Arquivo do mês: dezembro 2010

Fuga ao tema (desculpável)

A literatura pede espaço ao cinema. Não poderia ter ganho de Natal melhor presente que  o livro “Milagrário pessoal”, editado aqui pela Língua Geral, do magistral romancista angolano José Eduardo Agualusa. Antes da página trinta as palavras do escritor já haviam me conquistado.

A história, digna da trama de um livro de Dan Brown (olha o preconceito…), narra o envolvimento de uma jovem linguista portuguesa e um professor anarquista, que enveredam numa jornada em busca da origem de palavras misteriosas — neologismos incorporados de forma orgânica à língua portuguesa, ampliando sutilmente o léxico –, descobertas durante o trabalho de arqueologia filológica da pesquisadora. Palavras que, reza a lenda impressa em documento do século XVII, teriam sido roubadas da língua dos pássaros. Prosa rica, inteligente e primorosamente construída.

Fique com um extrato inspirado dessa obra indispensável:

“[…] As mulheres bonitas enfadam-se com as coisas que não podem ser, os prodígios, os mundos de Escher, porque para elas quase tudo é possível. Uma mulher muito bonita é um desvario cruel da natureza. Não há pior injúria para uma mulher comum do que o confronto com a beleza alheia, em particular se não for possível denunciar-lhe um único erro. Quanto ao homem vulgar, o que pode ser mais perturbador do que a fragrância de um alto pescoço que passa, mas não se detém, de uma estreita cintura que ele nunca enlaçará, do brilho rubro e saudável de uns lábios que jamais pousarão nos seus? As mulheres muito bonitas desorganizam sistemas sociais. Sou um velho anarquista. Aprendi há muito que uma mulher bonita não se distingue de uma bomba — no meu tempo, aliás, eram sinônimos — a não ser pela natureza do impacto […]”

Touché, Agualusa! Vou parar de ler a Martha Medeiros e mergulhar na literatura do Zé Edu. Brincadeira, viu, Martha?

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A literatura é uma necessidade, não uma veleidade (essa linha é minha, não do Agualusa).

p.s.2 Com todo respeito ao Luan Santana, vou substituir sua poética da cantada (“Te dei o sol, te dei o mar/Para ganhar seu coração/ Você é raio de saudade/Meteoro da paixão/ Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar/Ah!, como é bom poder te amar!”) pela do Agualusa. Mas vou continuar escutando o Luan nos esconsos do meu lar (essa eu também aprendi na cartilha do “Milagrário…”) 🙂

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Grade evolui do Atari para o PS3

Para os fãs da matriz cult de 1982, a sequência de “Tron − uma odisseia eletrônica” parece ter sido gestada num PC 486, estratégia de processamento que postergou sua conclusão por tempo demais. Como se a legião de aficionados tivesse corpo e mente dissociados entre realidade física e digital: o corpo preso no desencanto modorrento do que entendemos por real; o tempo psicológico transcorrendo no ritmo de quem vê a Grade de fora, cada minuto por aqui se desdobrando em horas dentro do universo idealizado pelo gênio da programação Kevin Flynn (Jeff Bridges).

“Que venha o Speed Racer! Uhu!!!”

“Tron: o legado” – filme que, assim como “Blade Runner” (1982) e “Matrix” (1999), evoca a Trilogia do Sprawl (formada pelos livros Neuromancer, Monalisa Overdrive e Count Zero), da autoria de William Gibson, ninguém menos que o precursor do gênero cyberpunk −, dirigido pelo estreante Joseph Kosinskié, deu um upgrade e tanto na arquitetura virtual da história original − um dos primeiros filmes a utilizar maciçamente as possibilidades da computação gráfica como ferramenta primária de concepção −, roteirizada por Steven Lisberger (responsável pelo marco zero) e Bonnie MacBird. A franquia leva o selo Disney.

“Freud explica”

O novo longa, escrito para as telas pela dupla Edward Kitsis e Adam Horowitz, evolui da canhestra estética Lego da plataforma Atari para a perfeição gráfica turbinada pelos processadores do PS3.

