Arquivo do mês: fevereiro 2011

Prostituição da carência afetiva

Se Raquel Pacheco, aka Bruna Surfistinha, tivesse que comercializar a carne para pagar os custos de produção do longa-metragem homônimo, do estreante nas minutagens além-70 minutos Marcus Baldini − diretor de filmes publicitários e videoclipes −, baseado no livro “O doce veneno do escorpião” – diário das peripécias eróticas da ex-garota de programa narradas ao jornalista Jorge Tarquini, lançado em 2005 e com mais de 300 mil cópias vendidas, já na 15ª edição −, nós estaríamos falando de 150 mil programas na fase estagiária (sob supervisão de uma cafetina na ficção), quando cobrava R$ 100, mas só ficava com R$ 40 (descontados os impostos da exploração sexual), e de 20 mil programas na fase de empreendedorismo, depois de graduada nas possibilidades oferecidas pela indústria do prazer e dona do próprio cafofo de caridade.

Estimativas que deixariam em estado de coma qualquer ginecologista, sem falar na tarefa hercúlea do professor de educação física que resolvesse prepará-la para a maratona de saliência. Certamente ele optaria pelo desafio de transformar Gabourey Sidibe numa modelo de passarela, mesmo ganhando menos.

Mas, para desespero da indústria de lubrificantes, o cinema, ao explorar determinados temas que flertam com a nossa curiosidade e devassidão incubada, tem a capacidade de gerar tanto caixa quanto uma sauna proibida para menores de 18 anos no horário comercial. Segundo reportagem do jornal O Globo, veiculada ontem, assinada pelo repórter Rodrigo Fonseca, o custo de produção de “Bruna Surfistinha” foi de R$ 6 milhões. Valor que será facilmente recuperado em bilheteria se o público tiver o mesmo fôlego e disposição da personagem, interpretada por uma Deborah Secco hipnótica.

Com estreia nacional marcada para amanhã, “Bruna Surfistinha”, distribuído pela Imagem Filmes, ainda segundo informações da matéria de O Globo, chega ao mercado com 350 cópias. O filme não é indicado para menores de 16 anos, mas, se meu pai se recusasse a me levar numa sessão no auge da minha adolescência, período no qual estava explodindo de hormônios e (sim, isso certamente ocorreria) namorando comigo mesmo um pôster da Deborah em tamanho natural atrás da porta do meu quarto, nunca mais falava com ele. Produzido pela TV Zero, com coprodução da RioFilme e da Damasco Filmes, o citrato de sildenafila (vulgo Viagra) estético de Baldini – impossível evitar comparações com Fernando Meirelles, também egresso do mercado publicitário − aposta na força gravitacional jupteriana da história, roteirizada por José Carvalho, Homero Olivetto e Antonia Pellegrino, da garota de classe média paulistana que foge de casa e começa a se prostituir como ato de rebeldia, forma de mascarar a carência afetiva com raízes profundas na incompreensão da família adotiva.

A ex-prostituta, que se entregou à profissão mais antiga do mundo aos 17 anos, adquiriu status de BBB no início deste milênio, quando resolveu criar um blog e registrar sua rotina como empresária do próprio corpo no éter da Internet. Raquel relatava sua experiência, muitas vezes bizarra, com os clientes na cama. Como boa marqueteira, teve a sacada de classificar o desempenho de quem pagava para ter um teco da Surfistinha. Aí a coisa explodiu. Com a projeção gerada pela exposição pública, ela passou do varejo para o atacado, e aumentou exponencialmente os lucros do negócio, sinônimo para Raquel de independência. Em entrevista concedida a Marília Gabriela, no programa De frente com Gabi, Raquel revelou que após uma primeira tentativa – frustrada pelo receio e insegurança − de colocar um primeiro rascunho do blog no ar, no final de 2003, ela reavaliou sua decisão de se manter no anonimato e, no início de 2004, resolveu investir de vez no projeto do diário virtual. Segundo Raquel, o blog chegou a ter picos de 10 mil acessos dia, número expressivo para a época.

Filmado em locações em São Paulo e Paulínia, “Bruna…” inocula no público o veneno do tesão por meio do olhar caleidoscópico, ao mesmo tempo triste, carente e malicioso, de uma Deborah Secco com corpo de mulher, rosto de menina, sorriso de moleca e olhos de ave de rapina. Arsênico para qualquer relacionamento. Touché!


Mais preocupado com a análise da estruturação da personalidade de uma garota − açoitada pelo falso moralismo e asfixiada pelo conservadorismo − em processo de amadurecimento do que com a obediência à obra literária, Marcus Baldini disse que o filme não tem o compromisso de ser fiel aos acontecimentos que ela (Raquel) narra no livro, mas às emoções da personagem. Deborah, assimilando o posicionamento do diretor, optou por não fazer nenhuma espécie de laboratório com Raquel, de modo a evitar qualquer tipo de dramatização caricata.

