Arquivo do mês: janeiro 2011

Iñárritu, abusando de sua estética fundo do poço, forma com ‘Biutiful’ a tetralogia do flagelo humano

Para matar a curiosidade do amigo @carmattos. É sempre um prazer!

A falência da dignidade humana é o objeto de estudo do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu. Desde o magistral “Amores brutos” (2000), passando por “21 gramas” (2003) e “Babel” (2006), Iñárritu não para de descascar a ferida da miséria contemporânea que finalmente infecciona em “Biutiful”, novo longa do realizador que acaba de estrear no país – o primeiro sem a colaboração do (agora) diretor e roteirista Guillermo Arriaga, idealizador das tramas de fragmentação convergente que funcionavam quase que como marcas registradas das histórias contadas pelos dois.

Com a saída de Arriaga, parece que o selo ISO 9000, garantia de qualidade nos processos, se dilui na estética fundo do poço de Iñárritu. Curiosamente, o diretor parece inseguro na condução de uma trama linear, teoricamente menos complexa. Adotando a retroatividade temporal do flashback, “Biutiful” mergulha no calvário social e afetivo de Uxbal (Javier Bardem no papel que lhe rendeu a láurea de melhor ator no último Festival de Cannes, empatado com o italiano Elio Germano, de “La nostra vita”).

Focando no lado nada charmoso de uma parte gotham-citiana de Barcelona − que mais lembra a geografia urbana de O cortiço, romance de Aluísio Azevedo, ou, ainda na seara da sétima arte, os becos escuros e decadentes da Lapa de “Madame Satã” (2000), dirigido por Karim Aïnouz, sobre os quais se erguem sobrados que desafiam a exiguidade espacial −, Iñárritu registra a batalha de Uxbal contra as dificuldades implacáveis de uma sociedade excludente e as limitações fisiológica de seu próprio corpo.

Sofrendo com a metástase de um câncer que o corrói por dentro – metáfora da derrocada da carne e dos princípios deontológicos frente à inflexibilidade de um mundo cão −, Uxbal luta para garantir o futuro de seu dois filhos, Ana (a talentosa Hanaa Bouchaib) e Mateo (Guillermo Estrella), enquanto lida com o desequilíbrio da ex-mulher Marambra (a excelente Maricel Álvarez, equilibrando-se com perfeição na corda bamba da bipolaridade que pendula entre a euforia e a depressão) – evoca lampejos de Penélope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona” (2008) −, que, por causa de sua volatilidade, perdeu a guarda das crianças.

Adotando a ética da sobrevivência, que relativiza o comportamento de acordo com as circunstâncias, Uxbal ganha o leite das crianças arrumando trabalho – sempre por uma comissão justa − para imigrantes chineses e senegaleses ilegais. E como um trocado a mais é sempre bem-vindo, ele ainda pede licença para o personagem de Matt Damon em “Além da vida” e acirra a concorrência no mercado de sensitivos. Protagonizando cenas de gelar a espinha, dignas de “O grito” (2004), Uxbal, como bico, tenta suavizar a dor de famílias que perderam entes queridos mostrando aos espíritos encalacrados com questões pendentes no plano terreno o caminho da luz.

O cineasta não parece à vontade com a ausência de pontas que ele costuma costurar no final de seus filmes. Ele procura desencavar tramas (desnecessárias) que se hermetizam nelas mesmas, criando rupturas no roteiro. Com uma câmera intimista e inquisitiva, próxima do claustrofóbico enquadramento de Selton Mello em “Feliz Natal” (2008), Iñárritu não se satisfaz com a dor. Ele precisa captar cada gota de sofrimento que extrai de seus atores, espremendo o bagaço de almas dilaceradas pelas condições nefastas.

Na tentativa de ultrapassar os limites da degradação humana, ele se perde no drama (inesgotável) e incomoda por mais tempo do que deveria – a exibição se arrasta por 147 longos minutos, minando a leniência do público que se enfastia com o desconforto gerado por aquela desumanização vertiginosa. A exploração antropológica da indigência material e emocional passa do ponto, o que torna a produção pesada, como se os personagens estivessem se afogando num tanque fundo de gelatina. Sabemos que eles não conseguirão atingir a superfície e morrerão afogados, não é necessário ser cruel (com o público, principalmente) e prolongar os efeitos agonizantes da anoxia. Coisa de psicopata…

“Biutiful” me faz lembra a extraordinária literatura de Antonio Carlos Viana. O escritor sergipano, no livro de contos Cine Privê, explora momentos de exposição da alma humana equivalentes aos da produção do mexicano, mas, com a habilidade de um artífice do texto, encontra o essencial e elimina o acessório.

