Arquivo do mês: maio 2011

The Tree of Life

Tudo que eu posso dizer do Terrence Malick depois de ter assistido à “A árvore da vida” é: he is such a believer. E definitivamente o júri do Festival de Cannes has chosen the path of grace.

O filme narra duas histórias em paralelo. A de uma típica família americana da década de 50 do século passado dividida entre a religião (a mãe) e a ordem (o pai), principalmente depois da morte de um dos filhos; e a trajetória de alma que vaga do filho mais velho, vivido na idade adulta por Sean Penn, que questiona o significado da vida, da existência e da fé a partir de suas carências infantis. O pano de fundo da (s) história (s) é a descoberta da natureza — em toda a sua forma  e existência divina — e a relação dos seres humanos com as distintas manifestações de (e da falta de) espiritualidade. Filme totalmente incrível, daqueles de nos fazer pensar por horas depois de deixar a sala de cinema. Eu fiquei completamente mareada, transtornada, por umas boas três horas.

Helena Sroulevich

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This must be the place

Foi um tapa na cara antissemita do Lars Von Trier. “This must be the place”, de Paolo Sorrentino, revela a história de Cheyenne, roqueiro caído no ostracismo dos seus 50+ anos, que busca dar sentido em sua vida ao vingar a história de seu pai, quase vitimado num campo de concentração nazista por um alemão de 90+ anos que hoje peregrina pelos EUA.

É bacana por tentar dar um novo curso à história, como “Bastardos Inglórios” do Quentin Tarantino, mas poderia evocar a relação judaísmo-espiritualidade de uma maneira mais latente como parte da busca do personagem de Sean Penn. Além disso, o nosso sensacional ator não precisava ser caracterizado como Edward Mãos de Tesoura. Francamente, Sorrentino…

Helena Sroulevich

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Drive

Estava com preconceito. Tudo me levava a crer que “Drive” seria puramente um filme de menino. Mas não é que eu gostei? Afinal, o que mais precisa um filme de ação senão carros, violência, boa estrutura narrativa e câmera agressiva? 🙂 Ah… precisa de um casinho de amor, vivido de maneira competente entre a Carey Mulligan e o (the best) Ryan Gosling, para que as meninas se entretenham no cinema enquanto seus namorados se deliciam com cada jato de sangue que parece jorrar tela afora.

Helena Sroulevich

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Once upon a time in Anatolia

Já era fã de “Three Monkeys”. E confesso que depois que conheci o turco gente boa Nuri Ceylan, torci ainda mais para que “Once upon a time in Anatolia”, o novo filme dele exibido em Cannes, rendesse frutos na premiação. E não é que deu certo?

Mais do que torcida, merecimento. Daqueles filmes que prendem até o final. Mas que se desapega do final, do resultado. O fundamental é o caminho percorrido pela narrativa que envolve suspeitos, hipóteses, pistas e crime. É tudo meio abacadabra mesmo, quase como se estivéssemos jogando “Scotland Yard” ou adentrado alguns dos mistérios do detetive belga Hercule Poirot dos livros da Agatha Christie.

E mais: tudo isso reforçado pela direção precisa, que revela a dimensão humana e moral das pessoas envolvidas em um crime, e pela direção de fotografia absolutamente sensacional — luz de arrepiar e fazer chorar as retinas cinéfilas. “Era uma vez em Anatolia”…

Helena Sroulevich

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La source des femmes

Foi daqueles filmes que me deixou pensando… Não pelo sono (inerente ao horário, pois assisti às 8h30), mas por ter um viés essencialmente feminino (e não feminista como muitos podem acreditar). Também aborda questões como as das reservas hídricas, cruciais ao entendimento geopolítico/religioso do Oriente Médio, e tão em voga em debates em torno das mudanças climáticas.

O novo filme de Radu Mihaileanu está centrado na greve sexual organizada pelas mulheres com o objetivo de mobilizar seus homens a construírem um sistema hidráulico e, mais do que isso, dividirem com elas o trabalho pesado de carregar caixas d’água de uma fonte distante do vilarejo onde residem para suas casas. Estabelecendo a analogia de que as mulheres precisam do amor de seus homens tanto quando a vida na Terra precisa de água, o filme revisita o Alcorão revelando amor e igualdade de gêneros naqueles escritos e é um hino na busca pela compreensão entre homens e mulheres, também necessária à promoção da paz no Oriente Médio.

Helena Sroulevich

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Brinquedo assassino

Tudo bem, tudo bem… Jodie Foster não é nenhuma Sofia Coppola, mas acredito que as qualidades da moça — prenunciadas com “Taxi driver” (1976) — também se estendem, ainda que timidamente, ao seu trabalho (incipiente) como diretora. Ainda formatando sua nova maneira de lidar com a linguagem cinematográfica, ela só precisa de incentivo, projetos (= verba) e paciência. Nós, fãs, não podemos projetar na atriz-diretora, logo de imediato, as expectativas luminosas que ofuscam o comum quando ela atua, sob pena de desorientá-la ou, o que é pior, desestimulá-la.

Na realização de seu terceiro longa-metragem, Jodie faz uma aposta ousada amparada no talento de Mel Gibson ao explorar o tema depressão de forma original (mas que beira o constrangimento, do público). Uma bênção (ou, dependendo do ponto de vista, uma maldição) na trajetória descendente meteórica de Gibson, a diretora-atriz, na condução de “Um novo despertar” (“The Beaver”, no original), espera livrá-lo da mediocridade e do comodismo da mesma forma que Werner Herzog fez com Nicolas Cage em “Vício frenético” (2009).

