Luminar maranhense da autoralidade

Apaixonado por cinema desde a mais tenra idade, Frederico Machado é um militante incansável do cinema de qualidade: obras clássicas e/ou cult que tragam em seu pedigree autoralidade, marginalidade, independência da cartilha do mainstream, enfim, arte – algumas desconhecem o significado do substantivo estante de locadora. Diretor-fundador da Lume Filmes, produtora e distribuidora com sede em São Luís, no Maranhão − que vem sacudindo o mercado de locações apostando num acervo de iguarias raras da sétima arte, com aroma estético para deixar público e crítica com água na boca −, ele teve sua formação moldada pelo cinema.

Esse maranhense de 38 anos, que em 1985, aos treze anos, assistiu a mais de 1.600 produções, hoje divide um pouco do seu vício, como ele mesmo define, com os aficionados pelo que existe de melhor no cinema canalizando sua adicção no negócio que gerencia com o coração – e cuja história apresenta acordes cavi-borgianos no ritmo do cacuriá.

Fundada em 2000 como produtora e exibidora, de lá para cá a Lume já lançou mais de 100 títulos, mantendo um ritmo de 4 DVDs a cada mês – com 80 filmes já programados para o futuro próximo −, produziu mais de 20 curtas maranhenses e planeja para 2011, além  do investimento no formato Blu-Ray, o I Festival LUME de Cinema e o lançamento do livro “Os filmes que sonhamos: 100 filmes − 100 críticos − 100 ensaios”, uma homenagem ao cinema, aos críticos brasileiros e à própria Lume, como define Frederico.

No cardápio refinado, a produtora e distribuidora ostenta filmes como “Bem-vindo à casa de bonecas” (1995) e “Felicidade” (1998), de Todd Solondz; “Crash” (1996), de David Cronenberg; “O castelo” (1997), de Michael Haneke; “O jardim dos Finzi-Contini”, de Vittorio de Sica” (1970); “Intimidade” (2001), de Patrice Chéreau, “A Guerra do Fogo” (1981), de Jean-Jacques Annaud; “Sozinho contra todos” (1998), de Gaspar Noé; “A conversação” (1974), de Francis Ford Coppola; “1984” (1984), de Michael Radford; “O discreto charme da burguesia” (1972), de Luis Buñuel; “Tragam-me a cabeça da Alfredo Garcia” (1974), de Sam Peckinpah, o poeta da violência; entre outros, muitos deles prestigiados com textos aqui no blog. O espaço fica pequeno para listar tantos filmes, certamente essenciais para o currículo de qualquer cinéfilo que se preze.

Já fez o seu pedido para Papai Noel? Pois é, o Frederico já fez o(s) dele, e vai querer compartilhar seus presentes com todos nós. Na carta que ele escreveu para o bom velhinho, pediu para a Lume uma fornada de pérolas do cinema, que chegam no trenó agora em dezembro: “O espantalho” (1973), de Jerry Schatzberg, com Al Pacino e Gene Hackman no elenco; “Os companheiros” (1963), de Mario Monicelli; “Os primos” (1959), de Claude Chabrol; e “A terceira geração” (1979), de Rainer Werner Fassbinder.

Acha pouco? Então se prepare, porque na virada do ano você vai ter outros motivos para estourar o champanhe (e nem vai precisar pular sete ondinhas para isso). A Lume já engatilhou para janeiro “A mãe e a puta” (1973), de Jean Eustache; “O homem das flores” (1983), de Paul Cox; “Servidão humana” (1964), de Ken Hughes; e “Salmo vermelho” (1972), de Miklós Jancsó.

A festa de Revéillon da Lume, porém, foi antecipada para este mês. Novembro de 2010 é uma data histórica.  É o melhor mês da história da Lume em termos de vendagens: foram mais de 6 mil unidades vendidas em novembro. E ainda estamos no dia 20.

Mesmo considerando a tarefa arriscada, a Lume ainda arquiteta uma volta às origens, com projetos para investir no mercado exibidor apostando numa cadeia diferenciada de exibição (ufa!).

Fluente no vernáculo cinematográfico – o próprio diretor-fundador arregaça as mangas e legenda os filmes adquiridos −, Frederico ainda é proficiente no idioma de 140 caracteres. Se você gritar “Alô, @lumefilmes!”, ele responde de forma sucinta. Com mais de três centenas de seguidores, a produtora/distribuidora não para de colecionar fãs ardorosos. O responsável por todo esse agito ainda encontra tempo para alimentar um blog, que funciona como um ambiente mais informal para divulgar as novidades.

