O “Fogo contra fogo” de Ben Affleck

Charlestown, bairro da cidade de Boston, estado de Massachusetts (EUA). Se alguém planeja organizar uma convenção mundial de assaltantes de bancos e carros-fortes, esse seria o local ideal.

As duas paixões locais (que não são unânimes, diga-se de passagem, não quero ser crucificado por generalizações) são o Boston Red Sox − time americano profissional de beisebol – e os cofres recheados de dólares. Esta última rendeu à região a alcunha de capital de roubos a banco dos Estados Unidos.

É neste cenário que Ben Affleck contextualiza “Atração perigosa”, o seu “Fogo contra fogo” (1995) roteirizado pelo próprio Affleck, diretor do filme, Peter Craig e Aaron Stockard.

Inspirado pelo que existe de melhor na cinematografia (que não poupa munição) de Michael Kenneth Mann (“Inimigos públicos”, 2009), Affleck encarna o arquiteto da contravenção Doug MacRay, que carrega em seu DNA os conflitos psicológicos de Neil McCauley, interpretado por ninguém menos que Robert De Niro em “Fogo contra fogo”, obra-prima de Mann.

O antagonista de MacRay é vivido pelo agente do FBI Adam Frawley (Jon Hamm, mais conhecido pelo seu trabalho no seriado de televisão Mad Men) que, por causa de sua obstinação na caçada aos criminosos, poderia muito bem ser confundido com o policial Vincent Hanna, dramatizado com maestria por Al Pacino em seu embate com McCauley (De Niro).

MacRay e sua gangue, na qual se destaca o irascível James Coughlin (Jeremy Renner), sempre com o dedo no gatilho, ansiando por um homicídio doloso, tocam o caos e a desordem nas ruas de Boston, protagonizando assaltos cirúrgicos e muito bem organizados contra instituições financeiras e carros-fortes, sinônimos de dinheiro vivo e rápido – só que, atreladas ao lucro de risco, vêm as consequências da vida bandida.

Uma operação de rotina não sai muito bem, e o grupo de criminosos percebe que pode ter suas identidades expostas pela subgerente Claire Keesey (Rebbeca Hall, esbanjando o charme de sempre com suas sardas e dentinhos tortos na arcada superior), feita refém na operação que quase saiu de controle. MacRay, alegando preocupação com a segurança dos companheiros, se aproxima de Keesey com o objetivo de monitorar sua contribuição ao FBI. Os dois acabam se envolvendo e ela se torna sua Eady (Amy Brenneman, que faz a amante do personagem de De Niro na produção de Mann).

Apaixonado, ele começa a se sentir vulnerável – tanto física como emocionalmente −, e percebe que o planejamento meticuloso e uma boa dose de ousadia não são mais suficientes para que ele e seus comparsas estejam sempre um passo à frente da lei. Filho de pai também assaltante, que está amargando anos atrás das grades por causa de um deturpado senso de honra, − baseado no código da omertà irlandesa reinante entre os meliantes de Charlestown −, MacRay começa a enxergar que talvez não permaneça vivo muito tempo para ter direito a um futuro normal.

O conflito de MacRay encontra seu significado na angústia que o divide entre a lealdade a seus colegas – fortalecida pelas raízes da criminalidade que alimentam e solidificam os laços de alguns membros daquela comunidade − e a certeza de que nunca poderá fazer de Keesey a Bonnie do seu Clyde (almejando a aposentadoria), sem que isso destrua a relação.

O barulho provocado pelas saraivadas dos rifles de assalto, em cenas de ação de tirar o fôlego – Affleck aprendeu direitinho com as obras de Mann a tirar o melhor proveito dos combates em geografias urbanas −, aflige nossos tímpanos e tira o nosso equilíbrio, que pende entre o que é moral (emoção) e o que é estritamente legal (razão).

Um colete à prova de balas pode salvar MacRay de um tiro de fuzil, mas a proteção, paradoxalmente, certamente não resistirá ao distanciamento (imposto pelas circunstâncias) de algo que pode fazer muito mais estragos: a pessoa amada.

MacRay (Affleck), apesar da dor, aprendeu a lição com McCauley (De Niro) e deixou seu peito doer com o vazio da ausência – que não significa desistência, somente permanecer respirando por mais um dia para buscar novamente, desta vez o que ele acha certo.

Destaca-se no elenco a irmã de James, Krista Coughlin (Blake Lively), encarnando de forma crua uma mãe solteira dependente química, provando que – no estilo Angelina Jolie em “Garota, interrompida” (1999) −, pode ser mais do que uma fútil Gossip Girl.

Assim como “Fogo contra fogo”, o filme de Affleck é obrigatório para quem curte o que há de melhor por aí no cinema americano. Imperdível!

Carlos Eduardo Bacellar

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1 comentário

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