À prova de tudo

“No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho […]”

Carlos Drummond de Andrade

No livro de contos “Putas assassinas” (@cialetras, 1ª impressão, 2008), do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), o narrador de uma das histórias registra: “[…] Este relato deveria acabar aqui, mas a vida é um pouco mais dura do que a literatura […]”

Talvez Aron Ralston tenha passado por essa angústia ao tentar traduzir em palavras uma experiência que, de tão ficcional, só poderia de fato ter acontecido, pois não existe nada mais bizarro que o real.

Ralston relata em Between a rock and a hard place (obra inédita no Brasil, publicada lá fora pela Atria) seu infortúnio nos cânions de Utah (EUA). Em busca de sua parcela de natureza selvagem, Aron parte, “desplugado” do mundo – isso quer dizer nada de Twitter e Facebook, amigo, agora praticamente sinônimos de Internet −, para uma aventura solo em uma região que não dá segunda chance para quem erra ou escorrega no azar ardilosamente escamoteado pela mãe natureza. Ao desbravar uma garganta, ele desloca uma pedra que prende seu braço direito na parede do desfiladeiro. Ralston, durante os cinco dias em que ficou atado à pedra, passou por experiências extremas: tanto físicas quanto espirituais.

Danny Boyle, diretor de “Quem quer ser um milionário?” (2008) e “Trainspotting” (1996) – que gosta de encurralar seus protagonistas e registrar atitudes e reações naquele momento em que a humanidade se esvai e o indivíduo passa a ser guiado pelo instinto, embora limitado por uma pontinha de lucidez −, não ia perder a oportunidade de explorar tal material humano.

Em “127 horas”, Boyle escalou James Franco para interpretar Ralston no roteiro escrito por ele mesmo e seu parceiro, Simon Beaufoy, que assinou “Quem quer ser um milionário?”, produção baseada no romance de Vikas Swarup com a qual o cineasta inglês fez a limpa no Oscar 2009.

Organizando material e suprimentos no espaço exíguo em que se encontrava confinado, Aron incorpora o @BearGrylls que existe dentro dele na tentativa de sobreviver à provação máxima. Além de se preocupar com os imperativos fisiológicos, ele utiliza uma câmera digital para registrar os momentos que podem ser os derradeiros. Impelido pelas circunstâncias, ele é obrigado a rever sua dieta, o que passa a incluir a própria urina no lugar dos refrigerantes.

Sem ter nada melhor para fazer, melhor, sem ter como fazer algo que não seja olhar para a rocha sólida, Ralston não só passa em revista sua vida, mas também mergulha numa espiral de entorpecimento que embaralha lembrança, sonho e delírio. Refletindo sobre sua postura, ele encontra a penitência psicológica para seu egoísmo e alienação social naquele período de privações.

Fazendo malabarismo com desespero, choque, desesperança e humor, James Franco encontra na fissura entre irracional e racional os elementos para constituir o espírito que foge à previsibilidade do mero esforço mecânico de continuar respirando, e se entrega às abstrações fugidias da montanha-russa emocional. Vaticinando um futuro sob os efeitos psicotrópicos do ocaso das funções orgânicas e da sensação de finitude iminente, o personagem − em meio à crise de crenças no que ele entendia ser a existência perfeita − percebe que há algo mais importante do que se preocupar em como irá abrir um frasco de catchup pelo resto da vida. É necessário podar o galho podre para que a árvore continue dando frutos (ficou meio brega isso…).

Na hora do tudo ou nada, no momento em que precisa responder à pergunta de US$1 milhão sem resposta correta, aflito entre o certo e o necessário, Aron comete seppuku no braço com um canivete chinês de qualidade duvidosa e descola-se da pedra rumo às prateleiras de autoajuda, às palestras e aos programas de entrevista. Essa conotação de Manual do guerreiro da luz é piegas, e dilui a força do momento de superação e encontro com valores que eram eclipsados pelo descompromisso com a família (e consigo mesmo) e com o hedonismo pustulento.

