Arquivo do mês: novembro 2010

Engenharia genética

Equação cromossômica:

Carlos Eduardo Bacellar

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Luminar maranhense da autoralidade

Apaixonado por cinema desde a mais tenra idade, Frederico Machado é um militante incansável do cinema de qualidade: obras clássicas e/ou cult que tragam em seu pedigree autoralidade, marginalidade, independência da cartilha do mainstream, enfim, arte – algumas desconhecem o significado do substantivo estante de locadora. Diretor-fundador da Lume Filmes, produtora e distribuidora com sede em São Luís, no Maranhão − que vem sacudindo o mercado de locações apostando num acervo de iguarias raras da sétima arte, com aroma estético para deixar público e crítica com água na boca −, ele teve sua formação moldada pelo cinema.

Esse maranhense de 38 anos, que em 1985, aos treze anos, assistiu a mais de 1.600 produções, hoje divide um pouco do seu vício, como ele mesmo define, com os aficionados pelo que existe de melhor no cinema canalizando sua adicção no negócio que gerencia com o coração – e cuja história apresenta acordes cavi-borgianos no ritmo do cacuriá.

Fundada em 2000 como produtora e exibidora, de lá para cá a Lume já lançou mais de 100 títulos, mantendo um ritmo de 4 DVDs a cada mês – com 80 filmes já programados para o futuro próximo −, produziu mais de 20 curtas maranhenses e planeja para 2011, além  do investimento no formato Blu-Ray, o I Festival LUME de Cinema e o lançamento do livro “Os filmes que sonhamos: 100 filmes − 100 críticos − 100 ensaios”, uma homenagem ao cinema, aos críticos brasileiros e à própria Lume, como define Frederico.

No cardápio refinado, a produtora e distribuidora ostenta filmes como “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Felicidade” (1998), de Todd Solondz; “Crash” (1996), de David Cronenberg; “O castelo” (1997), de Michael Haneke; “O jardim dos Finzi-Contini”, de Vittorio de Sica” (1970); “Intimidade” (2001), de Patrice Chéreau, “A Guerra do Fogo” (1981), de Jean-Jacques Annaud; “Sozinho contra todos” (1998), de Gaspar Noé; “A conversação” (1974), de Francis Ford Coppola; “1984” (1984), de Michael Radford; “O discreto charme da burguesia” (1972), de Luis Buñuel; “Tragam-me a cabeça da Alfredo Garcia” (1974), de Sam Peckinpah, o poeta da violência; entre outros, muitos deles prestigiados com textos aqui no blog. O espaço fica pequeno para listar tantos filmes, certamente essenciais para o currículo de qualquer cinéfilo que se preze.

Já fez o seu pedido para Papai Noel? Pois é, o Frederico já fez o(s) dele, e vai querer compartilhar seus presentes com todos nós. Na carta que ele escreveu para o bom velhinho, pediu para a Lume uma fornada de pérolas do cinema, que chegam no trenó agora em dezembro: “O espantalho” (1973), de Jerry Schatzberg, com Al Pacino e Gene Hackman no elenco; “Os companheiros” (1963), de Mario Monicelli; “Os primos” (1959), de Claude Chabrol; e “A terceira geração” (1979), de Rainer Werner Fassbinder.

Acha pouco? Então se prepare, porque na virada do ano você vai ter outros motivos para estourar o champanhe (e nem vai precisar pular sete ondinhas para isso). A Lume já engatilhou para janeiro “A mãe e a puta” (1973), de Jean Eustache; “O homem das flores” (1983), de Paul Cox; “Servidão humana” (1964), de Ken Hughes; e “Salmo vermelho” (1972), de Miklós Jancsó.

A festa de Revéillon da Lume, porém, foi antecipada para este mês. Novembro de 2010 é uma data histórica.  É o melhor mês da história da Lume em termos de vendagens: foram mais de 6 mil unidades vendidas em novembro. E ainda estamos no dia 20.

Mesmo considerando a tarefa arriscada, a Lume ainda arquiteta uma volta às origens, com projetos para investir no mercado exibidor apostando numa cadeia diferenciada de exibição (ufa!).

Fluente no vernáculo cinematográfico – o próprio diretor-fundador arregaça as mangas e legenda os filmes adquiridos −, Frederico ainda é proficiente no idioma de 140 caracteres. Se você gritar “Alô, @lumefilmes!”, ele responde de forma sucinta. Com mais de três centenas de seguidores, a produtora/distribuidora não para de colecionar fãs ardorosos. O responsável por todo esse agito ainda encontra tempo para alimentar um blog, que funciona como um ambiente mais informal para divulgar as novidades.

Frederico espremeu em sua agenda apertada, comprimida por viagens pelo Brasil e ao exterior, correndo festivais e eventos para promover o negócio e estabelecer novos contatos (que irão nos possibilitar mais filmes!!!), um tempinho para responder algumas perguntas por e-mail para o Doidos. Entrevista há muito desejada. Ele fala um pouco sobre tudo: sua infância, desafios do mercado exibidor, pirataria e planos para o futuro.

