Prostituição da carência afetiva

Se Raquel Pacheco, aka Bruna Surfistinha, tivesse que comercializar a carne para pagar os custos de produção do longa-metragem homônimo, do estreante nas minutagens além-70 minutos Marcus Baldini − diretor de filmes publicitários e videoclipes −, baseado no livro “O doce veneno do escorpião” – diário das peripécias eróticas da ex-garota de programa narradas ao jornalista Jorge Tarquini, lançado em 2005 e com mais de 300 mil cópias vendidas, já na 15ª edição −, nós estaríamos falando de 150 mil programas na fase estagiária (sob supervisão de uma cafetina na ficção), quando cobrava R$ 100, mas só ficava com R$ 40 (descontados os impostos da exploração sexual), e de 20 mil programas na fase de empreendedorismo, depois de graduada nas possibilidades oferecidas pela indústria do prazer e dona do próprio cafofo de caridade.

Estimativas que deixariam em estado de coma qualquer ginecologista, sem falar na tarefa hercúlea do professor de educação física que resolvesse prepará-la para a maratona de saliência. Certamente ele optaria pelo desafio de transformar Gabourey Sidibe numa modelo de passarela, mesmo ganhando menos.

Mas, para desespero da indústria de lubrificantes, o cinema, ao explorar determinados temas que flertam com a nossa curiosidade e devassidão incubada, tem a capacidade de gerar tanto caixa quanto uma sauna proibida para menores de 18 anos no horário comercial. Segundo reportagem do jornal O Globo, veiculada ontem, assinada pelo repórter Rodrigo Fonseca, o custo de produção de “Bruna Surfistinha” foi de R$ 6 milhões. Valor que será facilmente recuperado em bilheteria se o público tiver o mesmo fôlego e disposição da personagem, interpretada por uma Deborah Secco hipnótica.

Com estreia nacional marcada para amanhã, “Bruna Surfistinha”, distribuído pela Imagem Filmes, ainda segundo informações da matéria de O Globo, chega ao mercado com 350 cópias. O filme não é indicado para menores de 16 anos, mas, se meu pai se recusasse a me levar numa sessão no auge da minha adolescência, período no qual estava explodindo de hormônios e (sim, isso certamente ocorreria) namorando comigo mesmo um pôster da Deborah em tamanho natural atrás da porta do meu quarto, nunca mais falava com ele. Produzido pela TV Zero, com coprodução da RioFilme e da Damasco Filmes, o citrato de sildenafila (vulgo Viagra) estético de Baldini – impossível evitar comparações com Fernando Meirelles, também egresso do mercado publicitário − aposta na força gravitacional jupteriana da história, roteirizada por José Carvalho, Homero Olivetto e Antonia Pellegrino, da garota de classe média paulistana que foge de casa e começa a se prostituir como ato de rebeldia, forma de mascarar a carência afetiva com raízes profundas na incompreensão da família adotiva.

A ex-prostituta, que se entregou à profissão mais antiga do mundo aos 17 anos, adquiriu status de BBB no início deste milênio, quando resolveu criar um blog e registrar sua rotina como empresária do próprio corpo no éter da Internet. Raquel relatava sua experiência, muitas vezes bizarra, com os clientes na cama. Como boa marqueteira, teve a sacada de classificar o desempenho de quem pagava para ter um teco da Surfistinha. Aí a coisa explodiu. Com a projeção gerada pela exposição pública, ela passou do varejo para o atacado, e aumentou exponencialmente os lucros do negócio, sinônimo para Raquel de independência. Em entrevista concedida a Marília Gabriela, no programa De frente com Gabi, Raquel revelou que após uma primeira tentativa – frustrada pelo receio e insegurança − de colocar um primeiro rascunho do blog no ar, no final de 2003, ela reavaliou sua decisão de se manter no anonimato e, no início de 2004, resolveu investir de vez no projeto do diário virtual. Segundo Raquel, o blog chegou a ter picos de 10 mil acessos dia, número expressivo para a época.

Filmado em locações em São Paulo e Paulínia, “Bruna…” inocula no público o veneno do tesão por meio do olhar caleidoscópico, ao mesmo tempo triste, carente e malicioso, de uma Deborah Secco com corpo de mulher, rosto de menina, sorriso de moleca e olhos de ave de rapina. Arsênico para qualquer relacionamento. Touché!