Para quem não se lembra… Na trama do início da década de 1980, Kevin Flynn (Bridges) é um programador da empresa de tecnologia Encom responsável pela criação de uma série de jogos eletrônicos de grande sucesso, espécie de Dan Brown dos videogames. Numa rasteira de espionagem industrial, Flynn vê a patente de seus jogos ser deletada de seus registros e carregada na memória do inescrupuloso Ed Dillinger (David Warner), que assume a (pseudo)paternindade dos games, junto com os lucros milionários que dela derivam.

“O batmóvel já era”

Numa tentativa de reaver o que é seu de direito, Flynn resolve hackear o sistema da empresa em busca dos registros de autoria dos softwares de sua lavra. Só que ele precisa suplantar as barreiras de segurança do Programa de Controle Mestre, versão beta do Skynet de “O exterminador do futuro” (1984) que controla os sistemas da Encom. O PCM, como toda forma de inteligência artificial de respeito, deseja somente uma coisa: dominar o mundo e exterminar toda a raça humana.

“Com uma moto dessas eu transformo qualquer 13 em 69”

Flynn, ao invadir o sistema, é digitalizado para o mundo virtual do PCM, que emula o ambiente dos jogos concebidos pelo programador, algo parecido com “Guerra nas Estrelas” versão Paint nas mãos de uma criança de 12 anos. Na Grade, zona de privilégios do PCM, programas que não são incorporados ao sistema principal precisam duelar em Coliseus virtuais para ter a chance de continuar existindo. Lá Flynn recebe a ajuda de Tron, programa de segurança cuja função é controlar os contatos entre o PCM e outros sistemas, uma forma de fiscal em linguagem binária, por isso mesmo uma ameaça aos planos do software central.

Na nova aventura, encorpada pelas possibilidades do CorelDRAW nas mãos de um especialista em desenho industrial, Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho do cara, empreendendo uma busca por seu pai, que desapareceu misteriosamente logo após os eventos do primeiro filme, acaba também digitalizado e vai parar na Grade. Desta vez o inimigo não é o PCM, mas o acrônimo de Codified Likeness Utility (vulgo Clu), uma versão digital (rejuvenescida pelos toques mágicos da computação) do próprio Flynn pai, programada inicialmente com o objetivo de gerenciar o ambiente virtual junto com seu criador, mas que acaba se desvirtuando para o lado negro da força. Na nova versão, Tron não é mais um programa de segurança. Além de ter se tornado um jogo do portfólio da Encom no mundo real, na Grade ele foi corrompido por Clu e se converteu em Rinzler, lacaio do avatar do mal de Flynn.

“Nem o Pitanguy faria melhor”

Clu é um genocida cibernético. Na Grade, promoveu uma eugenia tal como Hitler, e tentou se livrar dos algoritmos isomórficos, os Bósons de Higgs que Flynn tanto buscou no seu universo virtual. Após exterminar seus antagonistas, Clu deseja expandir seu império para além da Grade, estendendo seus tentáculos cintilantes para o mundo real. Cabe ao clã Flynn (sim, Sam acaba reencontrando seu papai preso na outra realidade), com a ajuda da linguagem de programação proibida para menores de 18 anos Quorra (a absurda Olivia Wilde, a Thirteen do seriado House) − dotada de beleza que interrompe qualquer circuito de pensamento −, frustrar os planos de Clu. Infelizmente, a roupa de mergulho luminosa de Quorra não deixa um milímetro de pele exposta do pescoço para baixo.

“Pose para foto que vai dilacerar corações”

As marcas registradas do primeiro filme estão lá: as corridas de light cycles, as light outfits (indumentárias que iriam tirar onda em qualquer balada rave), os duelos mortais de frisbee luminosos e afiados, a arquitetura futurista, os veículos derivados dos jogos de Flynn, e muito mais. Além, logicamente, de toda a incrível ambientação, possibilitada pelo que existe de melhor em computação gráfica, destaca-se na produção a trilha sonora, a cargo da dobradinha francesa Daft Punk que, dentro da mesma proposta da David Fincher e Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails)/Atticus Ross no filme “A rede social”, confere uma unicidade orgânica e coerente ao que rola na tela, transportando todos os sentidos de quem assiste ao filme para aquele universo de néon e escuridão. Casamento perfeito entre som e imagem.

