Arquivo do mês: agosto 2011

Sonhos escamoteados

Para @hsroulevich. Convalescemos juntos.

O desfazimento dos frágeis laços familiares, atados pelo frouxo nó da conveniência enfraquecido pela ausência do amor verdadeiro, não cultivado em anos de rotina distanciadora , e a revelação de conflitos de personagens burgueses que se debatem, muitas vezes em silêncio, na inércia do vácuo asfixiador de sonhos (tomados por ilusões) e vontades são os focos do diretor Luca Guadagnino em “Io sono l’amore” (no original).

Emma (Tilda Swinton), há mais de duas décadas, trocou sua Rússia natal pela Itália para se unir à família Recchi. Casada com Tancredi (Pippo Delbono), teve três filhos: Edoardo (Flavio Parenti), Elisabetta (Alba Rohrwacher) e Gianluca (Mattia Zaccaro). Atarefada com toda sorte de rituais aristocráticos dos Recchi, que em determinados momentos tornam a exibição do filme arrastada e enfadonha, Emma encontra na liturgia do luxo uma forma de dar algum sentido ao seu dia a dia oco e alienado e abstrair aquilo de que realmente necessita.

As rupturas no seio da família Recchi começam a ocorrer com sismos de baixa intensidade, mas que pressagiam tremores mais intensos. Emma descobre que sua filha é homossexual e conta com a conivência de seu primogênito. Edoardo é precocemente encarregado dos negócios da família, criando um clima tenso de rivalidade entre ele e o pai. Além disso, interessado em expandir seu portfólio empresarial, Edoardo resolve ajudar seu grande amigo Antonio (Edoardo Gabbriellini), um cozinheiro talentoso com quem mantém relação ambígua, a abrir o próprio restaurante.

Encantada pelos dotes culinários do rapaz, Emma, num momento “Ratatouille” (2007), é fisgada pelo estômago e logo inicia um romance proibido com Antonio. Mesmo em sua (patética) crise burguesa pior que essa só a da personagem de Julia Roberts em “Comer, rezar, amar” , Emma jamais abandonaria a família para assumir o amor pelo cozinheiro. Ah!, chegam aos meus ouvidos ecos distorcidos de “Mademoiselle Chambon” (2009) e a angústia de abandonar o protocolar.

Envolvida na liturgia da ostentação e da tradição há anos, ela conjuga a fome de seu corpo com as responsabilidades como esposa e mãe composto heterogêneo altamente instável. Só um evento traumático seria capaz de provocar a separação. E ele acontece. Edoardo descobre o romance clandestino da mãe e aflora todas as contradições de seu sentimento dúbio por Antonio numa explosão de raiva: tudo bem a irmã ser lésbica, mas a mãe não pode se apaixonar por um homem mais novo, de outra classe social, principalmente se esse homem mantém com Edoardo uma relação mais calorosa. Bem diferente da frieza que Edoardo dispensa à sua namorada. O ciúme velado, sublimado por Edoardo na frustração com problemas profissionais e no repúdio ao caso extraconjugal de Emma, envenena as entrelinhas da tragédia.

Emma, espetáculo de Tilda, é uma mulher em conflito. Se a vida dela não estivesse estagnada numa empolação sem nenhum significado para seus imperativos como mulher circunstância traduzida nas práticas de riqueza que os Recchi fomentam, encenações de banquetes e festas muitas vezes dispensáveis para a ação dramática —, possivelmente a ruptura não seria tão severa. Os rituais burgueses eram ao mesmo tempo refúgios (justificativas para sua vidinha insípida) e purgatórios (o quero algo mais latente que a incomodava por dentro).

Sem ter mais nada a perder, só o que resta a Emma é se entregar ao amor, caminho de menor resistência para ela mesma. Amar, comer, amar…

Carlos Eduardo Bacellar

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Shrek albino do século XXI

De costela em costela, o “açogueiro” Serge (Gérard Depardieu) vai ganhando a sua vida  até o momento do abate: a aposentadoria. Isto se dela tiver dignidade, uma vez que viveu boa parte do tempo na informalidade.