Mais preocupado com a análise da estruturação da personalidade de uma garota − açoitada pelo falso moralismo e asfixiada pelo conservadorismo − em processo de amadurecimento do que com a obediência à obra literária, Marcus Baldini disse que o filme não tem o compromisso de ser fiel aos acontecimentos que ela (Raquel) narra no livro, mas às emoções da personagem. Deborah, assimilando o posicionamento do diretor, optou por não fazer nenhuma espécie de laboratório com Raquel, de modo a evitar qualquer tipo de dramatização caricata.

O desafio maior, superado pelas (surpreendentes) possibilidades dramáticas de Deborah, foi apresentar num filme de 109 minutos as transformações pelas quais passa a personagem. No início Raquel é um patinho feio, ingênua, inexpressiva e desajeitada. Ao repudiar a castração da ortodoxia burguesa, à qual ela não se submete, e envolver-se com o submundo, a menina desencaixada encontra na venda da pele o vácuo com que deseja sugar algo que lhe falta: amor. Com o tempo, o brilho de pedinte no olhar perde vitalidade e assume o vazio de uma existência morta. Cheia de pulsões e esvaziada de sentimentos genuínos, que pudessem ser capturados, moldados e compreendidos.

O trabalho do diretor de fotografia Marcelo Corpanni, somado à direção de arte (Luiz Roque) e à maquiagem (Gabi Moraes), auxiliou Deborah a encontrar a afinação certa para alternar com segurança as notas de sua atuação; a transitar firme não só pela paleta do campo psicológico, mas também na do físico: − Eu me cobrava, e à equipe também, o nível de qualidade de um filme como “Uma Mente Brilhante” (filme do diretor Ron Howard, de 2001), por exemplo, em que o Russell Crowe, com quase 40 anos, vive o personagem aos 19 anos, na faculdade, e a gente acredita − afirma Corpanni.

Deborah Secco migra com competência de Bete a feia para Tammy “Eu sou cabaço (!!!)” Di Calafiori, o doce de leite de “A suprema felicidade” (2010), sem choques térmicos para a percepção. Os efeitos colaterais, provocados pela sensualidade de Deborah na tela, incluem hipertensão, suor gelado e ressecamento das retinas, provocado pela imantação do nosso olhar, arregalado e fixo na exibição, atraído pelo convite tácito de Bruna Surfistinha ao extravasamento do desejo. Os preconceituosos, ávidos pelo deslize da obra na pornografia destituída de expressão, devem ficar em casa e economizar o dinheiro do ingresso para o próximo dízimo da consciência.

Entre as colegas de meretrício de Bruna, irmãs reconhecidas na necessidade, as Spice Girls do lúmpen-proletariado, destacam-se a trinitrotoluênica Janine (o tornado F5 Fabíula Nascimento) e a companheira para (quase) todas as horas Gabi (Cris Lago, notável). Cris transparece no papel o calejamento da sabedoria de quem pulou, por força das circunstâncias, etapas no processo de amadurecimento, mas não as preencheu com o chorume de seu próprio sacrifício. Ela faz o contraponto bem-vindo ao avassalador brilho de Deborah nos saltos de Bruna. Cris representa a única ligação da amiga com a terra firme, especialmente quando Bruna ascende da realidade catapultada pelo deslumbramento derivado de dinheiro, falsas amizades e drogas.

If you wanna be my lover, you have got to give/If you want my future, forget my past

A cafetina Larissa, que “emprega” Raquel no começo de sua trajetória profissional, papel entregue a Drica Moraes, transmite a frieza e o pragmatismo de um sistema arquitetado para o lucro acima de todo o resto. Sem palavras de carinho, tapinhas nas costas e convites para pagar cervejas, Larissa não comete o erro de tentar se equilibrar entre os papéis de amiga e contratante. Essa é uma mistura que raramente funciona: ou a chefe perde o respeito ao se tornar amiga, ou a amiga desperta ressentimento quando precisa bancar a chefe.

Outra importante peça do elenco é Cassio Gabus Mendes, que encarna Huldson, o homem que se apaixona por Bruna e decide tirá-la daquela vida lutando contra camisinhas de vento. Huldson está determinado a evitar que Surfistinha desista de encontrar quem ela verdadeiramente é.

No ritmo de They don’t make mistakes, da lavra cantor e compositor André Lucarelli, nós entramos com Deborah/Bruna na pista de dança e, ofuscados pelo talento camaleônico da atriz sob a luz estroboscópica, na qual ela aparece e desaparece num nem-lá-nem-aqui, embarcamos com a garota/mulher que (só) queria ser amada numa viagem em busca da essência suprimida pela imposição da negação e pelas aparências. Deborah Secco deve ser ovacionada de pé. Quem diz isso é alguém que torcia o nariz para a atriz, mas acabou se dobrando ao talento inegável. Vamos nos apaixonar juntos, sem julgamentos.

