Ecos de “Brasília 18%”

Integra o catálogo de DVDs da Lume Filmes o filme “Corpo” (2007), estreia na direção da dobradinha Rossana Foglia e Rubens Rewald.

Na trama, Artur (Leonardo Medeiros) é um médico legista que leva seu ofício às raias da obsessão. Para ele, um corpo não é só um amontoado de carne inerte, mas alguém com uma história que precisa ser decodificada nas marcas deixadas pela existência.

Trabalhando em um necrotério público, num contexto de corrupção e decadência, ele vai além dos diagnósticos burocráticos e faz uma profunda leitura dos corpos.

Um cadáver nunca é somente mais um cadáver, e, ao ser encarregado do corpo de uma jovem que, aparentemente, na opinião de Artur, se manteve preservado por mais de 30 anos, ele se embrenha numa investigação que o levará a descobertas inusitadas.

Misto de jornalismo investigativo com romance policial – num ritmo lento, cerebral, mas carregado de sentidos −, a história de Artur entrelaça passado e presente, história e fatos, verdade e mentira, pessoas e personagens na construção de uma narrativa sobre perdas e amizade que remontam ao período da ditadura no país.

O mais impressionante é a forma como Medeiros – o nosso Ricardo Darín −, um dos melhores atores brasileiros em atividade, erige a psicologia complexa de seu personagem. Aparentemente um banana desprovido de autorrespeito, e que parece se arrastar pelos dias cumprindo a contragosto sua rotina burocrática, o médico contrasta sua (pseudo) falta de atitude com a determinação férrea de enxergar mais do que é possível ver. Sua passividade exterior esconde os movimentos internos que assolam um profissional não dedicado à morte, mas dedicado à vida.

O magistral texto do crítico e teórico do cinema brasileiro Ismail Xavier, impresso na contracapa do DVD, é muito melhor que o meu e merece transcrição:

“Corpo é um dos melhores filmes brasileiros lançados em 2008. Rossana Foglia e Rubens Rewald compõem uma trama de grande interesse, ousada em sua exploração de mundos paralelos cuja conexão não se faz evidente, pois o movimento mais decisivo é o que ultrapassa a cena visível e seus torneios. Num jogo que se reabre a cada passo, a interrogação maior se volta para nossa própria experiência de confronto direto com a alteridade feita de corpos inertes num necrotério. Mergulho franco no estranho familiar, o filme explora a força do inverossímil que seduz e desconcerta, revirando o campo minado de nossa relação com desejo e memória, vida pessoal e convicções políticas.”

Carlos Eduardo Bacellar


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