Brinquedo assassino

Tudo bem, tudo bem… Jodie Foster não é nenhuma Sofia Coppola, mas acredito que as qualidades da moça — prenunciadas com “Taxi driver” (1976) — também se estendem, ainda que timidamente, ao seu trabalho (incipiente) como diretora. Ainda formatando sua nova maneira de lidar com a linguagem cinematográfica, ela só precisa de incentivo, projetos (= verba) e paciência. Nós, fãs, não podemos projetar na atriz-diretora, logo de imediato, as expectativas luminosas que ofuscam o comum quando ela atua, sob pena de desorientá-la ou, o que é pior, desestimulá-la.

Na realização de seu terceiro longa-metragem, Jodie faz uma aposta ousada amparada no talento de Mel Gibson ao explorar o tema depressão de forma original (mas que beira o constrangimento, do público). Uma bênção (ou, dependendo do ponto de vista, uma maldição) na trajetória descendente meteórica de Gibson, a diretora-atriz, na condução de “Um novo despertar” (“The Beaver”, no original), espera livrá-lo da mediocridade e do comodismo da mesma forma que Werner Herzog fez com Nicolas Cage em “Vício frenético” (2009).

No drama, Gibson interpreta Walter Black, um executivo que vê sua vida desmoronar quando os alicerces de seu equilíbrio emocional são erodidos pela depressão. Sem enxergar sentido para sua existência esvaziada pela falta de comunicação com a família, que torna os limites entre amor, ódio e indiferença difusos —, ele é salvo por uma cisão psicológica ao tentar cometer suicídio. A partir desse momento, ele, ou melhor, alguma parte represada de seu ser, passa a se comunicar por meio de um fantoche de castor. A mente opera de formas estranhas quando o alerta vermelho do instinto de sobrevivênca é acionado.

Com a ajuda de seu Muppet de plantão, ele começa a reconstruir sua vida profissional, seu casamento e seu relacionamento com os filhos. O problema é que ninguém está disposto a aturar um boneco dando as ordens por muito tempo, e o que pode ser a homeopatia para o (des)equilíbrio e a misantropia de Black, pode ser interpretado como loucura para a maioria de nós. A sublimação de seus problemas psicológicos via castor, o que para muitos era algo paliativo, se torna a inteligência (e o coração) artificial de Black. Pior: The Beaver se torna o Chucky de Black.

O roteiro de Kyle Killen coloca Gibson na corda bamba tensionada (ou não) pela leniência da plateia (que, no valor do ingresso, não parece ter incluído rede de segurança para evitar que a queda do ator seja fatal), que se sente incomodada com cenas tão inquietantes como as dos filmes de John Waters. A diferença é que Waters é um iconoclasta declarado, e sabemos de antemão o que iremos ter de digerir. O filme de Jodie Foster, ao contrário, coloca o absurdo no cerne de uma “perfeita” família de classe média americana (não em algum contexto bizarro), mas sem o sarcasmo acusatório de Todd Solondz (que trabalha utilizando neuroses, muitas vezes cômicas e caricatas, como metáforas), mas sim como uma disfunção, uma patologia que deve ser mascarada, e não vomitada no colo do espectador. A atuação de Gibson se torna uma ameaça para a nossa postura preconceituosa, conservadora e hipócrita, que a rechaça como lepra. O constrangimento deriva do real, da proximidade perturbadora.

Ninguém que se lembra de “Mad Max” e “Máquina Mortífera” quer ver Gibson às voltas com um boneco, imerso em autocomiseração, negativismo e baixa autoestima sentimentos com os quais ele já flertou em “O fim da escuridão” (2010), mas sem a mesma intensidade que reverbera forte no verossímil.

Jodie Foster sempre com aquela sua interpretação estou em constante agonia aguda, por isso mesmo excelente — se encaixa perfeitamente no papel de mulher de meia-idade disposta a tudo pelo homem que ama, inclusive, contra seu juízo, se humilhar travando conversas com o castor de pelúcia. Porter (Anton Yelchin), filho mais velho de Black, exala contradições ao procurar se afastar dos paradigmas comportamentais do pai. Paradoxalmente, esses mesmos paradigmas fazem parte de quem Porter realmente é. Por meio da escrita, o rapaz deixa um pouco de si para os outros, diluindo-se no coletivo e sem conseguir afirmar-se como sujeito — apenas uma sombra que foge da interseção com a escuridão do pai. Só quando Porter encontra o maravilhoso em alguém que se deprecia, e esse alguém enxerga nele, que se deprecia, algo maravilhoso, as forças se anulam e o recomeço é possível.

A ferida que Jodie Foster teima em não deixar cicatrizar infecciona devido à ausência do verbo num ambiente egoísta que exacerba individualidades (idiossincrasias) e desmorona a instituição família no silêncio condenável. Walter Back é alguém que suprimiu o melhor de si e, quando lhe faltou a família por causa dessa mesma supressão, deixou de existir.

Constrangedor, depressivo, absurdo, incômodo, nonsense, antiparadigmático… O filme é tudo isso e mais, graças à atuação de Gibson, à beira do poço da loucura, questionando-se sobre os significados de sua depreciação. Por isso mesmo maravilhoso.

Carlos Eduardo Bacellar 

p.s. Estou salvando sua pele, Jodie Foster.

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