Somewhere in between

Para @arianemondo. Nosso relacionamento começou em linguagem binária, mas foi transformado pela amizade em algo tangível. Ela é a Quorra deste doido por cinema (com todo o respeito que eu não teria por Olivia Wilde).

Sofia Coppola é hoje ovacionada pelos mesmos motivos por que Jerry Schatzberg foi negligenciado na década de 1970, quando apresentou como cartão de visitas “Os viciados” (1971), filme que trazia Al Pacino (numa entrega completa ao personagem) no papel de um viciado em heroína. Expoente marginal (melhor seria dizer marginalizado) do movimento Nova Hollywood – e não existe melhor contradição para defini-lo, já que foi relegado, na época, por crítica e público, à periferia das manifestações cinematográficas que convulsionaram a indústria da sétima arte entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1980, período em que, coletivamente, os diretores tiveram mais poder, prestígio e dinheiro do que nunca  −, Schatzberg não obteve a mesma admiração angariada pela ala ítalo-americana, formada por Francis Ford Coppola, Brian De Palma e Martin Scorsese, e nem pela turma dos efeitos especiais, representada George Lucas e Steven Spielberg.

Ao adotar uma estética que tinha como principal foco os personagens e seus pontos fracos − ressaltando os relacionamentos interpessoais numa época em que a indústria do cinema era seduzida pelos efeitos especiais, perseguições de carros e comédias adolescentes −, o diretor, cuja estreia na condução de longas foi marcada por “Puzzle of a Downfall Child” (1970), distanciou-se das linhas de pensamento dominantes e fundou um realizar narrativo próprio, apostando nos dramas humanos como matérias-primas para a construção de suas obras.

Sofia, mesmo inconscientemente, é caudatária dessa maneira de pensar o cinema. A convergência de entendimentos se torna mais evidente se lembrarmos que Schatzberg começou sua carreira como fotógrafo autônomo, clicando para revistas como Vogue, Esquire e Glamour. Para ele, compor uma tomada seria algo natural e automático (mas não simples nem menos desafiador), como capturar o instante. Congelar o real, para ambos os realizadores, é uma forma de expor aquele fragmento específico ao escrutínio dos sentidos, ao entendimento que só emerge após a maturação pelo tempo (mesmo que ele se resuma a segundos), utilizando-o como incubadora de movimentos internos dos personagens, as forças não aparentes, as pulsões que direcionam o comportamento de indivíduos, sempre tão reveladoras.

Desde “As virgens suicidas” (1999), filme com o qual debutou na direção de longas, Sofia Coppola vem depurando seu olhar sobre as inquietações que transformam o viver num calvário existencial. Seu talento para retratar os conflitos internos, que empurram pessoas em direção ao abismo da inércia sufocante de não ser plenamente, tornou-se patente para o mundo com “Encontros e desencontros” (2003), filme com o qual ganhou o Oscar de melhor roteiro original. Seu profundo interesse pelas pessoas carrega seus filmes de uma autenticidade ímpar.

Em “As virgens…”, um grupo de irmãs era castrado do viço de sua juventude pelas convenções moralistas e pelo conservadorismo; “Encontros…”, sua obra-prima, mostra de que modo o personagem de Bill Murray amplificou as ondas sísmicas de seu vazio ao ser deslocado geograficamente para o terreno pouco compactado de um Japão inóspito, sem “calor”, não afeito a relacionamentos, que bem poderia ser Marte; já com “Maria Antonieta” (2006), versão rock’n’roll da arquiduquesa da Áustria e rainha consorte da França no final do século XVIII, as câmeras de Sofia acompanham o estrangulamento dos desejos e expectativas pessoais que sucumbem frente à etiqueta adstringente do outro. E essa supressão do ser sempre implica resultados nefastos, capturados em todas as suas nuances por Sofia.

Em “Um lugar qualquer” (“Somewhere”, no original) o “Lua de papel” (1973) de Sofia − que possui a proteína dos laços de carinho transformadores de “O espantalho” (1973) schatzbergiano em seu DNA −, mergulhamos no lado B da indústria das celebridades e nos efeitos de esvaziamento que ela provoca no espírito letárgico do ator hollywoodiano Johnny Marco (Stephen Dorff, surpreendendo ao fugir de estereótipos e abraçar o melhor papel de sua vida).

