Catequese do hedonismo

O diretor John Curran é um especialista nos fatores que causam a erosão de relacionamentos. Objetos de atenção da estética do cineasta, a diluição dos laços conjugais foi abordada em projetos anteriores como “Tentação” (2004) e “O despertar de uma paixão” (2006).

A dificuldade em conjugar, no longo prazo, tesão e respeito acarreta o ocaso da vida a dois, que, em certos casos de falência do querer, encontra a traição como subproduto da indigência do afeto e da orfandade da pele.

“Homens em fúria” (“Stone”, no original), dirigido por Curran e roteirizado por Angus MacLachlan, trata do vazio existencial do agente de condicional Jack Mabry (Robert De Niro), que, pela ausência de aspirações em uma vida desidratada pelo marasmo suicida, arrasta-se por seus dias como alguém que desistiu de buscar algum significado para o viver.

Jack padece com a esposa as agruras de um casamento falido – contraditoriamente sustentado na truculência do autoritarismo e solapado na incompreensão do outro, exponenciada pelo silêncio envenenado de frustrações − e conta os dias para se aposentar. Tentando encontrar alívio na fé, o casal não consegue achar a saída da masmorra em que suas almas estão confinadas. A pregação religiosa agora é um som comum, inócuo, como o barulho de carros passando na rua.

Jack sorve aqueles sermões de modo distanciado, alienado, como um ouvinte que se distrai com programas de rádio enquanto dá cabo de seus afazeres diários, mecanicamente.

Na contagem regressiva para pendurar o coldre com sua arma, ele é encarregado do caso do detento Stone (Edward Norton). Na condução do perfil psicológico do presidiário, Jack, num jogo articulado para influenciar seu discernimento, escorrega na carência do corpo e se envolve com Lucetta (a avassaladora Milla Jovovich), mulher de Stone – um convite irrecusável ao pecado.

A partir daí, Mabry sente suas convicções serem colocadas em xeque, e fica dividido entre desejo e obrigação. A falsa moralidade do agente é exposta quando a beleza de Lucetta incinera os dogmas que orientavam, até então, a (pseudo)retidão de sua conduta. Jack, ao entregar-se ao prazer irresponsável − atormentado por crises ocas de consciência −, se torna tão criminoso, no entendimento da letra fria da lei dos homens, como os internos sob sua responsabilidade. Ele se questiona se o mesmo raciocínio pode ser espelhado para as leis de Deus – só que as palavras do Senhor são abafadas pelos gemidos de prazer de Lucetta.

Catequizado pelo hedonismo, Jack entende que a vida não pode ser reduzida a uma equação matemática. As incógnitas que representam anseios do espírito e regras sociais arbitrárias adquirem valores diferentes e são relativizadas pela situação. Milla Jovovich é o elemento da teoria do caos que bagunça com os cálculos de Jack e, na vazão do desejo e angústia da instabilidade, provoca a transgressão e o faz sentir algo novamente.

Carlos Eduardo Bacellar



 

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