Esteganografia emocional

A preempção necessária para fruirmos “Além da vida” (“Hereafter”, no original), novo longa do cada vez mais diretor-ator Clint Eastwood – alterando, pela qualidade de seu trabalho atrás das câmeras ao longo dos anos, a sintaxe ator-diretor −, é (quase) a mesma empregada para decodificar estéticas fragmentadas, mas galvanizadas pelo que alguns interpretam como destino, encontradas nas assinaturas de Guillermo Arriaga e Julio Medem.

Eastwood psicografa com suas lentes a energia que emana do roteiro de Peter Morgan e entrelaça três núcleos de personagens flagelados pela perda. Os protagonistas, embaralhando medo de viver com vocação para viver, abafam a emoção, a verdadeira emoção, na alienação, no silêncio, e na negação.

Marie LeLay (Cécile De France) é a jornalista francesa que, ao passar por uma experiência de quase morte, engolida por um tsunami, reavalia os valores (e, consequentemente, os rumos) de sua existência. O jovem Marcus (Frankie ou George McLaren? O sobrenome poderia ser Winklevoss) sofre com o problema da mãe com as drogas, dor que é exponenciada pela perda do irmão gêmeo num acidente estúpido. E, finalmente, George Lonegan (Matt Damon, demonstrando que amadurece como ator) é o sensitivo capaz de se comunicar com os mortos que nega sua habilidade (entendida mais como maldição que como bênção) na tentativa de ter uma vida “normal”.

Ironicamente, a metafísica é o composto necessário para expor os dramas mais humanos de pessoas que precisam reencontrar sentido para sua continuidade no plano físico. Flertando com o espiritismo, mas sem sufocar as buscas e descobertas dos personagens com possíveis amarras da doutrina, a produção encanta por impregnar a fé de diferentes conotações e relativizar o sentido de finitude – expressão que, dependendo de como encaramos nosso papel por aqui, pode se desdobrar da depressão para a realização, do conformismo para a atitude.

A heurística − quando aprendo uma palavra nova tenho que usar: conjunto de métodos empregados para chegar-se à invenção, à descoberta ou à resolução de problemas − utilizada pelos personagens para definições de norte geográfico é traduzida no próprio sentido de existir. “Além da vida” fala da morte para, paradoxalmente, exaltar a vida.

Com este filme, o diretor se aproxima, sem perceber, de temas caros a Ingmar Bergman. Em um post anterior, analisando a Trilogia do Silêncio bergmaniana, escrevi algo que, adaptado, irá cair como uma luva neste texto: Clint Eastwood, utilizando o sobrenatural como catalisador de encontros, trata das dificuldades de comunicação (tanto verbais como afetivas); dos atritos e incompatibilidades entre razão, desejo e fé; e, claro, da morte e as consequências claustrofóbicas da percepção de sua inexorabilidade nos dramas cotidianos. Fato que, Clint nos lembra agora, não deve nos impedir de procurar, e tentar.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Estou suando frio, mas consegui evitar o nome da absurdamente linda Bryce Dallas Howard neste post. Ela faz uma participação especial em “Além da vida”. Quem assistir ao filme vai entender o que direi a seguir… É irônico que Bryce (repararam na intimidade?) perca novamente o sentido da visão num filme questionador de crenças. Para quem não se lembra, ela interpretou uma cega no filme “A vila” (2004), de M. Night Shyamalan.

p.s.2 Faço coro ao xará Carlos Alberto Mattos que, num tweet recente, escreveu o seguinte: “ALÉM DA VIDA tem duas cenas excepcionais: o tsunami e a sedução na aula de culinária. Mas, além disso, é um bom filme”. Só troco o adjetivo: achei o filme excelente.

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

4 Respostas para “Esteganografia emocional

  1. Decida-se, meu caro amigo: você quer mandar as pessoas para o cinema ou para o dicionário? Mas concordo inteiramente com a afirmação de que o sobrenatural é usado como catalisador de encontros e realização de desejos. É isso o que mais admiro no filme: a prevalência do natural.

    • Xará,
      Às vezes gosto de aproveitar o espaço para experimentações de linguagem, mesmo correndo o risco de errar na mão. Não é afetação, somente uma tentativa de explorar as formas. Mas acho que entendo o seu pensamento. O rebuscamento artificial deve ser evitado. Posso pecar nesse ponto vez ou outra.
      Gostei muito do seu pensamento: “a prevalência do natural”. O mais difícil no exercício da crítica é traduzir sensações e sentimentos em palavras. E você consegue isso com maestria.
      Dei uma modificada no p.s. dedicado ao seu tweet para deixar o registro mais claro.
      Não esqueci que a gente precisa se encontrar. Estou um pouquinho enrolado este mês com os estudos. A gente vai se ver em breve.
      Abraços!
      CEB

  2. Paulo Henrique Souto

    Bacellar meu caro baixou um espirito nôçê? Como diria um capiau rosseano qui nem eu?
    Belo texto, tb adorei o filme, sem dogmatismo que valoriza a vida pelo prisma da morte.No alto dos seus 80 anos Clint Eastwood envereda por florestas( wood) mis da mente humana, como bussola sem ímã,nos desorientando ( east= oriente) com esse belo filme. Faço a tradução no neologismo porque acho que ninguém tem obrigação de saber ingles. Percebo que os jornais – cada dia mais- citam frases, e sem tradução. Viva Macunaima o heroi nacional.Salvem a nossa lingua mãe/terra. rsrs

    • Hahahaha! Paulo Henrique, gostei muito dessa análise partitiva do nome do Clint. Se você não patenteou, vou utilizar numa próxima vez.
      Fico feliz que tenha gostado do texto. Acho que você é o nosso leitor mais fiel. E o que mais nos prestigia e estimula. É bom tê-lo como um filtro de qualidade e conhecimento. Já que você conhece 10x mais cinema do que eu (especialmente cinema brasileiro), seus comentários são necessários para engrandecer os textos e corrigir deslizes. Obrigado novamente pelo carinho. Vamos nos falando.
      Abraços!
      CEB

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