Antropofagia na selva de concreto australiana de David Michôd

Tesouro australiano. É assim que o diretor e roteirista David Michôd define a veterana Jacki Weaver, selo de qualidade de “Reino animal” (“Animal kingdom”, no original), produção australiana com a qual Weaver concorreu ao Oscar de melhor atriz coadjuvante na última edição da premiação outorgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood – quem levou a estatueta para casa foi (a desbocada) Melissa Leo por sua atuação em “O vencedor”, de David O. Russell.

Orçado em US$ 5 milhões, “Reino animal”, primeiro longa-metragem de Michôd − realizador que chamou a atenção da indústria com seus curtas, entre os quais se destaca “Crossbow” (2007) −, coprodução entre Porchlight Films e Screen Australia, distribuído pela Sony Pictures, é mais uma produção discriminada pelo circuito exibidor que acaba de seguir o rumo de outros (excelentes) filmes preteridos na luta inglória por espaço na tela grande: as locadoras. Certamente condenado pela bilheteria anêmica. Em território americano, até o dia 13 de março deste ano, o filme arrecadou pouco mais US$ 1 milhão, nem ao menos pagando o seu custo de produção.

Almejando o status de “Os bons companheiros” (1990) da terra dos cangurus, a narrativa, situada num passado recente, mas indefinido, acompanha o amadurecimento de Joshua “J” Cody (o novato James Frecheville), que perde a mãe, vítima de overdose, e vai morar com a família de sua avó materna. Matriarca do clã, Janine “Smurf” Cody (Weaver, perturbadora), uma mistura fenotípica de Jack Nicholson com o palhaço demoníaco de Stephen King em “It” (1990) – o que aborta algo parecido com o Grinch de peruca loira −, abriga sob seu sobretudo gângster uma família de assaltantes. A situação não poderia ser pior para J., então com 17 anos, no início da formação de seu caráter. Ingênuo e emocionalmente inábil, o adolescente cai direto na casamata de infratores, disfarçada de respeitável casa de classe média na Wisteria Lane de Melbourne.

A gang…, digo, a família Soprano, é integrada por Baz (Joel Edgerton), Craig (Sullivan Stapleton), Darren (Luke Ford) e o primogênito Andrew (Ben Mendelsohn), aka Papa. Frustrados com a derrocada dos assaltos a banco (suprimidos cada vez com mais violência pelas forças policiais) e caçados pela divisão antirroubo, eles tentam se ajustar a uma vida “respeitável”, mas sem motivações, já que privados do único ofício que dominam. Só que não será tão simples passar o resto dos dias realizando investimentos na bolsa de valores com o dinheiro do crime. O detetive interpretado por Guy Pearce, um autômato no combate ao descumprimento da lei, não vai se cansar até colocar todos atrás das grades.

As características de enredo policial mascaram o cerne do roteiro engendrado pelo diretor. A história imerge J. num cenário de imoralidade para que ele, em meio ao chorume de caracteres ao seu redor, encontre o norte de sua bússola moral e contradiga, de forma enviesada (e catalisado pela dor da perda), as teorias lamarckianas.

Michôd acerta ao tratar de forma realista a dinâmica daquele núcleo familiar, esquivando-se dos esterótipos glamurizados de “O poderoso chefão” (1972), de Francis Ford Coppola, e “Era uma vez na América” (1984), de Sergio Leone – o único filme de mafiosos que pode rivalizar em grandiosidade com a produção de Coppola −, obras que, apesar de se fixarem em nosso imaginário pela estilização de um modo de vida, refratam (em angulação acentuada) a luz da rotina e das relações modernas de famílias criminosas, mais próxima do entendimento documental de “Gomorra” (2008), de Matteo Garrone, filme baseado no livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano – investigação corajosa da máfia italiana, só prejudicada (ironicamente) pela apuração minuciosa de Saviano, que, ao se esquecer de que se trata de uma reportagem, e não de um relatório policial, atravanca a leitura inflando o texto com nomes e detalhes excessivos.

A edição de Luke Doolan encadeia de forma inteligente a quantidade caótica de filmagem nas mais diversas locações e, focando no essencial, consegue montar com perfeição as engrenagens enferrujadas que propiciaram o ocaso daquele clã maldito e a diluição da ingenuidade de J. A direção de fotografia de Adam Arkapaw, especialista na paleta cromática e no tipo de lentes que dialogam bem com linguagem do documentário, confere aos enquadramentos a verossimilhança do perigo que pode estar na porta ao lado, e não nos fundos de uma cantina italiana.

Os maiores trunfos de “Reino animal” são Jacki Weaver e Ben Mendelsohn. O comportamento sociopata, expresso na atuação de Mendelsohn, conjuga amoralidade com indiferença predadora nos atos doentios, nas poucas falas e no olhar alucinado do Papa. Ele é o sujeito que você não convidaria para o almoço de domingo.  Experiente e talentosa, Weaver soube trabalhar a complexidade psicológica de seu personagem de forma magistral. Ambígua, a assustadora “Smurf” transita entre o afeto materno e pragmatismo assassino, dependendo da situação – e levando em conta quem será levado às barras da justiça ou para quem está apontado o cano do revólver. O índice da maldade da mamãe metralha atinge os níveis mais altos do cinismo psicopata na defesa dos interesses do ninho. O sangue derramado só é justificado se não for o de sua prole.

O Sundance Film Festival 2010 encampou o vigor da proposta estética de “Reino animal”, que saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri.

Carlos Eduardo Bacellar

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