A cena de abertura é sintomática do que está por vir. Marco, a bordo de sua Ferrari de ébano, dá voltas num circuito que não leva a lugar algum. Dirigindo seu carro, ele tenta sintonizar no rádio a letra de Busca vida, composta pelo Paralama do Sucesso Herbert Vianna: Se for mais veloz que a luz/Então escapo da tristeza/Deixo toda a dor prá trás/Perdida num planeta abandonado/No espaço/E volto sem olhar prá trás. Em vez disso, Johnny só capta o som depressivo da melodia de I´ll Try Anything Once, da banda nova-iorquina The Strokes, que dá o tom dos tempos mortos que não admitem exumação.


Johnny tem tudo: sucesso, fama, dinheiro, todas as mulheres do mundo aos seus pés… Mesmo assim sente que lhe falta algo. Algo que nem ele consegue definir o que é. Quando está sozinho, o ator fica paralisado pela falta de sentido no ato de estar respirando. Sua bússola de ambições foi desmagnetizada há tempos. Tratado como uma criança por assessores, ele é um Benjamin Button emocional: à medida que os anos passam, deixa de amadurecer e se torna um títere do próprio produto que se tornou; sua imagem é um simulacro. É no sexo casual que consegue o máximo de socialização e carinho permitidos por sua rotina (ou seu velório) estelar. Contatos efêmeros de que ele necessita para tentar sentir alguma coisa (ou afirmar que é alguém). A conjunção carnal não é mais tão excitante como uma partida de Guitar Hero. Sinal dos tempos…

Sua vida esboça algum sentido quando ele consegue mais tempo com a filha Cleo (Elle Fanning) que, com a inocência e doçura do início da adolescência, o obriga a sentir algo além da autocomiseração gerada pela insignificância da superficialidade e das aparências – que mascaram sua indigência emocional. Os papéis de pai e filha se invertem, e quem deveria dar o exemplo é repreendido pelo olhar.

Com diálogos minimalistas, Sofia – ela mesma autora do roteiro, como de costume − trabalha a cumplicidade muda por meio dos gestos, que expressam tudo que deixou de ser verbalizado. As trocas de carinho são simbolizadas pela proximidade entre os dois, que se estreita com as contingências da situação (e por causa da carência mútua). As longas tomadas e a ausência do verbo desnecessário remetem à cinematografia de Jim Jarmusch, outro fotógrafo (ou pintor) do real na tela grande.

A fotografia de Harris Savides aviva em nosso imaginário, com aquela caracterização cromática perfeita de Família Dó, Ré, Mi (apesar de alguns tons mais escuros e toques de desmazelo, representando a desordem ampla de Johnny), o ambiente fake das histórias de Todd Solondz − o cronista da esquizofrenia dissimulada da classe média americana −, que escamoteia traumas e perturbações.

Johnny, o Bad Blake com grana de Stephen Dorff, encontra na distância – espaço que ele julga imprescindível para afastar a filha da influência que o consumiu, ou dele mesmo, que desaparece como sujeito − de Cleo o tônico necessário para dirimir sua ausência de um objetivo. Mais contradições que, sem dúvida, enriquecem a encenação.

Para nossa infelicidade, diferentemente de suas outras produções, Sofia opta pela acomodação patética (previsível) no final, em vez de assumir os riscos inerentes aos choques dramáticos, como fez em seus filmes anteriores.

Johnny é acometido por um epifania e resolve, nos últimos minutos de exibição, começar a caminhar com suas próprias pernas novamente e domar as rédeas do seu destino. Relegando o que há de melhor no cinema de Schatzberg, aquele elemento responsável por quebrar nossas expectativas no momento do clímax, Sofia Coppola perde a oportunidade de emplacar seu segundo “Encontros e desencontros” e criar um fascinante documentário da alma – peculiarizada pelo inusitado desconcertante. Keep walking, Johnny Marco.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. É irônica a acolhida da Itália de Silvio Berlusconi ao devasso Johnny Marco. Hollywood ainda tem um senso de humor perverso.

p.s.2 O melhor trabalho do mundo é o do Murilo Rosa e sua dança do maxixe em Araguaia. O segundo melhor é tentar entender o cinema e escrever sobre ele, mesmo correndo riscos 🙂

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3 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

3 Respostas para “Somewhere in between

  1. Somewhere, pra mim, é “something”. Ela já fez este filme. Como é a Coppola, todo mundo fala bem. Se fosse eu, seria espinafrada.

  2. Pingback: Cultura da vulgaridade: do luxo ao lixo | Doidos por Cinema

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