Kiarostami sofistica gramática estética empreendendo busca metafórico-filosófica pelo sentimento gerado do amor seminal

Este texto, sobre o filme “Cópia fiel”, do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, foi publicado originalmente à época do Festival do Rio 2010. Como a produção de Kiarostami estreia no Rio amanhã, achei oportuno republicá-lo, com leves ajustes (nunca fico 100% satisfeito com um texto, e a vontade de reescrevê-lo é grande). Espero que gostem. Vamos a ele…

Para o repórter e crítico de cinema Rodrigo Fonseca, fonte de inspiração e motivação permanentes

Em seu livro Cinema – Entre a realidade e o artifício (Artes & Ofícios, 2ªedição, 2007), no capítulo dedicado ao cineasta iraniano Abbas Kiarostami, o crítico de cinema Luiz Carlos Merten diz que, “quando Kiarostami começou a surgir na Europa, no final dos anos 1980, o cinema que dava as cartas nos grandes festivais e no circuito de arte-e-ensaio internacional era o chinês, com Zhang Yimou à frente.” O autor chinês, segundo Merten, “beneficiava-se da beleza de sua mulher na época, Gong Li, que colocava no centro de suas investigações sobre o patriarcalismo da sociedade chinesa tradicional. E no mesmo parágrafo o crítico continua, sublinhando que “Kiarostami não tinha uma mulher tão bonita em seus filmes para torná-los atraentes.”

Merten, ele não tinha. Em “Cópia fiel”, uma das coqueluches do Festival do Rio 2010, Kiarostami determina a revisão obrigatória desse trecho de capítulo para a próxima edição do livro.

Com a estrela francesa Juliette Binoche − laureada este ano em Cannes por sua atuação desconstrutiva da personalidade, ao estilo “Identidade” (2003), de James Mangold − como protagonista de sua metáfora emotivo-afetiva arquitetada com base (mesmo que inconsciente) no ensaio filosófico de Walter Benjamin acerca da reprodutibilidade da arte, o cineasta iraniano afasta, definitivamente, a ausência de beleza das suas produções.

Em “Cópia…”, a estonteante Binoche (basta ela sussurrar palavras em francês em nossos ouvidos para conseguir o que quiser), interpretando Elle, envereda pelos desdobramentos da intrincada disposição origâmica de um relacionamento imaginário com o escritor James Miller (o barítono inglês William Shimell), autor de livro (homônimo ao título do filme) no qual defende a ideia de que as reproduções de arte são tão boas quanto as matrizes originais, refutando a perda (negativa) da aura propalada pelo pensamento de Benjamin.

Imersa nas atribulações mais prosaicas da vida, e em busca de algo mais autêntico e original do que sua rotina-de-mãe-solteira, Elle vai de encontro ao pensamento do escritor.

A partir desse momento, Kiarostami, o mestre dos baixos orçamentos, caudatário do neorrealismo italiano – tendo por hábito reduzir sua participação ao mínimo para que o espectador tenha a liberdade de ver, na tela, a vida como ela é −, apela para o conceito de status da sociologia para explorar as facetas (ambíguas e contraditórias) dos protagonistas no entendimento da polarização do relacionamento imantado pelo tempo.

Minimalista, com toda encenação baseada no discurso, “Cópia…” arregimenta o talento de Binoche para arrastar Shimell com ela e colocá-los nos antípodas do afeto representado. Afeto que sofre transformações ao ser distanciado do conceito de amor seminal (original?), conceito que a discussão (uma verdadeira DR em diferentes línguas) dos protagonistas − envolvendo (falsas?!) memórias, histórias, desejos, expectativas e famílias − procura reencontrar (deixou de fazer sentido o que é verdadeiro?).

O filme causará estranhamento em quem não conhece a cinematografia do diretor. Como em “Onde fica a casa de meu amigo?” e em “E a vida continua…”, Kiarostami narra a apoteose da oralidade na empreitada de buscas.

O diretor refinou seu estilo ao longo dos anos. Merten destaca que o iraniano “não inventou o metacinema, o cinema crítico de si mesmo, a linguagem usada para discutir a própria linguagem, mas consegue dar uma lição perfeita sobre o que seja isso [em “Através das oliveiras”]. […] Kiarostami, que já havia mostrado que a vida continua, faz agora um filme dentro de um filme […].”

Em seu novo longa, o realizador sofistica sua gramática estética e envolve o espectador novamente no labirinto da metalinguagem. A leitura de Merten (sobre “Através…”) pode ser espelhada para “Cópia…”: “Kiarostami desconstrói a noção de realismo e, ao mesmo tempo, contrói uma reflexão sobre o cinema como função imaginária, sobre aquilo que o olho da câmera registra e o espectador vê.”

Antagonizando no discurso os diferentes status encenados por Elle e James, Kiarostami fala sobre as contradições entre original/cópia, simplicidade/complexidade, filosofia/cultura popular, originalidade/falsidade, poligamia (busca da satisfação na projeção desenfreada, nos outros, de desejos insatisfeitos ou pendentes)/monogamia (ater-se “ao original” como única opção moralmente aceitável) na tentativa não de compreender onde encontramos o essencial − do sentimento que nutrimos pelo outro − que foi extraviado pelas contingências (progressivo esmaecimento da aura/paixão), mas o que é essencial− o hoje ou o ontem?

“Cópia fiel” é uma obra tortuosa, sutil e inteligente. Encontra-se nos píncaros do experimentalismo estético, que tem como bússola a qualidade do diretor para não escorregar na autorreferência tornando impossível a empatia. Na minha opinião, consagra Kiarostami como um dos gênios da autoralidade – postura que desafia o comodismo do olhar (e do pensar).

Carlos Eduardo Bacellar

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4 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

4 Respostas para “Kiarostami sofistica gramática estética empreendendo busca metafórico-filosófica pelo sentimento gerado do amor seminal

  1. Tati

    Lá venho eu com a minha versão simplista..rs…então eu gostei do filme. Entendo por que algumas pessoas saíram no meio da sessão – a narrativa lenta, sem sobressaltos, pode ser cansativa e dar sono para uma boa parcela da população. Mas o mote, eu confesso, toca em mim: eu gosto, sofro e me surpreendo como os relacionamentos se perdem; como duas pessoas tentam desesperadamente se comunicar, mas não conseguem e aí se maltratam – não só com palavras, mas também com frieza, ignorância, desconhecimento. Prova disso é quando o marido diz que ainda a ama, mesmo tendo dormido de tanta cansaço, e compara a isso ao incidente dela no volante. A cena de Juliette (vc tem razão: ela é estonteante) com a velhinha italiana é, por outro lado, impagável. bjs

  2. Super-concordo. Filme genial. Simples assim, genial. Falar mais pra quê?

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