O desafio maior, superado pelas (surpreendentes) possibilidades dramáticas de Deborah, foi apresentar num filme de 109 minutos as transformações pelas quais passa a personagem. No início Raquel é um patinho feio, ingênua, inexpressiva e desajeitada. Ao repudiar a castração da ortodoxia burguesa, à qual ela não se submete, e envolver-se com o submundo, a menina desencaixada encontra na venda da pele o vácuo com que deseja sugar algo que lhe falta: amor. Com o tempo, o brilho de pedinte no olhar perde vitalidade e assume o vazio de uma existência morta. Cheia de pulsões e esvaziada de sentimentos genuínos, que pudessem ser capturados, moldados e compreendidos.

O trabalho do diretor de fotografia Marcelo Corpanni, somado à direção de arte (Luiz Roque) e à maquiagem (Gabi Moraes), auxiliou Deborah a encontrar a afinação certa para alternar com segurança as notas de sua atuação; a transitar firme não só pela paleta do campo psicológico, mas também na do físico: − Eu me cobrava, e à equipe também, o nível de qualidade de um filme como “Uma Mente Brilhante” (filme do diretor Ron Howard, de 2001), por exemplo, em que o Russell Crowe, com quase 40 anos, vive o personagem aos 19 anos, na faculdade, e a gente acredita − afirma Corpanni.

Deborah Secco migra com competência de Bete a feia para Tammy “Eu sou cabaço (!!!)” Di Calafiori, o doce de leite de “A suprema felicidade” (2010), sem choques térmicos para a percepção. Os efeitos colaterais, provocados pela sensualidade de Deborah na tela, incluem hipertensão, suor gelado e ressecamento das retinas, provocado pela imantação do nosso olhar, arregalado e fixo na exibição, atraído pelo convite tácito de Bruna Surfistinha ao extravasamento do desejo. Os preconceituosos, ávidos pelo deslize da obra na pornografia destituída de expressão, devem ficar em casa e economizar o dinheiro do ingresso para o próximo dízimo da consciência.

Entre as colegas de meretrício de Bruna, irmãs reconhecidas na necessidade, as Spice Girls do lúmpen-proletariado, destacam-se a trinitrotoluênica Janine (o tornado F5 Fabíula Nascimento) e a companheira para (quase) todas as horas Gabi (Cris Lago, notável). Cris transparece no papel o calejamento da sabedoria de quem pulou, por força das circunstâncias, etapas no processo de amadurecimento, mas não as preencheu com o chorume de seu próprio sacrifício. Ela faz o contraponto bem-vindo ao avassalador brilho de Deborah nos saltos de Bruna. Cris representa a única ligação da amiga com a terra firme, especialmente quando Bruna ascende da realidade catapultada pelo deslumbramento derivado de dinheiro, falsas amizades e drogas.

If you wanna be my lover, you have got to give/If you want my future, forget my past

A cafetina Larissa, que “emprega” Raquel no começo de sua trajetória profissional, papel entregue a Drica Moraes, transmite a frieza e o pragmatismo de um sistema arquitetado para o lucro acima de todo o resto. Sem palavras de carinho, tapinhas nas costas e convites para pagar cervejas, Larissa não comete o erro de tentar se equilibrar entre os papéis de amiga e contratante. Essa é uma mistura que raramente funciona: ou a chefe perde o respeito ao se tornar amiga, ou a amiga desperta ressentimento quando precisa bancar a chefe.

Outra importante peça do elenco é Cassio Gabus Mendes, que encarna Huldson, o homem que se apaixona por Bruna e decide tirá-la daquela vida lutando contra camisinhas de vento. Huldson está determinado a evitar que Surfistinha desista de encontrar quem ela verdadeiramente é.

No ritmo de They don’t make mistakes, da lavra cantor e compositor André Lucarelli, nós entramos com Deborah/Bruna na pista de dança e, ofuscados pelo talento camaleônico da atriz sob a luz estroboscópica, na qual ela aparece e desaparece num nem-lá-nem-aqui, embarcamos com a garota/mulher que (só) queria ser amada numa viagem em busca da essência suprimida pela imposição da negação e pelas aparências. Deborah Secco deve ser ovacionada de pé. Quem diz isso é alguém que torcia o nariz para a atriz, mas acabou se dobrando ao talento inegável. Vamos nos apaixonar juntos, sem julgamentos.

Carlos Eduardo Bacellar

Curiosidades sobre trilha sonora, um show à parte:

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À prova de tudo

“No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho […]”

Carlos Drummond de Andrade

No livro de contos “Putas assassinas” (@cialetras, 1ª impressão, 2008), do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), o narrador de uma das histórias registra: “[…] Este relato deveria acabar aqui, mas a vida é um pouco mais dura do que a literatura […]”

Talvez Aron Ralston tenha passado por essa angústia ao tentar traduzir em palavras uma experiência que, de tão ficcional, só poderia de fato ter acontecido, pois não existe nada mais bizarro que o real.

Ralston relata em Between a rock and a hard place (obra inédita no Brasil, publicada lá fora pela Atria) seu infortúnio nos cânions de Utah (EUA). Em busca de sua parcela de natureza selvagem, Aron parte, “desplugado” do mundo – isso quer dizer nada de Twitter e Facebook, amigo, agora praticamente sinônimos de Internet −, para uma aventura solo em uma região que não dá segunda chance para quem erra ou escorrega no azar ardilosamente escamoteado pela mãe natureza. Ao desbravar uma garganta, ele desloca uma pedra que prende seu braço direito na parede do desfiladeiro. Ralston, durante os cinco dias em que ficou atado à pedra, passou por experiências extremas: tanto físicas quanto espirituais.