O que compromete o filme são as atuações pífias de Garret (um protótipo de backstreetboy que desafina na caracterização de Sam) e Olivia (uma verdadeira zumbi, longe da carga dramática que imprimia com sua Thirteen nas alas do fictício Princeton-Plainsboro Teaching Hospital) e os diálogos sofríveis. Jeff Bridges sempre será um caso à parte. Embora Bridges ostente sua vasta experiência e imensa categoria, o roteiro escorrega ao misturar na composição de seu personagem introspecção e desencanto com a postura zen budista não-estou-nem-aí-o-que-tiver-que-ser-será. Outra coisa difícil de engolir é a volubilidade de Rinzler. Nos estertores da exibição, como uma curva de 90º graus de uma light cycle no “Tron” seminal, ele enxerga novamente suas linhas de código originais, corrompidas por Clu. Previsível, para não dizer patético e sentimentaloide. A psicologia maniqueísta é fórmula ultrapassada, mas não saber como desenvolver dramas internos torna a caracterização rala.

“Você vai me desculpar, Garrett, mas não há nem sequer uma cena de beijinho. Talvez no próximo filme… E você vai ter dificuldade para me despir, já vou logo avisando. Esta roupa gruda que é uma beleza”

Apesar dos pesares, o filme merece prestígio pelo esmero na sua concepção visual, que consegue afirmar, na esteira de “Avatar” (2009), a qualidade dos ambientes gerados por computador − as fronteiras entre possível e impossível são diluídas e superpostas em nosso imaginário −, cada vez mais próximos do que consideramos real.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Uma curiosidade: o filme “Tron”, de 1982, inspirou o seriado Automan, também exibido na década de 1980, criado por Glen A. Larson. A trama da série abordava tecnologias que começavam a ser desenvolvidos na época, como hologramas e realidade virtual, algumas hoje até bem comuns em nosso cotidiano. Automan era um ser criado por computador que se materializava no mundo físico para auxiliar a polícia na solução de crimes. O humanoide virtual era acompanhado por um genérico do “bit” de Clu (na primeira produção ele era bonzinho), uma bola de luz pulsante que tinha a habilidade de criar objetos e veículos. Era assim que Automan materializava o seu fabuloso carro, uma Lamborghini Countach negra com filetes de néon azul, além de qualquer equipamento especial de que necessitasse. Alguém se lembra?

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A Odete Lara de Ingmar Bergman

Gunnel Lindblom, musa de Bergman: made in Suécia

O olhar mais displicente poderá confundir o produto sueco com o nacional. A atriz da foto não é Odete Lara (17/4/1929), mas sim Gunnel Lindblom (18/12/1931), musa do mestre Ingmar Bergman (1918-2007). A imagem em questão foi extraída do filme “O silêncio” (1963), em que Gunnel interpreta Anna e divide as atenções da câmera com Ester (Ingrid Thulin), sua irmã na ficção, com quem mantém uma relação turbulenta cheia de insinuações incestuosas. A produção integra, junto com “Luz de inverno” (1963) e “Através de um espelho” (1961), a Trilogia do Silêncio bergmaniana.

Odete Lara, nascida Odete Righi, estrela da década de 1960-1970 do cinema nacional, participou de produções de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos: produto 100% nacional

O triunvirato do diretor trata das dificuldades de comunicação (tanto verbais como afetivas); dos atritos e incompatibilidades entre razão, desejo e fé; e, claro, da morte e as consequências claustrofóbicas da percepção de sua inexorabilidade nos dramas cotidianos.

Recentemente, Lindblom interpretou Isabella Vanger na transposição para as telas do primeiro livro da Trilogia Millennium, “Os homens que não amavam as mulheres”, best-seller policial do jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004). O filme, de 2009, dirigido pelo dinamarquês Niels Arden Oplev, vai ganhar um remake hollywoodiano.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A Trilogia do Silêncio é indispensável para quem curte cinema na sua acepção máxima. Abaixo, uma degustação estética de “O silêncio”.

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Aparecida. O Milagre.

