Arquivo do mês: abril 2011

Apineia afetiva

“Contracorrente” (2009), obra do diretor peruano Javier Fuentes-Léon — debutante na seara de longas –, coprodução entre Peru (Elcalvo Films), Colômbia (Dynamo Producciones), França (La Cinéfacture) e Alemanha (Neue Cameo Film), trabalha na esfera do realismo mágico as contradições emocionais que fervilham em meio ao sincretismo e à força das tradições (convenções sociais e espirituais) e dilaceram as mais intransigentes negações do ser.

Roteirizado pelo próprio Javier, o filme, em língua espanhola, trata da dificuldade em, contra tudo e contra todos, abraçar uma definição de felicidade frente às imposições (castradoras) ditadas pela religião. Miguel (Cristian Mercado) é pescador de uma comunidade no litoral peruano. Casado com Mariela (Tatiana Astengo), aguarda a chegada do primeiro filho. Sem que ninguém saiba, oxigena com desejo, extravasado em parcelas homeopáticas, as labaredas de um romance secreto que seria rechaçado pelo conservadorismo local com Santiago (Manolo Cardona), pintor e fotógrafo que carrega de cores vivas a rotina sentimental burocrática do futuro pai de família. Proposta que nos remete à produção “Pecado da carne” (2009), de Haim Tabakman.

Impedido por seus próprios conflitos de consciência, Miguel recebe ajuda macabra do destino e encontra uma forma segura, mas incompleta, de manifestar seu amor por Santiago, sem ser insulado fora do próprio círculo social.

Com atuação segura dos atores Cristian Mercado, magistral na composição das pulsões polarizadas de seu personagem (joguete entre o crucifixo, o heterossexualismo imposto e os imperativos da pele e do coração), é o Ricardo Darín boliviano , enredo simples, mas pungente, e despojamento material que não se traduz em mediocridade, temos aqui algo maravilhoso. Uma história de amor que floresce na desolação da perda precoce. Sentimento represado que, catalisado pela dor, viceja e transforma o humano em algo melhor, livre do cerceamento das escrituras e dos preconceitos arbitrários de gente pequena de espírito. Libelo de lágrimas silencioso contra a discriminação (e pela aceitação do autêntico) que encanta e nos lembra que boas histórias não precisam (necessariamente) de pirotecnias estéticas.

Completam a atmosfera artesanal as lentes de Mauricio Vidal, que conferem simplicidade mística às filmagens que tiveram lugar em Cabo Blanco e El Alto, no Peru.

Carlos Eduardo Bacellar

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The Michael Cera School of Acting

The Actors Studio? Pense novamente. Quero ser Michael Cera! O novo método pode não alçar você ao estrelato, mas com toda certeza vai tornar sua vida com as garotas mais… Bem, muito mais interessante. O jeito nerd esquisitão carente que (aparentemente) não pega ninguém é o novo preto. Afinal, quem engravida a Juno numa tacada só, derrota os 7 namorados do mal de Ramona Flowers e passa uma noite de amor e música na companhia de Norah não pode estar errado.  Já fiz a minha matrícula.

Carlos Eduardo Bacellar

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Não há esperança para “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”

Para quem achou incrivelmente original a proposta de “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas” (2010), do tailandês Apichatpong Weerasethakul (duvido que você consiga repetir três vezes), aconselho assistir atentamente à obra-prima da animação “A Princesa Mononoke” (1997), do mestre nipônico Hayao Miyazaki.

O entendimento panteísta de AW, envelopado numa estética complexa e pouco palatável (“Espada Justiceira, dê-me visão além do alcance!”), com toda certeza sofreu, em sua concepção, influências do universo — gaimaniano de olhos puxados — de Miyazaki.

No filme, o jovem Ashitaka, responsável pela segurança de sua aldeia, é infectado no combate contra o demônio Tatarigami e parte numa jornada em busca do antídoto para a maldição. No caminho, Ashitaka se envolve no conflito entre os deuses da floresta e a líder da colônia mineira Tatarava — espécie de siderúrgica do Japão feudal. Um libelo pela preservação da natureza (somente subjacente à trama de perfeição gráfica inebriante) que passa longe da pieguice do politicamente correto ao ser embebido no fantástico e receber os tons mágicos da paleta de Hayao Miyazaki.

Alugue sem medo. Pode confiar. Depois conversamos…

Carlos Eduardo Bacellar

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A quarta revolução: autonomia energética

The 4th Revolution, a verdade conveniente:

Carlos Eduardo Bacellar

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