Susanne Bier filma o seu “O senhor das moscas” urbano

Caudatária do movimento Dogma 95, o neorrealismo dinamarquês, cuja ideologia privilegiava a estética realista em detrimento do apelo comercial, a cineasta Susanne Bier conquistou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood com uma alegoria sobre a gênese do mal – substantivo que encontra menos ressonância como o (simplório) antônimo de bem e mais como a dissolução dos alicerces do que entendemos como civilidade.

Na produção “Em um mundo melhor” (“Hævnen”, no original), vencedora do Oscar de melhor filme em língua estrangeira deste ano, as humilhações físicas e psicológicas do bullying em uma escola dinamarquesa servem de placa de Petri para que Bier cultive e explore a condição humana em estado de natureza, ou seja, sem as restrições impostas pelas regras de conduta (legais e morais) da vida em sociedade. Não que elas não existam para os meninos Elias (Markus Rygaard) e Christian (William Jøhnk Nielsen). Simplesmente são desconsideradas devido à ausência de supervisão e ao sofrimento do ser: exponenciadores de impulsos selvagens.

Elias sofre com as longas ausências do pai, Anton (Mikael Persbrandt), um médico sem fronteiras que vive uma crise no seu casamento com Marianne (Trine Dyrholm, uma mistura dinamarquesa de Gracyanne Barbosa com Diane Lane) por conta de uma traição. Já Christian, esfacelado pela dor da perda da mãe, vítima de câncer, desconta sua frustração no pai, Claus − interpretado por Ulrich Thomsen, protagonista de “Brothers” (2004), um filmaço de Bier – e em quem mais olhar atravessado para ele.

A espiral de inconformismo é amplificada pela falta de diálogos com as figuras de autoridade, autocentradas em seus próprios dramas e insensíveis aos apelos dos garotos, expressos em comportamentos questionáveis.

Envenenando o conceito de liberdade no já deturpado discernimento de Elias e Christian, Bier registra a fermentação das condutas destrutivas – cultivadas no substrato do que há de pior no ser humano − com suas câmeras e filma o seu “O senhor das moscas” urbano – roteirizado por Anders Thomas Jensen, parceiro da realizadora em projetos anteriores, incluindo “Brothers”.

Esquematizando o filme em duas vertentes que se tangenciam na narrativa, uma na África e a outra no país nórdico – temperadas na paleta cromática das lentes de Morten Søborg −, Susanne Bier lega para a posteridade um tratado de filosofia moral que se atreve a colocar o dedo na ferida de uma comunidade fria, ausente e egocentrada – um microcosmo que simboliza as interações do todo, transcendendo o regional. Tratada com o engodo da negligência alienada e consentida tacitamente, a deformação social infecciona os valores que deveriam nortear as mediações no espaço público e no relacionamento com o outro.

Bier só peca no encerramento, piegas. Faltou coragem à diretora no momento de (como acontece na vida) desequilibrar luz e sombra. Ao jogar, em sua encenação, com a carga conotativa dos super-heróis da Marvel Manto (Tyrone ‘Ty’ Johnson) e Adaga (Tandy Bowen) − criados por Bill Mantlo e Ed Hannigan −, cuja primeira aparição foi nos quadrinhos do Homem-Aranha, em março de 1982, ela se esqueceu de que a dimensão negra coexiste com a luz, mas não pode ser controlada totalmente por ela.

Decepcionando o legado literário de William Golding, ela perde a oportunidade de redimensionar o que delineamos como mal/errado/imoral/antiético e seus efeitos nefastos sobre o real.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Não consigo entender com este filme suplantou “Incêndios” na briga pela estatueta.

p.s.2 Sim, sou um nerd fã de quadrinhos, mas um nerd boa-pinta.

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6 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

6 Respostas para “Susanne Bier filma o seu “O senhor das moscas” urbano

  1. Helena

    Meu caro amigo:

    Achei um filmaço, porque:

    1. A construção dos personagens é silenciosa;
    2. Seres humanos são completamente falíveis. Até a melhor das pessoas vive na fronteira entre o amor e o ódio e Anton não deixa de ser admirável quando exacerba seu ódio mortal ou quando diz a Christian que somente está ali porque Elias não morreu.
    3. Crê que faltou coragem à Diretora? Eu acho que ela negocia tudo na coragem e não é nada “conservadora”. Para mim, ela retrata exatamente a realidade… Por que sentiu isso?
    4. Como disse a você, “Incêndios”, pra mim, é o melhor filme em cartaz. Mas este ganhou o Oscar, meu caro, pelas mesma razões que “Inside Job” desbancou “Restrepo”: retrata uma questão sensível e corriqueira à sociedade americano; além da Bier ter caído nas graças de Hollywood… Elementar, meu caro.

    Bjs e vai ter que rolar caminhada!

    • Amiga, você já me deu o que pensar. Adoro ser desafiado intelectualmente por pessoas superlativas como você.
      Quando falamos de arte, não há o certo e o errado, mas polos interpretativos que se complementam de algum modo.
      Vamos nos encontrar, sim. Domingo pode ser um bom dia.
      Bjs!
      CEB

  2. Assisti aos dois filmes… Primeiro Incêndios. Fiquei curiosa sobre quem poderia ter desbancado o filme. Acabo de ver Haeven. Ambos são muito bons. O final de Incendios é melhor, conta com o fator surpresa. Mas Haeven trata dos grandes temas universais da história do mundo: a perda da ingenuidade, vingança e culpa, territorialidade… e a impotência humana diante dos dramas não menos universais como a miséria e a riqueza, a tecnologia e a solidão. O final é uma redenção e a gente respira aliviada. Nem tudo é tão bestial.

    • Bela avaliação, Laura. Gostei muito da sua interpretação. Esse é o objetivo maior do Doidos: somar conceitos e enriquecer a fortuna crítica dos bons filmes.
      No meu entendimento, “Incêndios” é o melhor filme do ano. Provavelmente escreverei algo sobre ele num futuro próximo. Apareça sempre para contribuir com palavras inteligentes.
      Abraços!
      CEB

  3. Pingback: Cova rasa de silêncio, escamoteada sob camadas de sangue e pólvora, que encerra horrores | Doidos por Cinema

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