Bússola moral de Serpico contra o sistema hobbesiano

Pedro Andrade, integrante do time Manhattan Connection e, segundo o jornalista Lucas Mendes, o melhor guia turístico de Nova Iorque, deu a dica no último programa e eu resolvi conferir.

“A informante” (2010), produção teuto-canadense que marca a estreia de Larysa Kondracki na condução de longas, com Rachel Weisz abrindo os créditos, acaba de ser lançada em DVD no país.

Baseada no livro “The Whistleblower: Sex Trafficking, Military Contractors, and One Woman’s Fight for Justice”, escrito (e vivido) por Kathryn Bolkovac, mas que também leva a assinatura de Cari Lynn, a história transitando entre o documentário e a ficção trata do desvelamento do tráfico de pessoas na Bósnia pós-guerra (o conflito armado ocorreu entre 1992 e 1995). Crime fomentado pelas próprias forças internacionais que deveriam garantir a segurança.

Bolkovac, interpretada por uma inspirada Rachel Weisz, mãe divorciada e policial em Nebrasca (USA), lutando para conseguir conciliar sua profissão com os imperativos (materiais e afetivos) da criação da filha, recebe proposta irrecusável para trabalhar nas forças de paz que tentam estabilizar os ânimos da região nos Balcãs fragmentada por conflitos. Lá a policial se depara com uma rede de tráfico de pessoas que enriquece e se retroalimenta prostituindo mulheres. Sequestro, cárcere privado, estupro, violência, intimidação psicológica, privações. Bolkovac é testemunha de uma lista extensa de absurdos contra o ser humano.

Sufocada pela indignação, que comprime seu diafragma entre o caminho ético suicida e o silêncio corrosivo, Bolkovac busca a ajuda de Madeleine Rees (Vanessa Redgrave), uma das autoridades da Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, Laura Leviani (Monica Bellucci), responsável por um programa de repatriação, e Peter Ward (David Strathairn), espécie de agente da corregedoria do governo. Rees funciona mais como uma mentora que observa a ação a distância, intervindo, quando necessário (e conveniente), no campo político-diplomático. Laura acorrenta suas mãos nos protocolos da burocracia e não consegue agir com a urgência necessária para evitar o pior. Ward é o Curinga do baralho, podendo assumir, dependendo das circunstâncias, qualquer valor.

Amparada em frágeis alianças, Kathryn se aproxima de Serpico e Capitão Nascimento na batalha inglória contra o sistema hobbesiano (“O homem lobo do homem”). Durante seu trabalho investigativo, ela descobre as ambiguidades da palavra inimigo. Em dúvida sobre como reagir ao mal em cujas fileiras ela perfila, opta por sacrificar sua carreira profissional para sempre estigmatizada com o “A”, de alcaguete expondo a situação ao mundo: o correto autodestrutivo prevalece sobre o apropriado covarde e cômodo. Em “The whistleblower” (no original), Rachel Weisz transparece toda angústia de uma mulher dividida entre o corporativismo impregnado de desumanidade, que enriquece por meio das chagas alheias, e o dever moral, que desconhece distintivos e fronteiras. O filme pode não ter mudado o mundo, mas pode mudar você. Já é um começo promissor. Excelente!

Carlos Eduardo Bacellar

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Carlos Eduardo Bacellar, Filmaço!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s