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Quem nunca pensou em ter superpoderes? Pra ter a sensação de voar livre, ganhar uma briga, corrigir alguma injustiça. Ah, quem nunca quis ter uma habilidade como as dos heróis dos gibis, resolver os problemas da vida com um supersoco, raios laser, telepatia? Bom, decerto a maioria dos homens já quis pelo menos visão de raios X… Seria fácil assim, né.

O mundo de “Kick Ass – Quebrando Tudo” (2010, dirigido por Matthew Vaughn, o mesmo de “Stardust”, chegando por esses dias às locadoras) é realista, não há superpoderes, apesar de ter pessoas supermás. Seus heróis precisam de muita coragem, disciplina, porradas e balas. Mas ainda são heróis. A sua jornada, como ensina J.C.1, traz dificuldades, exige sacrifício e os transforma, pela autossuperação.

E quem disse que os super-heróis, aqueles com superpoderes, resolvem as coisas facilmente? De fato, seus poderes acabam sendo o ponto de partida para superdesafios, sacrifícios e superações. “Kick Ass” é originalmente um gibi, publicado na gringa em 20082, de um estúdio pouco conhecido nos EUA. Como tal, conta a história de um jovem nerd (tímido, não tem namorada, acossado pelos valentões, tipo Peter Parker), chamado Dave Lizewski (o inglês Aaron Johnson), fã de quadrinhos e super-heróis que um dia decide por em prática o sonho de ser um justiceiro fantasiado.

Essa decisão, a princípio apenas a realização de uma fantasia, leva o jovem Dave à sua jornada do herói.  Girando em torno de quadrinhos, da fascinação que criam e de justiceiros e bandidos, o gibi (ou filme, mesma coisa) cria uma metanarrativa ao mesmo tempo séria e bem-humorada, violenta e doce sobre os supers e os heróis. Devemos destacar também a pequena Chloe Moretz (atriz que faz a Hit-girl, uma porrada no conservadorismo), e a participação especial de Nicolas Cage, também jóia no papel. E haja pancadaria!3

Dave de “Kick Ass” gostaria de ter superpoderes, mas como isso não existe, decide só se fantasiar e combater o crime. Ele é fascinado pelos personagens que acompanha e é muito natural histórias fantásticas de seres humanos que podem tudo serem sucesso no nosso mundo real. O superpoder é a metáfora pós-moderna por excelência, ao mesmo tempo desejo e capacidade do homem contemporâneo de realizar tudo que puder imaginar, geralmente em bases (pseudo)científicas.

Vivemos numa era em que todo mundo tem que fazer tudo, e atualizar-se, e progredir, e triunfar sempre. Os super-heróis serão os ícones, claro. Uma das últimas grandes bilheterias − também lançamento nas locadoras − é “Homem de Ferro” (agora no dois), mostrando as aventuras de Tony Stark (Robert Downey Jr.). Ele, como se não bastasse ser milionário, inteligente e bonito, ainda inventa uma super armadura high tech capaz de garantir a paz mundial4. Mas ainda assim luta, sacrifica-se, supera-se.

ENQUANTO ISSO

Desde o advento das tecnologias gráficas digitais, houve uma progressão geométrica na quantidade de filmes baseados em heróis de gibi. Certamente devido à capacidade de passar pra telona as imagens fantásticas imaginadas há décadas pelos quadrinistas. Mas outra coisa chama a atenção também: o ritmo das histórias está mais parecido com os quadrinhos. Todo leitor de gibi está acostumado com a continuidade das aventuras dos personagens, às vezes com sua reinvenção (Super-Homem morreu e ressuscitou, o professor Xavier já foi e deixou de ser cadeirante incontáveis vezes)!5. O bom personagem desperta o gosto contínuo do leitor: ele promete, mas não revela todas suas possibilidades logo de cara; claro, tem que vender as revistas, meu.