As palavras de Frederico exprimem a mesma emoção da época em que era um adolescente ávido por consumir cultura em movimento na tela grande, e trocou (por um tempo) o Maranhão pelo Rio – o que demonstra seu carinho pela devoção à arte de Truffaut e Hitchcock, transformada em ofício. Sua casa em solo carioca naquele tempo? Local sugestivo: ao lado de uma sala de cinema que exibia filmes de arte.

Como surgiu essa paixão pelo cinema e a vontade de transformar esse sentimento num ofício?

Sempre fui um apaixonado pelo cinema. Lembro-me indo para o cinema com meu pai aos 7, 8 anos, e querer continuar na sessão para ver novamente o mesmo filme! Era realmente viciado em cinema. E continuo assim até hoje! Nasci em São Luís, mas fui para o Rio de Janeiro estudar aos 11 anos. Fiquei toda minha adolescência lá e morava ao lado de um cinema que exibia filmes de arte. Foi também o início do videocassete. Portanto, minha educação foi toda moldada pelos filmes. Via por dia mais de 5 filmes. Tenho um caderno de anotação de 1985, quando eu tinha 13 anos, e nele está escrito a quantos filmes assisti naquele ano: 1.632 filmes!

Como e quando surgiu a Lume Filmes? Queria que o senhor falasse um pouco acerca da organização do catálogo. Percebi que a distribuidora de DVDs foca em duas linhas de produtos: Coleção Lume e Lume Clássicos. A Coleção Lume aposta em produtos nunca lançados no mercado brasileiro. E que lugar mais curioso para sediar um negócio dessa espécie, o Maranhão.

A Lume Filmes surgiu em 2000, como produtora e exibidora. Retornei a São Luís em 1997 para realizar um curta-metragem premiado pelo Ministério da Cultura (MinC). Fiz o curta – “Litania da Velha” −, que participou de mais de 30 festivais e ganhou mais de 20 prêmios. Resolvi ficar, abri uma locadora de vídeo (a Backbeat), e em 1999 abriu uma licitação do Governo para arrendamento de um cinema que estava fechado (o Cine Praia Grande). Abrimos a produtora e conseguimos arrendar o cinema. Exibíamos somente filmes de arte, autorais. Continuamos fazendo filmes e também queríamos distribuí-los, fazer com que as pessoas os vissem. Realizamos 3 Festivais Internacionais no Cinema, o que deu a chance de conhecer várias distribuidoras estrangeiras. A distribuição em DVD foi o passo seguinte e bem natural. A curadoria dos filmes sou eu que faço e é um trabalho fantástico. Penso somente na qualidade do filme e não no potencial comercial. E o fato de estarmos em São Luís não interfere em nada o processo todo. Moro na cidade, adoro, e tem um potencial cultural incrível.

O catálogo da Lume conta com mais de 100 filmes. A distribuidora tem fôlego para lançar pelo menos 2 ou 3 filmes por mês e planeja colocar no mercado mais de 60 títulos nos próximos dois anos. Oba! Quer dizer… Desculpe-me pela quebra de decoro… Aqui a figura do jornalista se confundiu um pouco com a do admirador.

A Lume Filmes já lançou 106 títulos e está lançando 4 por mês, desde julho desse ano! E sim, já temos adquirido para futuros lançamentos mais 80 títulos.

Quais são os campeões da Lume? Quais são os filmes mais vendidos? Os filmes do (David Samuel) Peckinpah, por exemplo, estão fazendo a comunidade cinéfila babar. A distribuidora cobre o Brasil todo? Atende tanto pessoas físicas como jurídicas? E quanto ao modelo de negócios da Lume. Como é feita a aquisição dos filmes? Como são negociados os direitos?

Os títulos mais vendidos da Lume são “A Guerra do Fogo”, de Jean-Jacques Annaud (7.000 unidades); “1984” (4.000), de Michael Radford; “A Conversação”, de Francis Ford Coppola (4.000); e “O discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel (4.000). A Lume tem representantes em todo o Brasil e trabalha tanto para pessoa jurídica como física.

A aquisição dos filmes é diretamente com a produtora estrangeira e cada filme é um negócio diferente. O valor dos direitos autorais para se licenciar o lançamento de um filme em DVD pode variar de R$ 850,00 (US$ 500) a R$ 25,5 mil (US$ 15 mil). Sendo que, antes de colocar a contabilidade no papel, devemos ter em mente um passivo de aproximadamente R$ 8,5 mil. São custos referentes à taxa do governo (Ancine), à tiragem (mil cópias é o piso), ao projeto gráfico e à autoração (gastos com a elaboração de extras, legendas e a criação de menu de capítulos).

O senhor nunca teve medo de apostar suas fichas num nicho muito específico de mercado? O negócio é viabilizado pela demanda? O cinema autoral, independente e marginal não fica circunscrito a um universo muito pequeno de cinéfilos?

Nunca tive medo nenhum de trabalhar com o cinema que, acredito, é o cinema autoral, de qualidade, artístico, pois acredito que apesar do público segmentado, as pessoas são mais respeitosas com o trabalho e têm realmente mais interesse em adquirir os filmes que lhes tocam.

