Arquivo do mês: março 2011

Antropofagia na selva de concreto australiana de David Michôd

Tesouro australiano. É assim que o diretor e roteirista David Michôd define a veterana Jacki Weaver, selo de qualidade de “Reino animal” (“Animal kingdom”, no original), produção australiana com a qual Weaver concorreu ao Oscar de melhor atriz coadjuvante na última edição da premiação outorgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – quem levou a estatueta para casa foi (a desbocada) Melissa Leo por sua atuação em “O vencedor”, de David O. Russell.

Orçado em US$ 5 milhões, “Reino animal”, primeiro longa-metragem de Michôd − realizador que chamou a atenção da indústria com seus curtas, entre os quais se destaca “Crossbow” (2007) −, coprodução entre Porchlight Films e Screen Australia, distribuído pela Sony Pictures, é mais uma produção discriminada pelo circuito exibidor que acaba de seguir o rumo de outros (excelentes) filmes preteridos na luta inglória por espaço na tela grande: as locadoras. Certamente condenado pela bilheteria anêmica. Em território americano, até o dia 13 de março deste ano, o filme arrecadou pouco mais US$ 1 milhão, nem ao menos pagando o seu custo de produção.

Almejando o status de “Os bons companheiros” (1990) da terra dos cangurus, a narrativa, situada num passado recente, mas indefinido, acompanha o amadurecimento de Joshua “J” Cody (o novato James Frecheville), que perde a mãe, vítima de overdose, e vai morar com a família de sua avó materna. Matriarca do clã, Janine “Smurf” Cody (Weaver, perturbadora), uma mistura fenotípica de Jack Nicholson com o palhaço demoníaco de Stephen King em “It” (1990) – o que aborta algo parecido com o Grinch de peruca loira −, abriga sob seu sobretudo gângster uma família de assaltantes. A situação não poderia ser pior para J., então com 17 anos, no início da formação de seu caráter. Ingênuo e emocionalmente inábil, o adolescente cai direto na casamata de infratores, disfarçada de respeitável casa de classe média na Wisteria Lane de Melbourne.

A gang…, digo, a família Soprano, é integrada por Baz (Joel Edgerton), Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o primogênito Andrew (Ben Mendelsohn), aka Papa. Frustrados com a derrocada dos assaltos a banco (suprimidos cada vez com mais violência pelas forças policiais) e caçados pela divisão antirroubo, eles tentam se ajustar a uma vida “respeitável”, mas sem motivações, já que privados do único ofício que dominam. Só que não será tão simples passar o resto dos dias realizando investimentos na bolsa de valores com o dinheiro do crime. O detetive interpretado por Guy Pearce, um autômato no combate ao descumprimento da lei, não vai se cansar até colocar todos atrás das grades.

As características de enredo policial mascaram o cerne do roteiro engendrado pelo diretor. A história imerge J. num cenário de imoralidade para que ele, em meio ao chorume de caracteres ao seu redor, encontre o norte de sua bússola moral e contradiga, de forma enviesada (e catalisado pela dor da perda), as teorias lamarckianas.

Michôd acerta ao tratar de forma realista a dinâmica daquele núcleo familiar, esquivando-se dos esterótipos glamurizados de “O poderoso chefão” (1972), de Francis Ford Coppola, e “Era uma vez na América” (1984), de Sergio Leone – o único filme de mafiosos que pode rivalizar em grandiosidade com a produção de Coppola −, obras que, apesar de se fixarem em nosso imaginário pela estilização de um modo de vida, refratam (em angulação acentuada) a luz da rotina e das relações modernas de famílias criminosas, mais próxima do entendimento documental de “Gomorra” (2008), de Matteo Garrone, filme baseado no livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano – investigação corajosa da máfia italiana, só prejudicada (ironicamente) pela apuração minuciosa de Saviano, que, ao se esquecer de que se trata de uma reportagem, e não de um relatório policial, atravanca a leitura inflando o texto com nomes e detalhes excessivos.