Danny Boyle, diretor de “Quem quer ser um milionário?” (2008) e “Trainspotting” (1996) – que gosta de encurralar seus protagonistas e registrar atitudes e reações naquele momento em que a humanidade se esvai e o indivíduo passa a ser guiado pelo instinto, embora limitado por uma pontinha de lucidez −, não ia perder a oportunidade de explorar tal material humano.

Em “127 horas”, Boyle escalou James Franco para interpretar Ralston no roteiro escrito por ele mesmo e seu parceiro, Simon Beaufoy, que assinou “Quem quer ser um milionário?”, produção baseada no romance de Vikas Swarup com a qual o cineasta inglês fez a limpa no Oscar 2009.

Organizando material e suprimentos no espaço exíguo em que se encontrava confinado, Aron incorpora o @BearGrylls que existe dentro dele na tentativa de sobreviver à provação máxima. Além de se preocupar com os imperativos fisiológicos, ele utiliza uma câmera digital para registrar os momentos que podem ser os derradeiros. Impelido pelas circunstâncias, ele é obrigado a rever sua dieta, o que passa a incluir a própria urina no lugar dos refrigerantes.

Sem ter nada melhor para fazer, melhor, sem ter como fazer algo que não seja olhar para a rocha sólida, Ralston não só passa em revista sua vida, mas também mergulha numa espiral de entorpecimento que embaralha lembrança, sonho e delírio. Refletindo sobre sua postura, ele encontra a penitência psicológica para seu egoísmo e alienação social naquele período de privações.

Fazendo malabarismo com desespero, choque, desesperança e humor, James Franco encontra na fissura entre irracional e racional os elementos para constituir o espírito que foge à previsibilidade do mero esforço mecânico de continuar respirando, e se entrega às abstrações fugidias da montanha-russa emocional. Vaticinando um futuro sob os efeitos psicotrópicos do ocaso das funções orgânicas e da sensação de finitude iminente, o personagem − em meio à crise de crenças no que ele entendia ser a existência perfeita − percebe que há algo mais importante do que se preocupar em como irá abrir um frasco de catchup pelo resto da vida. É necessário podar o galho podre para que a árvore continue dando frutos (ficou meio brega isso…).

Na hora do tudo ou nada, no momento em que precisa responder à pergunta de US$1 milhão sem resposta correta, aflito entre o certo e o necessário, Aron comete seppuku no braço com um canivete chinês de qualidade duvidosa e descola-se da pedra rumo às prateleiras de autoajuda, às palestras e aos programas de entrevista. Essa conotação de Manual do guerreiro da luz é piegas, e dilui a força do momento de superação e encontro com valores que eram eclipsados pelo descompromisso com a família (e consigo mesmo) e com o hedonismo pustulento.

Com sua abordagem de videoclipe – as mudanças de tomada, os efeitos buscados pela fotografia (inquieta em alguns momentos; serena em outros), a montagem em ritmo de thriller de suspense, a música xamânica −, Danny Boyle escapa do documentário autoral e concebe um programa para o Discovery Channel, para a galera. Alguns encaram essa determinação do cineasta como algo negativo, outros como a ficcionalização pop do confronto entre o que há de humano e selvagem no cerne de cada um de nós.

Danny Boyle, trabalhando sua estética canivete suíço (mais em menos), faz o seu “Enterrado vivo” (2010) − que irá figurar na seção de blockbusters, e não lá no fundo da locadora, área geralmente reservada para as produções cult. James Franco, no papel de Aron, livra-se do ranço do Duende Verde e de participações especiais que lotam seu portfólio (e não dão a real dimensão do seu talento). Com atuação arraigada no que há de mais cru em nosso ser, o ator intui (e transparece na tela) que Ralston, ao optar pela eutanásia do braço, realiza um enema em sua alma, purgando-a da pequenez.

Agora, diga-me o seguinte… E se você estivesse no lugar de Aron, ou em alguma outra situação limite, saberia o que fazer? Você sobreviveria a enchentes repentinas, cachoeiras vertiginosas e outros perigos? Ops… Não era o que eu esperava ouvir.

Mas calma, antes tarde do que nunca… Comece agora a se preparar para o pior. Acompanhe o melhor de Bear Grylls em @discoverybrasil.

Bear Grylls em seu escritório para mais um dia de trabalho: o que você chama de inferno é o local onde ele se bronzeia

Encontrei por lá um Quiz Sobrevivência Extrema. Veja esta curiosidade: “Se você estiver sem água em um clima muito quente, como o deserto australiano, pode morrer em questão de horas […] Apesar da aparência desagradável, beber sua própria urina é seguro. Ela é composta por 95% de água e, enquanto estiver fresca, é estéril. Portanto, não a deixe muito tempo no cantil, já que ela pode se tornar um viveiro de bactérias.”