Se por um lado os títulos da Lume atingem uma parcela menor de público que os blockbusters, por outro acredito que o modelo dos senhores dificulta a pirataria (ou a torna sem sentido). Até porque esses títulos cult, digamos assim, não são o foco desse tipo de comércio ilegal. O que o senhor acha disso?

Há pirataria para todos os tipos de filmes. Mas o que diferencia nossos DVDs é o trabalho gráfico, a autoração bem feita e artística, a curadoria privilegiando filmes desconhecidos. Daí o respeito do público com nossos DVDs. As pessoas veem que nossa empresa é uma empresa que ama o cinema acima de tudo e por isso há o respeito, o interesse.

A Lume também é uma produtora. Até agora há dois curtas lançados – “Infernos” e “Vela ao crucificado”, este premiado no recém-encerrado Amazônia Doc.2, Festival Pan-Amazônico – e um outro curta em pré-produção − “O olho”. Todos do senhor. Os projetos da produtora contemplam (e pretendem contemplar no futuro) somente o cinema autoral, independente e marginal? Quais são as próximas empreitadas da produtora?

Já produzimos mais de 20 curtas maranhenses e não somente os meus trabalhos. O “Vela ao crucificado”, que é o último curta que realizamos, está sendo o mais exposto, pois foi o que mais participou de Festivais e ganhou mais prêmios. Já foram mais de 60 festivais e 30 Prêmios, muitos deles em Festivais Internacionais. Para 2011, está prevista a realização de 3 curtas (dois de ficção e um documentário) e 2 longas (1 de ficção e 1 documentário). E quanto ao Festival, em maio de 2011 está confirmado o I Festival LUME de Cinema, com mostras competitivas para longas e curtas, nacionais e internacionais.

Vi que a Lume acalenta entre suas ambições lançamentos no cinema. Hoje os senhores têm uma grande vantagem competitiva: não disputam salas de cinema. Como sabe, o circuito exibidor é o filtro do desequilíbrio entre oferta e demanda. Geralmente os grandes estúdios levam vantagem devido ao poder econômico. Muitos filmes deixam de ter seu lugar ao sol todos os anos. Como o senhor vê isso? É um passo arriscado investir no circuito exibidor?

Arriscadíssimo, principalmente pela falta de cinemas. Mas estamos fechando uma cadeia exibidora diferenciada. Já conhecemos diversos exibidores que acreditam no cinema autoral e que estão vendo o trabalho sério que a Lume está realizando.

Lançamentos em Blu-Ray, produção de longas, projetos na televisão… Li também no blog da empresa que o senhor planeja lançar o livro da Lume: “Os filmes que sonhamos: 100 filmes − 100 críticos − 100 ensaios”. Pode falar um pouco sobre tudo isso? Quais são os projetos para o futuro da distribuidora/produtora?

Vamos lançar Blu-Ray a partir de julho de 2011. “Os filmes que sonhamos..”. − o livro − é um projeto lindo. Uma homenagem ao cinema, aos críticos brasileiros e à própria Lume. Será lançado em maio de 2011. Além disso, haverá os lançamentos naturais de DVD da Lume, as nossas produções, o I Festival LUME de Cinema, a abertura de duas salas de cinema da Lume em São Luís. Vivemos isso e acreditamos muito no que fazemos.

O Doidos agradece. Com toda certeza nós ainda vamos ouvir falar muito do Frederico e da Lume Filmes. Graças aos Deuses do Cinema, diga-se de passagem.

Carlos Eduardo Bacellar

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Embate crítico: Bacellar x Rocha

“A vida durante a guerra”, ansiolítico tarja preta estético do diretor americano Todd Solondz (“Bem-vindo à casa de bonecas”, 1995), dividiu a opinião dos críticos da blogosfera.

Carlos Eduardo Bacellar, fã de longa data da autoralidade sardônica de Solondz, (com lágrimas nos olhos) acredita que o novo filme do diretor passa longe do brilhantismo de obras anteriores, como “Histórias proibidas” (2001) e “Felicidade” (1998), matriz desta produção. E arremata dizendo que “A vida…” frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Mattheus Rocha, parceiro e autor do site Cinema na Rede − é um prazer tê-lo aqui no Doidos, amigo − do qual o Bacellar é um dos colaboradores, exulta o filme dizendo que o longa apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias. E destaca os diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte.

Duas análises antípodas (adorei essa palavra que aprendi com o Ely Azeredo e uso para impressionar as mulheres). Contrapontos interpretativos que enriquecem a discussão sobre cinema.

Vamos aos textos:

Quem acompanha o blog sabe do carinho que tenho pelo cineasta americano Todd Solondz. Ironia, sarcasmo, violência psicológica, senso de humor doentio e ousadia em abordar temas considerados tabu são alguns dos traços da assinatura estética do diretor.

No Festival do Rio, o realizador foi representado por “A vida durante a guerra” (2009), que estreia no circuito comercial dia 19 de novembro, pela Imagem Filmes.

Infelizmente a produção passa longe do brilhantismo autoral de “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Histórias proibidas” (2001), e frustra a expectativa de quem esperava ver o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana em sua melhor forma.