Destaco alguns trechos do texto da orelha de Cine Privê − que considero extremamente relevantes para a análise em curso −, cujo autor desconheço:

“[…] o olhar da narrativa tem a objetividade de uma câmera, e não recua diante de nada. Nem das mais perturbadoras lembranças de infância, nem dos aspectos mais revoltantes da miséria. […] Fechado no ambiente escuro dessa leitura, o leitor espia os personagens sempre flagrados no momento de máxima exposição. […] Nenhum desses roteiros, porém, fica restrito à mera exibição de cenas da intimidade ou da consciência de pessoas comuns. Seu interesse é ir além da luz vermelha das cabines privê e revelar os meios-tons. E é assim que o leitor se vê, de repente, pessoalmente implicado: a temática de Antonio Carlos Viana são as perdas e as lutas de cada um na vida. Ao mesmo tempo que protege a intimidade do leitor, montando para ele uma cabine ficcional, o autor o expõe diante de si próprio. […] O quesito das perdas é o mais explícito […]”.

Infelizmente, a adjetivação do filme passa longe daquela gerada pelo encantamento com as palavras de Viana. Iñárritu não preserva nossa intimidade, criando uma aproximação, forçada pela exposição, que não é saudável para as retinas – como um negativo que se queima pelo contato prolongado com a luz.

“Biutiful” é produzido e realizado com esmero, e o trabalho dos atores, especialmente Bardem (que domina com maestria as possibilidades dramáticas de seu ofício) e Maricel, mesmerizam com suas atuações e elevam a obra a patamares em que ela não mereceria figurar – o filme foi indicado a dois Oscar: melhor filme estrangeiro e melhor ator.

Por isso eu grito: Arriaga, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!

Volta!!!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Ainda traumatizado por causa de “Tio Boonmee…”, mas convalescendo. Obrigado por perguntar.

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Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

Tio Boonmee, que… Sei lá…

Vou ser curto e grosso.

“Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”, do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul…  Que p%@#& é essa?

David Lynch ficou no chinelo. Deve estar se mordendo todo de inveja…

Não sei o que o Ruy Gardnier tomou antes de assistir ao filme para depois me sair com um texto fascinante como aquele — publicado no Segundo Caderno do jornal O Globo na última quinta-feira (20/1/2011).

Fiquei emocionado com aquela história de tufão (acho que foi isso…) com prece. ‘Tio Boonmee…’ seria a apoteose da conjugação de extremos aparentemente imiscíveis.  Mas, se pensarmos bem, esses dois conceitos não são excludentes.  O dia em que eu ficar cara a cara com um tufão, com toda certeza vou ajoelhar e me pôr a rezar pela minha vida.

Será que o Ruy curtiu a peça “Hair” antes de encarar a produção? Certamente ele saiu do espetáculo com a bolsa de “doces” do Berger. Só mesmo muito doido para depreender algo da proposta estética de resultados psicotrópicos do Apichatpong.

O filme rivaliza com o nome do diretor na briga pela láurea de construção mais críptica.

Com toda certeza um dos piores filmes a que já assisti.  Boa sorte para quem aguentar os 113 minutos na tentativa de extrair algo daquilo… Na minha exibição, só alguns poucos bravos resistiram até o fim.

Meu namoro quase foi para o beleléu por causa do “Tio Boonmee…”. Não é para rir… Estou falando sério… Para minha sorte, logo depois do suicídio estético eu peguei uma sessão de “O turista”. Angelina Jolie e Johnny Depp literalmente salvaram meu relacionamento.

Ironicamente, sempre imaginei a Jolie como pivô de uma possível separação minha. A vida é engraçada. A piada de Tim Burton não.

Se o tailandês faz o melhor cinema da atualidade, ai de nós!

Carlos Eduardo Bacellar

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Fundo do Poço (suicídio estético)

Blog da Penguin-Companhia reconsidera e coloca no ar comentário espirituoso de @cebacellar

Uhu!

