A suprema (in)felicidade

[…] O que eu quero é trazer sentimentos universais que já estavam no passado para o primeiro plano. Por isso abro o filme com um verso de Carlos Drummond de Andrade que diz: “As coisas findas, mais que lindas, essas ficarão”. Levo à tela sentimentos de sempre […]

Trecho da entrevista que Arnaldo Jabor concedeu ao jornal O Globo, veiculada em 29/10/2010

“A suprema felicidade”, soluço estético (tardio) provocado pelas lembranças  − decompostas por fungos da experiência subjetiva − de Arnaldo Jabor, destila poesia, mas esta não encontra ressonância no trabalho de Carlos Drummond de Andrade, e sim na prosa fatalista, amarga e cética do Nobel português José Saramago.

No livro “A viagem do elefante” (2008), Saramago constrói uma metáfora sobre a inutilidade da vida ao narrar as desventuras de um paquiderme numa jornada pela Europa. No fim, o entendimento de que, apesar de todos os esforços, não foi possível tornar a vida algo melhor do que ela foi.

Em seu novo filme, que marca o término de um hiato de 24 anos, o diretor de “Eu sei que vou te amar” (1986) costura com a linha puída da memória retalhos de diferentes épocas da vida de seu “elefante” Pedro – o Antoine Doinel de Jabor −, interpretado pelo trio Caio Manhente (aos 8 anos), Michel Joelsas (13 anos) e Jayme Matarazzo (18 anos).

A influência do pensamento de Saramago sobre Jabor (mesmo que inconsciente) é maior do que o cineasta pode imaginar – e vai além dos traços de ironia fina e humor negro encontrados em ambas as obras. Desencantado com o mundo que nos cerca, o que fica patente em suas crônicas e comentários políticos, Jabor impregna sua incursão a (um) passado com tintas sombrias.

Hoje, afastado de uma situação de submissão material e afetiva, e sulcado pelas frustrações de uma existência que nunca poderá ser completa e perfeita (a de ninguém é), o cineasta deixa escorrer de suas lentes a seiva da miséria da alma, que é abafada por um teatro cuja dramaturgia tem como função escamotear a indigência emocional de seus personagens, que engolem a seco os tradicionais sapos da rotina hipócrita da classe média.

Marcos (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), pais de Pedro, dão o tom da perversidade de relações que castram os sonhos do indivíduo – e edificam a verve pasoliniana de Arnaldo Jabor, que agora se sente seguro para tentar desmistificar seus traumas.

O conservadorismo, o preconceito e o autoritarismo, marcas de formação da sociedade brasileira – ecos de Sérgio Buarque de Holanda −, exponenciaram o ceticismo corrosivo de diretor que, no intuito de contar uma história poética acerca de reminiscências, traduz o roteiro na ode sombria das desilusões.

Noel, avô de Pedro, elemento de estabilidade na narrativa não linear, vivido pelo sempre irrepreensível Marco Nanini, traduz a dialética do conceito de velhice trabalhado pela escritora Yasmina Reza na novela “Uma desolação” (1999). Ao encarar sua finitude, Noel repassa seu cortejo de misérias e felicidades efêmeras; contempla sem dissimulação seus fracassos e a inexorabilidade de uma vida que não pode ser reencenada.

O responsável por “Toda nudez será castigada” (1973) enfrenta dilemas parecidos. E estremece com suas rugas quando se olha no espelho – não as rugas do tempo, mas as provocadas pelo inconformismo sem respaldo.

O Deus de Jabor – que Saramago não reconhece − é plural. O sincretismo do realizador nasce da devoção aos deuses da carnificina que não conseguiram deixar de f@#%* com ele ao longo de sua trajetória (pelo menos é no que ele deve acreditar). E essa tristeza da alma é somatizada por cada personagem nos momentos em que externam a morte simbólica de aspirações e as expectativas não correspondidas – seja pelas lágrimas ou por um olhar baço.

Jabor, assim como Saramago, perdeu sua fé na humanidade. E passou longe da categoria cinematográfica apresentada por Truffaut ao (tentar) retratar sentimentos universais (?!) num passeio nostálgico ao passado, reduzido no negativismo. Até o amor é identificado primeiro com a dor. Poxa, Jabor…

Mas, se ele continua filmando, ainda há esperança de revisão de valores pela via da arte. Infelizmente, Saramago nos deixou este ano, e não poderá reificar um pouco mais de seu desgosto por meio de “A suprema…”.

Vou ter de aliviar o Jabor porque ele, num lance espirituoso, “furou” a Playboy e despiu em frente às câmeras a Tammy Di Calafiori. Minha análise só não está melhor porque, a partir deste momento do filme, perdi completamente a concentração. Jogo sujo com a crítica, meu velho.

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

4 Respostas para “A suprema (in)felicidade

  1. Vera Azevedo

    Concordo plenamente com a crítica do Bacellar. Senti no filme uma vontade velada de imitar Fellini, mas Saramago venceu…

  2. valeria torres

    ainda não vi, mas. …saramago + jabor= imperdivel! ate´breve//v.

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