Sou sincera: é difícil fazer um relato imparcial de “Aparecida O Milagre”, filme que estreia em circuito comercial no dia 17 de dezembro. Não que eu seja católica ou devota de Nossa Senhora Aparecida. Este não é o caso.  Mais grave: é um filme feito por amigos muito queridos, daqueles que a gente simplesmente ama e acaba achando lindo tudo que eles fazem. Se bem que falo de amigos muito competentes. Fazer o quê? Bom, amem (quem vos escreve) sem julgamentos e perdoem quaisquer exageros desde já. 😉


“Aparecida O Milagre”, de Tizuka Yamasaki, produzido por Glaucia Camargos e Paulo Thiago e distribuído pela Paramount Pictures, conta a história de Marcos (na infância, o fofo mirim Vinicius Franco, e na idade adulta, o moço talentosíssimo e gatíssimo do Araguaia Murilo Rosa) que tem sua vida transformada por um milagre de Nossa Senhora Aparecida.

Marcos é um empresário bem-sucedido de Aparecida. Da infância simples, carrega o amor por Sonia (Leona Cavalli, incrível!) e a lembrança afetuosa do pai-parceiro (Rodrigo Veronese, ator de que gosto muito desde “Pequena Travessa”, novelinha do SBT), morto enquanto trabalhava na Basílica de Nossa Senhora Aparecida.

Creditando a morte de seu pai à Padroeira do Brasil, Marcos persegue sua vida de forma materialista e cética. Desprovido de sentimentos, nem o filho Lucas (Jonatas Faro) é capaz de amolecer o coração do pai. Afinal, tudo o que ele menos quer é o filho ator. Treme (e só!) quando colocado à frente daquela(s) mulher(es): Sonia, mãe de seu filho, e Beatriz (Maria Fernanda Cândido, lindaaaaaa!), sua fiel e competente escudeira.


Mas o profissional focado é posto em cheque quando a vida de seu filho entra em jogo. A batalha pela sobrevivência de Lucas, vitimado por um grave acidente, fala mais alto e faz com que Marcos retorne às suas origens, nas conversas com Julia, sua mãe (Janaína Prado, na primeira fase, e Bete Mendes, na segunda), e peça à Santa por um milagre.

É história das mais emocionantes para conferir no cinema mais perto de você, a partir do dia 17 de dezembro! Bora, meu povo! Este é o ano do cinema brasileiro!

P.S. Tizuka, nossa craque sabe-tudo-de-cinema, seus pedidos de “não vale chorar!” não deram em nada. Você viu como eu fiquei, né? E um recadinho: vai filmar bem assim lá em casa!

P.S.’ Outro ponto alto do filme é a trilha sonora do Paulo Francisco Paes, o Kiko. Meu amiguinho de infância será o novo Antonio Pinto do Cinema Brasileiro. Aguardem!

P.S” Murilo Rosa não para de colecionar boas atuações: “Orquestra dos Meninos”, “Como Esquecer”, “Aparecida O Milagre”. Agora eu quero ver “No Olho da Rua”, que já passou (até) em Cannes este ano e aqui nada!

Helena Sroulevich

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Discovery Channel na tela grande

O documentário “Oceanos” (2009), coprodução entre França, Suíça e Espanha, dirigido pela dupla Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, sufoca-nos de tédio na anoxia do lugar-comum. “Oceanos” é o novo produto do selo verde Disney Nature, responsável também pelo doc “Terra” (2007).

Partindo da ideia de descobrimento (em sentido amplo), tanto entendida como a descoberta de novos territórios, à época das grandes navegações, como a novidade do desconhecido, impressa pela primeira vez na percepção de um garoto − que começa a ter contato com os segredos do mar, transmitidos pelos mais velhos −, o documentário não chega nem perto do encantamento causado pelas aventuras épicas de Jacques Cousteau. Longe de agitar as águas do marasmo, acrescentando ventos insólitos a um argumento de forte apelo, não difere em nada dos programas que são exibidos há anos pelo Discovery Channel e pelo National Geographic.

