Grade evolui do Atari para o PS3

Para os fãs da matriz cult de 1982, a sequência de “Tron − uma odisseia eletrônica” parece ter sido gestada num PC 486, estratégia de processamento que postergou sua conclusão por tempo demais. Como se a legião de aficionados tivesse corpo e mente dissociados entre realidade física e digital: o corpo preso no desencanto modorrento do que entendemos por real; o tempo psicológico transcorrendo no ritmo de quem vê a Grade de fora, cada minuto por aqui se desdobrando em horas dentro do universo idealizado pelo gênio da programação Kevin Flynn (Jeff Bridges).

“Que venha o Speed Racer! Uhu!!!”

“Tron: o legado” – filme que, assim como “Blade Runner” (1982) e “Matrix” (1999), evoca a Trilogia do Sprawl (formada pelos livros Neuromancer, Monalisa Overdrive e Count Zero), da autoria de William Gibson, ninguém menos que o precursor do gênero cyberpunk −, dirigido pelo estreante Joseph Kosinskié, deu um upgrade e tanto na arquitetura virtual da história original − um dos primeiros filmes a utilizar maciçamente as possibilidades da computação gráfica como ferramenta primária de concepção −, roteirizada por Steven Lisberger (responsável pelo marco zero) e Bonnie MacBird. A franquia leva o selo Disney.

“Freud explica”

O novo longa, escrito para as telas pela dupla Edward Kitsis e Adam Horowitz, evolui da canhestra estética Lego da plataforma Atari para a perfeição gráfica turbinada pelos processadores do PS3.

Para quem não se lembra… Na trama do início da década de 1980, Kevin Flynn (Bridges) é um programador da empresa de tecnologia Encom responsável pela criação de uma série de jogos eletrônicos de grande sucesso, espécie de Dan Brown dos videogames. Numa rasteira de espionagem industrial, Flynn vê a patente de seus jogos ser deletada de seus registros e carregada na memória do inescrupuloso Ed Dillinger (David Warner), que assume a (pseudo)paternindade dos games, junto com os lucros milionários que dela derivam.

“O batmóvel já era”

Numa tentativa de reaver o que é seu de direito, Flynn resolve hackear o sistema da empresa em busca dos registros de autoria dos softwares de sua lavra. Só que ele precisa suplantar as barreiras de segurança do Programa de Controle Mestre, versão beta do Skynet de “O exterminador do futuro” (1984) que controla os sistemas da Encom. O PCM, como toda forma de inteligência artificial de respeito, deseja somente uma coisa: dominar o mundo e exterminar toda a raça humana.

“Com uma moto dessas eu transformo qualquer 13 em 69”

Flynn, ao invadir o sistema, é digitalizado para o mundo virtual do PCM, que emula o ambiente dos jogos concebidos pelo programador, algo parecido com “Guerra nas Estrelas” versão Paint nas mãos de uma criança de 12 anos. Na Grade, zona de privilégios do PCM, programas que não são incorporados ao sistema principal precisam duelar em Coliseus virtuais para ter a chance de continuar existindo. Lá Flynn recebe a ajuda de Tron, programa de segurança cuja função é controlar os contatos entre o PCM e outros sistemas, uma forma de fiscal em linguagem binária, por isso mesmo uma ameaça aos planos do software central.

Na nova aventura, encorpada pelas possibilidades do CorelDRAW nas mãos de um especialista em desenho industrial, Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho do cara, empreendendo uma busca por seu pai, que desapareceu misteriosamente logo após os eventos do primeiro filme, acaba também digitalizado e vai parar na Grade. Desta vez o inimigo não é o PCM, mas o acrônimo de Codified Likeness Utility (vulgo Clu), uma versão digital (rejuvenescida pelos toques mágicos da computação) do próprio Flynn pai, programada inicialmente com o objetivo de gerenciar o ambiente virtual junto com seu criador, mas que acaba se desvirtuando para o lado negro da força. Na nova versão, Tron não é mais um programa de segurança. Além de ter se tornado um jogo do portfólio da Encom no mundo real, na Grade ele foi corrompido por Clu e se converteu em Rinzler, lacaio do avatar do mal de Flynn.

