, Kiarostami determina a revisão obrigatória desse trecho de capítulo para a próxima edição do livro.

Com a estrela francesa Juliette Binoche − laureada este ano em Cannes por sua atuação (desconstrutiva da personalidade) ao estilo “Síndrome de Caim” (1992) − como protagonista de sua metáfora emotivo-afetiva arquitetada com base no ensaio filosófico de Walter Benjamin acerca da reprodutibilidade da arte, o cineasta iraniano afasta, definitivamente, a ausência de beleza das suas produções.

Em “Cópia…”, a estonteante Binoche (basta ela sussurrar palavras em francês em nossos ouvidos para conseguir o que quiser), interpretando Elle, envereda pelos desdobramentos da intrincada disposição origâmica de um relacionamento imaginário com o escritor James Miller (William Shimell), autor de livro (homônimo ao título do filme) no qual defende a ideia de que as reproduções de arte são tão boas quanto as matrizes originais, refutando a perda (negativa) da aura propalada pelo pensamento de Benjamin.

Imersa nas atribulações mais prosaicas da vida, e em busca de algo mais autêntico e original do que sua rotina-de-mãe-solteira, Elle vai de encontro ao pensamento do escritor.

A partir desse momento, Kiarostami, o mestre dos baixos orçamentos, caudatário do neorrealismo italiano – tendo por hábito reduzir sua participação ao mínimo para que o espectador tenha a liberdade de ver, na tela, a vida como ela é −, apela para o conceito de status da sociologia para explorar as facetas (ambíguas e contraditórias) dos protagonistas no entendimento da polarização do relacionamento imantado pelo tempo.

Minimalista, com toda encenação baseada no discurso, “Cópia…” arregimenta o talento de Binoche para arrastar Shimell com ela e colocá-los nos antípodas do afeto representado. Afeto que sofre transformações ao ser distanciado do conceito de amor seminal (original?), conceito que a discussão (uma verdadeira DR em diferentes línguas) dos protagonistas − envolvendo (falsas?!) memórias, histórias, desejos, expectativas e famílias − procura reencontrar (deixou de fazer sentido o que é verdadeiro?).

O filme causará estranhamento em quem não conhece a cinematografia do diretor. Como em “Onde fica a casa de meu amigo?” e em “E a vida continua…”, Kiarostami narra a apoteose da oralidade na empreitada de buscas.

O diretor refinou seu estilo ao longo dos anos. Merten destaca que o iraniano “não inventou o metacinema, o cinema crítico de si mesmo, a linguagem usada para discutir a própria linguagem, mas consegue dar uma lição perfeita sobre o que seja isso [em “Através das oliveiras”]. […] Kiarostami, que já havia mostrado que a vida continua, faz agora um filme dentro de um filme […].”

Em seu novo longa, o realizador sofistica sua gramática estética e envolve o espectador novamente no labirinto da metalinguagem. A leitura de Merten (sobre “Através…”) pode ser espelhada para “Cópia…”: “Kiarostami desconstrói a noção de realismo e, ao mesmo tempo, contrói uma reflexão sobre o cinema como função imaginária, sobre aquilo que o olho da câmera registra e o espectador vê.”

Antagonizando no discurso os diferentes status encenados por Elle e James, Kiarostami fala sobre as contradições entre original/cópia, simplicidade/complexidade, filosofia/cultura popular, originalidade/falsidade poligamia (busca da satisfação na projeção desenfreada, nos outros, de desejos insatisfeitos ou pendentes)/monogamia (ater-se “ao original” como única opção moralmente aceitável) na tentativa não de compreender onde encontramos o essencial − do sentimento que nutrimos pelo outro − que foi extraviado pelas contingências (progressivo esmaecimento da aura/paixão), mas o que é essencial− o hoje ou o ontem?

“Cópia fiel” é uma obra tortuosa, sutil e inteligente. Encontra-se nos píncaros do experimentalismo estético, que tem como bússola a qualidade do diretor para não escorregar na autorreferência tornando impossível a empatia. Na minha opinião, consagra Kiarostami como um dos gênios da autoralidade – postura que desafia o comodismo do olhar (e do pensar).

Carlos Eduardo Bacellar

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6 Comentários

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6 Respostas para “Kiarostami sofistica gramática estética empreendendo busca metafórico-filosófica pelo sentimento gerado do amor seminal

  1. Tati

    Nossa. Como vc tá falando difícil…

  2. Pois é. Eu me achei uma completa imbecil lendo o que ele escreveu. Fiquei na dúvida se ele está realmente querendo ser compreendido pelos (e)leitores dele ou se foi apenas um momento deslumbrado… Sabe que eu digo o que penso, né? 😉

    • Foi um momento kiarostâmico 🙂 Gosto de filmes que mexem comigo, e me obrigam a sair da sala de cinema refletindo. Acabei me deixando contaminar pela ousadia experimental do cineasta iraniano (que é um dos meus realizadores favoritos).
      É um daqueles textos que sai dos recôndidos da alma, mais complicados de serem expressos em palavras.
      Tati, às vezes eu me deixo levar completamente pelos sentimentos. Helena, de imbecil você não tem nada.
      Poxa… Quer dizer que vocês não gostaram? “Cópia fiel” é uma obra complexa, mas que nos envolve na linguagem sedutora do que é fazer Cinema de verdade.
      Beijos!
      CEB

  3. Marco Antônio Malburg

    Muito bom

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