BIG BANG


Rendo-me,  estranha.  Resisto ao juízo final, Helena/ Carlinhos Mattos/ Janot.  Não sei se gostei, sabe? Nada sei.

Percebo sim – percebo? -, mais ou menos, espectadores que se vão em compasso Malick. Talvez esbarrem em mim…  e me previno ao lado do baleiro. Entrego-me à espera da visão de meus filhos na porta do Leblon.

A visão de meus filhos, é o que basta.  E digo: Não sei se vi um filme ou uma prece, se foi poesia ou maravilha. Não é roteiro, é um argumento; não é história, é um tema; não é narrativa, é fenômeno. Aquilo não é a província,  é uma passagem.  Um fenômeno sem data, sem hora e sem cortes. Os narradores não estão e a câmera valsa, infinita. A representação não é:  Não há personagens, pois eles  são criaturas (divinas). “A Árvore da Vida” me lança nos códigos além dos sentidos.

Outra dimensão, a da experiência artística. Remeto-me aos estudos de teoria da história e recordo-me de um pensamento meu ao conhecer a fenomenologia de Husserl:  Isto é cinema, isso aí. E agora não sei como foi possível ali traduzir filosofia, teologia, natureza e graça;  como foi atravessar o olhar pelos cantos e  pelas bordas, jogar–nos ao fundo da tela e chegar à criação. Rendo-me sim – agora sem restrição – à ousadia desse artista em plena indústria cultural, que desconhece receitas e parâmetros, e também todos os gostos. Entendo o senhor que, atrás de mim, ao findar o filme, desabafou revoltado: esse crítico é louco… É.

A familia de Malick é a minha, a sua, a nossa.  É – de fato ? – o ser família. A propósito: as fronteiras entre casas e jardins não existem, a despeito da tentativa do pai Pitt. Tampouco há fronteira entre o dentro e o fora – de casa e dos seres -, é quase o mesmo plano, sem cortes. Poder e Perda, Abismo e Luz, Ódio e Amor, as energias fundadoras ali estão em família, como arquétipo da criação do mundo. Totems e tabus, as grandes contradições como matéria de refundação:  a repressão pode ser amor, generosidade pode ser complacência, Ciência é Fé.  Forças contrárias caminham embaladas ao mistério.  Ao começo de tudo.  Malick nos convoca à essência, enfim descrédulo da “realidade”. Inicia-nos na regressão e na  transcendência, ensina-me a recomeçar.  Rendo-me, enfim, à visão de meus fillhos. BIG BANG. Chama.

Claudia Furiati

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6 Comentários

Arquivado em Estranhos no ninho

6 Respostas para “BIG BANG

  1. Helena

    É da minha mãe, Raquel. 🙂 Fiquei feliz que ela colocou pra fora, em belas linhas, aquilo que a angustiava por dentro… E a gente, de quebra, foi presenteado.

    • Que texto da Claudia… As palavras dela impugnaram minha aversão inicial ao filme. Incompreensão de algo que não pode (nem deve) ser assimilado inteiramente, mas sentido completamente. A provocação de Malick nos instiga a refletir, sem dúvida. Talvez essa ausência de fronteiras (des)caracterize arte, inflamando nosso espírito crítico com perguntas para as quais não há assertivas corretas. Fico com meus pensamentos, tempestuosos… Assim vou acabar perdendo meu emprego por aqui 🙂
      CEB

  2. Que delícia “ouvir” mais essa “doida”, tão sincera, intensa e complexa nas suas palavras. Entendo perfeitamente como o filme nela as provocou, embora em mim não tenha provocado. Claudinha, que tal costurar umas linhas sobre “Melancolia”?

  3. Paulo Henrique Souto

    Gde Claudia,vai fundo,escreva mais,suas criticas são ótimas.bjs

  4. Pingback: Oscar 2012: apostas de um nefelibata | Doidos por Cinema

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