Apineia afetiva

“Contracorrente” (2009), obra do diretor peruano Javier Fuentes-Léon — debutante na seara de longas –, coprodução entre Peru (Elcalvo Films), Colômbia (Dynamo Producciones), França (La Cinéfacture) e Alemanha (Neue Cameo Film), trabalha na esfera do realismo mágico as contradições emocionais que fervilham em meio ao sincretismo e à força das tradições (convenções sociais e espirituais) e dilaceram as mais intransigentes negações do ser.

Roteirizado pelo próprio Javier, o filme, em língua espanhola, trata da dificuldade em, contra tudo e contra todos, abraçar uma definição de felicidade frente às imposições (castradoras) ditadas pela religião. Miguel (Cristian Mercado) é pescador de uma comunidade no litoral peruano. Casado com Mariela (Tatiana Astengo), aguarda a chegada do primeiro filho. Sem que ninguém saiba, oxigena com desejo, extravasado em parcelas homeopáticas, as labaredas de um romance secreto que seria rechaçado pelo conservadorismo local com Santiago (Manolo Cardona), pintor e fotógrafo que carrega de cores vivas a rotina sentimental burocrática do futuro pai de família. Proposta que nos remete à produção “Pecado da carne” (2009), de Haim Tabakman.

Impedido por seus próprios conflitos de consciência, Miguel recebe ajuda macabra do destino e encontra uma forma segura, mas incompleta, de manifestar seu amor por Santiago, sem ser insulado fora do próprio círculo social.

Com atuação segura dos atores Cristian Mercado, magistral na composição das pulsões polarizadas de seu personagem (joguete entre o crucifixo, o heterossexualismo imposto e os imperativos da pele e do coração), é o Ricardo Darín boliviano , enredo simples, mas pungente, e despojamento material que não se traduz em mediocridade, temos aqui algo maravilhoso. Uma história de amor que floresce na desolação da perda precoce. Sentimento represado que, catalisado pela dor, viceja e transforma o humano em algo melhor, livre do cerceamento das escrituras e dos preconceitos arbitrários de gente pequena de espírito. Libelo de lágrimas silencioso contra a discriminação (e pela aceitação do autêntico) que encanta e nos lembra que boas histórias não precisam (necessariamente) de pirotecnias estéticas.

Completam a atmosfera artesanal as lentes de Mauricio Vidal, que conferem simplicidade mística às filmagens que tiveram lugar em Cabo Blanco e El Alto, no Peru.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

2 Respostas para “Apineia afetiva

  1. Oriana

    Did you know Dynamo is an ENdeavor Colombia ENtrepreneur?? 🙂

    • No, Oriana, I didn`t. Did I say something stupid? Please, let me know. I`ll give another look on my words.
      I even didn`t remember what I wrote exactly. Do you speak Portuguese? Sorry about my lousy English.
      Talk to you soon (I hope).
      CEB

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