Tentativa malsucedida de emplacar uma continuação de “Felicidade” (1998) – que muitos apontam como a obra-prima da cinematografia de Solondz −, “A vida…” não consegue transcender sua matriz e desliza na sina das franquias: as sequências (na maioria esmagadora das vezes) deixam a desejar. Estaciona no plano da mediocridade.

A narrativa retoma o cotidiano das irmãs Jordan, que servem de amostra para que Solondz exerça sua alquimia reversa e transforme ouro em algum tipo de material radioativo. Aos poucos, o veneno do diretor deteriora a hipocrisia moral e revela uma sociedade profundamente transtornada.

Os subúrbios americanos, retratados como verdadeiros depósitos de traumas e perversões escamoteadas, são terreno fértil para os exercícios estéticos ácidos de Solondz, o Pasolini do american way of life.

Desta vez a história traça um paralelo entre o que aconteceu com as irmãs-protagonistas Joy, Trish e Helen, interpretadas neste novo filme por Shirley Henderson, Allison Janney e Ally Sheedy respectivamente, e o legado de perturbações psíquicas que seus círculos de relações sociais e familiares (principalmente os filhos de Trish) herdaram.

O H2SO4 (ácido sulfúrico) estético derramado por Solondz no verniz que disfarça o poço de neuroses e falsa moralidade no qual se afoga a classe média ianque não teve o mesmo efeito corrosivo de “Felicidade”. Talvez por ser uma fórmula gasta, explorada sem maior criatividade. O filme mais parece uma obrigação contratual (caça-níqueis) da qual o diretor quis se livrar logo.

Alguns diálogos depressivo-inteligentes (que nos forçam a ler nas entrelinhas), marcas da excelência de trabalhos anteriores, salvam determinadas cenas e impedem “A vida…” de ser um fracasso total, mas é só. Doeu no coração ter de escrever tudo isso…

Carlos Eduardo Bacellar

“A Vida Durante a Guerra” é um filme muito bem resolvido (técnica e conceitualmente) sobre pessoas mal resolvidas, vítimas de fracassados relacionamentos amorosos e/ou familiares, que resultaram em algum pesado trauma, carregado penosamente como um fardo aparentemente inseparável de suas ordinárias vidas. Apesar de referências a Israel (a maioria dos personagens é de origem judaica) e ao impasse da Terra Santa, a guerra não é exterior, e sim interior. O diretor e roteirista Todd Solondz − de “Felicidade” (1998) e “Histórias Proibidas” (2001) − apresenta um mosaico de densos conflitos íntimos, que mais parecem guerras durante as vidas de duas sofridas famílias.

As relações surrealistas têm início com diálogos brilhantes e atuações viscerais, amplificadas pela belíssima direção de arte de Roshelle Berliner, de “Preciosa − Uma História de Esperança” (2009). Cada intervenção é dotada de uma latente busca pela sanidade perdida (inconscientemente) pelas vicissitudes da vida, que elevam a história a uma espécie de busca por uma catarse coletiva. Os valores morais aspirados são expostos em uma constante terapia em grupo ou autoanálise (não propositais), mas a dualidade dos personagens leva a contradições que chegam a ser risíveis (delicioso humor negro nonsense), como a mãe que protege seu filho de um pai pedófilo, mas dá Rivotril para a filha mais nova, ainda uma criança.

A montanha russa de sentimentos é alimentada pela culpa, ressentimento, depressão, amores e desamores. “A Vida Durante a Guerra” vai ganhando força à medida em que a projeção avança, como o garoto que se torna adulto, e a ligação entre os personagens é mostrada de uma forma um tanto quanto bizarra. O palco desta história − que é continuação de “Felicidade” − é um subúrbio na Flórida, paranoico pelo pós 11 de setembro. A busca pela redenção passa pela reflexão e tem o perdão como ápice de um ser simplesmente humano, que, com suas fraquezas e ambiguidades, prefere estar com um ente querido do que refletir sobre questões essenciais à vida em sociedade. “Eu não me importo com a liberdade e a democracia. Só quero meu pai”.

Mattheus Rocha

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Um quarto para extravasar os desejos do corpo e da alma

O diretor espanhol Julio Medem e o roteirista chileno Julio Rojas compartilham mais que o primeiro nome e o pendor para conceber enquadramentos com mulheres estonteantes em cenas tórridas: os xarás possuem a sensibilidade para transmutar dramas cotidianos em elegias.

Transbordando sensualidade em suas obras (muitas vezes flertando com o realismo mágico), Medem sorveu do roteiro de “Na cama” (2005), escrito por Rojas e dirigido por Matías Bize – filme que incendiou a polêmica sobre autoralidade ao questionar a boa-fé de “Entre lençóis”, do cineasta Gustavo Nieto Roa, produção ofuscada pelos holofotes da suspeita de plágio −, as linhas gerais para falar da atração irrefreável que desencadeia a paixão em seu novo longa, “Um quarto em Roma”.

As produções anteriores de Medem, como “Lucía e o sexo” (2001) e “Os amantes do círculo polar” (1998), deixam claro que o diretor encontra no sentimento de perda o catalisador da inquietação (e da pulsão) de seus personagens.