E é pensando no futuro, no melhor estilo “Easy Rider”, que Serge monta a “Mammuth” à busca de comprovantes de antigos vínculos empregatícios.  Nesta viagem, o ogro desajeitado esquisito cheio de charme (!), revisita a sua história — nem muito grande, nem muita vasta –, confronta-se com a velhice e a sexualidade na terceira idade e termina querendo mesmo é vencer a batalha do amor. Típico ogro.

Helena Sroulevich

P.S. O filme vale ser visto nem que seja pelo Gérard Depardieu. Visceral, terno e grotesco, ele é o Shrek do século XXI, capaz de deixar uma fila de corações abandonados no espeto. (olha o meu indo pra brasa aí…)

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Transar x Gostar

É tão fácil vender “Amor e outras drogas” (2010) quanto Viagra. Anne Hathaway, na pele da personagem Maggie, com os seios à mostra praticamente o tempo todo (um viva para os roteiristas e a direção!), encanta o promíscuo Jamie, interpretado por Jake Gyllenhaal, que resolve largar a vida bandida por ela.

Decantando toda água com açúcar da história eu-quero-você-mesmo-quando-você-desistiu-de-viver-e-finge-que-não-me-quer-porque-acha-que-sabe-o-que-é-melhor-para-mim, os personagens de Anne e Jake nos fazem refletir sobre o amor.

Eles percebem, quase tarde demais, que joguinhos e máscaras vão afastá-los um do outro — justamente no tão temido momento em que tesão e sentimento convergem, formando um elo quase inquebrantável, muitas vezes assustador. E Jamie, purgando-se da devassidão com o sorriso (e todo resto) de Maggie, descobre que não quer mais transar com todas as mulheres do mundo, só com ela.

Especialista na arte da conquista, como Will Smith em “Hitch”(2005), o garanhão Jamie se perde completamente por Maggie quando o sexo fica em segundo plano, e ele entende a diferença entre transar e gostar.

Palavras… Não significam nada quando Anne Hathaway tira a roupa. Só aluguei mesmo porque me garantiram as partes dos seios de fora. Ei! Ninguém é de ferro!

Carlos Eduardo Bacellar

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Bússola moral de Serpico contra o sistema hobbesiano

Pedro Andrade, integrante do time Manhattan Connection e, segundo o jornalista Lucas Mendes, o melhor guia turístico de Nova Iorque, deu a dica no último programa e eu resolvi conferir.

“A informante” (2010), produção teuto-canadense que marca a estreia de Larysa Kondracki na condução de longas, com Rachel Weisz abrindo os créditos, acaba de ser lançada em DVD no país.

Baseada no livro “The Whistleblower: Sex Trafficking, Military Contractors, and One Woman’s Fight for Justice”, escrito (e vivido) por Kathryn Bolkovac, mas que também leva a assinatura de Cari Lynn, a história transitando entre o documentário e a ficção trata do desvelamento do tráfico de pessoas na Bósnia pós-guerra (o conflito armado ocorreu entre 1992 e 1995). Crime fomentado pelas próprias forças internacionais que deveriam garantir a segurança.

Bolkovac, interpretada por uma inspirada Rachel Weisz, mãe divorciada e policial em Nebrasca (USA), lutando para conseguir conciliar sua profissão com os imperativos (materiais e afetivos) da criação da filha, recebe proposta irrecusável para trabalhar nas forças de paz que tentam estabilizar os ânimos da região nos Balcãs fragmentada por conflitos. Lá a policial se depara com uma rede de tráfico de pessoas que enriquece e se retroalimenta prostituindo mulheres. Sequestro, cárcere privado, estupro, violência, intimidação psicológica, privações. Bolkovac é testemunha de uma lista extensa de absurdos contra o ser humano.

Sufocada pela indignação, que comprime seu diafragma entre o caminho ético suicida e o silêncio corrosivo, Bolkovac busca a ajuda de Madeleine Rees (Vanessa Redgrave), uma das autoridades da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Laura Leviani (Monica Bellucci), responsável por um programa de repatriação, e Peter Ward (David Strathairn), espécie de agente da corregedoria do governo. Rees funciona mais como uma mentora que observa a ação a distância, intervindo, quando necessário (e conveniente), no campo político-diplomático. Laura acorrenta suas mãos nos protocolos da burocracia e não consegue agir com a urgência necessária para evitar o pior. Ward é o Curinga do baralho, podendo assumir, dependendo das circunstâncias, qualquer valor.