Algumas imagens inclusive podem ser consideradas datadas, ou seja, foram exibidas à exaustão nos canais pagos que tratam da vida natural. Alguns exemplos batidos são baleias se alimentando em grupos; orcas demonstrando habilidade e inteligência caçando focas que se encontram na praia; turbilhões de peixes em postura defensiva (juntos venceremos!); pinguins navegando por águas gélidas como minitorpedos; tubarões-brancos saltando do mar como ogivas nucleares lançadas por algum submarino incógnito nas profundezas, abalroando focas desprevenidas; gaivotas varando a superfície como flechas em busca de peixes; filhotes de tartaruga recém-nascidos sendo predados por aves litorâneas; e golfinhos, golfinhos e mais golfinhos. Depois, mais um pouco de golfinhos…

Por terem sido utilizados como elementos de transição de cenas (os cetáceos = não só, mas também os parentes do Flipper), transparece a impressão de que, por causa da repetição obsessiva, parte das filmagens foi realizada num aquário do Sea World, e não em mar aberto, e depois enxertada no processo de montagem. Uma ou outra captação da natureza em estado bruto se salva – a sequência em que um mergulhador nada ao lado de um grande branco faz com que ajeitemos nossa postura na poltrona, mesmo assim a Semana do Tubarão no Discovery é muito mais emocionante −, mas não há nada inédito.

A sensação é a de estarmos numa daquelas lojas de departamentos em que filmes da vida selvagem, embalados por melodias nirvânicas de Yoga, são projetados na parede (ou num telão) e entorpecem nossos sentidos enquanto aguardamos que o frenesi de consumo de nossas acompanhantes (sim, geralmente são elas as perdulárias) cesse.

As ondas também são personagens do doc, mas, para quem estiver interessado em morras monstruosas, aconselho outro documentário, “Riding giants” (2004), de Stacy Peralta, ou o livro “A onda: em busca das gigantes do oceano” (2010), da jornalista canadense Susan Casey – editora-chefe da O, The Oprah Magazine −, que acaba de ser lançado aqui pela Editora Zahar. Leitura de tirar o fôlego! Pague um pouco mais e leia o livro. No site da Livraria da Travessa você encontra a obra por R$ 23,62 (sem frete). E não, não somos patrocinados pela Travessa.

A vertente política do doc “Oceanos” só tangencia a verdade inconveniente: os resultados da ação humana no ecossistema marinho. A pesca predatória e a poluição dos mares são pautas da agenda ecológica abordadas timidamente na parte final da produção. O dedo poluído da humanidade, carregado de bactérias do dito desenvolvimento (ou progresso), que macula a assepsia da natureza não é o foco, mas apenas parte do projeto maior (infelizmente). Nossas pegadas destrutivas não deixam rastros significativos, o que suscita leve desconforto, mas não a indignação necessária.

Uma curiosidade: na versão em inglês, o doc foi narrado pelo ex-007 Pierce Brosnan.

Você não vai precisar do site Surfline para te alertar desta: “Oceanos” só vai ser comparado àquele swell perfeito, arrebentando num pico selvagem e desconhecido, nunca antes surfado pelas retinas, por quem jamais assistiu ao Discovery Channel ou ao National Geographic. Tinha tudo para ser o que não foi.

Carlos Eduardo Bacellar

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Nova geração de piratas do Vale do Silício

“Bons artista copiam, grandes artistas roubam.”

Pablo Picasso

Reduzir o Facebook, programa que redefiniu o conceito de redes sociais, revolucionou o modo como as pessoas se comunicam e se tornou um fenômeno global − computando hoje mais de 500 milhões de usuários em seu banco de dados, número que se expande como uma epidemia viral −, a uma série de códigos de programação seria um tanto simplista e enfadonho. Com toda certeza até broxante.

Seria como apresentar Neo, personagem de Keanu Reeves em “Matrix” (1999), a uma massa de equações avançadas – que só encantariam a genialidade do irascível e debochado Will Runting, personagem da Matt Damon em “Gênio indomável” (1997) –, em vez de colocá-lo frente a frente com a dama de vermelho, software (proibido para menores de 18 anos) criado para reproduzir uma versão virtual de Vivian Ward (Julia Roberts em “Uma linda mulher”, de Garry Marshall, 1990), empresária da carne, vestida de Dia (Freida Pinto em “Você vai conhecer o homem de seus sonhos”, de Woody Allen, 2010), cujo objetivo é distraí-lo de problemas mais prosaicos, como tentar sobreviver em um mundo onde as máquinas, inteligências artificiais que se encontram no topo da cadeia alimentar, literalmente cultivam seres humanos, utilizados como pilhas Duracell.

