Simulacro da obra de John Ford, o Homero americano

Falar de filmes de faroeste e não se lembrar de John Ford e John Wayne é pecado capital. Desconsiderá-los como referências (e a relação simbiótica entre eles) deveria cominar sanções legais (no mínimo artísticas), prescritas nos cânones do Cinema, aos infratores. Por esses “crimes”, os irmãos Coen deveriam ser sentenciados à prisão perpétua.

“Bravura indômita” (“True grit”, no original), novo longa da dupla, refilmagem do clássico de 1969, dirigido por Henry Hathaway, abriu o Festival de Berlim em sessão de gala na semana passada. A missão dos Coen é nobre, mas arriscada: tirar o pó de um gênero que recebe pouco carinho da indústria.

Os crimes: em reportagem sobre o Festival, publicada no Segundo Caderno do jornal O Globo, no dia 11 último, Ethan Coen disse que a versão original, com John Wayne no papel principal, foi irrelevante para eles. Não parou por aí… Aperta mais ainda a corda em seu pescoço declarando que John Wayne não teria feito parte de sua experiência de ir ao cinema. Ethan procura se inocentar dizendo que nasceu em 1957, e lembra-se dele (Wayne) mais como um ícone do que como um ator.

Joel Coen torna o caso da promotoria mais fácil ainda ao afirmar que os dois não pensaram “Bravura…” como um western parecido com os de John Ford.

Vou engolir a Hit Girl!

Baseado no romance homônimo de Charles Portis – e roteirizado pelos próprios diretores −, o novo longa dos Coen é um simulacro da obra fordiana, e da pior qualidade. Folheando obra da Editora Taschen, edição de luxo com a filmografia completa de John Ford, algumas ideias na introdução chamaram minha atenção. Transcrevo alguns trechos abaixo:

“O idealismo humano deu a John Ford os seus temas, e a sua melhor obra é estimulada pelo seu conhecimento dos conflitos internos do seu país. Ford insistia que fazer o que era certo poderia e o mais certo era que fizesse com que fosse morto, que a derrota pode bem ser o estado natural do homem, mas que a honra pode e deve ser merecida. Os seus homens são mais solitários do que líderes, e os seus grandes atos são renúncias […] Os westerns de Ford preenchem a necessidade essencial de qualquer coisa duradoura acerca da América – são sobre promessas, e por vezes sobre a traição a essas promessas. O mundo de Ford é feito de soldados e padres, de alcoólicos e médicos e empregados e prostitutas e homens enlouquecidos, guiados pela sua necessidade da solidão, mesmo quando viajam em direção a casa, em direção a uma reconciliação.”

Fugindo dos traços clássicos de seus trabalhos anteriores, impregnados de ironia, escárnio e humor negro, os Coen descaracterizam seu novo filme na tentativa de negar a cartilha de Ford, que permeia sutilmente a produção, e criar algo original. É como se a alma dos trabalhos de Ford quisesse se entregar de bom grado aos realizadores, que oficialmente negam a atração, mas, longe dos olhos da sociedade, a estupram sem pudor.

Ao substituir John Wayne por Jeff Bridges (o ator vem se notabilizando por abraçar na ficção figuras decadentes, sendo a pedida perfeita para protagonizar um novo filme de Alejandro González Iñárritu), e Kim Darby por Hailee Steinfeld, estava pronta a receita do desastre.

Perdão, John Wayne…

A história trata da sede de vingança de Mattie Ross (a esforçadinha Hailee Steinfeld, que passa longe da composição madura e convincente de Darby na trama original). A menina de 14 anos parte numa cruzada pela cabeça de Tom Chaney (Josh Brolin numa mera participação especial, inexpressiva), um capanga que, numa confusão de bar, mata o pai de Mattie. Rooster Cogburn (Bridges), o xerife caolho, balofo, beberrão e matador, e o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon), que mais parece o rei leão, juntam-se à menina, cada um por seus motivos (e motivações), na caçada de Chaney. Mattie escolhe Cogburn a dedo. O xerife mais parece um soldado do Bope: primeiro atira, depois atira mais um pouco; só então pede que os corpos se rendam.

Jeff Bridges não chega aos pés de John Wayne numa caracterização que, subtraídos os trejeitos afeminados, pode ser uma versão Velho Oeste do clownesco Jack Sparrow. Sparrow, personagem interpretado por Jonnhy Depp, que ganhou plateias no mundo todo com a franquia “Piratas do Caribe”, foi inspirado na figura do caçador de recompensas Lee Clayton, vivido por um irreconhecível Marlon Brando no filme “Duelo de gigantes” (1976) − sem o menor pudor, Brando embarca num bonde chamado desejo, guiado pelo diretor Arthur Penn, e desmunheca sem dó do conservadorismo. Aliás, Bridges homenageia o poderoso chefão Brando com sua fala “ovo na boca”. Obrigado, legendas!