Amparada em frágeis alianças, Kathryn se aproxima de Serpico e Capitão Nascimento na batalha inglória contra o sistema hobbesiano (“O homem lobo do homem”). Durante seu trabalho investigativo, ela descobre as ambiguidades da palavra inimigo. Em dúvida sobre como reagir ao mal em cujas fileiras ela perfila, opta por sacrificar sua carreira profissional para sempre estigmatizada com o “A”, de alcaguete expondo a situação ao mundo: o correto autodestrutivo prevalece sobre o apropriado covarde e cômodo. Em “The whistleblower” (no original), Rachel Weisz transparece toda angústia de uma mulher dividida entre o corporativismo impregnado de desumanidade, que enriquece por meio das chagas alheias, e o dever moral, que desconhece distintivos e fronteiras. O filme pode não ter mudado o mundo, mas pode mudar você. Já é um começo promissor. Excelente!

Carlos Eduardo Bacellar

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Uma câmera na mão, zumbis na cabeça, Elle Fanning no coração e um aracnoET à solta

Para a amiga Daniela Bertolucci, por não ter me denunciado para a Justiça. Quem sabe daqui a alguns anos?

Super 8” é um Atari embrulhado na caixa de um PS3. Nem por isso nos sentimos frustrados ou nos divertimos menos com a surpresa. Em seu segundo terceiro desafio como realizador de longas, J. J. Abrams declara sua paixão pelo cinema com cinema elevado ao quadrado. E não decepciona os fãs de seus trabalhos anteriores com a fórmula de sucesso comercial que trabalha variáveis como entretenimento puro e simples, cultura pop, questionamentos existenciais e mistérios, incrementada pela incógnita derivada das relações humanas. O filme é produzido pelo ídolo de J. J., Steven Spielberg, e leva o selo de qualidade da Amblin Entertainment.

Abrams tinha 13 anos em 1979, ano em que se passa sua ficção. Dessa forma, ele exercitou uma nostalgia fantasiosa dirigindo o talentoso elenco de atores adolescentes, cuja estrela maior é Elle Fanning. Ao mesmo tempo, prestou homenagem à arte por que se enredou e que se tornou seu ofício.

Na aventura, que evoca “Os Goonies” (1985), “Contatos imediatos de terceiro grau” (1977) e “ET: O Extraterrestre” (1982) — todo mundo já disse isso, que caído… –, um grupo de amigos, durante a produção de um filme caseiro de zumbis (registrado no formato Super 8, coqueluche nas décadas de 1960 e 1970), testemunha o descarrilamento de um trem militar. A composição estava transferindo material ultrassecreto de uma sessão da Área 51, que estava sendo desativada. As cenas do acidente impressionam: são do mesmo gabarito das colisões de veículo na highway to hell digital de “Matrix Reloaded” (2003). Em meio à destruição, um aracnoET escapa de um dos vagões e inicia o que parece configurar uma carnificina à moda “Alien: o oitavo passageiro” (1979).

A partir de então, nossos heróis teens, liderados pelo projeto de Dawson Leery Charles (Riley Griffiths), o aspirante a Rick Baker Joe Lamb (Joel Courtney) — órfão de mãe e filho de um policial atormentado pela viuvez — e a bonequinha de porcelana com cheiro de tutti frutti que atende por Alice Dainard (Elle Fanning, aquela garota pela qual você certamente cairia de quatro no ensino fundamental) — filha de um alcoólatra assombrado pelos erros do passado —, além de gerenciar os problemas e frustrações da adolescência, precisam ajudar o extraterrestre a retornar ao seu planeta, evitando que a incompreensão dos adultos provoque homicídios de primeiro grau em massa.

Utilizando a tecnologia para ressaltar o artesanal, J. J. Abrams permite que o melhor de seu filme os garotos e toda construção fílmica que os cerca brilhe. Ao explorar a metalinguagem em sua obra, registrada nos “negativos” e “positivos” de suas experiências no passado, Abrams sublima-se com o seu “Quero ser grande” (1998) ao avesso.