Parecia que os produtores de Hollywood viam os personagens dos quadrinhos de maneira muito generalista, e apenas como ponto de partida para uma linguagem totalmente diferente que deveria ser a do cinema. E jogavam logo de cara todas as fichas. Enfim, isso acabava gerando um clima completamente distinto do mesmo personagem nos filmes e nas revistas. Com a mudança de paradigma das continuações, consolidada com as sagas “Matrix” e “Senhor dos Anéis” − e os efeitos digitais − os filmes de heróis de gibi assumiram sua vocação.

Já em Homem-Aranha6 poucos têm dúvidas de que o diretor Sam Raimi conseguiu reproduzir a atmosfera do personagem dos gibis. E filme após filme vemos Peter Parker (Tobey Maguire) amadurecendo e passando por importantes estágios de sua vida nos quadrinhos, como nos quadrinhos. No supracitado “Homem de Ferro” e no último “Hulk” temos ganchos sobre os Vingadores (um supergrupo de heróis, do qual ambos personagens fazem parte), e o filme deles já está a caminho. ATENÇÃO, SPOILER!!! No fim do “Iron Man 2”, Tony Stark é escolhido por Nick Fury (Samuel Jackson) para ser consultor, mas não membro dos Avengers. Mas Rhodes (Don Cheadle) ficou com uma armadura. Quer melhor maneira de ter Homem de Ferro quebrando tudo com os Vingadores sem ter que pagar o cachezinho do Robert Downey?

Enfim, os filmes estão mais centrados, mais tópicos, e as revelações e mudanças dos personagens vão sendo feitas com mais parcimônia. Ganha todo mundo: a indústria, que tem mais filmes para vender, e os fãs, que se divertem mais vendo nas telas os personagens mais parecidos com o que eles conhecem dos quadrinhos. E “Kick Ass” simboliza a consolidação da presença gibítica na cultura pop!

DOSSIÊ MORCEGO

Um outro estudo de caso muito interessante são os filmes do Batman. Os leitores (do Doidos, não de quadrinhos) que viram a série de filmes dos anos 90 lembram que ela começou bem, com os dois primeiros filmes, e daí foi só caindo. Diria que os diretores se referenciavam pelo clima gótico de Gotham City e as semelhanças com o mundo de Bruce Wayne paravam aí.

Quem está familiarizado sabe que as histórias do homem morcego chegam a ser pessimistas, e justamente por não ter superpoderes, relativamente realistas. Mesmo quando há humor, ele é denso, e nem perto daquela imbecilidade que foi, por exemplo, o filme com George Clooney e o governador da Califórnia. Gótico gay. Mas nas duas última produções, dirigidas por Cristopher Nolan, Gotham é uma metrópole realista (ao invés daquela arquitetura maluca dos anos 90), sombria por isso mesmo, e onde a atmosfera exala toda a podridão do crime que infesta suas ruas. É o Batman que os fãs queriam ver, e que por ser mais fiel aos quadrinhos, conquistou novo público.

Finalmente, quem chegou até aqui notou que usei o lançamento nas locadoras de “Kick Ass” para falar sobre filmes de gibi em geral. Isso vai como um tributo a essa forma de arte meio marginalizada, o quadrinho, mas que, como os cinemas mostram, é muitíssimo abundante em criatividade. Gibis não são só sobre super-heróis. Filmes que você nem imagina e pode ter gostado são baseados em revistas… Para o alto e avante!

Cristiano Kusbick Poll

1: Joseph Campbell, não Jesus Cristo.

2: Escrito por Mark Millar e desenhada por John Romita Jr. Lançado no Brasil este ano, pela Panini.

3: Alguém disse que o filme era violento, mas o quadrinho é bem mais.

4: Ambos são ótimos filmes, mas a continuação Kick Ass! Pancadaria tecnológica de primeira.

5: Claro, deixamos de fora aqui as graphic novels, histórias que podem até ter várias partes em edições diferentes, mas que são descontinuadas.

6: Se bem me lembro, Spider-Man foi o filme que iniciou essa era de ouro contemporânea dos gibis no cinema.

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

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