Dois caras perdidos no deserto. Um deles bebeu a própria urina, o outro não. Um deles sobreviveu para contar aos seus netinhos que não passou sua juventude jogando dominó, o outro não. Um deles, assim como Aron, vai viver mais um dia para tentar chegar junto da sua Kate Mara, ou encontrar sua Clémence Poésy. A natureza é implacável. É simples assim.

Aron Ralston: vivo e biônico

Quer colocar (virtualmente) sua vida em jogo no quiz? Acesse aqui.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Aconselho assistir ao filme de barriga vazia. Quem avisa amigo é…

p.s.2 Curta If I rise, o Borrowed heaven (música da melhor banda do mundo, The Corrs!!!), da dupla Dido & A.R. Rahman, uma das quatro letras que concorrem ao Oscar de melhor canção original.

Ah, sim… O trailer… Aí vai!

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O bate-bola (que deveria ter existido) entre Sofia Coppola e Debra Granik

Sofia: Oi, Debra. Nós mulheres estamos com tudo. A Bigelow ano passado colecionou estatuetas. E este ano você aparece com várias indicações ao Oscar. Parabéns.

Debra: Pois é. Você sabe bem o que é isso (diz ela, referindo-se a “Encontros e Desencontros”). Estou radiante. Ainda mais considerando um fusquinha de USD 2 milhões fazendo frente a mega produções como “O Discurso do Rei”, “Cisne Negro” e por aí vai.

Sofia: Demais. Temos é que incentivar a indústria americana independente. E é por isso que te telefonei. Me fala mais desse teu fusquinha, o filme “Inverno da Alma”.

Debra: Bom, Sofia. “Inverno da Alma” é um filme essencialmente sobre a sobrevivência. A sobrevivência da adolescente Ree, chefe de família prematura, frente à deterioração dos nexos entre as pessoas numa sociedade com duros valores éticos. E o filme revela um pouco esta mensagem: a gente busca sobreviver num mundo cão e para tal só nos resta sermos coerentes. Há uma mensagem forte de ética, de coerência, da palavra, mesmo quando as pessoas já não se reconhecem entre elas. O filme é passado nas montanhas geladas do Missouri, mas, por conta deste apelo, poderia ser em “Um Lugar Qualquer”.

Sofia: “Um Lugar Qualquer”? Mas este é exatamente o nome do meu mais recente título.

Debra: Eu soube. Mas ainda não assisti. Me fala dele.

Sofia: O filme retrata a vida de Johnny Marco, astro de Hollywood, que vive uma vida de exageros, desregrada e, por conseguinte, vazia. Ele vive um verdadeiro “Inverno da Alma”. A alma dele está a -10C, como nas montanhas geladas do Missouri, ainda que o clima seja aquele temperado californiano de Los Angeles.

Debra: Sofia, parou para pensar que talvez nós pudéssemos ter trocado os títulos dos nossos filmes?

Sofia: Pois é, a gente pode até ser boa de indicações ao Oscar, mas escolher títulos não é nosso forte. Poderíamos ter escolhido títulos melhores…

Debra: Isto está parecendo um “Epitáfio”! Ah! E agora a escolha do John Hawkes para o filme fez ainda mais sentido. Ele é o Paulo Miklos americano.

Helena Sroulevich

P.S. Este bate-bola é uma obra ficcional. Todos os direitos reservados.

P.S.1 Este post é em homenagem à minha mamãe, que, como eu, se sentiu em “Um Lugar Qualquer” após assistir a “Inverno da Alma”.

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Simulacro da obra de John Ford, o Homero americano

Falar de filmes de faroeste e não se lembrar de John Ford e John Wayne é pecado capital. Desconsiderá-los como referências (e a relação simbiótica entre eles) deveria cominar sanções legais (no mínimo artísticas), prescritas nos cânones do Cinema, aos infratores. Por esses “crimes”, os irmãos Coen deveriam ser sentenciados à prisão perpétua.

“Bravura indômita” (“True grit”, no original), novo longa da dupla, refilmagem do clássico de 1969, dirigido por Henry Hathaway, abriu o Festival de Berlim em sessão de gala na semana passada. A missão dos Coen é nobre, mas arriscada: tirar o pó de um gênero que recebe pouco carinho da indústria.

Os crimes: em reportagem sobre o Festival, publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, no dia 11 último, Ethan Coen disse que a versão original, com John Wayne no papel principal, foi irrelevante para eles. Não parou por aí… Aperta mais ainda a corda em seu pescoço declarando que John Wayne não teria feito parte de sua experiência de ir ao cinema. Ethan procura se inocentar dizendo que nasceu em 1957, e lembra-se dele (Wayne) mais como um ícone do que como um ator.

Joel Coen torna o caso da promotoria mais fácil ainda ao afirmar que os dois não pensaram “Bravura…” como um western parecido com os de John Ford.

Vou engolir a Hit Girl!