O que decepciona um pouco é todo enredo em torno do alien, que, (paradoxalmente) afastando-se da história dos meninos com um background rocambolesco inclusive devendo direitos autorais a “Independence Day” (1996) pelo plágio das habilidades telepatas , torna esse ramo da trama artificial, pouco crível.

Felizmente essa mácula não eclipsa em nada a narrativa dos protagonistas humanos que começam a entrar na puberdade. Eles preenchem toda ação captada pelas câmeras, mesmo em segundo plano. J. J. Abrams sabe como ninguém conjugar inadequação, dúvidas, indecisões, medos, inseguranças, traumas, descobertas, sonhos, amores… Peças do quebra-cabeça que se chama crescer. Quem gosta de cinema não tem como não gostar de “Super 8”.

 Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Elle Fanning, 13, está protegida por mais alguns anos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Portanto, afirmar que estou gamado nela, neste momento, se enquadra como pedofilia. Tenho paciência, posso esperar…

p.s.2 Recomendo o texto da amiga Patrícia Rebello, postado no blog Espírito da Colmeia. Ela também adorou “Super 8” e extravasou num post apaixonado. Ela nunca prestigia o Doidos, mesmo assim vou dar uma moral.

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Alegria que leva à… dúvida…

Liga da Justiça de “A Alegria”

Esse negócio de falar sobre filmes dá um trabalho… Meryl Streep entenderia meu estado de espírito após a cabine de “A Alegria”, filme que integra a trilogia Coração de Fogo — triunvirato experimental de filmes sobre juventude, alegria, raiva e utopia no começo do século XXI — dos diretores Felipe Bragança e Marina Meliande.

Não parei de pensar sobre o filme do Felipe e da Marina desde então, o que é algo positivo. Segundo as instruções de segurança elaboradas pelos dois, trata-se de uma narrativa utópica acerca da juventude em grandes centros urbanos.

Antes de omitir qualquer juízo de valor estético (se é que em algum momento serei capaz disso), preciso desopilar. Neste momento, é pedir muito de mim. Depois de “A árvore da vida” e da (pseudo)alegria fantástica e escapista que a dupla de diretores imprime na tela, só mesmo “Lanterna Verde” para evitar que eu pense mais do que deveria e cause um curto-circuito nos meus neurônios.

Apesar das angústias geradas por encenações crípticas que minha sensibilidade limitada não consegue depreender, estou sempre prestigiando o cinema nacional. Seja ele novíssimo, velhíssimo, gostosíssimo, charmosíssimo etc.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. SPOILER!!! Naquelas cenas finais… Achei que a Luiza (Tainá Medina), depois de brincar de Lince Negra pelo seu prédio, ia se transformar numa espécie de Mulher-Hulk rosa e sair quebrando tudo…

p.s.2 Não fiz nenhum comentário mais ousado a respeito da Tainá pois não sei se ela é maior de idade… Mas que graça!


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BIG BANG


Rendo-me,  estranha.  Resisto ao juízo final, Helena/ Carlinhos Mattos/ Janot.  Não sei se gostei, sabe? Nada sei.

Percebo sim – percebo? -, mais ou menos, espectadores que se vão em compasso Malick. Talvez esbarrem em mim…  e me previno ao lado do baleiro. Entrego-me à espera da visão de meus filhos na porta do Leblon.

A visão de meus filhos, é o que basta.  E digo: Não sei se vi um filme ou uma prece, se foi poesia ou maravilha. Não é roteiro, é um argumento; não é história, é um tema; não é narrativa, é fenômeno. Aquilo não é a província,  é uma passagem.  Um fenômeno sem data, sem hora e sem cortes. Os narradores não estão e a câmera valsa, infinita. A representação não é:  Não há personagens, pois eles  são criaturas (divinas). “A Árvore da Vida” me lança nos códigos além dos sentidos.

Outra dimensão, a da experiência artística. Remeto-me aos estudos de teoria da história e recordo-me de um pensamento meu ao conhecer a fenomenologia de Husserl:  Isto é cinema, isso aí. E agora não sei como foi possível ali traduzir filosofia, teologia, natureza e graça;  como foi atravessar o olhar pelos cantos e  pelas bordas, jogar–nos ao fundo da tela e chegar à criação. Rendo-me sim – agora sem restrição – à ousadia desse artista em plena indústria cultural, que desconhece receitas e parâmetros, e também todos os gostos. Entendo o senhor que, atrás de mim, ao findar o filme, desabafou revoltado: esse crítico é louco… É.

