Discovery Channel na tela grande

O documentário “Oceanos” (2009), coprodução entre França, Suíça e Espanha, dirigido pela dupla Jacques Perrin e Jacques Cluzaud, sufoca-nos de tédio na anoxia do lugar-comum. “Oceanos” é o novo produto do selo verde Disney Nature, responsável também pelo doc “Terra” (2007).

Partindo da ideia de descobrimento (em sentido amplo), tanto entendida como a descoberta de novos territórios, à época das grandes navegações, como a novidade do desconhecido, impressa pela primeira vez na percepção de um garoto − que começa a ter contato com os segredos do mar, transmitidos pelos mais velhos −, o documentário não chega nem perto do encantamento causado pelas aventuras épicas de Jacques Cousteau. Longe de agitar as águas do marasmo, acrescentando ventos insólitos a um argumento de forte apelo, não difere em nada dos programas que são exibidos há anos pelo Discovery Channel e pelo National Geographic.

Algumas imagens inclusive podem ser consideradas datadas, ou seja, foram exibidas à exaustão nos canais pagos que tratam da vida natural. Alguns exemplos batidos são baleias se alimentando em grupos; orcas demonstrando habilidade e inteligência caçando focas que se encontram na praia; turbilhões de peixes em postura defensiva (juntos venceremos!); pinguins navegando por águas gélidas como minitorpedos; tubarões-brancos saltando do mar como ogivas nucleares lançadas por algum submarino incógnito nas profundezas, abalroando focas desprevenidas; gaivotas varando a superfície como flechas em busca de peixes; filhotes de tartaruga recém-nascidos sendo predados por aves litorâneas; e golfinhos, golfinhos e mais golfinhos. Depois, mais um pouco de golfinhos…

Por terem sido utilizados como elementos de transição de cenas (os cetáceos = não só, mas também os parentes do Flipper), transparece a impressão de que, por causa da repetição obsessiva, parte das filmagens foi realizada num aquário do Sea World, e não em mar aberto, e depois enxertada no processo de montagem. Uma ou outra captação da natureza em estado bruto se salva – a sequência em que um mergulhador nada ao lado de um grande branco faz com que ajeitemos nossa postura na poltrona, mesmo assim a Semana do Tubarão no Discovery é muito mais emocionante −, mas não há nada inédito.

A sensação é a de estarmos numa daquelas lojas de departamentos em que filmes da vida selvagem, embalados por melodias nirvânicas de Yoga, são projetados na parede (ou num telão) e entorpecem nossos sentidos enquanto aguardamos que o frenesi de consumo de nossas acompanhantes (sim, geralmente são elas as perdulárias) cesse.

As ondas também são personagens do doc, mas, para quem estiver interessado em morras monstruosas, aconselho outro documentário, “Riding giants” (2004), de Stacy Peralta, ou o livro “A onda: em busca das gigantes do oceano” (2010), da jornalista canadense Susan Casey – editora-chefe da O, The Oprah Magazine −, que acaba de ser lançado aqui pela Editora Zahar. Leitura de tirar o fôlego! Pague um pouco mais e leia o livro. No site da Livraria da Travessa você encontra a obra por R$ 23,62 (sem frete). E não, não somos patrocinados pela Travessa.

A vertente política do doc “Oceanos” só tangencia a verdade inconveniente: os resultados da ação humana no ecossistema marinho. A pesca predatória e a poluição dos mares são pautas da agenda ecológica abordadas timidamente na parte final da produção. O dedo poluído da humanidade, carregado de bactérias do dito desenvolvimento (ou progresso), que macula a assepsia da natureza não é o foco, mas apenas parte do projeto maior (infelizmente). Nossas pegadas destrutivas não deixam rastros significativos, o que suscita leve desconforto, mas não a indignação necessária.

Uma curiosidade: na versão em inglês, o doc foi narrado pelo ex-007 Pierce Brosnan.

Você não vai precisar do site Surfline para te alertar desta: “Oceanos” só vai ser comparado àquele swell perfeito, arrebentando num pico selvagem e desconhecido, nunca antes surfado pelas retinas, por quem jamais assistiu ao Discovery Channel ou ao National Geographic. Tinha tudo para ser o que não foi.

Carlos Eduardo Bacellar

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