Fuga ao tema (desculpável)

A literatura pede espaço ao cinema. Não poderia ter ganho de Natal melhor presente que  o livro “Milagrário pessoal”, editado aqui pela Língua Geral, do magistral romancista angolano José Eduardo Agualusa. Antes da página trinta as palavras do escritor já haviam me conquistado.

A história, digna da trama de um livro de Dan Brown (olha o preconceito…), narra o envolvimento de uma jovem linguista portuguesa e um professor anarquista, que enveredam numa jornada em busca da origem de palavras misteriosas — neologismos incorporados de forma orgânica à língua portuguesa, ampliando sutilmente o léxico –, descobertas durante o trabalho de arqueologia filológica da pesquisadora. Palavras que, reza a lenda impressa em documento do século XVII, teriam sido roubadas da língua dos pássaros. Prosa rica, inteligente e primorosamente construída.

Fique com um extrato inspirado dessa obra indispensável:

“[…] As mulheres bonitas enfadam-se com as coisas que não podem ser, os prodígios, os mundos de Escher, porque para elas quase tudo é possível. Uma mulher muito bonita é um desvario cruel da natureza. Não há pior injúria para uma mulher comum do que o confronto com a beleza alheia, em particular se não for possível denunciar-lhe um único erro. Quanto ao homem vulgar, o que pode ser mais perturbador do que a fragrância de um alto pescoço que passa, mas não se detém, de uma estreita cintura que ele nunca enlaçará, do brilho rubro e saudável de uns lábios que jamais pousarão nos seus? As mulheres muito bonitas desorganizam sistemas sociais. Sou um velho anarquista. Aprendi há muito que uma mulher bonita não se distingue de uma bomba — no meu tempo, aliás, eram sinônimos — a não ser pela natureza do impacto […]”

Touché, Agualusa! Vou parar de ler a Martha Medeiros e mergulhar na literatura do Zé Edu. Brincadeira, viu, Martha?

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. A literatura é uma necessidade, não uma veleidade (essa linha é minha, não do Agualusa).

p.s.2 Com todo respeito ao Luan Santana, vou substituir sua poética da cantada (“Te dei o sol, te dei o mar/Para ganhar seu coração/ Você é raio de saudade/Meteoro da paixão/ Explosão de sentimentos que eu não pude acreditar/Ah!, como é bom poder te amar!”) pela do Agualusa. Mas vou continuar escutando o Luan nos esconsos do meu lar (essa eu também aprendi na cartilha do “Milagrário…”) 🙂

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