A familia de Malick é a minha, a sua, a nossa.  É – de fato ? – o ser família. A propósito: as fronteiras entre casas e jardins não existem, a despeito da tentativa do pai Pitt. Tampouco há fronteira entre o dentro e o fora – de casa e dos seres -, é quase o mesmo plano, sem cortes. Poder e Perda, Abismo e Luz, Ódio e Amor, as energias fundadoras ali estão em família, como arquétipo da criação do mundo. Totems e tabus, as grandes contradições como matéria de refundação:  a repressão pode ser amor, generosidade pode ser complacência, Ciência é Fé.  Forças contrárias caminham embaladas ao mistério.  Ao começo de tudo.  Malick nos convoca à essência, enfim descrédulo da “realidade”. Inicia-nos na regressão e na  transcendência, ensina-me a recomeçar.  Rendo-me, enfim, à visão de meus fillhos. BIG BANG. Chama.

Claudia Furiati

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Cinema na moda: o karatê Jedi de Sr. Miyoda

Estampa de uma das camisetas da @Camiseteria, loja virtual da qual sou fã. A arte — mistura espirituosa da força Jedi de “Guerra nas Estrelas” com a arte marcial oriental de “Karatê Kid” — é de autoria do designer Fernando Degrossi. Meninas, não se preocupem… O modelito, batizado de ‘Peguei!’, também vem na versão feminina. E não adianta fazer charme… Sei que vocês não se ligam só na Hello Kitty.

Um abraço dos Doidos para Rebecca Mendes, da Assessoria de Imprensa da marca. Muito gentil em ceder a imagem para o blog.

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. Amigos da Camiseteria, alguma possibilidade de separar um tamanho GGG para mim? Sabem como é… Preciso de espaço extra para a musculatura talhada em anos de polo aquático e academia.

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Pensamento jarmuschiano do dia

Uma das regras de ouro do diretor americano Jim Jarmusch, postada originalmente no Criterion Corner, blog sobre The Criterion Collection, a Lume Filmes dos EUA.

Carlos Eduardo Bacellar

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Deferência (regada a melancolia) de Lars von Trier ao expressionismo alemão (meu post de número 200!!!)

Para Camilla, que detestou este filme. Apesar disso, depois de ser obrigada a assistir a centenas de filmes comigo, recentemente ela relacionou a montagem de “Assalto ao Banco Central” (Marcos Paulo) à de “O plano perfeito” (Spike Lee), e me emocionou. Daqui a pouco ela estará escrevendo para o blog.

 melancolia (me.lan.co.li.a) sf. Tristeza sem causa definida, por vezes acompanhada de saudade.

A depressão como sintoma da predição. Não pense no vaticínio cartesiano, alicerçado em cálculos e probabilidades, na frieza dos números (ciência); mas, sim, na sensitividade de enxergar além, de (pres)sentir em seu âmago o que talvez ninguém mais seja capaz de intuir (experiência emocional exacerbada).

Caudatário das referências estéticas do expressionismo alemão, “Melancolia” (orçado em US$ 7,4 milhões), afogamento do diretor dinamarquês na subjetividade desencantada e esgarçadora amplificada pela iminência do apocalipse , hipnotiza o público (bem à moda do dr. Caligari) com uma sequência inicial de cenas oníricas, ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, que remete às composições fotográficas do americano Gregory Crewdson. O fotógrafo ianque que inspirou os enquadramentos de abertura estilizados, sob responsabilidade de Manuel Alberto Claro, diretor de fotografia do longa , bem como o cinema americano (como percebemos nas produções de horror e nos filmes de gângsteres dos anos 1930-1940, assim como no cinema noir dos anos 1940-1950), foi influenciado por essa expressão artística que envolveu, além de cinema, pintura, literatura, poesia, teatro, música, dança.

Crewdson prestou atenção no trabalho de um grupo de poetas que, em 1911, fundou o chamado Neopathetisches Cabaret. A trupe dos versos defendia que as imagens literárias deveriam corresponder a atmosferas emocionais, e não a descrições “realistas” do mundo. Tais imagens, muitas vezes carregadas de visões catastróficas, foram apontadas posteriormente como premonições da guerra que estava por vir. Tal interpretação foi extraída das palavras da jornalista Laura Loguercio Cánepa.