Sabia que os ventos do bom-senso soprariam para longe qualquer descompasso ou mal-entendido entre a @ciadasletras e mim.

O blog na Penguin-Companhia, finalmente, colocou no ar meu comentário espirituoso, permitindo que eu possa concorrer oficialmente a um exemplar do livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift. Apesar de ter sido liberado há pouco, lá está indicado que o comentário foi postado no dia 4/1/2011, às 22h, data do início da promoção, justamente quando submeti meu texto pasoliniano.

Leia aqui a minha resposta marota.

Os autores das três melhores respostas à pergunta “O que você faria se fosse tão grande quanto Gulliver em Lilipute?” irão ganhar um exemplar do livro de Swift. Para participar da promoção, os interessados deveriam enviar seus comentários até o dia 16 último. O resultado será divulgado hoje. Torçam por mim!!!

Quem acompanha o blog já sabe do assunto. Para quem pegou o bonde andando, fique por dentro de todo o bafafá clicando aqui.

Luiz Schwarcz, para mim você continua sendo o cara! Qualquer dia desses a gente se encontra para um café e fica a tarde toda falando sobre livros.

Um abraço carinhoso para toda a equipe da @ciadasletras.

Carlos Eduardo Bacellar

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Em campanha por Anne “Gathaway”

Quem quer Anne Gatha…, digo, Hathaway, no elenco de “The Dark Knight Rises”, novo filme sobre o homem-morcego de Gotham City, dirigido por Christopher Nolan, levanta os braços!

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Será que o coração do Batman segura o tranco?

Anne Hathaway e seu modelito “pressão 8/6 — sal debaixo da língua já!”: passarinho que anda com morcego dorme de cabeça para baixo. Será que o vestido irá resistir à força da gravidade? Tomara que não!

Carlos Eduardo Bacellar

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Criatividade amarrada: blog da Penguin-Companhia censura comentário irreverente de @cebacellar

A Penguin-Companhia − selo criado em 2009 que associou a Companhia das Letras à Penguin Books para publicar edições da Penguin Classics no Brasil −, com o objetivo de incrementar o esforço de marketing em torno do livro Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, obra que chegou às livrarias no final do ano passado, resolveu aproveitar a proximidade da data de estreia de “As viagens de Gulliver” nos cinemas para realizar promoção na Internet.

Por meio do blog da Companhia, na seção Penguin-Companhia, os interessados devem responder à pergunta: “O que você faria se fosse tão grande quanto Gulliver em Lilipute?”.

As respostas, que entram como comentários no próprio post da promoção, podem ser enviadas até o dia 16 de janeiro. As três melhores serão premiadas com um exemplar de Viagens de Gulliver − o resultado será divulgado no dia 18. Quem conhece minha tara por livros (de graça até Paulo Coelho!) sabe que eu não poderia ficar de fora. Aqui começa o motivo da minha frustração.

Eis minha resposta:

“Em tempos de ‘De pernas para o ar’… Aproveitaria minhas novas vantagens bio(quilométricas) — as quais nem o melhor extensor peniano do mundo seria capaz de promover — para conquistar a estonteante Emily Blunt versão Playmobil, me tornaria o astro pornô mais famoso de Lilipute e ficaria rico como empresário da indústria da saliência na cidade dos pequenos. Em terra de salsicha, quem tem salsichão é rei! Perdoem-me pela ousadia da masturbação intelectual. Não resisti…”

O órgão de classificação indicativa do blog da editora carimbou meu texto com NPL, ou seja, ninguém pode ler. As palavras foram colocadas em animação suspensa sob a criogenia do clique de aprovação que ficou parado no ar, e provavelmente nunca ocorrerá. Estampado no rótulo do éter que guarda o sêmen-léxico considerado inconveniente (para não dizer maldito): o seu comentário está aguardando moderação.

Infelizmente, comentários espirituosos, irreverentes e bem-humorados ainda são mal-interpretados e, frequentemente, marginalizados. Meu intuito não foi constranger ou ser ofensivo. Simplesmente resolvi dar vazão à minha criatividade pouco ortodoxa, vitaminada pelo meu espírito maroto. Procurei palavras que não fossem inapropriadas, de modo a fugir da vulgaridade, do insulto e do desrespeito. O que realmente me incomoda é o falso moralismo (inadmissível!), mas prefiro acreditar que não é o caso.