Desta vez, o extravio, ou melhor, a perda voluntária da identidade – detonadora de inibições e pudores −, provocada pelo deslocamento geográfico, permitindo a reinvenção arbitrária dos personagens, afastados de seus círculos sociais, entrelaça dois corpos que de outra maneira talvez jamais trocassem intimidades.

Itália, madrugada do primeiro dia de verão. A espanhola Alba (Elena Anaya) e a russa Natasha (Natasha “Deusa Grega!!!” Yarovenko) se envolvem na noite de Roma e, balançadas pelo desejo silencioso, inaudito, mas que transparece no arrepio da pele, na chama do olhar e na respiração descompassada, vagam pelas ruas desertas e terminam envoltas nos lençóis de um quarto de hotel − inebriadas com o seu one night stand.

Alba, mais atirada e impetuosa, eleva a energia estática do tesão entre quatro paredes de maneira a derreter o “doce” da insegura Natasha − agrilhoada a convenções, a “russinha” resiste ao chamado de seu sexo até que seu instinto ultrapassa os limites da entrega, sem o cinto de segurança da racionalidade. Num mundo à parte, como o expresso em “Um copo de cólera” (1999), o amálgama de pele e suor se despe de qualquer recato em busca do gozo psicotrópico.

Em meio ao extravasamento das necessidades urgentes da carne, responsável pela conivência improvável que só a loucura do sexo pode proporcionar, as duas trocam confidências acerca de suas vidas. Retraídas no começo, aproveitam a oportunidade para se tornar outro alguém, misturando fantasia e realidade em relatos ao estilo “As mil e uma noites”. O que é real, elas irão entender, depende de uma questão de percepção do momento.

Quando os laços afetivos ensaiam solidificação, cimentados pela confiança criada na troca de carícias e fluidos, a área de interseção entre o onírico e o real se torna mais clara, as máscaras caem e a entrega do corpo, consumada, progride para a entrega da alma. O sentido de fidelidade, que poderia castrar o momento mágico, é relativizado e se torna mais um elemento (dispensável, portanto) na construção da história das duas.

Condensada num período de aproximadamente 12h, a narrativa encontra na claustrofobia voluntária, circunscrita na geografia morna e úmida da cama estranha – templo pagão do hedonismo condenado (e, com certeza, incompreendido) pela etiqueta do preconceito −, o confessionário que colocaria o Papa Bento XVI de cabelo em pé. Sacrilégio, naquele instante, seria desperdiçar a química feromônica e ficar imaginando pelo resto da vida o que poderia ter sido, mas não foi.

Entregando-se uma à outra em cenas de sexo (metamorfoseado em amor) de provocar altas súbitas de pressão, suor frio e remelexo na poltrona, Alba e Natasha compreendem que somente o que existe ali é digno de fé, desconsiderando a cartilha inquisitória de quem não entenderia aquele sentimento, não assimilaria o que aconteceu ali.

História de amor que, concretizada num quarto adornado por motivos da Grécia Antiga e do período Renascentista – e embalada pela belíssima canção Loving strangers, escrita por Lourdes Hernández González e interpretada por Russian Red (pseudônimo da madrileña Lourde Hérnandez, cantora e compositora de música indie e folk) −, remete ao filme “Caótica Ana” (2007), do próprio Medem, e nos faz acreditar em ligações com outras vidas do passado.

Paixão que hasteia a bandeira da lascívia e faz dela o estandarte do excesso sexual necessário, do prazer libertário, prazer que vira nosso mundo de cabeça para baixo – no filme, literalmente (fique atento à última cena, patrocinada pelo Bing Maps, do Bill “Tio Patinhas” Gates).

Obrigado, Julio Medem!

Estreia prevista para a próxima sexta-feira, no Rio e em São Paulo.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Informação de segurança para aqueles do grupo dos cuecas que, assim como eu, ficam mais animadinhos com meninas que gostam de meninas: a calça jeans é obrigatória para quem não quer ter picos embaraçosos de “O virgem de 40 anos” (2005) no meio da sessão. Diferentemente do que ocorreu na cabine de imprensa, a sala provavelmente estará cheia.

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Deixa ela entrar na tua casa

Assim, como quem não quer nada, o canal MAX, da HBO, sem muita badalação, estreou na sua programação a produção sueca “Deixa ela entrar” (2008), de Tomas Alfredson — antes mesmo da chegada (já atrasada) do filme às locadoras. Ponto para os canais pagos.

Alfredson subverte o cânone de Bram Stoker e reinventa a estética de filmes de vampiro ao retratar o romance do retraído Oskar (Kåre Hedebrant), 12 anos, e a vampirinha Eli (Lina Leandersson), que, apesar de aparentar a mesma idade do menino — por causa da maquiagem dos sonhos de toda mulher, incluída no pacote da maldição –, carrega muita história por trás de seu olhar enigmático.

O amor improvável nasce do compartilhamento das carências que minam a sensação de pertencimento dos dois. O ingrediente sobrenatural, à moda “O feitiço de Áquila” (1985), desta vez aproxima almas improváveis — que encontram nas fragilidades do companheiro o encanto para fortalecer o relacionamento.

Confie em mim… Ninguém vai se lembrar de Bella e Edward depois deste filme. Ah, sim… Vem um remake americano por aí. Espero que os ianques não estraguem tudo (difícil…).