Frederico espremeu em sua agenda apertada, comprimida por viagens pelo Brasil e ao exterior, correndo festivais e eventos para promover o negócio e estabelecer novos contatos (que irão nos possibilitar mais filmes!!!), um tempinho para responder algumas perguntas por e-mail para o Doidos. Entrevista há muito desejada. Ele fala um pouco sobre tudo: sua infância, desafios do mercado exibidor, pirataria e planos para o futuro.

As palavras de Frederico exprimem a mesma emoção da época em que era um adolescente ávido por consumir cultura em movimento na tela grande, e trocou (por um tempo) o Maranhão pelo Rio – o que demonstra seu carinho pela devoção à arte de Truffaut e Hitchcock, transformada em ofício. Sua casa em solo carioca naquele tempo? Local sugestivo: ao lado de uma sala de cinema que exibia filmes de arte.

Como surgiu essa paixão pelo cinema e a vontade de transformar esse sentimento num ofício?

Sempre fui um apaixonado pelo cinema. Lembro-me indo para o cinema com meu pai aos 7, 8 anos, e querer continuar na sessão para ver novamente o mesmo filme! Era realmente viciado em cinema. E continuo assim até hoje! Nasci em São Luís, mas fui para o Rio de Janeiro estudar aos 11 anos. Fiquei toda minha adolescência lá e morava ao lado de um cinema que exibia filmes de arte. Foi também o início do videocassete. Portanto, minha educação foi toda moldada pelos filmes. Via por dia mais de 5 filmes. Tenho um caderno de anotação de 1985, quando eu tinha 13 anos, e nele está escrito a quantos filmes assisti naquele ano: 1.632 filmes!

Como e quando surgiu a Lume Filmes? Queria que o senhor falasse um pouco acerca da organização do catálogo. Percebi que a distribuidora de DVDs foca em duas linhas de produtos: Coleção Lume e Lume Clássicos. A Coleção Lume aposta em produtos nunca lançados no mercado brasileiro. E que lugar mais curioso para sediar um negócio dessa espécie, o Maranhão.

A Lume Filmes surgiu em 2000, como produtora e exibidora. Retornei a São Luís em 1997 para realizar um curta-metragem premiado pelo Ministério da Cultura (MinC). Fiz o curta – “Litania da Velha” −, que participou de mais de 30 festivais e ganhou mais de 20 prêmios. Resolvi ficar, abri uma locadora de vídeo (a Backbeat), e em 1999 abriu uma licitação do Governo para arrendamento de um cinema que estava fechado (o Cine Praia Grande). Abrimos a produtora e conseguimos arrendar o cinema. Exibíamos somente filmes de arte, autorais. Continuamos fazendo filmes e também queríamos distribuí-los, fazer com que as pessoas os vissem. Realizamos 3 Festivais Internacionais no Cinema, o que deu a chance de conhecer várias distribuidoras estrangeiras. A distribuição em DVD foi o passo seguinte e bem natural. A curadoria dos filmes sou eu que faço e é um trabalho fantástico. Penso somente na qualidade do filme e não no potencial comercial. E o fato de estarmos em São Luís não interfere em nada o processo todo. Moro na cidade, adoro, e tem um potencial cultural incrível.

O catálogo da Lume conta com mais de 100 filmes. A distribuidora tem fôlego para lançar pelo menos 2 ou 3 filmes por mês e planeja colocar no mercado mais de 60 títulos nos próximos dois anos. Oba! Quer dizer… Desculpe-me pela quebra de decoro… Aqui a figura do jornalista se confundiu um pouco com a do admirador.

A Lume Filmes já lançou 106 títulos e está lançando 4 por mês, desde julho desse ano! E sim, já temos adquirido para futuros lançamentos mais 80 títulos.

Quais são os campeões da Lume? Quais são os filmes mais vendidos? Os filmes do (David Samuel) Peckinpah, por exemplo, estão fazendo a comunidade cinéfila babar. A distribuidora cobre o Brasil todo? Atende tanto pessoas físicas como jurídicas? E quanto ao modelo de negócios da Lume. Como é feita a aquisição dos filmes? Como são negociados os direitos?

Os títulos mais vendidos da Lume são “A Guerra do Fogo”, de Jean-Jacques Annaud (7.000 unidades); “1984” (4.000), de Michael Radford; “A Conversação”, de Francis Ford Coppola (4.000); e “O discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel (4.000). A Lume tem representantes em todo o Brasil e trabalha tanto para pessoa jurídica como física.