Digo isso com toda a consideração e respeito que tenho pela Companhia das Letras, uma das mais importantes editoras do país, e pelos profissionais que lá atuam. Nutro carinho imenso pelos livros do selo e jamais deixarei de comparecer ao @estantevirtual e à @LivTravessa para arrematar títulos da Cia. Fica aqui registrada a minha inquietação, mas com carinho. E o sinto muito por algum excesso, tanto neste texto como no outro.

Encerro com um pedido, porque não enxergo sentido na imoderação (e porque quem não chora não mama): poxa, Luiz Schwarcz, bota no ar!

Confira o trailer do filme “As viagens de Gulliver”, dirigido por Rob Letterman e que conta com nomes como Jack Black, Jason Segel, Emily Blunt (!!!) e Amanda Peet no elenco. Estreia prevista para amanhã, dia 14. Comprem o livro. Assistam ao filme.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Modéstia à parte, minha resposta é a melhor que há por lá. Minha mãe também concorda comigo. Viram? Comentário família, como o filme do Roberto Santucci. Para todas as idades!

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Esteganografia emocional

A preempção necessária para fruirmos “Além da vida” (“Hereafter”, no original), novo longa do cada vez mais diretor-ator Clint Eastwood – alterando, pela qualidade de seu trabalho atrás das câmeras ao longo dos anos, a sintaxe ator-diretor −, é (quase) a mesma empregada para decodificar estéticas fragmentadas, mas galvanizadas pelo que alguns interpretam como destino, encontradas nas assinaturas de Guillermo Arriaga e Julio Medem.

Eastwood psicografa com suas lentes a energia que emana do roteiro de Peter Morgan e entrelaça três núcleos de personagens flagelados pela perda. Os protagonistas, embaralhando medo de viver com vocação para viver, abafam a emoção, a verdadeira emoção, na alienação, no silêncio, e na negação.

Marie LeLay (Cécile De France) é a jornalista francesa que, ao passar por uma experiência de quase morte, engolida por um tsunami, reavalia os valores (e, consequentemente, os rumos) de sua existência. O jovem Marcus (Frankie ou George McLaren? O sobrenome poderia ser Winklevoss) sofre com o problema da mãe com as drogas, dor que é exponenciada pela perda do irmão gêmeo num acidente estúpido. E, finalmente, George Lonegan (Matt Damon, demonstrando que amadurece como ator) é o sensitivo capaz de se comunicar com os mortos que nega sua habilidade (entendida mais como maldição que como bênção) na tentativa de ter uma vida “normal”.

Ironicamente, a metafísica é o composto necessário para expor os dramas mais humanos de pessoas que precisam reencontrar sentido para sua continuidade no plano físico. Flertando com o espiritismo, mas sem sufocar as buscas e descobertas dos personagens com possíveis amarras da doutrina, a produção encanta por impregnar a fé de diferentes conotações e relativizar o sentido de finitude – expressão que, dependendo de como encaramos nosso papel por aqui, pode se desdobrar da depressão para a realização, do conformismo para a atitude.

A heurística − quando aprendo uma palavra nova tenho que usar: conjunto de métodos empregados para chegar-se à invenção, à descoberta ou à resolução de problemas − utilizada pelos personagens para definições de norte geográfico é traduzida no próprio sentido de existir. “Além da vida” fala da morte para, paradoxalmente, exaltar a vida.

Com este filme, o diretor se aproxima, sem perceber, de temas caros a Ingmar Bergman. Em um post anterior, analisando a Trilogia do Silêncio bergmaniana, escrevi algo que, adaptado, irá cair como uma luva neste texto: Clint Eastwood, utilizando o sobrenatural como catalisador de encontros, trata das dificuldades de comunicação (tanto verbais como afetivas); dos atritos e incompatibilidades entre razão, desejo e fé; e, claro, da morte e as consequências claustrofóbicas da percepção de sua inexorabilidade nos dramas cotidianos. Fato que, Clint nos lembra agora, não deve nos impedir de procurar, e tentar.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Estou suando frio, mas consegui evitar o nome da absurdamente linda Bryce Dallas Howard neste post. Ela faz uma participação especial em “Além da vida”. Quem assistir ao filme vai entender o que direi a seguir… É irônico que Bryce (repararam na intimidade?) perca novamente o sentido da visão num filme questionador de crenças. Para quem não se lembra, ela interpretou uma cega no filme “A vila” (2004), de M. Night Shyamalan.

