Deferência (regada a melancolia) de Lars von Trier ao expressionismo alemão (meu post de número 200!!!)

Para Camilla, que detestou este filme. Apesar disso, depois de ser obrigada a assistir a centenas de filmes comigo, recentemente ela relacionou a montagem de “Assalto ao Banco Central” (Marcos Paulo) à de “O plano perfeito” (Spike Lee), e me emocionou. Daqui a pouco ela estará escrevendo para o blog.

 melancolia (me.lan.co.li.a) sf. Tristeza sem causa definida, por vezes acompanhada de saudade.

A depressão como sintoma da predição. Não pense no vaticínio cartesiano, alicerçado em cálculos e probabilidades, na frieza dos números (ciência); mas, sim, na sensitividade de enxergar além, de (pres)sentir em seu âmago o que talvez ninguém mais seja capaz de intuir (experiência emocional exacerbada).

Caudatário das referências estéticas do expressionismo alemão, “Melancolia” (orçado em US$ 7,4 milhões), afogamento do diretor dinamarquês na subjetividade desencantada e esgarçadora amplificada pela iminência do apocalipse , hipnotiza o público (bem à moda do dr. Caligari) com uma sequência inicial de cenas oníricas, ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, que remete às composições fotográficas do americano Gregory Crewdson. O fotógrafo ianque que inspirou os enquadramentos de abertura estilizados, sob responsabilidade de Manuel Alberto Claro, diretor de fotografia do longa , bem como o cinema americano (como percebemos nas produções de horror e nos filmes de gângsteres dos anos 1930-1940, assim como no cinema noir dos anos 1940-1950), foi influenciado por essa expressão artística que envolveu, além de cinema, pintura, literatura, poesia, teatro, música, dança.

Crewdson prestou atenção no trabalho de um grupo de poetas que, em 1911, fundou o chamado Neopathetisches Cabaret. A trupe dos versos defendia que as imagens literárias deveriam corresponder a atmosferas emocionais, e não a descrições “realistas” do mundo. Tais imagens, muitas vezes carregadas de visões catastróficas, foram apontadas posteriormente como premonições da guerra que estava por vir. Tal interpretação foi extraída das palavras da jornalista Laura Loguercio Cánepa.

Ela nos dá uma aula de Expressionismo no livro História do cinema mundial (Papirus Editora, 6a edição, 2010: organização de Fernando Mascarello), e lança as bases para um entendimento mais acurado da obra de Lars von Trier (e do próprio diretor). “O uso do adjetivo ‘expressionismo’ para um grupo de filmes realizados na Alemanha nos anos 1920 deriva de uma vertente da arte moderna que foi muito popular no país após a primeira Guerra: o Expressionismo.”

Laura recorre ao historiador Roger Cardinal para compreender melhor o signo expressionista, que ressalta as experiências emocionais do artista sob formas excepcionalmente vigorosas. Segundo Cardinal, ainda nas palavras da jornalista, o impulso criativo da arte expressionista origina-se de um compromisso com o primado da verdade individual, pois encara a subjetividade como comprovação daquilo que é real. Esse compromisso, aponta Cardinal, é o dogma central de uma corrente de pensamento filosófico originária do chamado pré-romantismo alemão do final do século XVIII conhecida como Sturm und Drang (tempestade e ímpeto). Artistas filiados a esse pensamento, influenciados por Shakespeare e Rosseau, defendiam a superioridade do “gênio original” do artista contra o intelecto (emoção x razão). Como observa Anatol Rosenfeld, escreve Laura, eles viam a incompatibilidade entre o tal “gênio” e a sociedade como um dos motivos fundamentais do que chamavam “dor do mundo”.

Justine (Kirsten Dunst), no filme de von Trier (que também assina o roteiro), foi amaldiçoada com a sensibilidade extrema. Junto com ela, o envenenamento pela “dor do mundo”. No primeiro ato do filme, ‘Justine’, acompanhamos a festa de casamento da personagem de Kirsten, agora esposa de Michael (Alexander Skarsgård, o vampiro Eric Northman do seriado True Blood), realizada numa mansão de campo isolada. O que começa como celebração degenera para situações constrangedoras, dinamitadas pelos conflitos entre os personagens. O verniz das aparências é maculado pela lavação de roupa suja entre Claire (Charlotte Gainsbourg), irmã da noiva, seu marido e patrocinador do evento, o abastado John (Kiefer Sutherland), além de Dexter (John Hurt) e Gaby (Charlotte Rampling), os pais das garotas enxaqueca, e a própria Justine, catalisadora das dissonâncias provocadas por suas atitudes inortodoxas.