“Nem o Pitanguy faria melhor”

Clu é um genocida cibernético. Na Grade, promoveu uma eugenia tal como Hitler, e tentou se livrar dos algoritmos isomórficos, os Bósons de Higgs que Flynn tanto buscou no seu universo virtual. Após exterminar seus antagonistas, Clu deseja expandir seu império para além da Grade, estendendo seus tentáculos cintilantes para o mundo real. Cabe ao clã Flynn (sim, Sam acaba reencontrando seu papai preso na outra realidade), com a ajuda da linguagem de programação proibida para menores de 18 anos Quorra (a absurda Olivia Wilde, a Thirteen do seriado House) − dotada de beleza que interrompe qualquer circuito de pensamento −, frustrar os planos de Clu. Infelizmente, a roupa de mergulho luminosa de Quorra não deixa um milímetro de pele exposta do pescoço para baixo.

“Pose para foto que vai dilacerar corações”

As marcas registradas do primeiro filme estão lá: as corridas de light cycles, as light outfits (indumentárias que iriam tirar onda em qualquer balada rave), os duelos mortais de frisbee luminosos e afiados, a arquitetura futurista, os veículos derivados dos jogos de Flynn, e muito mais. Além, logicamente, de toda a incrível ambientação, possibilitada pelo que existe de melhor em computação gráfica, destaca-se na produção a trilha sonora, a cargo da dobradinha francesa Daft Punk que, dentro da mesma proposta da David Fincher e Trent Reznor (da banda Nine Inch Nails)/Atticus Ross no filme “A rede social”, confere uma unicidade orgânica e coerente ao que rola na tela, transportando todos os sentidos de quem assiste ao filme para aquele universo de néon e escuridão. Casamento perfeito entre som e imagem.

O que compromete o filme são as atuações pífias de Garret (um protótipo de backstreetboy que desafina na caracterização de Sam) e Olivia (uma verdadeira zumbi, longe da carga dramática que imprimia com sua Thirteen nas alas do fictício Princeton-Plainsboro Teaching Hospital) e os diálogos sofríveis. Jeff Bridges sempre será um caso à parte. Embora Bridges ostente sua vasta experiência e imensa categoria, o roteiro escorrega ao misturar na composição de seu personagem introspecção e desencanto com a postura zen budista não-estou-nem-aí-o-que-tiver-que-ser-será. Outra coisa difícil de engolir é a volubilidade de Rinzler. Nos estertores da exibição, como uma curva de 90º graus de uma light cycle no “Tron” seminal, ele enxerga novamente suas linhas de código originais, corrompidas por Clu. Previsível, para não dizer patético e sentimentaloide. A psicologia maniqueísta é fórmula ultrapassada, mas não saber como desenvolver dramas internos torna a caracterização rala.

“Você vai me desculpar, Garrett, mas não há nem sequer uma cena de beijinho. Talvez no próximo filme… E você vai ter dificuldade para me despir, já vou logo avisando. Esta roupa gruda que é uma beleza”

Apesar dos pesares, o filme merece prestígio pelo esmero na sua concepção visual, que consegue afirmar, na esteira de “Avatar” (2009), a qualidade dos ambientes gerados por computador − as fronteiras entre possível e impossível são diluídas e superpostas em nosso imaginário −, cada vez mais próximos do que consideramos real.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Uma curiosidade: o filme “Tron”, de 1982, inspirou o seriado Automan, também exibido na década de 1980, criado por Glen A. Larson. A trama da série abordava tecnologias que começavam a ser desenvolvidos na época, como hologramas e realidade virtual, algumas hoje até bem comuns em nosso cotidiano. Automan era um ser criado por computador que se materializava no mundo físico para auxiliar a polícia na solução de crimes. O humanoide virtual era acompanhado por um genérico do “bit” de Clu (na primeira produção ele era bonzinho), uma bola de luz pulsante que tinha a habilidade de criar objetos e veículos. Era assim que Automan materializava o seu fabuloso carro, uma Lamborghini Countach negra com filetes de néon azul, além de qualquer equipamento especial de que necessitasse. Alguém se lembra?

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s