Veja os dias e horários das próximas exibições no MAX clicando aqui.

Carlos Eduardo Bacellar

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“Dançando com o diabo”, documentário de John Blair inédito no circuito nacional, pode ser conferido no Vimeo

“Dançando com o diabo” (2009), documentário do diretor sul-africano John Blair, que retrata de forma crua a violência em favelas no Rio, pode ser assistido em streaming no site Vimeo.

Assinado por Blair e Tom Phillips, “Dançando…” gira em torno da rotina do traficante Juarez Mendes da Silva, o Aranha, chefe do tráfico de quinze morros cariocas, morto pouco tempo após o término das filmagens. Com sua câmera corajosa, Blair capta, sem julgamentos ou dramatizações arquitetadas para o espetáculo, o dia a dia de regiões dominadas pelos grupos armados da droga.

O documentarista, contando sua história por meio do triunvirato formado por um pastor, um inspetor da polícia civil, e o próprio traficante, erige o seu “Rashomon” (1950) da violência urbana carioca.

O pesadelo e o êxtase de qualquer capitão Nascimento (agora tenente-coronel).

A produção, que integrou a programação do Festival do Rio 2009, ainda permanece inédita no circuito nacional.

Carlos Eduardo Bacellar

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Puxão de orelha (merecido) no jovem sem memória

“Bacellar, meu caro, não deu pra entender, você desconhece Susana Schild? Jornalista de cinema, anos de Jornal do Brasil, hoje roteirista dos filmes de Roberto Bomtempo. Talvez seja um erro de visão da minha parte, mas o seu texto me confundiu, e pode confundir os jovens deste país sem memória… com carinho.”

Paulo Henrique Souto

“A culpa é minha, Paulo Henrique. Desta vez, pode me colocar na conta dos jovens sem memória. A Susana não tem nada a ver com a minha ignorância. O erro é só meu. Ninguém melhor que você para me dar esse puxão de orelha. Vou remediar.”

Abraços!

CEB

Trago para primeiro plano o puxão de orelha (foi pouco…) que tomei do Paulo Henrique Souto na parte para comentários do blog. Com toda a razão ele demonstrou, com candura e sutileza, sua acertada desaprovação a uma parte absurda do meu último post.

E a responsabilidade pela ignorância é minha. Somente minha. Acredito que a própria troca de mensagens entre o Paulo Henrique e mim, somada ao currículo da crítica Susana Schild, já delineia o tamanho da encrenca.

Uma degustação da trajetória da Susana: é jornalista e crítica de cinema, foi crítica do JORNAL DO BRASIL de 1976 a 1993, dirigiu a Cinemateca do MAM (1993-1997), foi correspondente no Brasil da revista MOVING PICTURES. Integrou o júri oficial dos festivais de Gramado e Brasília e o júri da crítica internacional no Festival de Montreal (2001).

Peço desculpas à Susana — sem máscaras, sem artifícios, sem gracinhas; com humildade. Não diminui o erro, nem remedia o desconhecimento indesculpável, mas fica o registro – escrito com a tinta indelével do éter − da retratação.

De volta para a sala de aula.

Carlos Eduardo Bacellar

 

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Os Doidos fecham com o Bonequinho, digo, Bonequinha, na militância para que “Scott Pilgrim contra o mundo” tenha vez no circuito carioca

Eu sabia que a ala underground do jornal O Globo não iria decepcionar, em plena época de Rio Comicon, os fãs de Scott Pilgrim, série de comics criada por Bryan Lee O’Malley que foi transposta para as telas, isto é, para algumas telas de cinema pelas mãos do diretor Edgar Wright.

Explico porque sublinhei a restrição imposta pelo mercado ao filme: “Scott Pilgrim contra o mundo” corre o risco de ficar anêmico pela falta de sol e terminar seus dias cinzentos no Brasil falando porra, meu!

Devido ao baixo desempenho (financeiro) do filme offshore, a distribuição não está garantida para o circuito carioca, e as expectativas dos fãs podem terminar em pizza da Casa Bráz.

Felizmente, no jornal da família Marinho, além de Bonequinhos, temos Bonequinhas com bastante presença de espírito. Erika Azevedo, repórter de cinema do site do Globo, iniciou um movimento no blog do Bonequinho conclamando a comunidade virtual a pressionar a Paramount para que a produção, encabeçada por Michael Cera, dê o ar de sua graça aqui no Rio.

Nós endossamos nosso apoio! E gritamos para que os blogs amigos nos acompanhem nesta militância. Amigos, fecham conosco? Espalhem a palavra no éter.

Segundo o texto de Erika, “o longa − sobre o baixista de uma banda indie que para namorar a garota dos seus sonhos precisa derrotar sete malévolos ex-namorados − por pouco não foi lançado direto em DVD no Brasil”.

A repórter continua destacando que “por conta do desempenho abaixo do esperado lá fora, a Paramount cogitou que o filme não estreasse aqui no país. Foi o boca-a-boca em redes sociais e blogs que garantiu a estreia nos cinemas − limitada a apenas três salas em São Paulo − na semana passada.”