Baseado no romance homônimo de Charles Portis – e roteirizado pelos próprios diretores −, o novo longa dos Coen é um simulacro da obra fordiana, e da pior qualidade. Folheando obra da Editora Taschen, edição de luxo com a filmografia completa de John Ford, algumas ideias na introdução chamaram minha atenção. Transcrevo alguns trechos abaixo:

“O idealismo humano deu a John Ford os seus temas, e a sua melhor obra é estimulada pelo seu conhecimento dos conflitos internos do seu país. Ford insistia que fazer o que era certo poderia e o mais certo era que fizesse com que fosse morto, que a derrota pode bem ser o estado natural do homem, mas que a honra pode e deve ser merecida. Os seus homens são mais solitários do que líderes, e os seus grandes atos são renúncias […] Os westerns de Ford preenchem a necessidade essencial de qualquer coisa duradoura acerca da América – são sobre promessas, e por vezes sobre a traição a essas promessas. O mundo de Ford é feito de soldados e padres, de alcoólicos e médicos e empregados e prostitutas e homens enlouquecidos, guiados pela sua necessidade da solidão, mesmo quando viajam em direção a casa, em direção a uma reconciliação.”

Fugindo dos traços clássicos de seus trabalhos anteriores, impregnados de ironia, escárnio e humor negro, os Coen descaracterizam seu novo filme na tentativa de negar a cartilha de Ford, que permeia sutilmente a produção, e criar algo original. É como se a alma dos trabalhos de Ford quisesse se entregar de bom grado aos realizadores, que oficialmente negam a atração, mas, longe dos olhos da sociedade, a estupram sem pudor.

Ao substituir John Wayne por Jeff Bridges (o ator vem se notabilizando por abraçar na ficção figuras decadentes, sendo a pedida perfeita para protagonizar um novo filme de Alejandro González Iñárritu), e Kim Darby por Hailee Steinfeld, estava pronta a receita do desastre.

Perdão, John Wayne…

A história trata da sede de vingança de Mattie Ross (a esforçadinha Hailee Steinfeld, que passa longe da composição madura e convincente de Darby na trama original). A menina de 14 anos parte numa cruzada pela cabeça de Tom Chaney (Josh Brolin numa mera participação especial, inexpressiva), um capanga que, numa confusão de bar, mata o pai de Mattie. Rooster Cogburn (Bridges), o xerife caolho, balofo, beberrão e matador, e o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon), que mais parece o rei leão, juntam-se à menina, cada um por seus motivos (e motivações), na caçada de Chaney. Mattie escolhe Cogburn a dedo. O xerife mais parece um soldado do Bope: primeiro atira, depois atira mais um pouco; só então pede que os corpos se rendam.

Jeff Bridges não chega aos pés de John Wayne numa caracterização que, subtraídos os trejeitos afeminados, pode ser uma versão Velho Oeste do clownesco Jack Sparrow. Sparrow, personagem interpretado por Jonnhy Depp, que ganhou plateias no mundo todo com a franquia “Piratas do Caribe”, foi inspirado na figura do caçador de recompensas Lee Clayton, vivido por um irreconhecível Marlon Brando no filme “Duelo de gigantes” (1976) − sem o menor pudor, Brando embarca num bonde chamado desejo, guiado pelo diretor Arthur Penn, e desmunheca sem dó do conservadorismo. Aliás, Bridges homenageia o poderoso chefão Brando com sua fala “ovo na boca”. Obrigado, legendas!

John Wayne (1907-1979), a lenda, consagrado como o Dr. Gregory House do Meio-Oeste americano em “Rastros de ódio” (1956), deve estar tremendo na cova. Foi com Rooster Cogburn que Wayne ganhou sua única estatueta dourada.

O que dizer de Matt Damon? Bom, como LaBoeuf ele é um excelente Jason Bourne. Fiquem com Bourne…

Simba que se cuide!

A história, retalhada e remontada ao bel-prazer dos Coen, é completamente diferente da original.  Nada contra, mas a mutilação infeccionou. O final, motivo de maior estranhamento, é sombrio e depressivo. Um pouco como os irmãos entendem a vida, só que na versão diet: sem o açúcar da ironia e do deturpado senso de humor, assinaturas com as quais angariaram críticas elogiosas.

Aplausos para a fotografia, clicada pelas lentes de Roger Deakins. “Bravura indômita” está concorrendo a 10 Oscar. Se levar alguma coisa, vai ser mesmo no quesito fotografia. Só se houver cascata.

Possivelmente preocupados com a limitação de Rooster Cogburn, os irmão Coen não idealizaram o longa para o formato 3D. Melhor, o ingresso sai mais barato.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Para quem acha original e máscula a forma com que o Terminator Arnold Schwarzenegger carrega sua espingarda em “Exterminador do futuro 2: o julgamento final” (1991), girando o gatilho sobre seu próprio eixo, enquanto acelera numa moto pancada… Schwarzenegger aprendeu esse engatilhamento estilizado com John Wayne. Atenção para uma das cenas finas da versão original, na qual o personagem de Wayne roga a Deus, cavalga furioso e manda bala na turma de foras da lei, liderada por Robert Duvall no papel de Ned Pepper. Impagável!