O que num primeiro momento parecia ser uma versão de Foi apenas um sonho, de Richard Yates, escala para uma degeneração completa da etiqueta social quando Justine resolve realizar sua despedida de solteira na própria festa de casamento e, não bastasse isso, demonstrar toda sua repulsa por seu chefe, escamoteada (até aquele momento) por camadas de falsidade (que permitem relações civilizadas). Examinando cuidadosamente com suas câmeras aquele microuniverso se esfacelando, o diretor transparece a insatisfação destrutiva de Justine, sem desvelar escancaradamente os motivos. Novamente um tributo à estética expressionista que, além de sombria e enigmática, segundo Laura Cánepa, “usava em seus filmes a montagem tableau, em que cada plano se completava em si mesmo […]. Como descreve Elsaesser (ibid.), o progresso narrativo desses filmes era feito por descontinuidades, dando ao espectador, muitas vezes, o papel da construção elíptica.”

Logo von Trier descortina, de forma oblíqua, na construção dos diálogos, a razão de todos os medos: o possível choque do planeta Melancolia com a Terra.

O segundo ato, “Claire”, obedece a uma divisão da alma entre submissão e rebelião, em resposta ao medo da tirania e do caos, como destaca Laura ao interpretar a abordagem de Siegfried Kracauer no livro De Caligari a Hitler: uma história psicológica do cinema alemão livro que, assim como A tela demoníaca: influências de Max Reinhardt e do Expressionismo, de Lotte Eisner, é uma obra icônica acerca do tema. Optando agora pela panorâmica em lugar do close, von Trier transcende do micro para o macro, mostrando como o ser humano, delimitado pela sua pequenez, é insignificante. Mas a insignificância tem o seu papel (e os seus desdobramentos) no sentido estrito, bem como o fim do mundo retratado pelo realizador é insignificante no contexto amplo da história cósmica.

Temendo o fim, a depressão de Justine sufocada pela tirania do pensamento racional, que escolhe a mentira como forma de mascarar a dor se transforma em resignação (e compreensão da finitude), e as dúvidas de Claire se diluem no caos do desespero.

Não existe salvação no cinema do dinamarquês. E mesmo quando ela é tolerada, o preço cobrado é alto. Quem viu “Dançando no escuro” (2000) já entendeu isso. Uma afirmação emblemática do pessimismo do diretor talvez uma metáfora de como ele enxerga a putrefação das relações do homem não só com o outro, mas com tudo que o cerca, e a inexorabilidade de suas conclusões acerca disso é a bandeira sinalizando o buraco de número 19 no campo de golfe do milionário John, situado no mesmo terreno da mansão da discórdia. O campo só tem 18 buracos, ou seja, o 19 é inalcançável. Chegar lá é uma utopia, uma impossibilidade lógica. Mas Justine, nosso “gênio”, passa por ele e vai além. Não com a razão, mas com os delírios premonitórios aditivados pela emoção.

Claro, claro… Você quer que eu comente algo acerca da polêmica envolvendo o diretor em sua última passagem por Cannes… Aquela lambança verbal de von Trier, estigmatizado por supostamente fazer apologia do nazismo. Imbróglio que um curso por correspondência de media training e alguns remédios de tarja preta evitariam. Pois, bem… Como não possuo as habilidades sensitivas de Justine, o expressionismo alemão e as palavras iluminadas de Laura Loguercio Cánepa (já é musa intelectual!) me ajudam a ir além do buraco 18.

A jornalista, ao destrinchar a temática recorrente (tipologia de personagens e situações correntes) dos filmes ditos expressionistas, alerta que não apenas os psicopatas e os duplos demoníacos povoavam a imaginação dessas produções.

[…] o cinema alemão da época também se encarregou de dar ao mundo uma memorável galeria de monstros figuras fisicamente deformadas e igualmente ameaçadoras. As clássicas histórias de monstros guardam semelhanças com as dos filmes alemães, pois a alteração física e psicológica dos indivíduos no contexto da narrativa pode ser vista como consequência de um procedimento de deformação expressiva. É possível dizer, também, que os monstros satisfazem desejos reprimidos de onipotência e de liberdade instintiva, frequentemente colocados em pauta pela arte expressionista. […]”

Lars von Trier leu os estudos críticos sobre o expressionismo alemão da mesma forma que a Al-Qaeda e outros grupos extremistas islâmicos interpretaram o Alcorão. Uma definição mais prosaica das atitudes do dinamarquês seria: ele é dodói da cabeça!

E Laura complementa o raciocínio: “[…] nas histórias de monstros, há uma espacialização da noção de que o que horroriza é o que fica fora das categorias sociais conhecidas e aceitas o monstro vive geralmente em lugares marginais, o que também se encaixa nos procedimentos formais do cinema expressionista. […]” (o grifo é meu)

Dessa parte os responsáveis pelo Festival de Cannes já cuidaram.