Ainda de acordo com o post da jornalista, publicado hoje , acalentado por uma legião de acólitos nerds − entre os aficionados por quadrinhos e games − encantados pela trama pop, “mesmo com um número reduzidíssimo de telas, o filme conseguiu ter a maior média de público do fim de semana − com mais de mil espectadores por sala − e ainda entrar na lista dos 20 mais vistos do fim de semana, com renda de mais de R$ 36 mil. Se a boa marca se sustentar, a Paramount vai rever a estratégia de lançamento e o filme pode chegar a mais cidades brasileiras.”

O Télio Navega e o Rodrigo Fonseca devem estar com um orgulho danado dessa menina. Eu estou!

A Paramount (@ParamountBrasil), assim como os ex-namorados de Ramona, amada do protagonista Scott Pilgrim (Cera), irá sucumbir ante a pressão das redes sociais, tenho certeza. E se nós, juntos, conseguirmos, o Globo terá que organizar para os blogueiros uma sessão exclusiva do filme. Topa o desafio, Erika Azevedo? Ou vai amarelar? Peida não, hein… Estou te dando uma moral enorme.

E a pergunta, necessária, que não quer calar: Erika, você realmente curte os quadrinhos ou faz parte do clube que tem uma quedinha pelo jeito nerd-romântico de Michael Cera? Fale a verdade… Você não irá cair no meu conceito. Só vou dar uma zoadinha de leve, dependendo da resposta.

Outro assunto que eu gostaria de compartilhar com os leitores, e que ainda envolve a editoria de cultura do jornal…

Alguém reparou no Bonequinho de batom, laço de fita e saia que atende pelo nome de Susana Schild? Eu reparei… E quero saber: quem é miss Schild?

Seria um pseudônimo de Tom Leão, que resolveu adotar um tom (sem trocadilho) mais moderado sem macular sua imagem anárquica?

Alguém que ficou anos trancada na Escola de Cinema Darcy Ribeiro e era alimentada pelo Ely Azeredo numa caixa de rolo de filme vazia?

Who is she?

Isso dava até uma pautinha. Num universo ainda muito saturado pelo gênero masculino – pelo menos nos veículos tradicionais −, eis que surge uma crítica que vem escrevendo regularmente excelentes textos.

Não me lembro da última vez que, aqui no Brasil, li alguma análise estética, fora do universo virtual, de uma menina – com perfume Calvin Klein CK One, creme hidratante e tudo. Graças a Deus as coisas estão mudando, e para melhor. Lisa Cholodenko não me deixa mentir.

Acredito que a forma singular de as mulheres perceberem a realidade enriquece as interpretações; a sensibilidade feminina consegue ler dramatizações de formas que seriam impossíveis para os homens. Acho que o jornal deve meter logo uma saia e um laço de fita naquele desmilinguido e pronto: teremos uma modelo enxuta muito inteligente – pouca gordura e muito cérebro.

Carlos Eduardo Bacellar

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Dramas humanos não distinguem opção sexual

Amigos leitores,

Republico aqui no blog (com uma ou outra pincelada) as linhas principais da minha crítica do filme “Minhas mães e meu pai”, da diretora Lisa Cholodenko, que estreia no circuito amanhã.

Tive a oportunidade de conferir a produção no último Festival do Rio. A cineasta radiografa os conflitos emocionais de um casal homossexual, interpretado por Julianne Moore e Annette Bening, que precisa lidar com os distúrbios afetivos causados pela intrusão de Paul (Mark Ruffalo), pai biológico — leia-se doador de sêmen — dos dois filhos das lésbicas, na intimidade da família .

Vamos ao texto:

Nas planilhas Excel de quem transitou pelo circuito do Festival do Rio, disposto a conferir o máximo de filmes possível, uma das produções obrigatórias era “The kids are all right” (no original).

A diretora californiana Lisa Cholodenko, que tem o currículo recheado de experiências com séries de televisão, aproveitou o fascínio da atriz Julianne Moore por projetos mais autorais e a cooptou para, ao lado de Annette Bening, desmistificar os dramas de um casal de lésbicas às voltas com os desafios de criar uma família (dita) não convencional.

“Pães” de Joni (Mia Wasikowska, a Alice versão Senhor do Anéis de Tim Burton), de 18 anos, e Laser (Josh Hutcherson), de 15, ambos concebidos por inseminação artificial, Nic (Annette) e Jules (Julianne) são pegas de calcinha na mão quando os filhos resolvem conhecer Paul, o pai biológico, digo, doador do sêmen que os gerou, interpretado por Mark Ruffalo.

À força de sua postura descolada e um estilo de vida desencanado e liberal, Paul conquista seus “filhos” e obriga Nic e Jules a lidarem com a eventualidade de um elemento estranho no seio da família.

O macho-alfa vivido por Paul é o composto trinitrotoluênico que adiciona testosterona ao excesso de estrogênio e explode as camadas superficiais de compostura, revelando as inseguranças do casal homossexual. Inseguranças universais.

O refinamento deste drama, temperado com humor inteligente, é percebido na composição emocional dos personagens; e na forma como interagem uns com os outros. Nic e Jules trafegam pelo ciúme, preocupação, desejo, excitação, frustração… Sentimentos que acometem qualquer ser humano.