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Os versos satânicos de Darren Aronofsky

Em “Cisne negro”, o novo ensaio sobre a perda da lucidez de Darren Aronofsky, rotulado por alguns de thriller psicológico, o diretor (ou psicanalista) de “Pi” (1998) e “Réquiem para um sonho” (2000) explora as fronteiras inóspitas entre a loucura e a genialidade. Alguém já disse que essas duas dimensões são separadas por uma linha tênue chamada sucesso. Só que, se entendermos como sucesso projeções e expectativas alheias, o processo de pavimentação da calçada da fama pode cobrar na fatura o juízo de quem se entrega numa jornada além dos limites de si mesmo.

O ponto de não retorno do discernimento é ultrapassado pela bailarina Nina Sayers − Natalie Portman untada com sangue e lágrimas na “Síndrome de Caim” (1992) de Brian De Palma −, que disputa um papel no balé O lago dos cisnes, de Tchaikovsky. Para isso, ela precisa convencer o dono da companhia, o ambíguo Thomas Leroy (Vincent Cassel, que de bom só tem a mulher, Monica Bellucci) de sua versatilidade para dramatizar opostos.

Thomas funciona como catalisador, sugestionando Nina a libertar a obscuridade espontânea, carregada de sexualidade latente, que permanece oculta pelo brilho da perfeição mecânica – sua metodologia lembra a do personagem de Kurt Russell em “Desafio no gelo” (2004), treinador da equipe americana de hóquei no gelo de 1980 que abusa da psicologia reversa para extrair a última gota de suor de cada atleta. Tarefa que exigirá entrega completa da columbina, afinal, não é todo dia que Sauron desce de Barad-dûr e pede para que alguém suba até as entranhas da Montanha da Perdição e forje o Um Anel.

O lago dos cisnes irá obrigar Nina a compor (e explorar com todo o ônus inerente a essa espeleologia psicológica) a dicotomia entre Odette, o cisne branco, e Odile, o cisne negro. De um lado pureza, insegurança, bondade, fragilidade e exatidão. Do outro luxúria, atitude, perniciosidade, vigor e caos. O equilíbrio emocional da bailarina não está preparado para abraçar o lado negro de um personagem que poderá angariar mais do que palmas e elogios ao final do espetáculo.

Assustada pelos métodos não ortodoxos de Leroy – um Rorschach bem alinhado e com sotaque francês que não tem medo de exumar imundices suprimidas para obter o resultado desejado −, Nina precisa conviver com o ciúme da ex-primeira dama da companhia, Beth Macintyre (Winona Ryder nas raias da amargura suicida), e com as investidas da concorrente Lily (Mila Kunis, o Wasabi que, por meio de supostas dissimulações, quer se passar por jujuba). Lily, com seu jeito anárquico à moda Zoe Saldana em “Sob a luz da fama” (2000), anseia por ser o centro das atenções, mesmo que tenha que se valer de condutas discutíveis para a conservadora etiqueta do balé clássico.

Os problemas de Nina não se restringem ao ambiente profissional. Em casa, o cisne de Aronofsky precisa contemporizar com os arrependimentos envenenados da mãe, Erica (Barbara Hershey em atuação psicopata). Longe da ribalta, relegada ao anonimato, ela procurar experimentar o que não viveu por meio da filha, projetando suas frustrações afiadas nas penas sensíveis da menina. Suas atitudes, sob a fachada da possessividade, podam as asas da bailarina e recalcam pulsões que hibernam nas ranhuras suscetíveis do bom senso fraturado de alguém no limite. Erica não tinha os pés, mas tinha o coração. Nina tem os pés e o coração, mas pode não ter o controle necessário para lidar com algo que não deveria ser despertado. Ao mergulhar no poço de piche do seu subconsciente, onde enterrava suas inibições, ela começa a somatizar sensações sombrias e a se transformar.

Sir Ahmed Salman Rushdie, ou Salman Rushdie para os íntimos, com seu estilo narrativo peculiar, mesclando o mito e a fantasia com a vida real − descrito por muitos como conectado com o realismo mágico −, diria que as mudanças em Nina “alegrariam o coração do velho Lamarck: sob pressão ambiental extrema, adquirem-se características”.

Roteirizado por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin, “Cisne negro”, os versos satânicos de Darren Aronofsky, amparado na força inquisitiva da fotografia de Matthew Libatique, transita entre os opostos complementares e inconciliáveis da vida ao delinear a cisão de uma personalidade esgarçada pelas vicissitudes detonadoras de autorrespeito e autopreservação.

Aronofsky contrói o seu “Sob a luz da fama” esquizofrênico, permeado pela literatura sobrenatural (ou espiritual, como muitos preferem) de Frank Peretti. John Constantine nos avisou que o bem e o mal andam por aí, soprando em nossos ouvidos na tentativa de influenciar nossas decisões. Só que o mundo tenebroso do diretor nova-iorquino é mais assustador. A filosofia de Aronofsky desmonta o maniqueísmo ao apontar para o centro das desequalizações, local que abriga todo o bem e todo o mal: nós mesmos.

Agora é a minha vez de filosofar… A questão que se impõe neste filme: a pseudossanidade, fardo de rachaduras no ser provocadas por uma vida dedicada a abandonar (obsessivamente) o seguro (e, consequentemente, buscar o desconhecido), molda de contornos excêntricos a genialidade ou é a máscara que oculta a deformidade da natureza humana, fadada a se diluir na loucura?