A aquisição dos filmes é diretamente com a produtora estrangeira e cada filme é um negócio diferente. O valor dos direitos autorais para se licenciar o lançamento de um filme em DVD pode variar de R$ 850,00 (US$ 500) a R$ 25,5 mil (US$ 15 mil). Sendo que, antes de colocar a contabilidade no papel, devemos ter em mente um passivo de aproximadamente R$ 8,5 mil. São custos referentes à taxa do governo (Ancine), à tiragem (mil cópias é o piso), ao projeto gráfico e à autoração (gastos com a elaboração de extras, legendas e a criação de menu de capítulos).

O senhor nunca teve medo de apostar suas fichas num nicho muito específico de mercado? O negócio é viabilizado pela demanda? O cinema autoral, independente e marginal não fica circunscrito a um universo muito pequeno de cinéfilos?

Nunca tive medo nenhum de trabalhar com o cinema que, acredito, é o cinema autoral, de qualidade, artístico, pois acredito que apesar do público segmentado, as pessoas são mais respeitosas com o trabalho e têm realmente mais interesse em adquirir os filmes que lhes tocam.

Se por um lado os títulos da Lume atingem uma parcela menor de público que os blockbusters, por outro acredito que o modelo dos senhores dificulta a pirataria (ou a torna sem sentido). Até porque esses títulos cult, digamos assim, não são o foco desse tipo de comércio ilegal. O que o senhor acha disso?

Há pirataria para todos os tipos de filmes. Mas o que diferencia nossos DVDs é o trabalho gráfico, a autoração bem feita e artística, a curadoria privilegiando filmes desconhecidos. Daí o respeito do público com nossos DVDs. As pessoas veem que nossa empresa é uma empresa que ama o cinema acima de tudo e por isso há o respeito, o interesse.

A Lume também é uma produtora. Até agora há dois curtas lançados – “Infernos” e “Vela ao crucificado”, este premiado no recém-encerrado Amazônia Doc.2, Festival Pan-Amazônico – e um outro curta em pré-produção − “O olho”. Todos do senhor. Os projetos da produtora contemplam (e pretendem contemplar no futuro) somente o cinema autoral, independente e marginal? Quais são as próximas empreitadas da produtora?

Já produzimos mais de 20 curtas maranhenses e não somente os meus trabalhos. O “Vela ao crucificado”, que é o último curta que realizamos, está sendo o mais exposto, pois foi o que mais participou de Festivais e ganhou mais prêmios. Já foram mais de 60 festivais e 30 Prêmios, muitos deles em Festivais Internacionais. Para 2011, está prevista a realização de 3 curtas (dois de ficção e um documentário) e 2 longas (1 de ficção e 1 documentário). E quanto ao Festival, em maio de 2011 está confirmado o I Festival LUME de Cinema, com mostras competitivas para longas e curtas, nacionais e internacionais.

Vi que a Lume acalenta entre suas ambições lançamentos no cinema. Hoje os senhores têm uma grande vantagem competitiva: não disputam salas de cinema. Como sabe, o circuito exibidor é o filtro do desequilíbrio entre oferta e demanda. Geralmente os grandes estúdios levam vantagem devido ao poder econômico. Muitos filmes deixam de ter seu lugar ao sol todos os anos. Como o senhor vê isso? É um passo arriscado investir no circuito exibidor?

Arriscadíssimo, principalmente pela falta de cinemas. Mas estamos fechando uma cadeia exibidora diferenciada. Já conhecemos diversos exibidores que acreditam no cinema autoral e que estão vendo o trabalho sério que a Lume está realizando.

Lançamentos em Blu-Ray, produção de longas, projetos na televisão… Li também no blog da empresa que o senhor planeja lançar o livro da Lume: “Os filmes que sonhamos: 100 filmes − 100 críticos − 100 ensaios”. Pode falar um pouco sobre tudo isso? Quais são os projetos para o futuro da distribuidora/produtora?

Vamos lançar Blu-Ray a partir de julho de 2011. “Os filmes que sonhamos..”. − o livro − é um projeto lindo. Uma homenagem ao cinema, aos críticos brasileiros e à própria Lume. Será lançado em maio de 2011. Além disso, haverá os lançamentos naturais de DVD da Lume, as nossas produções, o I Festival LUME de Cinema, a abertura de duas salas de cinema da Lume em São Luís. Vivemos isso e acreditamos muito no que fazemos.

O Doidos agradece. Com toda certeza nós ainda vamos ouvir falar muito do Frederico e da Lume Filmes. Graças aos Deuses do Cinema, diga-se de passagem.

Carlos Eduardo Bacellar

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