p.s.2 Faço coro ao xará Carlos Alberto Mattos que, num tweet recente, escreveu o seguinte: “ALÉM DA VIDA tem duas cenas excepcionais: o tsunami e a sedução na aula de culinária. Mas, além disso, é um bom filme”. Só troco o adjetivo: achei o filme excelente.

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Tony Scott, inspirado no universo fantástico de Stephen King, cria seu Mono Blaine em “Incontrolável”

Stephen King poderia ter sido corroteirista (ou ghost writer, como está na moda) de “Incontrolável” (“Unstoppable”, no original), complementando as ideias de Mark Bomback na concepção escrita da produção que bem poderia ser considerada o “Velocidade máxima 3” da indústria cinematográfica. Como assim?!, você deve estar se perguntando. Vou chegar lá…

Sob responsabilidade de Tony “Adrenalina” Scott, o filme, (supostamente) baseado numa história real, acompanha a cadeia de eventos que resultou num trem desembestado, carregado de compostos químicos altamente inflamáveis, transitando em alta velocidade e sem condutor pela malha ferroviária do estado americano da Pensilvânia. Sentiu o frio na barriga?

O primeiro ingrediente da receita do desastre, adicionado pela irresponsabilidade de Dewey – interpretado por Ethan Suplee, versão sem graça e sombria de Jack Black −, um funcionário cabeça oca de pátio de ferrovia, chama-se erro humano. Negligenciando as normas básicas de segurança, Dewey mete os pés pelas mãos e, numa estupidez histórica, perde o controle do trem 777, que parte desgovernado, e em alta velocidade, em direção ao… Alvo! Manja um míssil? Ele só para quando atinge seu alvo e o pulveriza. O raciocínio é mais ou menos esse. Essa é a definição exata de Connie (a bocuda Rosario Dawson), uma das responsáveis por supervisionar o trabalho de sujeitos como Dewey: o 777 é um míssil do tamanho de um arranha-céu!

Para impedir o pior, entra em ação a dupla de heróis: o maquinista Frank (Denzel Washington)  − viúvo e pai de duas adolescentes − e o condutor Will (Chris Pine, o galã do momento, mais conhecido como o capitão Kirk do “Jornada nas Estrelas” de J. J. Abrams) – jovem que tenta recuperar um relacionamento que descarrilou. Frank, que por força de sua experiência se torna (involuntariamente) o mestre Yoda do Luke Skywalker de Will, representa a velha geração de proletários que tira há décadas seu sustento dos trilhos, assombrada pelo desemprego – expressão cada vez mais comum no vocabulário das classes operárias devido às novas acomodações político-econômicas entre empregadores e sindicatos. Will, abençoado (ou seria amaldiçoado?) pelo sobrenome de sangue azul, é pego no cruzamento entre as forças da querela marxista – os colegas rechaçam o rapaz por entenderem que o cargo de Will é o resultado nada ético de nepotismo.

Motivados pelo dever maior, ambos colocam de lado as desavenças provocadas pela luta de classes e partem na caçada ao trem do apocalipse. A psicologia dos personagens e o roteiro seco (incluindo somente os diálogos necessários para que a história flua) são elementos secundários, a serviço da ação vertiginosa. Um ou outro brilho na composição dramática das figuras que Scott representa em seus filmes se deve a categoria individual de atores, como o próprio Denzel, neste filme e em “Maré vermelha” (1995); Eddie Murphy em “Um tira da pesada II” (1987); Will Smith e Gene Hackman em “Inimigo do estado” (1998); e, recentemente, John Travolta no “O sequestro do metrô 123”. Com exceção talvez para “Fome de viver” (1983) e “Jogo de espiões” (2001) — alavancado pelo desempenho irretocável de Robert Redford –, ambos filmes mais lentos e cerebrais.

