Obra-prima do Guillermo Arriaga espanhol

“Você acha este vestido muito decotado?”

Para o amigo Gabriel. O sociopata enrustido (e quem não é?) mais gente fina que já conheci. Graças à sua predileção por diretores que certamente seriam reprovados em exames psicotécnicos, conheci obras incríveis.

Pouco mais de sete meses e um oceano de distância separam a data e o local de nascimento dos diretores-roteiristas Guillermo Arriaga (México, 13 de março de 1958) e Julio Medem Lafont (Espanha, 21 de outubro de 1958). Porém, os dois cineastas (além da língua) se aproximam na estética não linear e labiríntica que imprimem em suas obras, conjugando na narrativa a existência (num primeiro momento estanque) de diferentes núcleos de personagens – a denominada trama mosaico.

Os traços estilísticos de “Babel” (2006) e “Vidas que se cruzam” (2008) – ambos dirigidos por Alejandro González Iñárritu, mas da lavra de Arriaga, roteirista dos dois longas o primeiro dirigido por Alejandro González Iñárritu, mas ambos da lavra de Arriaga, roteirista das duas obras e diretor de “Vidas…”, que marca sua estreia como realizador de longas − encontram ressonância nas produções “Os amantes do círculo polar” (1998) e “Lucía e o sexo” (2001) de Medem, e vice-versa.

Comecei a prestar atenção na filmografia de Medem há pouco tempo. Apesar da (ainda) pouco prolífica produção como diretor de cinema, iniciada em 1974 com o curta “El ciego”, com “Lucía e o sexo” – filme com o qual arrebatou dois prêmios Goya, o Oscar espanhol: atriz revelação (um convite à perdição chamado Paz Vega) e música original (trilha sonora de Alberto Iglesias) − Medem se consagra definitivamente como um dos grandes realizadores espanhóis.

Obra-prima do diretor, cultuado por tratar de forma poética e sensual dramas prosaicos da arquitetura social e afetiva de figuras comuns, “Lucía…” integra na tragédia diferentes personagens que possuem como fio condutor a garçonete homônima, interpretada por Paz Vega.

“Será que eu consigo fazer o Carlos esquecer a Julia Bacha e me alçar a musa do blog?

Lucía não tem medo de expressar seus sentimentos, e por meio da sinceridade descarada consegue conquistar o coração do escritor Lorenzo (Tristán Ulloa), com que mantém um relacionamento ardente. Tudo ia muito bem até que Lorenzo é surpreendido por desdobramentos do passado que há muito havia esquecido – ao buscar inspiração para seus livros no cotidiano de pessoas habituais, ele acaba descobrindo mais do que gostaria, porém, atravessado pelo desespero, entende que a literatura nasce da visceralidade, do esfacelamento de máscara de “normalidade” que esconde a verdadeira natureza humana. O escritor abandona a namorada que, cega pelas emoções, imagina que Lorenzo está morto.

“Isso nunca aconteceu comigo antes…”

Lucía parte em viagem para uma ilha mediterrânea, atrás de curas para as dores da alma. Chegando lá, seu destino se une, por obra do acaso, ao de outros personagens que direta ou indiretamente estão envolvidos no drama que estraçalhou o coração de seu amado.

Lucía fazendo (all!!!)less

Julio Medem utiliza como elemento de integração de histórias autônomas flashbacks que flertam com o espaço e o tempo dos personagens. Presente e passado se misturam com sonho e (re)construção mental de situações limite. A ilha idílica é o epicentro das catarses individuais, e confunde concretude com ilusão. A fotografia de Kiko de la Rica, estourando os claros, contribui para o sensação de irrealidade, de intangibilidade da encenação (e das emoções).

Imbricando literatura (ficção) com os dramas de seus protagonistas (realidade), o cineasta retroalimenta vicissitudes convergentes que encontram no sofrimento, na dor e na dificuldade de assimilar e recomeçar um denominador comum.

Regado de erotismo e poesia, “Lucía e o sexo” caminha sobre a linha tênue que separa razão de desejo – só vislumbrada nos momentos de dilaceramento que ocorrem após as perdas.

“O que acontece se eu apertar aqui?

É uma obra que merece uma segunda, uma terceira, uma quarta olhada para que seja possível captar todas as sutilezas com que o realizador relata o entrelaçamento por meio da separação – e a dor como catalisadora de envolvimentos fortuitos.

Medem foi contemplado no último Festival do Rio com o filme “Um quarto em Roma” (2009) – e eu não assisti… Snif… Snif…

Mas vou! E você?

Carlos Eduardo Bacellar

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5 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

5 Respostas para “Obra-prima do Guillermo Arriaga espanhol

  1. UM BLOG PARA QUEM AMA CINEMA

    http://www.ofalcaomaltes.blogspot.com

    O FALCÃO MALTÊS
    – Uma Viagem Pessoal pela História do Cinema

    é um blog dedicado a filmes raros, antigos – para que eles não sejam esquecidos -, proporcionando enriquecimento cultural, deleite e estudo de grandes filmes.

    AGUARDAMOS VOCÊ!

  2. Conheço algumas obras de arriaga, inclusive o” Búfalo da noite “, li o livro e vi o filme .Recomendo, pois é um roterista que quer mostrar além das simples pontes de relacionamento entre as pessoas.

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