Ela nos dá uma aula de Expressionismo no livro História do cinema mundial (Papirus Editora, 6a edição, 2010: organização de Fernando Mascarello), e lança as bases para um entendimento mais acurado da obra de Lars von Trier (e do próprio diretor). “O uso do adjetivo ‘expressionismo’ para um grupo de filmes realizados na Alemanha nos anos 1920 deriva de uma vertente da arte moderna que foi muito popular no país após a primeira Guerra: o Expressionismo.”

Laura recorre ao historiador Roger Cardinal para compreender melhor o signo expressionista, que ressalta as experiências emocionais do artista sob formas excepcionalmente vigorosas. Segundo Cardinal, ainda nas palavras da jornalista, o impulso criativo da arte expressionista origina-se de um compromisso com o primado da verdade individual, pois encara a subjetividade como comprovação daquilo que é real. Esse compromisso, aponta Cardinal, é o dogma central de uma corrente de pensamento filosófico originária do chamado pré-romantismo alemão do final do século XVIII conhecida como Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Artistas filiados a esse pensamento, influenciados por Shakespeare e Rosseau, defendiam a superioridade do “gênio original” do artista contra o intelecto (emoção x razão). Como observa Anatol Rosenfeld, escreve Laura, eles viam a incompatibilidade entre o tal “gênio” e a sociedade como um dos motivos fundamentais do que chamavam “dor do mundo”.

Justine (Kirsten Dunst), no filme de von Trier (que também assina o roteiro), foi amaldiçoada com a sensibilidade extrema. Junto com ela, o envenenamento pela “dor do mundo”. No primeiro ato do filme, ‘Justine’, acompanhamos a festa de casamento da personagem de Kirsten, agora esposa de Michael (Alexander Skarsgård, o vampiro Eric Northman do seriado True Blood), realizada numa mansão de campo isolada. O que começa como celebração degenera para situações constrangedoras, dinamitadas pelos conflitos entre os personagens. O verniz das aparências é maculado pela lavação de roupa suja entre Claire (Charlotte Gainsbourg), irmã da noiva, seu marido e patrocinador do evento, o abastado John (Kiefer Sutherland), além de Dexter (John Hurt) e Gaby (Charlotte Rampling), os pais das garotas enxaqueca, e a própria Justine, catalisadora das dissonâncias provocadas por suas atitudes inortodoxas.

O que num primeiro momento parecia ser uma versão de Foi apenas um sonho, de Richard Yates, escala para uma degeneração completa da etiqueta social quando Justine resolve realizar sua despedida de solteira na própria festa de casamento e, não bastasse isso, demonstrar toda sua repulsa por seu chefe, escamoteada (até aquele momento) por camadas de falsidade (que permitem relações civilizadas). Examinando cuidadosamente com suas câmeras aquele microuniverso se esfacelando, o diretor transparece a insatisfação destrutiva de Justine, sem desvelar escancaradamente os motivos. Novamente um tributo à estética expressionista que, além de sombria e enigmática, segundo Laura Cánepa, “usava em seus filmes a montagem tableau, em que cada plano se completava em si mesmo […]. Como descreve Elsaesser (ibid.), o progresso narrativo desses filmes era feito por descontinuidades, dando ao espectador, muitas vezes, o papel da construção elíptica.”

Logo von Trier descortina, de forma oblíqua, na construção dos diálogos, a razão de todos os medos: o possível choque do planeta Melancolia com a Terra.

O segundo ato, “Claire”, obedece a uma divisão da alma entre submissão e rebelião, em resposta ao medo da tirania e do caos, como destaca Laura ao interpretar a abordagem de Siegfried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão livro que, assim como A tela demoníaca: influências de Max Reinhardt e do Expressionismo, de Lotte Eisner, é uma obra icônica acerca do tema. Optando agora pela panorâmica em lugar do close, von Trier transcende do micro para o macro, mostrando como o ser humano, delimitado pela sua pequenez, é insignificante. Mas a insignificância tem o seu papel (e os seus desdobramentos) no sentido estrito, bem como o fim do mundo retratado pelo realizador é insignificante no contexto amplo da história cósmica.