Aliás, aqui abro um parêntese: Tony Scott é um diretor de filmes de ação. O que caracteriza a cinematografia de Scott é a… Ação! É com esse entendimento que suas obras devem ser sorvidas. Como num filme pornô, no qual o enredo está a serviço da saliência, e não o contrário. Ninguém aluga “Garganta profunda, a revanche do gogó tarado” para assistir à historinha que serve de pano de fundo para o sexo explícito.

Elucubrar acerca das pretensões narrativas de Scott é deixar de aproveitar na plenitude o entretenimento que suas produções oferecem. Scott, que vem lapidando sua narrativa de thrillers de ação desde “Top gun – Ases indomáveis” (1986), passando por “Dias de trovão” (1990) e “Chamas da vingança” (2004), só para citar alguns exemplos, sabe como ninguém utilizar suas câmeras para construir uma estética hipertensiva, obrigando quem assiste a segurar firme na cadeira e contrair o esfíncter.

Deixo esse trabalho (a masturbação mental sobre significantes e significados), neste caso específico, para teóricos como o professor Mauro Baptista. Baptista, em seu livro “O cinema de Quentin Tarantino” (Papirus Editora, 2010), em um determinado trecho de capítulo, analisa a teoria da homossexualidade latente, proposta por Leslie Fielder, no filme “Top gun”. Segundo Fielder, a ficção americana tem dificuldade em representar o amor e o sexo entre homens e mulheres. A essa dificuldade é somada um homossexualismo latente, no sentido de que a amizade e a camaradagem masculinas são preferíveis às obrigações adultas do amor heterossexual. No filme “Vem dormir comigo” (1994), de Rory Kelley, Tarantino interpreta Syd, personagem que, numa festa qualquer, explica ao seu interlocutor por que “Top gun”, cuja encenação se desenrola numa academia de pilotos da força aérea americana, é na verdade a história de um homem lutando contra a própria homossexualidade. Prefiro ficar, como fã de filmes de ação e aventura, com a versão mais prosaica: uma história sobre um punhado de pilotos de guerra lutando contra forças inimigas russas, em vez de encarar toda aquela construção estética (expressando de forma irônica e sub-reptícia a tese de Leslie Fielder) como uma luta de espadas na qual se disputa quem vai dirigir o “rabo” de quem, como está expresso nos diálogos do filme de Scott (Ice:“Man, you can ride my tail anytime!”; Maverick:“and you can ride mine!”) – vale o registro, antes que alguém me acuse de preconceito, expressão que considero ultrapassada, estúpida e vergonhosa. Já deixei bem claro que acho que cada um deve seguir seu coração e amar como quiser. Somos todos seres humanos (.)

Concluindo: a onda para curtir Tony Scott é outra, como a provocada por uma morra explodindo na arrebentação de Jaws. Ninguém quer ficar discutindo física de ondas e hidrodinâmica ali. Você só quer ficar de queixo caído.

Voltando ao “Incontrolável”… O maior acerto do diretor, e aqui entra o universo fantástico de Stephen King (disse que chegaria lá…), foi ter concebido e focado o trem 777 como uma entidade, um personagem dotado de “motivação”. Assim como Blaine, que aparece em “As terras devastadas”, terceiro livro da franquia “A Torre Negra”. Blaine é um autômato do mal dotado de inteligência artificial que precisa ser detido antes de chegar ao seu destino. Ao iniciar sua viagem macabra, com os heróis da trama a bordo (vocês precisam ler…), ele dá início a uma contagem regressiva que causará uma explosão em estoques de cilindros de guerra química e biológica escondidos sob a cidade de Lud, liberando gases altamente tóxicos. Muita coincidência, não é verdade? Para detê-lo, Roland e seu Ka-tet (espécie de Sociedade do Anel) precisam decifrar os enigmas de Blaine durante a jornada pelas terras devastadas do título.

Será que Frank e Will conseguirão decifrar os enigmas do trem 777 e impedir a catástrofe iminente? Não conto…

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Apesar dos desvios de conduta em “Dia de treinamento” (2001), filme que lhe rendeu um Oscar, e “O gângster” (2007), e daquele biquinho ridículo que ele tornou sua marca registrada (parece um neném prestes a chorar), talvez por inveja da fartura de Angelina Jolie, Denzel, aos 56 anos, continua sendo meu herói de ébano!

p.s.2 Bom voltar a escrever 🙂

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