No drama, Gibson interpreta Walter Black, um executivo que vê sua vida desmoronar quando os alicerces de seu equilíbrio emocional são erodidos pela depressão. Sem enxergar sentido para sua existência esvaziada pela falta de comunicação com a família, que torna os limites entre amor, ódio e indiferença difusos —, ele é salvo por uma cisão psicológica ao tentar cometer suicídio. A partir desse momento, ele, ou melhor, alguma parte represada de seu ser, passa a se comunicar por meio de um fantoche de castor. A mente opera de formas estranhas quando o alerta vermelho do instinto de sobrevivênca é acionado.

Com a ajuda de seu Muppet de plantão, ele começa a reconstruir sua vida profissional, seu casamento e seu relacionamento com os filhos. O problema é que ninguém está disposto a aturar um boneco dando as ordens por muito tempo, e o que pode ser a homeopatia para o (des)equilíbrio e a misantropia de Black, pode ser interpretado como loucura para a maioria de nós. A sublimação de seus problemas psicológicos via castor, o que para muitos era algo paliativo, se torna a inteligência (e o coração) artificial de Black. Pior: The Beaver se torna o Chucky de Black.

O roteiro de Kyle Killen coloca Gibson na corda bamba tensionada (ou não) pela leniência da plateia (que, no valor do ingresso, não parece ter incluído rede de segurança para evitar que a queda do ator seja fatal), que se sente incomodada com cenas tão inquietantes como as dos filmes de John Waters. A diferença é que Waters é um iconoclasta declarado, e sabemos de antemão o que iremos ter de digerir. O filme de Jodie Foster, ao contrário, coloca o absurdo no cerne de uma “perfeita” família de classe média americana (não em algum contexto bizarro), mas sem o sarcasmo acusatório de Todd Solondz (que trabalha utilizando neuroses, muitas vezes cômicas e caricatas, como metáforas), mas sim como uma disfunção, uma patologia que deve ser mascarada, e não vomitada no colo do espectador. A atuação de Gibson se torna uma ameaça para a nossa postura preconceituosa, conservadora e hipócrita, que a rechaça como lepra. O constrangimento deriva do real, da proximidade perturbadora.

Ninguém que se lembra de “Mad Max” e “Máquina Mortífera” quer ver Gibson às voltas com um boneco, imerso em autocomiseração, negativismo e baixa autoestima sentimentos com os quais ele já flertou em “O fim da escuridão” (2010), mas sem a mesma intensidade que reverbera forte no verossímil.

Jodie Foster sempre com aquela sua interpretação estou em constante agonia aguda, por isso mesmo excelente — se encaixa perfeitamente no papel de mulher de meia-idade disposta a tudo pelo homem que ama, inclusive, contra seu juízo, se humilhar travando conversas com o castor de pelúcia. Porter (Anton Yelchin), filho mais velho de Black, exala contradições ao procurar se afastar dos paradigmas comportamentais do pai. Paradoxalmente, esses mesmos paradigmas fazem parte de quem Porter realmente é. Por meio da escrita, o rapaz deixa um pouco de si para os outros, diluindo-se no coletivo e sem conseguir afirmar-se como sujeito — apenas uma sombra que foge da interseção com a escuridão do pai. Só quando Porter encontra o maravilhoso em alguém que se deprecia, e esse alguém enxerga nele, que se deprecia, algo maravilhoso, as forças se anulam e o recomeço é possível.

A ferida que Jodie Foster teima em não deixar cicatrizar infecciona devido à ausência do verbo num ambiente egoísta que exacerba individualidades (idiossincrasias) e desmorona a instituição família no silêncio condenável. Walter Back é alguém que suprimiu o melhor de si e, quando lhe faltou a família por causa dessa mesma supressão, deixou de existir.

Constrangedor, depressivo, absurdo, incômodo, nonsense, antiparadigmático… O filme é tudo isso e mais, graças à atuação de Gibson, à beira do poço da loucura, questionando-se sobre os significados de sua depreciação. Por isso mesmo maravilhoso.

Carlos Eduardo Bacellar 

p.s. Estou salvando sua pele, Jodie Foster.

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La Piel que Habito

Não adianta. Pedro Almodóvar é o rei da transgressão. E eu poderia parar por aqui.

Fã de carteirinha do rapaz (quem me conhece, sabe…), tenho aquela predisposição para amar tudo que ele faz. Mas não é gratuito. Juro. O cara ousa completamente. Em tudo. Em “La Piel que Habito”, parte da mostra competitiva aqui de Cannes, conta a história de amor, “re-amor”, ódio, vingança e sangue — muito sangue — que envolve a troca de sexo (i.e. vaginoscopia) de Vicente/Vera (Jan Cornet/Elena Anaya) pelo cirurgião plástico Robert (Antonio Banderas, DEMAIS!). Nas entrelinhas, Almodóvar ainda critica os métodos inescrupulosos e politicamente incorretos, como o uso de transgênicos, que “doutores” usam para operar pacientes.

Este é daqueles filmes que TÊM QUE SER vistos. Ponto final. Almodóvar no alto da maestria (aliás, que roteiro!!). Meu pai saudoso, Nei Sroulevich, adoraria! É o tipo de filme dele. Aliás, as comuns tiradas brasileirinhas, também parte deste filme, que revelam um afeto especial de Almodóvar pelo nosso país, não devem ser gratuitas. Almodóvar ganhou o Brasil e a América Latina com “O Matador” (1986) e “A Lei do Desejo” (1987) no antigo FestRio. E quem dirigia o Festival era o papai. Ou seja, o mundo dá voltas, mas sempre cai no mesmo ponto. 😀

Helena Sroulevich

P.S. Minha ótima professora de redação Raquel Falabella diria para eu jamais começar um texto com “Não”. Mas NÃO teve jeito. Porque, SIM, Almodóvar é o rei da transgressão.

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