John Wayne (1907-1979), a lenda, consagrado como o Dr. Gregory House do Meio-Oeste americano em “Rastros de ódio” (1956), deve estar tremendo na cova. Foi com Rooster Cogburn que Wayne ganhou sua única estatueta dourada.

O que dizer de Matt Damon? Bom, como LaBoeuf ele é um excelente Jason Bourne. Fiquem com Bourne…

Simba que se cuide!

A história, retalhada e remontada ao bel-prazer dos Coen, é completamente diferente da original.  Nada contra, mas a mutilação infeccionou. O final, motivo de maior estranhamento, é sombrio e depressivo. Um pouco como os irmãos entendem a vida, só que na versão diet: sem o açúcar da ironia e do deturpado senso de humor, assinaturas com as quais angariaram críticas elogiosas.

Aplausos para a fotografia, clicada pelas lentes de Roger Deakins. “Bravura indômita” está concorrendo a 10 Oscar. Se levar alguma coisa, vai ser mesmo no quesito fotografia. Só se houver cascata.

Possivelmente preocupados com a limitação de Rooster Cogburn, os irmão Coen não idealizaram o longa para o formato 3D. Melhor, o ingresso sai mais barato.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Para quem acha original e máscula a forma com que o Terminator Arnold Schwarzenegger carrega sua espingarda em “Exterminador do futuro 2: o julgamento final” (1991), girando o gatilho sobre seu próprio eixo, enquanto acelera numa moto pancada… Schwarzenegger aprendeu esse engatilhamento estilizado com John Wayne. Atenção para uma das cenas finas da versão original, na qual o personagem de Wayne roga a Deus, cavalga furioso e manda bala na turma de foras da lei, liderada por Robert Duvall no papel de Ned Pepper. Impagável!

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10 Comentários

Arquivado em Aprecie com Moderação (dá um caldo), Carlos Eduardo Bacellar

10 Respostas para “Simulacro da obra de John Ford, o Homero americano

  1. Não acredito que o olhar possa ser esse. Um filme não depende do outro. Esse é um, aquele é outro. Criticar “esse” comparando com “aquele” me parece reducionismo de toda a obra. Um filme se sustenta por ele mesmo – nem mesmo com o livro a comparação cabe. Se ele não consegue isso por méritos próprios, aí já é outra discussão. Outra coisa, o tema principal do filme é o romance, o amor: a relação de amor/paternidade/família entre Cogburn e Mattie e LaBoeuf. Também discordo da questão de ter de tomar Ford ou Wayne como referências – e mesmo assim, elas existem sim. Abraço!

    • Olá, Pedro Henrique,
      Estamos de acordo com a ideia de que um filme não deve depender do outro. Apesar de as comparações (no meu caso) serem inevitáveis, podemos, sim, ler a obra dos Coen de forma independente. Não me importo de eles não tomarem Ford e Wayne como referências. O que me incomodou foi eles terem negado (para não dizer esnobado) a cartilha de Ford em um filme permeado por ela. Acho que as declarações dos dois foram um pouco arrogantes, mas isso é outra história. Não vejo o amor como tema principal do filme. Penso no companheirismo inusitado, em pessoas completamente diferentes que aprendem a conviver e constroem uma relação de cumplicidade à força das circunstâncias severas. Mas, ei, não estamos falando de certo e errado aqui. Que bom que nós discordamos. Você já semeou a praga da inquietação no meu discernimento. Vamos trocando ideias. Essa é a proposta deste espaço. Não existe uma leitura, mas várias. É isso que enriquece as discussões e torna a arte o que ela é: plural.
      Apareça sempre.
      Abraços!
      CEB

  2. Só para constar (e para não parecer demasiado rude): gostei do blog e vou voltar sempre!

  3. Você não acha que se trata do filme mais romântico dos irmãos Coen? Um amigo até disse uma coisa que considero certeira: Bravura Indômita é uma comédia romântica. De qualquer jeito, a última postagem do meu blog é sobre True Grit, se tiver interesse e paciência, rs. Creio que minha opinião está melhor colocada lá. Abraço!

  4. Tati

    Concordamos em quase tudo – menos sobre a menina. Eu gostei não só do humor dela mas da estética a la Wandinha Adams. A melhor atuação dessa versão, não destacada nesse post, foi do Little Black, o cavalinho da Mattie. Diga de Oscar! :p

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