“Pilar e Jos”… Ops! Digo, “José e Pilar”

O título deste post já entrega a primeira impressão de “José e Pilar”, documentário do diretor português Miguel Gonçalves Mendes, uma coprodução O2 e El Deseo, que teve sua estreia mundial no Festival do Rio 2010.

Por meio de uma abordagem intimista, Miguel acompanha o dia a dia do casal Saramago na época em que o único escritor de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura concebia o romance A viagem do elefante, lançado em 2008.

Ao devassarmos a rotina conjugal por meio das lentes do cineasta luso, forçosamente passamos a desmistificar Saramago, a enxergá-lo como um homem comum, com atitudes e demandas prosaicas, que tem sua agenda – e aqui utilizo o termo agenda em sentido amplo – controlada com mão de ferro pela voluntariosa jornalista espanhola Pilar Del Rio, sua esposa.

Se a produção viesse no formato 3D, a força da obra do escritor, ecos do Nobel que perdem seu significado em meio à burocracia e à logística de promoção da grife Saramago, “imposta” ao autor da obra-prima “Ensaio sobre a cegueira” (1995), funcionaria como substrato para aquela carpintaria estética. Em segundo plano viria o romance do casal, uma história de amor que germinou da semente da admiração. O que salta aos olhos, de modo que quase podemos tocar, é a onipresença e a (quase) onipotência de Pilar, força da natureza que envolveu Saramago e o arrasta consigo. Até a filha dele, Violente, tangencia a narrativa, tal a concentração na figura de Pilar.

“Pede a bênção, querido.”

E, por favor, essa análise passa longe do machismo. Quem me conhece sabe que acredito que as mulheres vão dominar o mundo. Já deixei isso claro em oportunidades anteriores. Sobre o filme, é somente a constatação de um fato. A balança estética de Miguel Gonçalves foi desregulada (acredito que acidentalmente) pela pungência da figura de Pilar.

Do seu refúgio na ilha de Lanzarote, nas Canárias, Saramago é catapultado pelo interesse em seu trabalho para os mais variados locais do mundo. Cético, ateu e comunista, ele, que expressa seu quixotismo no sarcasmo contra uma realidade que nunca atendeu suas expectativas, encontra no pragmatismo de Pilar, seu Sancho Pança, a bússola que direciona seu pessimismo para a produção. Só que as obrigações e deveres de cavaleiro e escudeiro de confundem.

Mal vista por uma ala do povo de Portugal – que a acusa de ser a responsável pelo êxodo do marido da terra de Camões para as Canárias − a impetuosa jornalista não se acanha com assuntos polêmicos e delicados. Debate política, religião, emancipação das mulheres, eleições, com desenvoltura e sem papas na língua. Ela inclusive mete o dedo na cara do governo de Cavaco Silva quando sabatinada por um jornalista acerca das razões da opção de Saramago por Lanzarote.

O filme é um trabalho muito benfeito que torna menos intangível e abstrata a figura do monstro da literatura. Não falta emoção, e sim direção e consistência para esse sentimento que nasce na literatura do mestre, mas se esvai na praticidade, algumas vezes deselegante (para nós, fãs), de Pilar.

No filme “O homem que matou o facínora” (1962) − dirigido por John Ford e roteirizado por James Warner Bellahh e Willis Goldbeck (baseado na história de Dorothy M. Johnson) −, uma linha de diálogo diz mais ou menos o seguinte: “Quando a lenda vira fato, imprima-se a lenda”. Ah, se Miguel tivesse seguido o conselho expresso no filmaço de Ford… O diretor americano era um cara que sabia das coisas…

Atrás do grande homem que foi o Nobel de Literatura nós não encontramos uma grande mulher, mas sim uma legião de fãs que não deixam de se encantar com as palavras do romancista. Pilar vai na frente, e Saramago, ladeado pela desilusão, encontra dificuldade em acompanhar o ritmo frenético da esposa – mesmo quando sua única certeza era ela. Lúcido, escreveu até o fim da vida, sempre buscando no que sorvia de pior na humanidade as matérias-primas para suas criações.

Apesar das reticências, o filme merece nosso prestígio. José Saramago é um dos responsáveis por alimentar minha paixão pela literatura. Engolindo a seco cada palavra das obras dele, crispadas pela ironia, sarcasmo, humor negro e descrença, entendi um pouco mais sobre nós mesmos.

Carlos Eduardo Bacellar

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5 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

5 Respostas para ““Pilar e Jos”… Ops! Digo, “José e Pilar”

  1. O mais incrível do filme é o sujeito lidando com seu predicado: os últimos suspiros, o desequilíbrio entre corpo e mente, o avançar da idade. Amar incondicionalmente o instante é a beleza da terceira idade.E o foco de Saramago em seu presente com correspondente construção sutil de Miguel Gonçalvez Mendes é um grande presente. Filmaço.

  2. patricia

    Enfim uma opinião sensata sobre o filme. Essa Pilar é uma tirana. O mito Saramago cai com esse filme. Em diversas situações me senti mal por ele. Ninguém merece uma mulher daquelas. Jornalista frustrada.

    • Pois é, Patricia… Compartilhamos o sentimento de indignação. Quem venera o Saramago, como eu, sentiu-se um pouco atingido com os sintomas (que transcendem a tela) causados pela virulência da Pilar. Apareça sempre para trocar ideias, mesmo quando você não não concordar com nossas opinões.
      Abraços!
      CEB

  3. Alcinda

    Felizmente uma opinião com a qual posso compartilhar.Em meio à quase unanimidade sobre a beleza do filme e o tão grande e bonito amor entre Saramago e Pilar, já estava desconcertada por ter opinião discordante. Acho que não é possível imputar ao diretor o que me constrangeu ao assistir ao filme, afinal ele apenas retrata um pouco o dia a dia do casal (mas é claro que tem muito dele, pois afinal é quem faz as escolhas do que mostrar, de como mostrar. Ressalte-se também que, do ponto de vista da estética, o filme tem mérito). O que encanta no filme são algumas frases fortes e poéticas de Saramago, sobre a vida, sobre o fim da vida, sobre Pilar. Mas o filme mostra uma relação de opressão, indignei-me em muitos momentos por ver um Saramago oprimido, estafado e sem forças e tendo que dar conta de uma agenda que, pareceu-me, não era a sua agenda, mas a de Pilar. Houve momentos desumanos, cruéis até, de muito desrespeito , em relação à sua fragilidade e ao seu desejo. Pilar o arrasta consigo como um trator, tem muita energia e opinão forte, mas a relação entre eles é desigual, assimétrica. Vi (e me chocou!) uma relação simbiótica terrível entre eles, e parece-me incompreensível o quanto ela tem sido aclamada e admirada. Que óculos estão usando, ou sou eu que estou com os óculos errados
    Alcinda

    • Bonita análise, Alcinda. Fico feliz que você tenha concordado com a minha opinião.
      Como você mesma disse, a relação assimétrica apaga quem deveria ser destacado no filme: Saramago.
      Apareça sempre para trocarmos ideias.
      Abraços!
      CEB

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