Cheguei perto do green do buraco 19?

Carlos Eduardo Bacellar

p.s. O texto do crítico Carlos Alberto Mattos sobre “Melancolia” merece leitura atenta. Destaco a parte em que ele aponta algumas referências estéticas do mundo das artes (aula de história da arte) e do cinema de que Lars von Trier se valeu para conceber essa produção (além de uma menção honrosa à publicidade). Além disso, o xará postou link para um vídeo que mostra um pouco do trabalho realizado pela equipe de efeitos especiais do filme. Espero que ele não se importe se eu replicá-lo aqui. O crédito é dele.

p.s. 2 Sim, Kirsten Dunst (graças a Deus!) aparece nua no filme. Mesmo se você não gostar, já vai valer o ingresso.

p.s. 3 Acredito que o filme vai parecer extremamente chato para o grande público. A dinâmica da encenação me fez lembrar “O castelo” (1997), do diretor alemão Michael Haneke. É esperar para ver.

p.s. 4 Caso algum planeta estivesse realmente em rota de colisão com a Terra, a quem você recorreria? Eu sei! Clique aqui e saiba a quem eu pediria socorro.

Anúncios

12 Comentários

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Quase uma Brastemp

12 Respostas para “Deferência (regada a melancolia) de Lars von Trier ao expressionismo alemão (meu post de número 200!!!)

  1. Obrigado pela citação, xará, mas acho que sua aproximação de Von Trier com o expressionismo é bem discutível. Vamos discuti-la um dia desses a bordo de uma picanha no Caravela.

  2. Paulo Henrique Souto

    2oo assinaturas, parabéns Bacelar!Tô curioso pra ver o filme,pelas imagens saquei a presença da arte pictorica(rsrsrsrs) e referencia a arte em geral. O tema, super abordado, inclusive por Selton Mello, no filme cujo nome esqueci,a reunião desastrosa de uma familia no dia de Natal.Gosto do filme do Selton,se não viu, veja,a presença de Darlene Glória já vale. Depois falo mais do Melancolia. bj.

    • Paulo Henrique Souto! Quanto tempo! Fico muito feliz quando você passa por aqui para nos prestigiar. O filme do Selton ao qual se refere é “Feliz Natal” (2008).
      Realmente, a encenação inicial lembra bastante a reunião desastrosa da produção do Selto. Mas as semelhanças param por aí. Obrigado pelo carinho!
      Abração!
      CEB

  3. Paulo Henrique Souto

    Claro que não se compara, mas o filme do Selton mostra a cidade decaida,os banais valores de famila, e não tinha dinheiro para uma super produção como o Melancolia, com certeza.Talvez de tivesse o Feliz Natal iria mais fundo…

  4. Boa análise. Concordo que Von Trier possa ter uma visão de mundo ultrarromântica (ou expressionista). Mas a estética de “Melancolia” não emula mais essas formas de arte do que na construção de paisagens e atmosferas “de alma”, num sentido mais vago. Muito legal a interpretação do “buraco 19”. Botei um link pro seu blog lá no meu. Valeu.

    • Legal, André! Que bom que gostou do texto. Boa escolha de palavras. Interessante você falar de “construção de paisagens e atmosferas ‘de alma'” quando se refere a “Melancolia”.
      Essa sintaxe ficou ecoando por um tempo no meu (in)consciente. Bacana você contrapor esse raciocínio ao “mundo ultrarromântico (ou expressionista)” de von Trier. Apareça sempre para trocarmos sobre cinema. Será um prazer! Obrigado pela moral no seu blog. Passarei por lá para prestigiá-lo também. Estamos aí!
      Abraços!
      CEB

  5. valeria torres

    mto obrigada por esta maravilhosa aula! há 3 dias penso em lars e no filme.. é para poucos .. p/ quem aprendeu a suportar a dor, e segue,.. vou ler o livro da prof laura. bom saber q vc está por aí..

    • Obrigado pelo carinho, Valeria. Fiquei feliz sabendo que você gostou do texto. O livro é uma aula sobre a história do cinema, com textos de vários especialistas. Vale muito a pena. Tenho certeza de que apreciará. Apareça sempre.
      Abraços!
      CEB

  6. Pingback: Melhores filmes de 2011 | Doidos por Cinema

  7. khemersonmelo

    Gostei do filme. Na verdade, acho um dos melhores de Von Trier. Para saber mais sobre o filme, acesse: http://bauderesenhas.wordpress.com/2011/11/23/melancolia/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s