Carlos Eduardo Bacellar

Curiosidades sobre trilha sonora, um show à parte:

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10 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

10 Respostas para “Prostituição da carência afetiva

  1. Olá,

    Gostei do seu comentário e do trailler. Eu tenho um pé atrás com filme nacional, mas tenho encontrado alguns realmente muito bons, principalmente os do Sul. Vou conferir este e depois conto aqui.

    Abraços,

    Kleber

  2. Pingback: Tweets that mention Prostituição da carência afetiva | Doidos por Cinema -- Topsy.com

  3. Em termos de dramaturgia das transformações de Bruna, só achei que a fase de decadência foi rápida demais e carregada nas tintas. Mas o filme é pura simpatia. E Deborah, aTriz com tesão maiúsculo.

    • Deve ser complicado gerenciar essas transformações num filme tão curto. Vai ver no final acabou a verba para que a produção continuasse explorando os dotes de Deborah ‘Dry’. Infelizmente… Mas ela me surpreendeu. Achava que era só mais um corpinho bonito, sem essência. É bom ser obrigado a rever conceitos.
      CEB

  4. Helena

    Testosterona à parte (coisa que não se aplica a mim em qualquer dimensão, pois a Debora ou qualquer mulher não fazem o meu tipo), achei o filme bem conservador ao retratar a Bruna. Pra mim, a Bruna Surfistinha é sensacional, marota, inteligente, sai com os caras e ainda dá nota pra eles… É empreendedora e tem uma relação com o corpo dela super-bem resolvida. Ela é uma mulher ótima, que se transformou e daí transformou o seu meio. E esta Bruna não está no filme. Pena. Outra coisa: ela é casada com um cara que é inspirado no personagem do Cassio. E isto não fica claro no final. Diz que ela se casou com um ex-cliente, mas não diz que foi ele. Por quê? Isto a humanizaria… pois ela no filme é o protótipo da insensibilidade, só quer saber dela, e não fica claro o quão cheia de metas ela é: será que ela se prostitui por dinheiro, por prazer? A narrativa é nebulosa. E claro que ela tinha que balançar com o Cassio. A mais insensível das mulheres se apaixona por um cara daquele. Ele é sensacional.
    Também não gosto do trabalho de atriz da Debora. Do ponto de vista de construção e desconstrução de personagem, a gente não vê nela o que vê na Fabiula ou na Cris Lago, por exemplo… Ali sim trabalhos de atrizes!
    Outros pontos bacanas que gostaria de ressaltar: as plots de videoart, que dá toda uma linguagem contemporânea à obra; o bordel (mega sub-utilizado), Cassio. E o filme começa e termina bem, o que é raro. Logo eu sinto uma grande pena, pois acho que um olhar feminino (sim, é uma discussão de gênero) sobre a obra, trataria a Raquel/Bruna como uma mulher…

    • Você deveria colocar todo esse vigor nos seus textos.
      Bjs!
      CEB

    • É engraçado como a percepção de cada um reflete seu temperamento e posicionamento. Já vi criticarem o filme justamente pelo contrário, por transformar uma mulher “feia” e “banal” (a Raquel) em personagem bonita e interessante. Não li o livro, mas quanto ao Cassio, imagino que o roteiro enfeixe nele vários clientes legais. Um personagem-ônibus. Talvez por isso não seja com ele especificamente que ela fique no final, mas com alguém como ele. Pra mim isso foi uma virtude do roteiro.

      • Concordo com o Carlinhos. O Cassio é um arquétipo híbrido que (somente) sugere que tenha sido ele o porto seguro da Surfistinha, mas deixando a dúvida no ar.
        O personagem funciona como um elemento de humanidade naquele ambiente de reificação do corpo, mantendo a Bruna conectada com sua parte mais inocente e meiga — quando esta não funciona como instrumento de sedução: nas ocasiões em que Bruna despe a fantasia de devoradora de homens e se torna Raquel.
        E sustento minha posição de que a Deborah “Dry” deu um show.
        CEB

  5. Discordar de você é tão mais divertido que escrever resenhas… Mas estou voltando. Eu juro. Hoje ainda há resquícios gripais, virais, ou seja, eu sou um perigo à Saúde Pública. Bjs e no domingo você não me escapa.

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