Forrest Gump da desilusão

Para a amiga @hsroulevich, pelos puxões de orelha (chamados à razão) necessários nos momentos de destempero

Perceber as dimensões paradoxais que tornam intercambiáveis as fronteiras entre amor e ódio e os subprodutos do desgaste psicológico gerados com a aproximação e reaproximação de desejos e expectativas antípodas — pode facilitar o entendimento de como alguém é capaz de desistir da pessoa que ama (e até de si próprio) como gesto de altruísmo máximo.

O desapego, que pode ser caracterizado como um evento traumático ao ocorrer inopinadamente, de forma violenta , pode cobrar um preço mais alto do que a saudade do outro, o medo da solidão, o vazio existencial, a perda de referências, a falta de vontade de seguir em frente. A perda da memória seria o ônus de uma cisão afetiva brusca ou um mecanismo de sobrevivência derivado desse mesmo rompimento, que permitiria ao indivíduo um recomeço (ou simplesmente encontrar um modo de continuar)?

Essa perturbação psicológica é o fim de um lado, mas ao mesmo tempo o início por outro, de “Paris, Texas”, obra-prima do diretor alemão Wim Wenders, autor dos magistrais “Asas do desejo” (1987) — o verdadeiro “Cidade dos anjos” — e “Medo e obsessão” (2004).

Neste drama, orçado em £1,162,000 — que rendeu ao realizador, além da Palma de Ouro, os prêmios Fipresci (láurea concedida pela Federação Internacional de Críticos de Cinema, colegiado de críticos e jornalistas especializados) e do Júri Ecumênico no Festival de Cannes de 1984 , a desolação da alma e a geográfica são conjugadas logo nos minutos iniciais, quando as câmeras de Wenders acompanham (causando enorme estranhamento) a bizarra peregrinação de um homem pelo deserto, aparentemente rumando para a civilização mais próxima, diria o bom-senso.

Logo descobrimos que se trata de Travis Henderson (Harry Dean Stanton, estupendo), pai de família e irmão querido desaparecido há quatro anos. E parece que tudo que ele não quer é ser encontrado. Acionado pelo médico de uma cidade situada perto de Deus me livre, depois de onde Judas perdeu as botas, perdida em algum ponto do deserto texano, Walt (Dean Stockwell), irmão de Travis, viaja para encontrá-lo e trazê-lo novamente para perto da família, teoricamente o seu lugar (pelo menos o lugar a que Walt acredita que ele pertence). O que ele não sabia é que seria uma missão de resgate, do corpo e da mente, e exigiria mais do que o (simples) gasto extraordinário de algumas centenas de dólares.

Encontrando Travis, Walt descobre que ele perdeu a memória, ou parece que teve seu histórico social e emocional bagunçado por algum trauma. No decorrer da narrativa, o diretor esculpe na encenação a desconstrução do passado de Travis, desvelando os motivos que o levaram à misantropia.

Casado com uma mulher bem mais nova, Jane, vivida pela afroditiana Nastassja Kinski (“One night stand”, 1997), pai de Hunter, menino agora criado pela família de Walt, após ser abandonado pela mãe, Travis tinha tudo para quem o via de fora. Quem  olhasse mais atentamente perceberia que o amor, naquela relação, agia como um veneno: na dosagem correta poderia salvar; se fosse administrado fora da prescrição recomendada pelo equilíbrio emocional, poderia ser devastador.

Atormentado pelo ciúme, aditivado pela possessividade, Travis desestabiliza os alicerces de uma relação que começou intensa, mas foi esfacelada com a mesma força pelo descompasso de vontades (ou ausência delas). Jane, imatura e despreparada para os desafios da vida a dois, mingua frente aos anseios e ao comportamento agressivo de Travis. Polarizados pelas inadequações (idiossincráticas) do gostar, os dois sentem a história de amor desandar para um roteiro de terror, com Hunter, rebento amado/odiado, o filho eterno tezziano do casal, na beira do precipício do descontrole dos pais.

Despreparado para rejeição e perda, Travis parte sem destino, almejando encontrar-se novamente consigo mesmo em algum ponto futuro, livre da dor. Só que a dor não é uma companheira de viagem que ele pode despistar com a distância ou confundir com a prestidigitação de seus sentimentos, mas um parasita que o acompanha e devasta seu cerne.

Resgatado pelo irmão de seu calvário, ou da anestesia do espírito, Travis reencontra o filho e, revitalizado, junto com Hunter, parte numa nova jornada em busca de Jane. Lúcido novamente, Travis precisará de todo seu controle para desenredar Jane da espiral de decadência que a levou para trabalhar num zoológico humano, um peep show que comercializa corpos em detrimento da dignidade. Travis e Jane, frente a frente numa cabine de pecados enrustidos, protagonizam um dos melhores diálogos (ou seria um monólogo?) da história do cinema, rivalizando, em profundidade e categoria dramática, com a interação verbal de Christopher Walken e Dennis Hopper em “True romance” (Tony Scott, 1993).

 

Este road movie dentro de um road movie calcado no expresso (verbo) e no impresso (gravado com tinta invisível em algum lugar entre o coração e o estômago) amplificado em sua melodia triste pela fotografia de Robby Müller, responsável pela formatação da luz em “Ghost dog: the way of the samurai” (Jim Jarmusch, 1999) e “Dancer in the dark” (Lars von Trier, 2000), e pela trilha sonora aclimatadora de Ry Cooder — traduz a perda inevitável (e necessária) para a aceitação das incongruências do outro e a valorização do recomeço, mesmo após toda destruição provocada pelas atitudes intempestivas.

O título do filme — que remete a Paris, no Texas, e não à cidade francesa — reflete a confusão de identidades, a quebra de expectativas, a contradição de sujeitos, a desilusão com o real, mas, também, nos mostra que a beleza pode surgir dos lugares mais improváveis. Uma nova Dubai depende só da vontade e da riqueza interna de quem está envolvido.

Na produção roteirizada por L.M. Kit Carson e Sam Shepard, Wim Wenders não fala (somente) de identidade, mas da possibilidade de construir novamente a partir da fragmentação excruciante. No centro, um núcleo familiar imperfeito (como todos os outros): unidade indivisível (e fundamental) do ser que precisa encontrar seus caminhos, mesmo que (outro oxímoro…) divergentes.

Carlos Eduardo Bacellar

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2 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

2 Respostas para “Forrest Gump da desilusão

  1. Helena

    Pra mim, obra primíssima. Amo este filme. E tenho que escrever sobre Pina. Acho que neste fim de semana. Obrigada pelo post em minha homenagem. É sempre legal se sentir querida e estimada. Beijos, meu amigo. Domingo é dia de caminhada! 😉

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