E aí é que está… Lisa Cholodenko confirma que o preconceito é algo tão ultrapassado que passa longe da construção moral e comportamental daquele núcleo familiar. Sem esquematismos ou estereótipos, Julianne Moore e Annette Bening retransmutam o (que não deveria ser) extraordinário para o (que sempre foi) ordinário de forma orgânica.

O brilhantismo reside aí: duas pessoas que se amam tentando criar seus filhos da melhor maneira, sem nem sequer se darem conta de que suas atitudes não são (graças a Deus!) condicionadas por rótulos estúpidos – às vezes o pior preconceito é o alimentado pelo sujeito paciente. Família disfuncional sim, mas como a minha e a sua, ponto final.

As dificuldades na construção e manutenção de um relacionamento – e a convulsão emocional inerente − são assexuadas.

Carlos Eduardo Bacellar


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“Pilar e Jos”… Ops! Digo, “José e Pilar”

O título deste post já entrega a primeira impressão de “José e Pilar”, documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, uma coprodução O2 e El Deseo, que teve sua estreia mundial no Festival do Rio 2010.

Por meio de uma abordagem intimista, Miguel acompanha o dia a dia do casal Saramago na época em que o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura concebia o romance A viagem do elefante, lançado em 2008.

Ao devassarmos a rotina conjugal por meio das lentes do cineasta luso, forçosamente passamos a desmistificar Saramago, a enxergá-lo como um homem comum, com atitudes e demandas prosaicas, que tem sua agenda – e aqui utilizo o termo agenda em sentido amplo – controlada com mão de ferro pela voluntariosa jornalista espanhola Pilar Del Rio, sua esposa.

Se a produção viesse no formato 3D, a força da obra do escritor, ecos do Nobel que perdem seu significado em meio à burocracia e à logística de promoção da grife Saramago, “imposta” ao autor da obra-prima “Ensaio sobre a cegueira” (1995), funcionaria como substrato para aquela carpintaria estética. Em segundo plano viria o romance do casal, uma história de amor que germinou da semente da admiração. O que salta aos olhos, de modo que quase podemos tocar, é a onipresença e a (quase) onipotência de Pilar, força da natureza que envolveu Saramago e o arrasta consigo. Até a filha dele, Violente, tangencia a narrativa, tal a concentração na figura de Pilar.

“Pede a bênção, querido.”

E, por favor, essa análise passa longe do machismo. Quem me conhece sabe que acredito que as mulheres vão dominar o mundo. Já deixei isso claro em oportunidades anteriores. Sobre o filme, é somente a constatação de um fato. A balança estética de Miguel Gonçalves foi desregulada (acredito que acidentalmente) pela pungência da figura de Pilar.

Do seu refúgio na ilha de Lanzarote, nas Canárias, Saramago é catapultado pelo interesse em seu trabalho para os mais variados locais do mundo. Cético, ateu e comunista, ele, que expressa seu quixotismo no sarcasmo contra uma realidade que nunca atendeu suas expectativas, encontra no pragmatismo de Pilar, seu Sancho Pança, a bússola que direciona seu pessimismo para a produção. Só que as obrigações e deveres de cavaleiro e escudeiro de confundem.

Mal vista por uma ala do povo de Portugal – que a acusa de ser a responsável pelo êxodo do marido da terra de Camões para as Canárias − a impetuosa jornalista não se acanha com assuntos polêmicos e delicados. Debate política, religião, emancipação das mulheres, eleições, com desenvoltura e sem papas na língua. Ela inclusive mete o dedo na cara do governo de Cavaco Silva quando sabatinada por um jornalista acerca das razões da opção de Saramago por Lanzarote.

O filme é um trabalho muito benfeito que torna menos intangível e abstrata a figura do monstro da literatura. Não falta emoção, e sim direção e consistência para esse sentimento que nasce na literatura do mestre, mas se esvai na praticidade, algumas vezes deselegante (para nós, fãs), de Pilar.

No filme “O homem que matou o facínora” (1962) − dirigido por John Ford e roteirizado por James Warner Bellahh e Willis Goldbeck (baseado na história de Dorothy M. Johnson) −, uma linha de diálogo diz mais ou menos o seguinte: “Quando a lenda vira fato, imprima-se a lenda”. Ah, se Miguel tivesse seguido o conselho expresso no filmaço de Ford… O diretor americano era um cara que sabia das coisas…

Atrás do grande homem que foi o Nobel de Literatura nós não encontramos uma grande mulher, mas sim uma legião de fãs que não deixam de se encantar com as palavras do romancista. Pilar vai na frente, e Saramago, ladeado pela desilusão, encontra dificuldade em acompanhar o ritmo frenético da esposa – mesmo quando sua única certeza era ela. Lúcido, escreveu até o fim da vida, sempre buscando no que sorvia de pior na humanidade as matérias-primas para suas criações.

Apesar das reticências, o filme merece nosso prestígio. José Saramago é um dos responsáveis por alimentar minha paixão pela literatura. Engolindo a seco cada palavra das obras dele, crispadas pela ironia, sarcasmo, humor negro e descrença, entendi um pouco mais sobre nós mesmos.

Carlos Eduardo Bacellar

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