Com sua abordagem de videoclipe – as mudanças de tomada, os efeitos buscados pela fotografia (inquieta em alguns momentos; serena em outros), a montagem em ritmo de thriller de suspense, a música xamânica −, Danny Boyle escapa do documentário autoral e concebe um programa para o Discovery Channel, para a galera. Alguns encaram essa determinação do cineasta como algo negativo, outros como a ficcionalização pop do confronto entre o que há de humano e selvagem no cerne de cada um de nós.

Danny Boyle, trabalhando sua estética canivete suíço (mais em menos), faz o seu “Enterrado vivo” (2010) − que irá figurar na seção de blockbusters, e não lá no fundo da locadora, área geralmente reservada para as produções cult. James Franco, no papel de Aron, livra-se do ranço do Duende Verde e de participações especiais que lotam seu portfólio (e não dão a real dimensão do seu talento). Com atuação arraigada no que há de mais cru em nosso ser, o ator intui (e transparece na tela) que Ralston, ao optar pela eutanásia do braço, realiza um enema em sua alma, purgando-a da pequenez.

Agora, diga-me o seguinte… E se você estivesse no lugar de Aron, ou em alguma outra situação limite, saberia o que fazer? Você sobreviveria a enchentes repentinas, cachoeiras vertiginosas e outros perigos? Ops… Não era o que eu esperava ouvir.

Mas calma, antes tarde do que nunca… Comece agora a se preparar para o pior. Acompanhe o melhor de Bear Grylls em @discoverybrasil.

Bear Grylls em seu escritório para mais um dia de trabalho: o que você chama de inferno é o local onde ele se bronzeia

Encontrei por lá um Quiz Sobrevivência Extrema. Veja esta curiosidade: “Se você estiver sem água em um clima muito quente, como o deserto australiano, pode morrer em questão de horas […] Apesar da aparência desagradável, beber sua própria urina é seguro. Ela é composta por 95% de água e, enquanto estiver fresca, é estéril. Portanto, não a deixe muito tempo no cantil, já que ela pode se tornar um viveiro de bactérias.”

Dois caras perdidos no deserto. Um deles bebeu a própria urina, o outro não. Um deles sobreviveu para contar aos seus netinhos que não passou sua juventude jogando dominó, o outro não. Um deles, assim como Aron, vai viver mais um dia para tentar chegar junto da sua Kate Mara, ou encontrar sua Clémence Poésy. A natureza é implacável. É simples assim.

Aron Ralston: vivo e biônico

Quer colocar (virtualmente) sua vida em jogo no quiz? Acesse aqui.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Aconselho assistir ao filme de barriga vazia. Quem avisa amigo é…

p.s.2 Curta If I rise, o Borrowed heaven (música da melhor banda do mundo, The Corrs!!!), da dupla Dido & A.R. Rahman, uma das quatro letras que concorrem ao Oscar de melhor canção original.

Ah, sim… O trailer… Aí vai!

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

2 Respostas para “À prova de tudo

  1. Eu não segui o seu conselho. Fui ver o filme e ainda comprei pipoca. Não passei mal, ainda que tenho ficada nervosa (até porque o desconhecido ao meu lado respirava estranho nas cenas mais tensas). O filme é tudo isso que vc disse e salta aos olhos a coragem do moço. Eu não teria feito aquilo. Eu não tido metade da inteligência e controle dele. Eu teria chorado feito bebê. Total loser. No blog, eu coloquei alguns vídeos do próprio Aron, inclusive a volta dele ao buraco (onde estava o braço o povo quer saber???) e o relato que ele próprio faz daquela experiência.
    bjs
    TATI

    • Tati!
      Eu disse que quem avisa amigo é… Quando você vier ao Rio, marcaremos uma sessão conjunta com os Doidos.
      Sabia que você ia ficar impressionada, com o estômago embrulhado. ‘Cisne Negro’ já te deixou de perna bamba, pô 🙂
      Rsrsrsrsrsrs!
      Beijos do amigo!
      CEB

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