A edição de Luke Doolan encadeia de forma inteligente a quantidade caótica de filmagem nas mais diversas locações e, focando no essencial, consegue montar com perfeição as engrenagens enferrujadas que propiciaram o ocaso daquele clã maldito e a diluição da ingenuidade de J. A direção de fotografia de Adam Arkapaw, especialista na paleta cromática e no tipo de lentes que dialogam bem com linguagem do documentário, confere aos enquadramentos a verossimilhança do perigo que pode estar na porta ao lado, e não nos fundos de uma cantina italiana.

Os maiores trunfos de “Reino animal” são Jacki Weaver e Ben Mendelsohn. O comportamento sociopata, expresso na atuação de Mendelsohn, conjuga amoralidade com indiferença predadora nos atos doentios, nas poucas falas e no olhar alucinado do Papa. Ele é o sujeito que você não convidaria para o almoço de domingo.  Experiente e talentosa, Weaver soube trabalhar a complexidade psicológica de seu personagem de forma magistral. Ambígua, a assustadora “Smurf” transita entre o afeto materno e pragmatismo assassino, dependendo da situação – e levando em conta quem será levado às barras da justiça ou para quem está apontado o cano do revólver. O índice da maldade da mamãe metralha atinge os níveis mais altos do cinismo psicopata na defesa dos interesses do ninho. O sangue derramado só é justificado se não for o de sua prole.

O Sundance Film Festival 2010 encampou o vigor da proposta estética de “Reino animal”, que saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri.

Carlos Eduardo Bacellar

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Kiarostami sofistica gramática estética empreendendo busca metafórico-filosófica pelo sentimento gerado do amor seminal

Este texto, sobre o filme “Cópia fiel”, do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, foi publicado originalmente à época do Festival do Rio 2010. Como a produção de Kiarostami estreia no Rio amanhã, achei oportuno republicá-lo, com leves ajustes (nunca fico 100% satisfeito com um texto, e a vontade de reescrevê-lo é grande). Espero que gostem. Vamos a ele…

Para o repórter e crítico de cinema Rodrigo Fonseca, fonte de inspiração e motivação permanentes

Em seu livro Cinema – Entre a realidade e o artifício (Artes & Ofícios, 2ªedição, 2007), no capítulo dedicado ao cineasta iraniano Abbas Kiarostami, o crítico de cinema Luiz Carlos Merten diz que, “quando Kiarostami começou a surgir na Europa, no final dos anos 1980, o cinema que dava as cartas nos grandes festivais e no circuito de arte-e-ensaio internacional era o chinês, com Zhang Yimou à frente.” O autor chinês, segundo Merten, “beneficiava-se da beleza de sua mulher na época, Gong Li, que colocava no centro de suas investigações sobre o patriarcalismo da sociedade chinesa tradicional. E no mesmo parágrafo o crítico continua, sublinhando que “Kiarostami não tinha uma mulher tão bonita em seus filmes para torná-los atraentes.”

Merten, ele não tinha. Em “Cópia fiel”, uma das coqueluches do Festival do Rio 2010, Kiarostami determina a revisão obrigatória desse trecho de capítulo para a próxima edição do livro.

Com a estrela francesa Juliette Binoche − laureada este ano em Cannes por sua atuação desconstrutiva da personalidade, ao estilo “Identidade” (2003), de James Mangold − como protagonista de sua metáfora emotivo-afetiva arquitetada com base (mesmo que inconsciente) no ensaio filosófico de Walter Benjamin acerca da reprodutibilidade da arte, o cineasta iraniano afasta, definitivamente, a ausência de beleza das suas produções.

Em “Cópia…”, a estonteante Binoche (basta ela sussurrar palavras em francês em nossos ouvidos para conseguir o que quiser), interpretando Elle, envereda pelos desdobramentos da intrincada disposição origâmica de um relacionamento imaginário com o escritor James Miller (o barítono inglês William Shimell), autor de livro (homônimo ao título do filme) no qual defende a ideia de que as reproduções de arte são tão boas quanto as matrizes originais, refutando a perda (negativa) da aura propalada pelo pensamento de Benjamin.

Imersa nas atribulações mais prosaicas da vida, e em busca de algo mais autêntico e original do que sua rotina-de-mãe-solteira, Elle vai de encontro ao pensamento do escritor.