Neo deixaria de se encantar com os traços perfeitos da moça, de namorar as curvas impossíveis de um corpo torneado para o prazer dos sentidos, de ficar hipnotizado por seu olhar, de sentir o perfume que exala daquela pele alva perfeita, para receber em troca uma tela de computador repleta de números, letras, símbolos, expoentes, variáveis, ou seja, a alegria de qualquer Stephen Hawking, mas a frustração da massa, que prefere a revista Playboy ao livro “Uma breve história do tempo” como passatempo.

Traduzindo…

Resumindo: o folclore que permeia as relações humanas é bem mais interessante que a fria (e para muitos incognoscível) linguagem de programação. Foi com essa ideia na cabeça que o diretor americano David Fincher concebeu o filme “A rede social”, transposição para as telas de cinema do livro “Bilionários por acaso: a criação do Facebook – uma história de sexo, dinheiro, genialidade e traição”, de Ben Mezrich. Mais importante que a criação em si (o Facebook), no entendimento de Fincher, é tentar compreender um pouco mais as pessoas e os detalhes da jornada empreendida, digna de um bom thriller.

Responsável por produções como “Seven” (1995), “Clube da luta” (1999), “Zodíaco” (2007) e “O curioso caso de Benjamin Button” (2008), Fincher sabe como ninguém erigir histórias que orbitam em torno de dramas cotidianos, mas que, pela força das circunstâncias, incrementada pelas vicissitudes de quem está em foco no palco da vida, adquirem proporções fictícias, algo de que só a realidade pode dar conta.

Roteirizado por Aaron Sorkin (homem que não brinca em serviço, criador do seriado The West Wing e roteirista de produções como “Jogos do poder”, 2007), “A rede social” reconstrói, amparado na pesquisa de Mezrich, os bastidores do programa criado e gestado num quarto de um dos alojamentos da Universidade de Harvard por um grupo de amigos e que hoje vale mais de US$ 30 bilhões (jornal Finacial Times) – para se ter uma ideia, o Google está avaliado em pouco menos de US$ 40 bilhões (revista Forbes).

Mark Zuckerberg, idealizador do Facebook e um dos rapazes de 20 e poucos anos mais ricos do planeta, é interpretado pelo esquisitão que está na moda Jesse Eisenberg. Conhecido pelo seu trabalho em “Férias frustradas de verão” (2009) e “Zumbilândia” (2009), Eisenberg se livra de seu estereótipo Michael Cera e, assim como Adam Sandler em “Funny people” (2009), produção dirigida por Judd Apatow, e Ben Stiller em “Geenberg” (2010), filme de Noah Baumbach que aqui no Brasil ganhou o título de “O solteirão”, é expulso de sua zona de conforto demonstrando talento e maturidade ao compor a personalidade enigmática e desafiadora de Zuckerberg – o ator cria uma versão mais sombria e menos eloquente de Sheldon (do seriado The Big Bang Theory).

A trama revela as entranhas do relacionamento entre Mark e seu melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), cofundador do Facebook. Derivado de outras iniciativas de emplacar embriões de redes sociais à época (estamos falando do início do século XXI), como o Friendster, o Facebook teve como balão de ensaio um programa de comparação de fotos criado por Mark chamado Facemash.

A motivação para criar o Facebook teria sido o “toco” que Mark levou da namorada, interpretada no filme pela lindinha Rooney Mara – escalada para viver a hacker Lisbeth Salander no remake ianque do filme “Os homens que não amavam as mulheres”, dirigido pelo próprio Fincher e baseado no primeiro livro da trilogia Millennium, do autor sueco Stieg Larsson −, informação que o verdadeiro Zuckerberg nega. Ao colocar o software no ar, pasme, em poucas horas ele paralisou os servidores de Harvard – 22 mil acessos em 2 horas.

Empolgado com o sucesso do Facemash, Zuckerberg teve a eletricidade produzida por sua massa encefálica incendiada pela faísca dos gêmeos Winklevoss, membros da oligarquia estudantil de Harvard que convidaram o geek para programar um site de relacionamento, inicialmente circunscrito ao campus da universidade, cujo objetivo era integrar os alunos (traduzindo: uma forma mais fácil de conhecer garotas). Era tudo de que ele precisava para arregaçar as mangas e criar o seu bebê. Mais tarde os gêmeos seriam pivôs de uma disputa judicial pelos direitos do Facebook.

