Os versos satânicos de Darren Aronofsky

Em “Cisne negro”, o novo ensaio sobre a perda da lucidez de Darren Aronofsky, rotulado por alguns de thriller psicológico, o diretor (ou psicanalista) de “Pi” (1998) e “Réquiem para um sonho” (2000) explora as fronteiras inóspitas entre a loucura e a genialidade. Alguém já disse que essas duas dimensões são separadas por uma linha tênue chamada sucesso. Só que, se entendermos como sucesso projeções e expectativas alheias, o processo de pavimentação da calçada da fama pode cobrar na fatura o juízo de quem se entrega numa jornada além dos limites de si mesmo.

O ponto de não retorno do discernimento é ultrapassado pela bailarina Nina Sayers − Natalie Portman untada com sangue e lágrimas na “Síndrome de Caim” (1992) de Brian De Palma −, que disputa um papel no balé O lago dos cisnes, de Tchaikovsky. Para isso, ela precisa convencer o dono da companhia, o ambíguo Thomas Leroy (Vincent Cassel, que de bom só tem a mulher, Monica Bellucci) de sua versatilidade para dramatizar opostos.

Thomas funciona como catalisador, sugestionando Nina a libertar a obscuridade espontânea, carregada de sexualidade latente, que permanece oculta pelo brilho da perfeição mecânica – sua metodologia lembra a do personagem de Kurt Russell em “Desafio no gelo” (2004), treinador da equipe americana de hóquei no gelo de 1980 que abusa da psicologia reversa para extrair a última gota de suor de cada atleta. Tarefa que exigirá entrega completa da columbina, afinal, não é todo dia que Sauron desce de Barad-dûr e pede para que alguém suba até as entranhas da Montanha da Perdição e forje o Um Anel.

O lago dos cisnes irá obrigar Nina a compor (e explorar com todo o ônus inerente a essa espeleologia psicológica) a dicotomia entre Odette, o cisne branco, e Odile, o cisne negro. De um lado pureza, insegurança, bondade, fragilidade e exatidão. Do outro luxúria, atitude, perniciosidade, vigor e caos. O equilíbrio emocional da bailarina não está preparado para abraçar o lado negro de um personagem que poderá angariar mais do que palmas e elogios ao final do espetáculo.

Assustada pelos métodos não ortodoxos de Leroy – um Rorschach bem alinhado e com sotaque francês que não tem medo de exumar imundices suprimidas para obter o resultado desejado −, Nina precisa conviver com o ciúme da ex-primeira dama da companhia, Beth Macintyre (Winona Ryder nas raias da amargura suicida), e com as investidas da concorrente Lily (Mila Kunis, o Wasabi que, por meio de supostas dissimulações, quer se passar por jujuba). Lily, com seu jeito anárquico à moda Zoe Saldana em “Sob a luz da fama” (2000), anseia por ser o centro das atenções, mesmo que tenha que se valer de condutas discutíveis para a conservadora etiqueta do balé clássico.

Os problemas de Nina não se restringem ao ambiente profissional. Em casa, o cisne de Aronofsky precisa contemporizar com os arrependimentos envenenados da mãe, Erica (Barbara Hershey em atuação psicopata). Longe da ribalta, relegada ao anonimato, ela procurar experimentar o que não viveu por meio da filha, projetando suas frustrações afiadas nas penas sensíveis da menina. Suas atitudes, sob a fachada da possessividade, podam as asas da bailarina e recalcam pulsões que hibernam nas ranhuras suscetíveis do bom senso fraturado de alguém no limite. Erica não tinha os pés, mas tinha o coração. Nina tem os pés e o coração, mas pode não ter o controle necessário para lidar com algo que não deveria ser despertado. Ao mergulhar no poço de piche do seu subconsciente, onde enterrava suas inibições, ela começa a somatizar sensações sombrias e a se transformar.