A partir desse momento, Kiarostami, o mestre dos baixos orçamentos, caudatário do neorrealismo italiano – tendo por hábito reduzir sua participação ao mínimo para que o espectador tenha a liberdade de ver, na tela, a vida como ela é −, apela para o conceito de status da sociologia para explorar as facetas (ambíguas e contraditórias) dos protagonistas no entendimento da polarização do relacionamento imantado pelo tempo.

Minimalista, com toda encenação baseada no discurso, “Cópia…” arregimenta o talento de Binoche para arrastar Shimell com ela e colocá-los nos antípodas do afeto representado. Afeto que sofre transformações ao ser distanciado do conceito de amor seminal (original?), conceito que a discussão (uma verdadeira DR em diferentes línguas) dos protagonistas − envolvendo (falsas?!) memórias, histórias, desejos, expectativas e famílias − procura reencontrar (deixou de fazer sentido o que é verdadeiro?).

O filme causará estranhamento em quem não conhece a cinematografia do diretor. Como em “Onde fica a casa de meu amigo?” e em “E a vida continua…”, Kiarostami narra a apoteose da oralidade na empreitada de buscas.

O diretor refinou seu estilo ao longo dos anos. Merten destaca que o iraniano “não inventou o metacinema, o cinema crítico de si mesmo, a linguagem usada para discutir a própria linguagem, mas consegue dar uma lição perfeita sobre o que seja isso [em “Através das oliveiras”]. […] Kiarostami, que já havia mostrado que a vida continua, faz agora um filme dentro de um filme […].”

Em seu novo longa, o realizador sofistica sua gramática estética e envolve o espectador novamente no labirinto da metalinguagem. A leitura de Merten (sobre “Através…”) pode ser espelhada para “Cópia…”: “Kiarostami desconstrói a noção de realismo e, ao mesmo tempo, contrói uma reflexão sobre o cinema como função imaginária, sobre aquilo que o olho da câmera registra e o espectador vê.”

Antagonizando no discurso os diferentes status encenados por Elle e James, Kiarostami fala sobre as contradições entre original/cópia, simplicidade/complexidade, filosofia/cultura popular, originalidade/falsidade, poligamia (busca da satisfação na projeção desenfreada, nos outros, de desejos insatisfeitos ou pendentes)/monogamia (ater-se “ao original” como única opção moralmente aceitável) na tentativa não de compreender onde encontramos o essencial − do sentimento que nutrimos pelo outro − que foi extraviado pelas contingências (progressivo esmaecimento da aura/paixão), mas o que é essencial− o hoje ou o ontem?

“Cópia fiel” é uma obra tortuosa, sutil e inteligente. Encontra-se nos píncaros do experimentalismo estético, que tem como bússola a qualidade do diretor para não escorregar na autorreferência tornando impossível a empatia. Na minha opinião, consagra Kiarostami como um dos gênios da autoralidade – postura que desafia o comodismo do olhar (e do pensar).

Carlos Eduardo Bacellar

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Susanne Bier filma o seu “O senhor das moscas” urbano

Caudatária do movimento Dogma 95, o neorrealismo dinamarquês, cuja ideologia privilegiava a estética realista em detrimento do apelo comercial, a cineasta Susanne Bier conquistou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com uma alegoria sobre a gênese do mal – substantivo que encontra menos ressonância como o (simplório) antônimo de bem e mais como a dissolução dos alicerces do que entendemos como civilidade.

Na produção “Em um mundo melhor” (“Hævnen”, no original), vencedora do Oscar de melhor filme em língua estrangeira deste ano, as humilhações físicas e psicológicas do bullying em uma escola dinamarquesa servem de placa de Petri para que Bier cultive e explore a condição humana em estado de natureza, ou seja, sem as restrições impostas pelas regras de conduta (legais e morais) da vida em sociedade. Não que elas não existam para os meninos Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen). Simplesmente são desconsideradas devido à ausência de supervisão e ao sofrimento do ser: exponenciadores de impulsos selvagens.