Carlos Eduardo Bacellar

Curiosidade (já sei que é velha, mas a dor de cotovelo pede)

Foi neste filme que o coreógrafo francês Benjamin Millepied afogou o cisne negro na Natalie e emplacou um herdeiro. Sabia que eu devia ter feito balé em vez de polo aquático… Millepied vai ganhar o Oscar de melhor fecundação do ano.

Spoilers!!!

1)   Alguém reparou no quadro Teste Rorschach na parede da sala de Thomas Leroy? Aquela obra diz muito da personalidade perturbada do cafetão de bailarinas;

2)   Alguém notou o coelho de pelúcia na janela do quarto da Nina, no momento em que ela se masturba? Depois de “De pernas para o ar”, comédia recente dirigida por Roberto Santucci, que traz Ingrid Guimarães, Maria Paula e Bruno Garcia no elenco, nunca mais olhei para um coelho de pelúcia da mesma maneira;

3)   E para encerrar, no momento em que Nina começa sua transformação e olha para a câmera com aqueles olhos vermelhos, acabei me lembrando do homem-macaco no traumático “Tio Boonmee…”. Vou ter que conversar com um psicólogo sobre isso…

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Somewhere in between

Para @arianemondo. Nosso relacionamento começou em linguagem binária, mas foi transformado pela amizade em algo tangível. Ela é a Quorra deste doido por cinema (com todo o respeito que eu não teria por Olivia Wilde).

Sofia Coppola é hoje ovacionada pelos mesmos motivos por que Jerry Schatzberg foi negligenciado na década de 1970, quando apresentou como cartão de visitas “Os viciados” (1971), filme que trazia Al Pacino (numa entrega completa ao personagem) no papel de um viciado em heroína. Expoente marginal (melhor seria dizer marginalizado) do movimento Nova Hollywood – e não existe melhor contradição para defini-lo, já que foi relegado, na época, por crítica e público, à periferia das manifestações cinematográficas que convulsionaram a indústria da sétima arte entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1980, período em que, coletivamente, os diretores tiveram mais poder, prestígio e dinheiro do que nunca  −, Schatzberg não obteve a mesma admiração angariada pela ala ítalo-americana, formada por Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Martin Scorsese, e nem pela turma dos efeitos especiais, representada George Lucas e Steven Spielberg.

Ao adotar uma estética que tinha como principal foco os personagens e seus pontos fracos − ressaltando os relacionamentos interpessoais numa época em que a indústria do cinema era seduzida pelos efeitos especiais, perseguições de carros e comédias adolescentes −, o diretor, cuja estreia na condução de longas foi marcada por “Puzzle of a Downfall Child” (1970), distanciou-se das linhas de pensamento dominantes e fundou um realizar narrativo próprio, apostando nos dramas humanos como matérias-primas para a construção de suas obras.

Sofia, mesmo inconscientemente, é caudatária dessa maneira de pensar o cinema. A convergência de entendimentos se torna mais evidente se lembrarmos que Schatzberg começou sua carreira como fotógrafo autônomo, clicando para revistas como Vogue, Esquire e Glamour. Para ele, compor uma tomada seria algo natural e automático (mas não simples nem menos desafiador), como capturar o instante. Congelar o real, para ambos os realizadores, é uma forma de expor aquele fragmento específico ao escrutínio dos sentidos, ao entendimento que só emerge após a maturação pelo tempo (mesmo que ele se resuma a segundos), utilizando-o como incubadora de movimentos internos dos personagens, as forças não aparentes, as pulsões que direcionam o comportamento de indivíduos, sempre tão reveladoras.

Desde “As virgens suicidas” (1999), filme com o qual debutou na direção de longas, Sofia Coppola vem depurando seu olhar sobre as inquietações que transformam o viver num calvário existencial. Seu talento para retratar os conflitos internos, que empurram pessoas em direção ao abismo da inércia sufocante de não ser plenamente, tornou-se patente para o mundo com “Encontros e desencontros” (2003), filme com o qual ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Seu profundo interesse pelas pessoas carrega seus filmes de uma autenticidade ímpar.

Em “As virgens…”, um grupo de irmãs era castrado do viço de sua juventude pelas convenções moralistas e pelo conservadorismo; “Encontros…”, sua obra-prima, mostra de que modo o personagem de Bill Murray amplificou as ondas sísmicas de seu vazio ao ser deslocado geograficamente para o terreno pouco compactado de um Japão inóspito, sem “calor”, não afeito a relacionamentos, que bem poderia ser Marte; já com “Maria Antonieta” (2006), versão rock’n’roll da arquiduquesa da Áustria e rainha consorte da França no final do século XVIII, as câmeras de Sofia acompanham o estrangulamento dos desejos e expectativas pessoais que sucumbem frente à etiqueta adstringente do outro. E essa supressão do ser sempre implica resultados nefastos, capturados em todas as suas nuances por Sofia.