Sir Ahmed Salman Rushdie, ou Salman Rushdie para os íntimos, com seu estilo narrativo peculiar, mesclando o mito e a fantasia com a vida real − descrito por muitos como conectado com o realismo mágico −, diria que as mudanças em Nina “alegrariam o coração do velho Lamarck: sob pressão ambiental extrema, adquirem-se características”.

Roteirizado por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin, “Cisne negro”, os versos satânicos de Darren Aronofsky, amparado na força inquisitiva da fotografia de Matthew Libatique, transita entre os opostos complementares e inconciliáveis da vida ao delinear a cisão de uma personalidade esgarçada pelas vicissitudes detonadoras de autorrespeito e autopreservação.

Aronofsky contrói o seu “Sob a luz da fama” esquizofrênico, permeado pela literatura sobrenatural (ou espiritual, como muitos preferem) de Frank Peretti. John Constantine nos avisou que o bem e o mal andam por aí, soprando em nossos ouvidos na tentativa de influenciar nossas decisões. Só que o mundo tenebroso do diretor nova-iorquino é mais assustador. A filosofia de Aronofsky desmonta o maniqueísmo ao apontar para o centro das desequalizações, local que abriga todo o bem e todo o mal: nós mesmos.

Agora é a minha vez de filosofar… A questão que se impõe neste filme: a pseudossanidade, fardo de rachaduras no ser provocadas por uma vida dedicada a abandonar (obsessivamente) o seguro (e, consequentemente, buscar o desconhecido), molda de contornos excêntricos a genialidade ou é a máscara que oculta a deformidade da natureza humana, fadada a se diluir na loucura?

Carlos Eduardo Bacellar

Curiosidade (já sei que é velha, mas a dor de cotovelo pede)

Foi neste filme que o coreógrafo francês Benjamin Millepied afogou o cisne negro na Natalie e emplacou um herdeiro. Sabia que eu devia ter feito balé em vez de polo aquático… Millepied vai ganhar o Oscar de melhor fecundação do ano.

Spoilers!!!

1)   Alguém reparou no quadro Teste Rorschach na parede da sala de Thomas Leroy? Aquela obra diz muito da personalidade perturbada do cafetão de bailarinas;

2)   Alguém notou o coelho de pelúcia na janela do quarto da Nina, no momento em que ela se masturba? Depois de “De pernas para o ar”, comédia recente dirigida por Roberto Santucci, que traz Ingrid Guimarães, Maria Paula e Bruno Garcia no elenco, nunca mais olhei para um coelho de pelúcia da mesma maneira;

3)   E para encerrar, no momento em que Nina começa sua transformação e olha para a câmera com aqueles olhos vermelhos, acabei me lembrando do homem-macaco no traumático “Tio Boonmee…”. Vou ter que conversar com um psicólogo sobre isso…

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8 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

8 Respostas para “Os versos satânicos de Darren Aronofsky

  1. Oi,
    Demorei, mas passei por aqui, rs. Adorei a resenha e particularmente ri muito de “Vincent Cassel, que de bom só tem a mulher, Monica Bellucci” e “Foi neste filme que o coreógrafo francês Benjamin Millepied afogou o cisne negro na Natalie e emplacou um herdeiro. Sabia que eu devia ter feito balé em vez de polo aquático…”.
    É impressionante o tanto de pano que esse filme dá para manga, né? Depois que escrevi o post foi que me dei conta da tragicidade subjacente ao triunfo de Nina: na busca pela perfeição, ela venceu a si própria, mas o fez em função de um ideal inalcançável.

    • Hahahaha! Show, Raquel! Que bom que gostou 🙂
      Aliás, sua análise ficou muito bonita: “[…] tragicidade subjacente ao triunfo de Nina: na busca pela perfeição, ela venceu a si própria, mas o fez em função de um ideal inalcançável.” Vou te convidar para escrever aqui.
      Beijos!
      CEB

  2. Eu topo! Só vou ter de achar um que realmente me faça pensar… Pode demorar um pouquinho, rs. É qualquer filme mesmo? Pode ser um antigo?

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