Temendo o fim, a depressão de Justine sufocada pela tirania do pensamento racional, que escolhe a mentira como forma de mascarar a dor se transforma em resignação (e compreensão da finitude), e as dúvidas de Claire se diluem no caos do desespero.

Não existe salvação no cinema do dinamarquês. E mesmo quando ela é tolerada, o preço cobrado é alto. Quem viu “Dançando no escuro” (2000) já entendeu isso. Uma afirmação emblemática do pessimismo do diretor talvez uma metáfora de como ele enxerga a putrefação das relações do homem não só com o outro, mas com tudo que o cerca, e a inexorabilidade de suas conclusões acerca disso é a bandeira sinalizando o buraco de número 19 no campo de golfe do milionário John, situado no mesmo terreno da mansão da discórdia. O campo só tem 18 buracos, ou seja, o 19 é inalcançável. Chegar lá é uma utopia, uma impossibilidade lógica. Mas Justine, nosso “gênio”, passa por ele e vai além. Não com a razão, mas com os delírios premonitórios aditivados pela emoção.

Claro, claro… Você quer que eu comente algo acerca da polêmica envolvendo o diretor em sua última passagem por Cannes… Aquela lambança verbal de von Trier, estigmatizado por supostamente fazer apologia do nazismo. Imbróglio que um curso por correspondência de media training e alguns remédios de tarja preta evitariam. Pois, bem… Como não possuo as habilidades sensitivas de Justine, o expressionismo alemão e as palavras iluminadas de Laura Loguercio Cánepa (já é musa intelectual!) me ajudam a ir além do buraco 18.

A jornalista, ao destrinchar a temática recorrente (tipologia de personagens e situações correntes) dos filmes ditos expressionistas, alerta que não apenas os psicopatas e os duplos demoníacos povoavam a imaginação dessas produções.

[…] o cinema alemão da época também se encarregou de dar ao mundo uma memorável galeria de monstros figuras fisicamente deformadas e igualmente ameaçadoras. As clássicas histórias de monstros guardam semelhanças com as dos filmes alemães, pois a alteração física e psicológica dos indivíduos no contexto da narrativa pode ser vista como consequência de um procedimento de deformação expressiva. É possível dizer, também, que os monstros satisfazem desejos reprimidos de onipotência e de liberdade instintiva, frequentemente colocados em pauta pela arte expressionista. […]”

Lars von Trier leu os estudos críticos sobre o expressionismo alemão da mesma forma que a Al-Qaeda e outros grupos extremistas islâmicos interpretaram o Alcorão. Uma definição mais prosaica das atitudes do dinamarquês seria: ele é dodói da cabeça!

E Laura complementa o raciocínio: “[…] nas histórias de monstros, há uma espacialização da noção de que o que horroriza é o que fica fora das categorias sociais conhecidas e aceitas o monstro vive geralmente em lugares marginais, o que também se encaixa nos procedimentos formais do cinema expressionista. […]” (o grifo é meu)

Dessa parte os responsáveis pelo Festival de Cannes já cuidaram.

Cheguei perto do green do buraco 19?

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O texto do crítico Carlos Alberto Mattos sobre “Melancolia” merece leitura atenta. Destaco a parte em que ele aponta algumas referências estéticas do mundo das artes (aula de história da arte) e do cinema de que Lars von Trier se valeu para conceber essa produção (além de uma menção honrosa à publicidade). Além disso, o xará postou link para um vídeo que mostra um pouco do trabalho realizado pela equipe de efeitos especiais do filme. Espero que ele não se importe se eu replicá-lo aqui. O crédito é dele.

p.s. 2 Sim, Kirsten Dunst (graças a Deus!) aparece nua no filme. Mesmo se você não gostar, já vai valer o ingresso.

p.s. 3 Acredito que o filme vai parecer extremamente chato para o grande público. A dinâmica da encenação me fez lembrar “O castelo” (1997), do diretor alemão Michael Haneke. É esperar para ver.

p.s. 4 Caso algum planeta estivesse realmente em rota de colisão com a Terra, a quem você recorreria? Eu sei! Clique aqui e saiba a quem eu pediria socorro.

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