Em “Um lugar qualquer” (“Somewhere”, no original) o “Lua de papel” (1973) de Sofia − que possui a proteína dos laços de carinho transformadores de “O espantalho” (1973) schatzbergiano em seu DNA −, mergulhamos no lado B da indústria das celebridades e nos efeitos de esvaziamento que ela provoca no espírito letárgico do ator hollywoodiano Johnny Marco (Stephen Dorff, surpreendendo ao fugir de estereótipos e abraçar o melhor papel de sua vida).

A cena de abertura é sintomática do que está por vir. Marco, a bordo de sua Ferrari de ébano, dá voltas num circuito que não leva a lugar algum. Dirigindo seu carro, ele tenta sintonizar no rádio a letra de Busca vida, composta pelo Paralama do Sucesso Herbert Vianna: Se for mais veloz que a luz/Então escapo da tristeza/Deixo toda a dor prá trás/Perdida num planeta abandonado/No espaço/E volto sem olhar prá trás. Em vez disso, Johnny só capta o som depressivo da melodia de I´ll Try Anything Once, da banda nova-iorquina The Strokes, que dá o tom dos tempos mortos que não admitem exumação.


Johnny tem tudo: sucesso, fama, dinheiro, todas as mulheres do mundo aos seus pés… Mesmo assim sente que lhe falta algo. Algo que nem ele consegue definir o que é. Quando está sozinho, o ator fica paralisado pela falta de sentido no ato de estar respirando. Sua bússola de ambições foi desmagnetizada há tempos. Tratado como uma criança por assessores, ele é um Benjamin Button emocional: à medida que os anos passam, deixa de amadurecer e se torna um títere do próprio produto que se tornou; sua imagem é um simulacro. É no sexo casual que consegue o máximo de socialização e carinho permitidos por sua rotina (ou seu velório) estelar. Contatos efêmeros de que ele necessita para tentar sentir alguma coisa (ou afirmar que é alguém). A conjunção carnal não é mais tão excitante como uma partida de Guitar Hero. Sinal dos tempos…

Sua vida esboça algum sentido quando ele consegue mais tempo com a filha Cleo (Elle Fanning) que, com a inocência e doçura do início da adolescência, o obriga a sentir algo além da autocomiseração gerada pela insignificância da superficialidade e das aparências – que mascaram sua indigência emocional. Os papéis de pai e filha se invertem, e quem deveria dar o exemplo é repreendido pelo olhar.

Com diálogos minimalistas, Sofia – ela mesma autora do roteiro, como de costume − trabalha a cumplicidade muda por meio dos gestos, que expressam tudo que deixou de ser verbalizado. As trocas de carinho são simbolizadas pela proximidade entre os dois, que se estreita com as contingências da situação (e por causa da carência mútua). As longas tomadas e a ausência do verbo desnecessário remetem à cinematografia de Jim Jarmusch, outro fotógrafo (ou pintor) do real na tela grande.

A fotografia de Harris Savides aviva em nosso imaginário, com aquela caracterização cromática perfeita de Família Dó, Ré, Mi (apesar de alguns tons mais escuros e toques de desmazelo, representando a desordem ampla de Johnny), o ambiente fake das histórias de Todd Solondz − o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana −, que escamoteia traumas e perturbações.

Johnny, o Bad Blake com grana de Stephen Dorff, encontra na distância – espaço que ele julga imprescindível para afastar a filha da influência que o consumiu, ou dele mesmo, que desaparece como sujeito − de Cleo o tônico necessário para dirimir sua ausência de um objetivo. Mais contradições que, sem dúvida, enriquecem a encenação.

Para nossa infelicidade, diferentemente de suas outras produções, Sofia opta pela acomodação patética (previsível) no final, em vez de assumir os riscos inerentes aos choques dramáticos, como fez em seus filmes anteriores.

Johnny é acometido por um epifania e resolve, nos últimos minutos de exibição, começar a caminhar com suas próprias pernas novamente e domar as rédeas do seu destino. Relegando o que há de melhor no cinema de Schatzberg, aquele elemento responsável por quebrar nossas expectativas no momento do clímax, Sofia Coppola perde a oportunidade de emplacar seu segundo “Encontros e desencontros” e criar um fascinante documentário da alma – peculiarizada pelo inusitado desconcertante. Keep walking, Johnny Marco.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. É irônica a acolhida da Itália de Silvio Berlusconi ao devasso Johnny Marco. Hollywood ainda tem um senso de humor perverso.

p.s.2 O melhor trabalho do mundo é o do Murilo Rosa e sua dança do maxixe em Araguaia. O segundo melhor é tentar entender o cinema e escrever sobre ele, mesmo correndo riscos 🙂

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

“Inverno da alma” em 91 segundos

A abertura da série True Blood, produzida pela HBO, traduz bem o espírito decadente de perversidade endêmica do filmaço da diretora Debra Granik. Esqueça os créditos do programa de TV e embarque no espírito da coisa.

“Inverno da alma” é o melhor filme em cartaz no momento. Se você ainda não viu, está esperando o quê?

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não estava pensando em falar sobre ele, mas… Quem quiser que eu escreva sobre o filme deixe um comentário neste post. Dependendo do número de interessados, eu faço a crítica. Os leitores mandam.

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Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!