Elias sofre com as longas ausências do pai, Anton (Mikael Persbrandt), um médico sem fronteiras que vive uma crise no seu casamento com Marianne (Trine Dyrholm, uma mistura dinamarquesa de Gracyanne Barbosa com Diane Lane) por conta de uma traição. Já Christian, esfacelado pela dor da perda da mãe, vítima de câncer, desconta sua frustração no pai, Claus − interpretado por Ulrich Thomsen, protagonista de “Brothers” (2004), um filmaço de Bier – e em quem mais olhar atravessado para ele.

A espiral de inconformismo é amplificada pela falta de diálogos com as figuras de autoridade, autocentradas em seus próprios dramas e insensíveis aos apelos dos garotos, expressos em comportamentos questionáveis.

Envenenando o conceito de liberdade no já deturpado discernimento de Elias e Christian, Bier registra a fermentação das condutas destrutivas – cultivadas no substrato do que há de pior no ser humano − com suas câmeras e filma o seu “O senhor das moscas” urbano – roteirizado por Anders Thomas Jensen, parceiro da realizadora em projetos anteriores, incluindo “Brothers”.

Esquematizando o filme em duas vertentes que se tangenciam na narrativa, uma na África e a outra no país nórdico – temperadas na paleta cromática das lentes de Morten Søborg −, Susanne Bier lega para a posteridade um tratado de filosofia moral que se atreve a colocar o dedo na ferida de uma comunidade fria, ausente e egocentrada – um microcosmo que simboliza as interações do todo, transcendendo o regional. Tratada com o engodo da negligência alienada e consentida tacitamente, a deformação social infecciona os valores que deveriam nortear as mediações no espaço público e no relacionamento com o outro.

Bier só peca no encerramento, piegas. Faltou coragem à diretora no momento de (como acontece na vida) desequilibrar luz e sombra. Ao jogar, em sua encenação, com a carga conotativa dos super-heróis da Marvel Manto (Tyrone ‘Ty’ Johnson) e Adaga (Tandy Bowen) − criados por Bill Mantlo e Ed Hannigan −, cuja primeira aparição foi nos quadrinhos do Homem-Aranha, em março de 1982, ela se esqueceu de que a dimensão negra coexiste com a luz, mas não pode ser controlada totalmente por ela.

Decepcionando o legado literário de William Golding, ela perde a oportunidade de redimensionar o que delineamos como mal/errado/imoral/antiético e seus efeitos nefastos sobre o real.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não consigo entender com este filme suplantou “Incêndios” na briga pela estatueta.

p.s.2 Sim, sou um nerd fã de quadrinhos, mas um nerd boa-pinta.

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Oscar 2011: de luto no Facebook

Fonte da imagem: Next Movie

A cerimônia do Oscar foi patética, para dizer o mínimo…

Com todo respeito ao cartesiano e pouco ousado “O discurso do rei”, é um acinte o incipiente Tom Hooper destronar a inventividade e o talento de David Fincher na programação avançada de seu “A rede social”. “O discurso do rei”, como bem disse o crítico @carmattos, é um filme de ator que, alicerçado na força da atuação de Colin Firth e Geoffrey Rush, consagrou o diretor inglês a reboque. Não custa lembrar que “O discurso…” é (somente) o terceiro longa de Hooper — os outros dois são “Red dust” (2004) e “The damned united” (2009) –, realizador que teve sua carreira gestada na televisão.

Triste perceber que os votantes da Academy, respondendo a estímulos do mercado, formam um grupo maria-vai-com-as-outras que ecoa a babação de ovo ao “tradicional que vai tirar o meu da reta e garantir meu passaporte à turminha do poder” . Até eu, encantado com a produção de Fincher, sabia que o filme sobre o Facebook seria suplantado pelos dramas da monarquia inglesa, e acabei votando (no bolão de que participei), como bem definiu a Bonequinha com laço de fita Susana Schild, “no que vai vencer, não no que gostaria que vencesse”.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood está achando que a festa de premiação é uma brincadeira?! Além de grana, muita grana, corações estão em jogo, poxa!

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Nem tudo foi decepcionante. Por favor, responsáveis, Anne Hathaway como hostess da próxima cerimônia do Oscar, do Globo de Ouro, do Framboesa, do Independent Spirit Awards, do Emmy, do Grammy, para presidente do júri de Cannes, Berlim, Veneza, Sundance, Festival do Rio

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