Tangenciando o indecifrável mundo novo dos nerds da programação, Fincher fecha suas câmeras no deterioramento das relações entre Mark e Eduardo. A ligação entre os dois é esfacelada pelo crescimento cancerígeno do Facebook, e suas demandas. Fica impossível para ambos suportar as aspirações e diferenças de temperamento antagônicas, o que fermenta não a inimizade, mas a desilusão: a ruptura (traição não é a melhor palavra) deixa a inocência para trás e se torna o batismo de sangue da maturidade.

O frágil equilíbrio entre amizade e negócios começa a desnivelar na mesma proporção que a ascensão do site. Lidando com algo que nem eles sabiam exatamente o que era, os amigos veem linhas de programação se transformar em uma profusão de dólares, da noite para o dia. O elemento de cisão definitiva entre os dois é ninguém menos que Sean Parker (Justin Timberlake), criador do Napster, programa de download de músicas que estabeleceu novos parâmetros para o mercado fonográfico. Babando de ambição, Parker é a malícia verborrágica que envolve Mark em aspirações megalomaníacas, agita investidores para o Facebook e, no fim das contas, consegue sua fatia com charme e crocodilagem.

A principal diferença do livro para o filme (não sei se necessariamente uma falha) é que a produção de Fincher pinta de preto e branco as relações antropofágicas que ditam a rotina no Vale do Silício, retratando Sean Parker como o vilão da história e Saverin como o mocinho que foi passado para trás. Na literatura, o enredo não é tão simples. Parker era apenas um tubarão melhor adaptado ao jogo perverso de interesses do Vale que soube surfar aquela onda melhor que Eduardo. O brasileiro acabou tomando uma vaca feia e sua única alternativa foi mover um processo de milhões contra seu ex-tudo (amigo, sócio…), Mark Zuckerberg.

Lisbeth Salander, personagem de Larsson, consegue capturar numa frase as ambiguidades e contradições inerentes às atitudes humanas: “Não existem inocentes, somente diferentes níveis de responsabilidade.”

A história se repete como em “Piratas do Vale do Silício” (1999), do diretor Martyn Burke – coincidentemente, também baseado num livro: “Fire in the Valley”, de Paul Freiberger e Michael Swaine. Agora, em vez de Gates versus Jobs, temos Zuckerberg versus Saverin. As cifras também aumentaram (a conta poupança de Jobs foi recentemente engolida pela de Mark), e com elas os atritos que colocam à prova respeito, fidelidade e ética. Valores que tendem a se tornar relativos, dependendo do que está em jogo. Amigos, amigos, negócios à parte.

Tentando captar lampejos da obra de Fincher, ouço Noah Wyle, que encarna Steve Jobs, na abertura de “Piratas…”: “Não quero que você pense que isso é só um filme. Um processo que converte elétrons e impulsos magnéticos em formas, figuras e sons. Não! Nós estamos aqui para fazer alguma diferença no universo. Senão, por que estaríamos aqui? Estamos criando uma nova consciência, como artistas e poetas. Estamos reescrevendo a história do pensamento humano.”

Novamente penso na dama de vermelho…

Assim como Jobs, tudo que Mark faz fica em algum lugar entre uma experiência religiosa e uma cruzada. Jesse Eisenberg consegue externar com muita competência essa obsessão. Não merece o Oscar, mas com certeza ele vai conseguir mais garotas agora.

Roteiro muito bem alinhavado (desculpo as licenças poéticas do roteirista, muitas necessárias para facilitar a compreensão e dar dinamismo à produção), atuações consistentes, diálogos envolventes, montagem inteligente. O que mais alguém pode querer? Claro, o som!

Destaque para a envolvente trilha sonora original, composta por Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails) e Atticus Ross. Além dela, outras músicas dão o tom da encenação: Ball and Biscuit (White Stripes), California Über Alles (Dean Kennedys) e Baby, you’re a rich man (Beatles).

David Fincher acerta mais uma vez. “A rede social”, seja você um Facebooker ou não, vai te fisgar, e os 500 milhões multiplicar (não resisti à rima safada). Por tudo que a história envolve e representa, e pela forma como é narrada, acredito que “A rede…” é um forte candidato a filme do ano. Sim, sou polêmico. Sim, também gosto de escrever. Para o bem ou para o mal.

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Carlos Eduardo Bacellar

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